A pedra no meu sapato
30 Saudade
Notas iniciais
Me encolhi e continuei afundada em seus braços. Eu estava confortada, mesmo que o vazio que se abrira em meu peito parecia não ter fim. Na verdade, eu realmente acho que não teria. Eu só não queria soltá-lo nunca mais.
Ele era o meu único amigo agora. Quero dizer, eu tenho a Julie, mas ele é a única pessoa que entende a minha dor. O único que eu tenho certeza que se eu ligar pela noite pedindo pra me escutar, irá fazê-lo.
Então, eu lembrei. Lembrei de coisas que minha mente jamais me recordaria se eu não sentisse tanta dor.
“A noite acabara de cair. Estamos deitados no gramado da casa da Julie, onde estou hospedada desde que a verdade sobre meu pai se revelara.
— Você já parou pra pensar em como as estrelas são bonitas? — O loiro apontou para cima.
Eu sorri para mim mesma. Como era bom ficar perto dele.
— Sim, Peter. — Suspirei. — Mas não achei que você prestasse atenção nessas coisas.
— Eu presto atenção só nas coisas lindas. — Senti o olhar dele em mim. — Por isso prestei atenção em você.
E de repente me encontrei ali: Peter Johnson, provavelmente a criatura mais linda que existe no mundo me encarava apaixonadamente. Seus braços estavam cruzados por detrás de sua cabeça enquanto ele estava deitado na grama durante a noite. Eu, ao seu lado.
E por mais idiota que isso pareça, tudo o que eu queria era só encará-lo.”
“— Me desculpa por ser tão idiota às vezes. — Ele pediu.
— Por quê você está se desculpando? — Perguntei, surpresa.
— Eu acho que você merecia alguém decente. Mas não posso imaginar minha vida sem você.
Fechei meus olhos por um segundo. O encarei novamente. Ele sorria.”
Senti as lágrimas rolando. Eu estava lembrando de tantas coisas com as quais não queria jamais recordar. Se eu pudesse esquecê-lo... Eu chorava de dor, de ódio, de amor... Ao ver o casal ao meu lado... A loira de olhos verdes abraçada ao moreno de olhos também verdes permanecia sem expressão. Ambos. Lily e Colin não deveriam estar aqui.
Eu não podia sequer abrir os olhos. Meu peito parecia se abrir cada vez mais. Eu jamais conseguiria explicar os meus sentimentos nesse momento.
As lágrimas não cessavam. Droga. Eu queria morrer. Eu queria morrer também.
— Sarah... — Henry sussurrou em meu ouvido. — É... Agora.
Abri os olhos e sem deixar de soluçar desesperadamente, me afastei dos braços do loiro. Tentei ficar de pé ao lado dele, que segurou forte a minha mão. O encarei e ele assentiu com a cabeça. Então eu olhei para aquilo.
Dois homens soltavam lentamente aquela corda que segurava a enorme caixa. Assim devo chamá-la? A caixa que levou toda a minha felicidade?
Suspirei também lentamente e por um segundo impedi as lágrimas de saírem. Eu sentia uma pontada no meu coração. Mas ela não me impedia de nada. Só me dava mais vontade de chorar. Mordi meus lábios e logo desabei novamente. Henry segurou minha mão mais forte.
Então ela chegou ao fundo. E eu senti uma pontada. Aquele instrumento de madeira com a ponta de metal jogou terra lá em baixo. E mais um pouco. Em menos de cinco minutos o buraco já era fechado, mas, para mim, pareciam horas.
Horas que não passavam nunca. A eternidade.
Mas quando finalmente acabou, eu encarei o Johnson. Ele não soltara uma lágrima desde que chegou. Eu o encarei incrédula. Ele se aproximou de mim, pois todos já caminhavam para ir embora.
— Sinto muito, Sarah. — O homem falou, sério.
— Sinto muito, Frank. — Desejei o mesmo.
— Não fique triste. — Ele pediu.
— Você quer que eu fique como? — Me segurei para não aumentar o tom de voz.
— Apenas, confie em mim. — Ele sorriu.
— Ele era seu filho! — Gritei.
O homem me deu as costas e seguiu andando. Olhei em volta e restavam apenas duas pessoas ao meu redor. As que estiveram aqui até agora. Sempre.
Eu senti uma gota pingar em minha cabeça. Olhei para cima e vi elas caindo. As gotas geladas caindo.
Eu achava que não poderia ficar pior. E ficou. O dia já estava fechado desde que chegamos aqui nesse maldito lugar. Eu dei alguns passos e comecei a sentir meus cabelos caindo escorridos para baixo. A chuva estava forte.
— Quero ficar sozinha. — Pedi.
Suspirei e não ouvi uma resposta. Esperei cinco minutos e quando olhei para trás não vi ninguém.
Meus joelhos se dobraram e eu caí no chão. Encarei sem vontade aquele pedaço de mármore que tinha os escritos “Aqui jaz Peter Johnson”.
