A partir de agora, só vou amar você
1 Prólogo
A neve caia fria no pacato vilarejo de Santa Fé.
Entretanto, o frio parecia não incomodar os moradores da cidade que recebiam a nova estação com um sorriso congelado no meio das bochechas coradas. Ao contrário do que deveria se esperar de uma a população agrícola.
Felizmente, eles não tinha nada com o que se preocupar. Graças ao engenheiro agrônomo, Ferdinando Napoleão, todas as plantações estavam à salvo do clima frio e desabrocharão lindamente ao reverem o caloroso sorriso de seu amigo sol.
Era só aproveitar o aconchego dos casacões e a alegria estampadas nos rosto quase que completamente encobertos das crianças.
A vida seguia sem nenhuma preocupação...
Bem, talvez para um dos habitantes isso não fosse verdade.
Dentro de sua mansão, as botas pesadas do coronel Epaminondas faziam as tábuas de seu escritório rangerem alto. Cada passo que ele dava, emitia uma nota diferente, sem perceber sua aflição criou uma melodia desarmoniosa que perturbava ainda mais seus pensamentos.
Por fim, ele finalmente desistiu e entregou seu corpo cansado aos braços de um poltrona de couro próxima a lareira.
– Arra... Onde já se viu... – Resmungou para si mesmo – Querer casar com aquela uma...
Desde que seu primogênio, Ferdinando, havia batido a sua porta exigindo que o pai reconhecesse sua união com a filha de Pedro Falcão, nem mesmo sua campanha conseguia ocupar seus pensamentos.
A perna de Epa começou a balançar na cadeira ao relembar de seus problemas. Ele se levantou mais uma vez e saiu para caminhar pela casa. Inquieto da maneira como ele estava, era impossível ficar sentando.
Caminhando pela casa encontrou sua mulher, Maria Catariana, sentada em um sofá na sala de estar, observando a neve cair. A moça vestia uma peruca branca na qual pequenos fragmentos de gelo saltavam em alguns pontos estratégicos. O vestido que utilizava era da mesma cor, começava com um corpete felpudo e de mangas longas lisas, mas a barra da saia era o verdadeiro estouro da peça, pois simulava um pequeno iglu.
– Catarina. – Chamou Epa. A mulher continuava estática como se não tivesse ouvido o marido. – Catarina. – Tentou ele de novo, mas foi novamente ignorado. Sem paciência, ele foi em passos largo em direção a ela e tomou-a pelo braço. – Catarina.
Mesmo com esse gesto tão agressivo, a mulher tentou não olhar para Epa. Continuava a encarar a neve cair como se junto dela também pudessem cair as palavras exatas que queria dizer para o marido. Depois de alguns segundos em vão, a mulher virou para Epa e disparou-as do único modo que sabia dizer-las:
– Por que você não aceita o casamento do Ferdinando com a Gina, marido?
Surpreso com a pergunta, Epa soltou o braço de Catarina.
– Ora. Como assim por quê? Porque... Porque...
– E não me venha com aquela conversinha que a filha do seu Pedro Farcão não é esposa para o Nando! Essa desculpa não funciona mais.
Encarando o chão, Epa se afastou ainda mais de Catarina.
– Ora... É porque o Ferdinando não pode se casar!
– Mas que besteira sem tamanho é essa homem? Ele é moço, bonito, forte... – Tentava argumentar a moça enquanto passava uma das mãos pelo seu próprio bicípes para “representar” o vigor de Ferdinando. — É claro que, cedo ou tarde, ele vai se casar!
– Não é isso que eu quero dizer mulher! Pare de tentar colocar palavras na minha boca! Não é que ele não pode se casar. – Epa fez um longa pausa na qual os pensamentos de Catarina foram incapazes de entender a lógica que passava na cabeça do marido. — O problema é esse, na verdade, ele VAI se casar.
– Arrá, marido, já não tô entendendo nada.
Epa sentou em um dos sofá das gigantesca sala de estar, esticou seu pescoço de uma maneira que pudesse checar se a porta da cozinha estava bem fechada, pois não queria nenhuma das empregadas fofocando sobre o assunto mais tarde.
