Notas iniciais
Não me matem xd

Não.. Não.. Eu coloquei as duas mãos sobre a cabeça.

— Eu não sei conviver com alguém — sussurrei.

— Calma. — Meu pai falou, levantando-se do sofá. — É brincadeira.

Meu coração quase saltou pela boca. Malditos.

— Só vamos passar a noite, estressadinha. — minha mãe comentou. — Amanhã pela manhã vou embora pois tenho que estar em Londres até a meia noite. Seu pai te leva até a escola.

— Não precis—

— Levo. — Ele me interrompeu. — Ah, e... Vou embora pelo meio dia.

Eles se calaram e eu fui direto até o meu quarto, arrastando minha mochila. Eles haviam primeiro mandado Peter embora e, agora, ficariam aqui... Espero que as visitas do meu pai não sejam tão traumatizantes quanto as do passado.

Fechei a porta e me deitei. Mas, com a presença deles ali, eu só consegui pensar nas visitas. Que eles me faziam quando eu era mais nova. O que me dava vontade de chorar. Minha mãe sempre ia embora mais cedo. Quando ela se ia, o humor do meu pai se alterava violentamente. Se eu fizesse qualquer coisa, ele me espancava. E eu nunca me esqueci de quando, ele estava fora de si e... Teve de me levar até o hospital devido a hemorragia interna.

É por isso que ele é a pessoa de quem eu mais tenho ódio em toda a minha vida.

Mas isso são coisas que eu aprendi a esquecer com o tempo. O que acontecia era quase sempre presenciado por outras pessoas, subornadas por ele para que não falassem nada. Meu pai sempre foi um homem poderoso, e por isso sempre teve o que queria, com todo o seu dinheiro. E ele ainda acha. Ele e a minha mãe, pensam que o dinheiro é tudo. Que eu não precisava de nada mais para viver exceto aquilo.

Minhas pernas tremiam só de pensar no fato de ficar sozinha com meu pai. Mas, se bem que, no dia seguinte eu teria de ir para escola, então, não ficaria sozinha com ele. Graças a Deus.

Eu queria falar com Peter. Meu ex. Ri sozinha pensando nisso. Eu queria ir até a casa dele, queria estar com ele. Olhar nos olhos dele e vê-lo sorrir...

Peguei meu celular e vi que as horas marcavam 15:45. Como havia passado tanto tempo de conversa na sala? Mesmo sem entender absolutamente nada, fui até o banheiro e tomei um banho relaxante na minha banheira. Sequei os cabelos e coloquei uma regata preta e uma calça de abrigo cinza. Amarrei o meu cabelo em um rabo de cavalo e fui até a sala. Meus pais haviam acabado de fazer um prato delicioso de galinha frita.

— Não tem nada de bom pra cozinhar aqui. Fiz isso mesmo. — Minha mãe disse.

— Verdade. É esse lixo que você come, Sarah? — Meu pai perguntou.

E a cada palavra que saía da boca de cada um deles me dava vontade de socá-los.

— É. — Respondi, vagarosamente.

— Ah, por favor. — Ela fez cara de nojo. — Mas, vamos comer logo, né.

Não falei nenhuma palavra. Fui até a bancada, me servi e comi ali mesmo. Em silêncio. Até porque eu não gostaria de falar nem um murmúrio sequer com algum deles. Terminei de comer e fui até a pia. Coloquei o prato ali e abri as portas de baixo para pegar o detergente e lavar o que eu acabara de sujar.

— Você vai limpar isso? — Minha mãe quase gritou.

— Sim. — Murmurei.

— Isso é coisa de pobre. Chame uma empregada.

Eu bufei e fui até o meu quarto. Lá, meu celular já marcava 20h38min. Resolvi deitar e dormir. Deitei e fechei os olhos.

— Sarah! — Minha mãe invadiu o quarto.

— Que foi?

— Só há essa cama aqui? — Ela perguntou, me olhando confusa.

