A parte mais sombria
4 Capítulo 4
Notas iniciais
Dill estava perambulando pelo prédio. Havia acabado de sair da Ala Restrita, que ficava numa parte isolada da clínica. Essa ala era especial, mas apenas por um motivo delicado. Lá era onde ficava os piores pacientes. Pessoas que cometeram crimes, tais como assassinatos, estupros ou qualquer outro tipo de violência, e foram justificados por apresentarem um sério quadro de doença mental. Eles eram mantidos trancafiados cada um em um quarto específico e ,alguns, sob sedativos fortíssimos para controlar a acentuada agressividade.
Aquela área era protegida e vigiada por guardas e ninguém podia entrar sem autorização. Bem, Dill tinha essa autorização, pois era uma das enfermeiras que tratava daqueles pacientes. Ela fora chamada pelo diretor da instituição, pois alguém estava tendo uma crise e precisava de sedativo.
Robert Connor era o pior dali. Fora acusado de esquartejar cinco pessoas antes de ser mandado para o centro de tratamento. Ele realmente não tinha juízo de humano, falava uma língua estranha que ele mesmo inventara e todos diziam que Robert se comunicava com o Diabo. Naquele momento ele entrou em colapso nervoso, estava quebrando seu quarto e gritando aquela língua diabólica, acordando todos da ala. Os guardas seguraram-no e Dill conseguiu aplicar aquele sedativo em sua veia.
Agora ela estava voltando para seu quarto na ala das enfermeiras, mas antes deparara-se com uma figura imóvel num corredor.
— O que você está fazendo aqui?
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Morgana acordou tão cedo que foi a primeira a se levantar na clínica psiquiátrica. Ela tirou sua camisola e trocou por uma calça de algodão creme e blusa de manga comprida segunda pele cinza. Foi até ao espelho e trançou seu cabelo de lado. Sentia- se radiante, pois a noite passada passara com Peter em sua sala e voltara só de madrugada. Tudo no maior silêncio e segredo possíveis.
Dessa vez ninguém os espionou, pois trancara a porta a chave.
O dia nascia com nuvens pesadas, o céu estava nublado, cinzento e havia uma grande possibilidade de chuva para mais tarde. Isso era bom, ela gostava de chuva, pois a chuva apaga o fogo e se tivesse chovido no dia em que perdera a sua família, talvez, apenas um talvez, ela estivesse viva ainda.
Morgana se lembrava que tinha dezessete anos quando tudo aconteceu. Era uma manhã comum como a de hoje, mas ao contrário da cortina de nuvens, o céu estava ardente com o brilhoso sol. Em sua casa, estavam todos acabando de acordar. Sua mãe dormia no quarto da frente (seu pai já era falecido havia um ano e meio) e suas irmãzinhas gêmeas de sete anos, ao lado do seu. Ela ouviu um barulho de vidro se partindo no térreo, mas estava tão grogue com o sono que demorou cerca de cinco minutos para se levantar da cama e descer para ver que louça sua preciosa gata persa, Lola, havia quebrado dessa vez. Ela teria que limpar antes que sua mãe visse, não podia dar-se ao luxo de ter a gata morta. Mas não era bem uma louça que havia se quebrado lá embaixo, muito menos quebrada por sua gata. Quando chegou na escada viu um clarão tão forte que ardeu seus olhos e a temperatura era elevada. Sua casa estava em chamas. A cozinha fora completamente destruída e o fogo já estava consumindo uma parte de cima da casa. Como isso aconteceu? Ela se perguntava. Morgana estava tão chocada e perplexa que não conseguiu se mexer por uns minutos, só observava a cena com horror.
Assim que se lembrou de fazer algo, correu para cima gritando "fogo" e " acordem, a casa está em chamas". De momento ninguém entendeu o que aquelas palavras significavam, ainda mais na boca de Morgana, que não tinha muito juízo, mas quando viram o chão do corredor queimar e em seguida ceder, puderam compreender. Realmente a casa pegava fogo. Imediatamente todas correram para a janela mais próxima, mas a grade estava emperrada e por uma estranha coincidência todas as janelas da casa estavam na mesma situação. Aquilo não podia estar certo, todas as janelas estavam em perfeitas condições ainda na noite passada. Tentaram todas as saídas existentes, mas pareciam destinadas a queimarem vivas, estava tudo emperrado.
