A ponte
1 Capítulo único
O dia na escola havia sido longo e cansativo, na volta para casa a chuva caía com força suficiente para balançar as árvores e formar pequenos córregos ao lado das calçadas. As pessoas corriam para se esconder, me olhando de forma curiosa e desconfiada. Eu parecia ser o único a andar tranquilamente pelas ruas, parei em frente ao portão e lembrei que estava sem as chaves. Bati palmas e esperei. Um cachorro encorpado de pelagem mesclada se aproximou de mim e sentou ao meu lado. Ficamos nos encarando por alguns minutos, parados, na chuva. Respirei fundo e sentei-me no chão. Silenciosamente o cão recostou a cabeça no meu braço esquerdo, me arrastei para o lado e o animal ergueu os olhos, virou-se e correu até uma casa aparentemente abandonada no outro lado da rua, parou na porta, olhou para mim novamente e entrou. A água escorria do meu corpo e comecei a ficar incomodado. Esperar nunca foi meu forte.
Bati palmas novamente, ainda de costas. Nenhuma resposta. Joguei a mochila para dentro por cima do portão e levantei. Tentei subir nas grades e os pedaços antigos de ferro rangeram e soltaram ferrugem nas minhas mãos. Desci, limpei as mãos nas calças encharcadas e fui até o outro lado da casa, onde o muro era antigo e não muito alto, um homem gordo e calvo fumava na varanda enquanto me observava pular sem a menor dificuldade. Em passos largos fui até a janela do quarto dos meus pais, que se encontrava aberta.
– Mãe, pai. Estou aqui!
Fiquei sem resposta novamente. Pulei para dentro, caindo em cima da cama.
– Pai?!
Chequei cada um dos cômodos da casa, estava sozinho. Fui até a sala e abri a porta da frente, que não estava trancada. Um sentimento estranho de desconforto me ocorreu, meus pais sempre estavam naquele horário e jamais deixariam a porta destrancada. Não que fossemos pessoas de posses caras, pelo contrário, morávamos em uma casa simples no meio de um bairro da periferia, nem carro tínhamos. Era apenas um hábito antigo. Quando saí para buscar a mochila a sensação se intensificou, olhei para os lados e para trás. Nada além de mim e da chuva. Peguei o que havia ido buscar e entrei novamente, trancando a porta logo em seguida. Joguei a bolsa sobre a minha cama, tirei a camiseta e entrei no chuveiro, com a porta do banheiro aberta apenas para garantir.
A água estava quente e fez meu corpo relaxar aos poucos, resolvi ficar uns minutos a mais após me lavar. Algo de vidro estourou na cozinha, fechei o registro do chuveiro, peguei a toalha e apaguei a luz do banheiro. Mantendo o máximo de leveza nos pés me dirigi até o meu quarto e peguei o ferro que ficava atrás da janela. Em passos ainda mais calados fui até o final do corredor e espiei para dentro da cozinha. Os cacos cobriam o chão e parte da bancada. Sobre ela havia um tijolo com um envelope de papel escuro amarrado. Escondi o ferro atrás da perna e entrei me esgueirando entre os pedaços de vidro no chão, que descobri que vinham da janela. Não havia ninguém do lado de fora também, segurei o envelope com a mão esquerda e rasguei com os dentes, a pulseira da minha mãe caiu no chão. O som fez eco dentro de mim. Fiquei arrepiado e algo próximo do pânico me invadiu. Larguei o ferro no chão e retirei um bilhete de dentro do envelope.
“Nos encontre na ponte perto do seu colégio às 20:00. Vá sozinho, nada de polícia ou parentes, estamos com seus pais, e te vigiando”
Conseguia sentir meu coração bater nos lábios, com força e velocidade. A ponte ficava a mais ou menos meia hora dali, se eu fosse a pé. Era um local pouco movimentado e quase nada iluminado durante a noite, que levava diretamente a um canto do bairro onde somente iam drogados e traficantes. Não que eu sentisse medo deles, estava habituado a conviver com aquelas pessoas. Meus pais jamais se envolveriam com coisas desse tipo, sempre acreditei nisso. Deixei os receios de lado, juntei a pulseira do chão e fui me vestir. Coloquei um casaco e tênis confortáveis para o caso de precisar correr. Olhei no relógio, que marcava 19:27. Abri a porta e o vento noturno gelado invadiu meus pulmões, tranquei-a novamente, abri o portão que soltou um grito enferrujado que ecoou pela rua estranhamente vazia naquele dia. Coloquei as chaves dentro de um vaso de plantas atrás do muro.
O cão mesclado parecia enfeitar a rua, sentado bem no meio, olhando diretamente para mim. Passei por ele e continuei meu caminho. O frio invadia minhas roupas e me fazia tremer. Conseguia ouvir meus próprios passos enquanto andava pelas quadras escuras. Ao chegar na ponte, não havia ninguém além de mim. Apoiei-me em uma das pontas, puxei a gola para proteger a boca do vento e coloquei as mãos nos bolsos. Meu corpo parou de tremer de frio, e começou a reagir ao medo. O animal, que havia me acompanhado até ali, acomodou-se do outro lado, respirando alto e rápido, o que me deixava muito mais irritado. Tirei a pulseira do bolso e comecei a brincar com ela. Não era possível que eu tivesse demorado tanto para chegar. Algo me dizia que meus pais estavam bem, mas aquilo parecia muito estranho de se confiar. O cão colocou as orelhas para trás, olhou para um ponto atrás de mim e começou a abanar o rabo freneticamente. Quando fui me virar para olhar, algo tapou a minha cabeça e me segurou pelos braços.
– Hey, me solte!
Segurou com mais força, dessa vez tirando meus pés do chão.
– Pare com isso, me solte.
Tentei me debater o máximo que pude, mas não conseguia combater, era mais do que um só. Uma voz grossa e meio rouca se ergueu.
– Pare com isso, vai se machucar. Apenas fique quieto e tudo ficará bem.
Acatar parecia o mais seguro a se fazer. Fui colocado dentro de um carro de bancos velhos, eu conseguia sentir. Apesar de um perfume feminino conhecido pairar no ar, me mantive em silêncio. Não haviam vozes ou violência, apenas silêncio. O carro estacionou, a porta se abriu e uma mão pegou na minha, com uma estranha gentileza.
– Vamos, me acompanhe.
Acompanhei, escutando cochichos e movimentos por todos os lados. Comecei a suar, não saber o que estava acontecendo me deixava nervoso. Alguém me sentou em uma cadeira dura, de madeira, e atou as minhas mãos com algo que parecia ser um tecido. Seja lá o que for que me tampava a cabeça foi retirado, o lugar era um breu completo, eu não conseguia enxergar nada. Apenas ouvir. Uma luz forte se acendeu no fundo e me deixou cego e zonzo por uns segundos, quando recuperei o foco, meu pai estava apoiado em uma mesa pequena do outro lado do cômodo e tinha um sorriso satisfeito e orgulhoso no rosto.
– Você é louco ou o que? O que pensa que está fazendo? O que significa tudo isso?
Ele gargalhou alto e duas moças muito bonitas entraram no que parecia ser um quarto. Elas estavam seminuas e maliciosamente sorridentes.
– Feliz aniversário, filho.
Ele disse, fechando a porta logo atrás. Eu ri alto também, não esperava por uma dessas.
– Você não presta, velho cretino!
Gritei sabendo que não seria ouvido. Tirei o tecido das mãos e me levantei, afinal de contas, a noite também seria longa.
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