— Sim...

— Ah, então saia. Pegue um cobertor e vá se deitar no sofá. Essa cama de casal aqui hoje é minha e do seu pai.

Levantei e fiz o que ela mandou. Mas, antes de sair do quarto, não pude deixar de perguntar, de raiva:

— Por que vocês não vão pra um hotel e me deixam aqui?

Ela me olhou furiosa e rapidamente veio até mim do outro lado do quarto. Colocou uma mão no meu pescoço e me prensou na parede. Ela estava apertando, e eu não estava conseguindo respirar.

— É melhor você nos respeitar mocinha. — Ela apertou ainda mais, me fazendo soltar o que eu segurava. — Somos os seus pais.

A maldita me soltou. Eu coloquei as mãos levemente por onde ela havia segurado, tossindo. Vadia. Desgraçada. Não resisti e me dobrei de joelhos no chão. Eu estava tossindo ainda mais. Mesmo assim, juntei minhas cobertas e fui até a sala. Lá, arrumei as coisas em cima do sofá.

— Respeite sua mãe. — Meu pai disse, olhando-me furioso.

Ele passou reto e foi até o quarto. Lá, fechou a porta. Deitei e, mesmo irritada, dormi.

—

Acordei com meu celular despertando debaixo do travesseiro. Desliguei-o e, mandei uma mensagem para Peter, pedindo que me esperasse no portão. Ele respondeu um "Ok". Significava que estava tudo bem. Levantei-me e percebi que meu pai estava na bancada com um café da manhã pronto. Dei bom dia e fui até o meu quarto. Minha mãe já havia ido embora. Respirei fundo e coloquei o uniforme. Arrumei minha mochila e a deixei por ali mesmo. Fui até a bancada na sala e comi as panquecas que meu pai havia feito.

— Ficou bom? — Ele perguntou.

— Sim. — Sorri e fui até o meu quarto.

Já estava na hora de sair. Fui até o banheiro e escovei meus dentes. Peguei a mochila e ao chegar na porta, meu pai me chamou.

— Onde você vai?

— Pra escola. — Respondi.

— Fica um pouco com o pai. Eu estava com saudades, minha linda. Você não estava?

Respirei fundo. Eu não queria ficar com ele. Então fui franca.

— Não.

E eu me arrependi instantaneamente. Fora a brecha para que ele ficasse bravo. Sua face calma se fez em uma furiosa e ele começou a se aproximar de mim. Eu tentei desesperadamente destrancar a porta, e, quando consegui, só puxei a maçaneta. Ele me puxou pelos cabelos e me jogou violentamente no chão.

Dei um grito leve. Eu havia batido a cabeça com tudo e estava desnorteada. Percebi que ele me ergueu e me arrastou até o sofá. Me colocou no sofá sentada, mas a dor era tanta que eu escorreguei. Tentei me reerguer com as mãos quando ele fez a pergunta que faltava.

— Você odeia eu ou a sua mãe?

Eu consegui virar meu rosto para o dele e, mesmo com alguns fios impedindo que eu o encarasse completamente, minha raiva era muito grande.

— Os... Dois. — Falei com dificuldade.

Foi apenas o tempo de eu ser jogada no chão novamente, levar um soco e um chute na barriga. Eu achei que iria morrer. Nunca havia sentido uma dor tão grande assim.

— Você tem que se comportar, mocinha. Agora sim estou convencido de que você não é madura o suficiente para absolutamente nada.

Eu me virei de costas para ele, no chão. Vi o meu celular pouco longe de mim e tentei me rastejar até ele. Quando minhas mãos quase o tocavam, aquela criatura puxou meus pés para trás e me arrastou até a frente do sofá novamente. Eu não me aguentei e comecei a chorar. De dor, de raiva, de tristeza. Por tudo.