Elas entraram em desespero e a fumaça invadia seus pulmões e sufocavam-nas. A adolescente viu de perto o instinto selvagem quando suas irmãs e mãe arranhavam a parede como se pudesse abrir um buraco ali. O ar estava pobre em oxigênio e rico em gás carbônico e a respiração era um ato agoniante. Morgana assistiu a sua família morrer com falta de oxigenação, até ela estava quase morrendo, só que no momento em que desmaiava ouviu uma sirene alta.
Quando acordou no hospital, não acreditou que estivesse viva, nem que sua família estivesse morta. Ela queria ter ido com elas fazer parte do céu.
Sem esperar, Morgana ouviu um grito agudo e assustador. Era a voz de uma mulher. Isso varreu as lembranças do incêndio de sua mente e prendeu sua atenção. O grito se prolongou por alguns longos segundos, parecia desesperado, torturador e vinha lá de fora. Ela correu até a janela, mas não viu ninguém. O som vinha do outro lado do prédio perto do jardim onde estivera a manhã do dia anterior.
A mulher esticou seu pescoço para fora do quarto em busca de qualquer coisa e viu apenas as outras integrantes femininas daquela ala fazerem o mesmo. Seus rostos sonolentos estavam torcidos em um assombro perturbador, algumas choramingavam com medo, outras se balançavam para frente e para trás. Uma paciente conhecida por Morgana começou a bater sua cabeça na parede murmurando:
— Não façam mal a ela, não a machuquem. Não façam mal a ela, não a machuquem. Não façam mal a ela, não a machuquem.
Morgana deu uma corridinha até a mulher que fazia isso e parou-a com um abraço consolador dizendo:
— Está tudo bem, não se preocupe. Está tudo bem.
A mulher se tranquilizou e em seguida a subdiretora saiu de seu quarto no fim do corredor numa camisola igual a que todas estavam vestindo, exceto Morgana.
— O que está havendo aqui? — perguntou a subdiretora com os cabelos desgrenhados.
— Ouvimos um grito, Rose — a senhorita Stewart respondeu por todas.
— Então não foi só eu — Rose falou mais para si mesma do que para as outras — Voltem para seus quartos e fiquem trancadas até segundas ordens. Vou ver o que está acontecendo, parece que uma de vocês está fora do dormitório. Posso confiar em você, Morgana, para assegurar que todas fiquem aqui até eu chamar as enfermeiras para esse trabalho?
Estava claro que as autoridades da clínica confiavam em Morgana para cuidar de algumas coisas, como essas, já que foi diagnosticada como saudável.
— É claro, Rose, deixe comigo — ela respondeu ainda com a mulher perturbada nos braços.
Rose passou por entre as mulheres do corredor e foi descendo as escadas. Morgana ordenou gentilmente que suas colegas de dormitório voltassem para seus respectivos quartos. Ela ficou rondando o corredor como se fosse uma guarda policial, depois que o local ficara vazio. O que acontecera era comum, ouvir gritos de um paciente era totalmente normal, às vezes acontecia de alguém entrar em crise e fugir do dormitório. Mas ela se incomodava com a potência que o grito soou até seus ouvidos, parecia algo sério.
Logo um grupo de enfermeiras chegou ao corredor correndo, algumas trêmulas e outras choramingando baixinho. Estavam visivelmente reprimindo uma euforia.
— O que houve? O que está acontecendo lá fora? — Stewart exigiu respostas.
— Nada, pode voltar para seu quarto agora, Morgana — uma delas respondeu ríspida.
— Fale-me qual é o problema dessa vez — insistiu ela.
— Beth, acho que podemos contar a ela, mas só a ela. Morgana é mentalmente saudável agora- uma outra enfermeira manifestou-se.
— Tudo bem, mas não conte às outras para não preocupá-las, elas saberão quando for a hora — Beth deu uma pausa cheia de suspense e hesitação. Ela suspirou e disse — Aconteceu algo realmente grave e um tanto macabro.
— Fale logo o que aconteceu — Morgana já estava impaciente e assustada.
— Dill, a enfermeira que entrou a pouco tempo, está em pedaços na fonte do jardim. Grace, a que tem ataque de pânico toda semana, encontrou o corpo ou o que restou dele pelo menos.
Morgana não conseguia acreditar. Dill era a enfermeira que geralmente vigiava-a, como na manhã anterior no jardim.
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