Eu lembrei dos seus olhos. Dos seus lábios. Dos seus cabelos. Do seu corpo. De todo o amor que ele parecia sentir por mim. E em como eu fui burra.
Se eu não tivesse sido tão imbecil a ponto de não me ligar do que ele estava passando. Eu não conseguia fazer as lágrimas pararem enquanto não conseguia parar de pensar em tudo o que eu causei nele.
A culpa disso tudo é minha. Se eu não tivesse me envolvido com ele... Ele estaria feliz. Eu poderia ver aqueles olhos ainda todos os dias... Eu poderia admirá-lo... Talvez se eu não tivesse nem o conhecido, perderia de saber dessa beleza toda em um homem, mas seria melhor porque ele estaria feliz... Ele estaria vivo.
Eu não conseguia parar de chorar. Enquanto todas aquelas gotas de chuva e lágrimas desciam pelo meu rosto misturando-se, eu não sentia vontade alguma de me mexer. Eu só queria fazer com que ele voltasse.
Olhei para frente e o vi ao longe. Com aquele terno preto que ele comprara para especialmente para me levar ao baile. Eu o imaginei ali. No fundo do cemitério que ficava ao ar livre, perto da saída. E o vazio pareceu aumentar. Então deitei minha cabeça na grama e me derramei ainda mais.
Tentei me erguer novamente e vê-lo de novo. Mas não. Ele já não estava lá. O tempo iria passar algum dia? Eu iria esquecer aquele que eu amo? Como eu queria...
Como eu queria ouvir uma voz e poder pensar, como sempre, em: “Eu conheço aquela voz”... Queria ouvi-lo novamente, mesmo que fosse para dizer “Eu beijei a Lily porque eu quis.”
De qualquer maneira... Eu nunca vou deixar de amá-lo. Eu só quero me derramar mais, deitada aqui ao lado daquele que eu amo.
E então me deitei na terra molhada, sem me importar com a chuva que me atrapalhava e encharcava a terra recém colocada ao meu lado. Virei meu rosto para a grama para que não precisasse sentir água pingando em minha face.
Não quero viver sem ele... Mas infelizmente isso não é uma opção.
(…)
— Levanta.
— Não tô com vontade. — Falei.
— Sarah. Já faz uma semana. — Ela resmungou.
— Eu saio. Se você for embora. — A encarei.
— Tá.
Percebi que Julie ficou chateada, mas ser rude era algo que eu já não conseguia controlar. Não demorou muito e ouvi o barulho da porta de entrada se abrindo e, logo, fechando. Me levantei e vesti uma calça de abrigo. Coloquei também uma regata e o primeiro tênis que vi.
Me olhei no espelho e meus cabelos estavam bagunçados, mas não me preocupei com isso. Desci as escadas e enxerguei de longe meu celular em cima de uma prateleira na lareira.
Olhei as chaves de casa penduradas na fechadura da porta e as peguei. Saí e chaveei a porta. Embora eu não quisesse ver ninguém, sinto que devia isso a Julie.
Eu caminhava lentamente sem rumo. Bom... Seria melhor se eu fosse para a praça. Então, eu logo tinha um rumo. Mas meus passos ainda eram lentos enquanto a cada metro que eu percorria, me vinham lembranças.
Lembranças do primeiro dia em que eu passei por ali. De como eu caminhava. Da roupa que eu usava. E com quem eu estava.
Senti uma lágrima escorrer. Não. Na rua não. Eu não posso. Então veio outra. E outra. Isso não. Eu não posso começar a chorar descontroladamente aqui...
Coloquei as mãos sobre meus olhos e virei ergui minha face para o céu. Suspirei. Impedi as lágrimas por esse momento.
Limpei meu rosto e ao olhar para a frente vi Henry andando em minha direção. Ele anda me seguindo?
— Sarah, você está bem? — Ele perguntou já em minha frente.
O encarei séria. Não respondi. Ele realmente acha que precisa perguntar?
— Você quer dar uma volta? — Ele perguntou novamente, vendo que eu não responderia.
Comecei a caminhar lentamente para a frente em sinal de “sim”. Ele apenas me acompanhou. Em cada passo que dávamos, parecia ser nenhum. Eu parecia sempre estar no mesmo lugar. O caminho era curto, mas, ultimamente, tudo o que levava pouco tempo, agora levaria horas.
Enfim chegamos na praça. E eu caminhei sem me importar se o loiro atrás de mim me acompanhava. Andei até chegar em frente aquele banco de mármore. Aquele em que sentei no primeiro dia que visitei este lugar.
Eu sentei nele e escorei minha cabeça para trás. Percebi que o menino que me acompanhara até aqui sentou do meu lado, mas não me importei com isso, porque a única coisa que eu conseguia pensar era... “Ele se foi”.
Coloquei novamente as mãos sobre minha face e não me conti. Por que ele? Por que o Peter? Poderia ser qualquer um no mundo... E eu definitivamente, agora sei que não é minha culpa, sei que é culpa da pessoa que tenho mais ódio no mundo: Lily.