— Cresce, menina. Para de chorar que nem um bebê. E, aquele menino, Peter. Você acha que ele gosta de você? Por favor. — Ele riu. — Ninguém jamais vai gostar de você. Você é insuportável. Um estorvo na minha vida. Espero que dessa vez você aprenda. Vou ir mais cedo. Nos vemos daqui a um tempo.

Ouvi passos se direcionando para fora do apartamento. A porta batendo. E o meu corpo todo estremecia. As dores eram insuportáveis. E fazia muito tempo que eu não sentia isso novamente. Eu nunca contei a ninguém dessas "violências". E eu não pensava nelas, pra tentar esquecer.

Com tanta dor e cansaço, eu finalmente parei de chorar e caí no sono.

—

Um zumbido jazia no ambiente. Abri os olhos e ao tentar me mexer o meu corpo todo alarmou em dor. Olhei para a frente e observei o celular tocando um pouco longe de mim. Com as duas mãos tentei com muito esforço me erguer para ver o que era. Era Julie.

Me arrastei com o máximo de esforço que pude até o celular, para que conseguisse atender. Por um milagre, ele continuou tocando até eu conseguir tocá-lo e levá-lo até a minha orelha. Toquei na tela para atender e, consegui.

— Sarinha!! Porque você não veio?! — A voz de Julie era alegre.

— E me deixou esperando. — Ouvi Peter gritar ao fundo.

— Ju-lie. — sussurrei.

— Você tá bem? — Ela afastou o ouvido do aparelho. — Acho que ela tá doente.

— Não tô. — Eu estava me esforçando para falar. — Vem... aqui. Eu preciso de... Ajuda. Chama o... Peter. Por. Favor.

— Sarah, o que tá acontecendo? — Ela assumiu um tom sério.

— Diz pro Peter que eu... Preciso falar com ele. Só com ele. — Me esforcei para parecer o mais normal possível.

— Tá, tá. Já já ele tá aí.

— Valeu. Tenha um bom dia. — Sussurrei.

Desliguei o telefone. E fiquei ali, deitada. Eu não conseguiria fazer mais nada. Em cerca de trinta minutos, ao ouvir o elevador abrir, escutei batidas na porta. Não consegui gritar mas, creio que ao perceber que a porta estava aberta, Peter entrou. Ele se direcionou diretamente até o sofá, e quando fitou a minha imagem, seus olhos se arregalaram.

A única coisa que eu pensei foi "ele não poderia me ver assim".

— Mas... — Ele se aproximou e me pegou no colo. — Quem.. Fez isso com você?

— Não... Interessa. — Murmurei.

Ele continuou perguntando enquanto me levou até o meu quarto. Eu apenas ignorava as indagações. Ele me colocou cuidadosamente sobre a cama box. Me dava angústia ver a expressão dele. Ele foi na cozinha e voltou com uma bolsa de gelo, a qual eu segurava na minha cabeça, pois meu olho deveria estar roxo. Eu não conseguia evitar alguns gemidos.

Sem perguntar, ele levantou minha blusa até a cintura. E de novo aquela cara apavorada. Eu observei e vi metade da minha barriga roxa.

— Isso. — Ele fitou as marcas nos meus olhos. — Temos que denunciar essa pessoa.

Eu podia ver a ira estampada no seu olhar. Eu queria fazer o que ele dizia, mas... Eu não podia. Ele se sentou na cama ao meu lado.

— Não. — murmurei novamente.

— Como não, Sarah?!? Você tá louca?!

— Não podemos porque... — Engoli em seco.

Eu não podia, eu não deveria. Mas talvez, assim ele parasse e apenas me ajudasse. Se prometesse não contar... Eu confiava nele, então...

— Foi o meu pai.

Notas finais
Esse capítulo eu escrevi particularmente porque eu decidi mergulhar mais fundo nos sentimentos e revoltas dos personagens. Eu quero que vocês os conheçam melhor, pra sentir o que eles sentem e pensar na dor que eles passam/passaram. xoxo