A pedra no meu sapato
22 Incerteza
Notas iniciais
Por incrível que pareça, eu prestei atenção na aula. Passou rápido, e o sinal bateu pro recreio. Me levantei e esperei Peter fazer o mesmo, já que era assim sempre que saíamos juntos para o pátio na hora do intervalo.
— E aí? O que foi? — Ele perguntou, levantando-se e ficando de pé ao meu lado.
— Colin veio encher o saco. — Falei.
— Algo grave?
— Grave? — Ri. — Só se for a fratura que deixei no estômago dele.
— Interessante. — Ele me encarou monótono enquanto caminhávamos pelo corredor. — Vamos ficar por aqui. Não quero ir pro pátio.
— Tá. — Concordei.
Nos sentamos um ao lado do outro escorados na parede e ficamos jogando conversa fora até voltar a hora de ir para a sala de aula. Voltamos antes de todos é claro, pois estávamos no mesmo andar, e sentamo-nos em nossas respectivas classes. Em momentos a sala se transformou num formigueiro cheio de gente e não demorou muito para que o professor Tom chegasse e começasse a aula, fazendo todos se aquietarem.
Passaram-se enfim os últimos três períodos e juntei meu material rápido. Julie se despediu de mim e disse que já ia indo. Peter e eu estávamos quase chegando no portão quando ele parou subitamente e ficou olhando para uma... Nossa... Um Lamborghini branco em frente à escola. O encarei e vi um homem loiro dentro do veículo.
Ele desceu sorrindo e observei Peter sorrir de volta. Ele andou até o homem e eles se abraçaram, é claro, abraço de homem. Vi o tal fechar os olhos, o que parecia de alegria, ao abraçar o Peter. Seria... O pai dele?
— Essa é minha namorada, Sarah. — Meu loiro falou trazendo o outro homem da aparência idêntica para perto de mim.
Bingo!
— Prazer. — Sorri sem graça.
— Prazer em conhecê-la, Sarah. — Ele sorriu. — Sou Frank, o pai de Peter.
Sorri de orelha a orelha ao ver que ele não foi rude como o filho quando o conheci. Ele parecia ser alguém muito simpático.
— Então, quero que você almoce comigo, filho. — Ele falou, virando-se para Peter.
— Tudo bem. — Ele sorriu. — Tchau, Sarah.
— Tchau, bom almoço. — Sorri enquanto Peter me dava um beijo na bochecha.
— Se cuida. — Frank falou enquanto segurava o filho pelo ombro.
Nunca vi o Peter sorrir tanto assim perto de alguém que não fosse eu. Mesmo assim, me senti feliz ao vê-lo tão alto astral.
— Ah, espera. — Frank virou-se para trás. — Quer uma carona até em casa?
— Aceito. — Sorri e ele me convidou para entrar no carro.
Entrei no veículo e com aquela velocidade imensa, chegamos rapidamente em minha casa. Peter havia o guiado o caminho todo. Percebi ele sorrir ao ver minha casa. Seria por estar preocupado que Peter namorasse alguém pobre? Se bem que ele estaria certo por talvez Peter se apaixonar por alguém que só quisesse o seu dinheiro.
— Muito obrigada. — Desci do carro.
Eles se despediram e abri o portão da casa, indo até a porta. Ao destrancá-la ouvi passos e olhei para trás.
Era só o que me faltava.
— Eu sei que você não vai me ouvir e provavelmente vai me agredir — Disse o moreno de olhos verdes já quase a dois passos de mim. — Mas vai ter que ver isso.
Ele estendeu um envelope e eu fiquei encarando aquilo.
— Eu — ele deu ênfase no — nunca mais vou te incomodar.
— Promete? — O encarei irônica, mesmo que suas palavras não tivessem valor.
— Eu... — Ele me encarou sério e mordeu os lábios. Suspirou e finalmente respondeu. — Prometo.
— Ótimo. — Sorri irônica. — Agora some.
— Meu número ta aí dentro. — Ele sorriu sem graça. — Vai precisar.
Revirei os olhos e o observei ir embora, sem retirar os olhos de mim. Entrei para dentro de casa e joguei o tal envelope em cima do sofá. Fui até a cozinha e preparei um bife de frango pra comer. Mais salgado que o próprio sal, uma delícia. Ohohhoho.
Fui até a sala e liguei a televisão. Não estava dando nada de interessante em nenhum dos inúmeros canais que passei, além de filmes que eu já estou cansada de assistir. Desliguei a TV e me levantei. Estava pronta pra subir até o meu quarto e tirar um sono daqueles, até que movi os olhos pelo sofá e encarei aquele envelope.
Peguei-o e estava pronta para abrir quando ouvi batidas na porta. Fui até ela e a abri.
— Si... O que você quer?
— Eu preciso estar aqui. Eu sei que disse que não incomodaria mais, mas... — ele me encarou. — Pelo seu estado, ainda não abriu aquela coisa. Eu preciso estar aqui quando você ver. E se você não tiver nenhuma reação, eu prometo que até mudo de escola.
Revirei os olhos.
— Entra, merda. — Abri a porta e Colin entrou.
Ele fechou a porta enquanto eu ia até o sofá. Peguei o envelope e o abri calmamente. Sentei-me no sofá e encarei Colin. Ele sentou ao meu lado e eu tirei um papel duro de lá de dentro. Era... Uma foto?
Quando meus olhos perceberam o que era aquilo, senti meu coração bater mais rápido e o ódio subir por cima de todos os limites. Meus punhos queriam se fechar enquanto sentia uma pressão atrás de meus olhos que se enchiam de água.
Olhei para Colin que tinha um semblante triste. Ele estava com as sobrancelhas levantadas em expressão de "sinto muito". Senti uma lágrima descer. Depois outra, e outra.
Quando percebi eu estava aos prantos abraçada no Colin, segurando sua camisa com a força de um monstro.
Eu não acredito.
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