Eu estava chorando desesperadamente, novamente. Eu senti um braço me envolver. Foi como no primeiro dia em que eu vim aqui. Eu senti o braço de Peter Johnson me envolver. E lembrar dele foi horrível.
Então eu segurei o braço de Henry e o desviei de mim. Me movi mais para o fim do branco e cruzei os braços sobre meus joelhos, escorando minha testa sobre meus braços.
— Sarah... Eu...
Ele tentou falar algo mas não continuou. Eu não parei de chorar. Só precisava soltar tudo. Colocar para fora. Mesmo que eu rejeitasse toda e qualquer criatura que se aproximasse de mim, as pessoas precisavam entender que eu precisava disso. De um tempo.
Mas, será que algum dia vou conseguir esquecer? Quero dizer... Eu já havia namorado antes mas, nada nunca foi como Peter. Eu nunca amei ninguém.
Meus pais que deveriam ter me dado amor, não o fizeram. Eu nunca tive amigos que não me traíssem ou falassem mal de mim. Até eu vir para cá. Por mais que eu tenha sofrido tanto ultimamente, eu realmente, pela primeira vez conheci alguém que me amou. Eu tive amigos. Eu senti o que é ser amado, pelo menos por uma vez na vida. E agora, a pessoa que sinto que mais me amou, se foi. A pessoa que eu mais amei, se foi.
A minha vida nunca mais será a mesma. Mas, tudo o que Julie tem aguentado por mim ultimamente... Eu não sei se jamais faria o mesmo por qualquer pessoa. Talvez porque eu não entendo totalmente o que é amor? Tudo o que ela e Henry tem suportado. Eu já tentei de todas as formas afastá-los de mim, xingá-los e expulsá-los de perto de mim, e, mesmo assim, eles permanecem aqui. Ao meu lado.
Então eu ergui meu corpo novamente e olhei para Henry. E finalmente eu entendi que ele só queria me ajudar. Tanto ele como Julie.
Eu o abracei. Com todas as minhas forças.
— Me desculpe. — Falei entre lágrimas. — Me... Desculpe... Por ser tão....
— Tudo bem. — Ele me confortou com aquelas palavras.
(…)
Abri a porta de casa e abanei para o carro que estava parado em frente a calçada.
— Até amanhã! — Sorri fraco.
— Se cuida! — Julie gritou.
Sorri novamente e entrei para dentro da minha casa. Tranquei a porta e subi até meu quarto. Larguei meu material e corri para o banheiro. Tomei um banho quente e vesti meu pijama. Desci até a sala. Olhei televisão a tarde toda. Sim, coloquei um pijama logo após chegar da escola, mas, eu não sairia hoje.
Acho que finalmente estou conseguindo fugir, nem que seja por poucos minutos, da minha depressão. Afinal, já fazem quatro meses que ele se foi.
Subi até meu quarto novamente depois de assistir ao filme que Henry havia me recomendado: “Enjaulados”. Perturbador, mas o final é legal.
Sobre Colin e Lily... Colin saiu da nossa escola na semana em que eu deixei de ir. Na semana em que Peter se foi. Melhor assim. Nunca mais o vi, muito menos a Lily. Eu tenho saído somente para festas, raramente, com Julie e Henry, ou para ir ao cinema que inaugurou faz um mês.
Me deitei na cama e pela primeira vez senti algo cutucando minhas costas. Estranhei isso. Então me levantei. Me esforcei para levantar o colchão. Consegui.
Meu corpo todo estremeceu ao notar algo quadrado embrulhado em um saco de presente de baixo das madeiras de minha cama.
Rapidamente, ainda assustada, retirei aquilo dentre o fundo do móvel e me ajoelhei no chão já rasgando tudo. Havia um envelope enorme ali. O abri e me deparei com uma foto e uma carta.
Não demorou para que as lágrimas e soluços voltassem a rolar. Diante dos meus olhos, eu lia lentamente cada palavra escrita por ele...

“Olá.
Então, hoje faz...Dois meses que estamos namorando (oficialmente).
Quero que você saiba que eu te amo, e que o Three Days Grace não foi um suficiente presente, pois você merece muito mais do que qualquer coisa.
Por ser tão maravilhosa, espero que você encontre isso logo.
Não é presente, mas é uma carta linda. Admita.”
Mais em baixo, com uma caneta diferente, estava escrito:
“É, você ainda não achou. Faz uns dias que eu coloquei isso aqui, e, agora coloquei a foto que Julie tirou de nós dois em baixo d'água. Parece o mar. E está preto e branco porque eu amo essas cores. Ficou meio fora de foco, mas é porque a Julie é uma péssima fotógrafa.
E claro, também te amo. Meu amor por você é eterno.
Peter.”
E então eu não consegui parar de chorar. E parecia que nunca acabaria. Ele realmente me amava... E eu jamais me perdoaria por ter deixado que ele se fosse. Por não entender o que o tempo todo ele quis me dizer...
E pensar que um dia realmente questionei os sentimentos dele por mim.
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