– O Ferdinando era muito criança, inclusive a mãe dele ainda era viva. Nós tínhamos um casal de amigos que viviam ao Sul das Antas . Nós eramos todos muito próximos, até porque eles tinham uma filha da mesma idade do Nando. Como a vida é engraçada, naquela época eu achava que as coisas seriam assim para sempre... – Epa falou essa parte mais para si mesmo do que para Catarina.
– Pouco depois da morte da minha esposa, eles se mudaram para uma fazendo mais perto do norte do país bem, bem longe de acá. Mas, pouco antes disso tudo acontecer, em um domingo qualquer, o Nando e a Margarida, era o nome da menina deles, chegaram para nós dizendo que iriam se casar quando ficassem grandes. Nós rimos da piada na hora, mas, ao cair a tardinha daquele dia, o meu amigo me puxou em um canto e me perguntou porque nós não formalizávamos a vontade dos nossos filhos. Nós somos uma família nobre, eles tinham bastante dinheiro. Confiamos na criação que daríamos para nossos filhos. Se tudo isso já não fosse o suficiente, ainda era o que nossas crianças queriam... Não havia uma simples razão para não firmar aquele acordo na época!
Catarina levou a mão a boca em um ato de surpresa. Jamais poderia acreditar que o marido escondia uma coisas dessa dela, e, pior ainda, talvez do próprio Ferdinando.
– Mas, Epa, isso é muito sério! O Ferdinando sabe disso?
– Aposto que ele lembra da moça. Eles viveram grudados até os 12 anos... E, mesmo quando criança, ela já era muito bonita para idade. Mas não acho que ele tenha entendido que o que acontecia não era apenas uma brincadeira infantil.
– Mas Epa, isso é uma história tão antiga! Não dá para fingir que ela simplesmente nunca aconteceu? – Suplicou Catarina aflita. Apesar de não ser a mãe biológica de Ferdinando, sentia uma dor estranha em seu ventre cada vez que via a tristeza refletida nos olhos azuis do rapaz que só as mães são capazes de sentir.
– Fingir? Que isso, Catarina? Você acha que eu sou homem disso? Se eu disse qu ia ter casamento é porque vai haver casamento! Sou um homem integro e para mim promessa é dívida!
– Mas e agora que ele tá todo apaixonado pela menina do seu Seu Pedro Falcão?
– Temos que impedir a qualquer custo que essa ideia absurda de casamento cá para frente! A promessa já estava feita. E eu sou um homem de honra! Por isso quando eu digo que o Ferdinando tem que se casar com a moça! Ele tem que se casar com a Margarida!
– Ora, não é justo fazer isso com um rapaz apaixonado!
– Justo... Você só diz isso porque nunca viu a formosura que é a Margarida! Aposto que se ela estivesse aqui, Ferdinando nem sequer pensaria em olhar duas vezes para aquela mulher macho e...
– Marido, marido. – Chamou Catarina, cada vez mais aflita com o rumo que aquela história tomava — O que que foi? Não gosto quando você para de falar assim, sem mais nem menos.
Para a surpresa de Catarina, o marido segurou os braços da mulher em um gesto brusco. Entretanto, ele a rodou e deu-lhe um beijo no rosto.
– Obrigada, Catarina! Você é uma gênia mesmo! Isso vai resolver todos os meu problemas!
Epa saiu apressado, igual aos seus pensamentos, da sala. Ele tinha que começar a tomar medidas imediatamente se queria colocar seu plano em prática antes que fosse tarde demais. Ainda estremecida, Cataria balbuciava enquanto tentava entender que ideia poderia ter dado ao marido.
– Mas o que foi que eu disse? – Sussurrou a moça solitária no meio do quarto vazio. Seus joelhos fraquejaram de medo e ela foi obrigada a se apoiar na cadeira. Temia pela a maluquice que o marido poderia estar armando agora para cima do filho. A única conclusão que ela chegará era que aquela história estava fadada a dar errado.
Tudo que ela podia rezar que aquela história se resolvesse da melhor maneira possível...
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