A parte mais sombria
5 Capítulo 5
Notas iniciais
O jardim da clínica estava repleto de agentes da polícia, detetives, médicos legistas e todos que deveriam conduzir uma investigação. O cenário era de embrulhar o estômago. Havia uma boa multidão ao redor da fonte, local onde os restos mortais de Dill foram jogados. O que antes era visto como canto de paz e beleza, o dito lugar tinha uma essência macabra agora. A água que jorrava da fonte continha uma cor avermelhada e mãos, braços, pés, pernas, tronco e cabeça, flutuavam ou afundavam ali. Aquilo era repulsivo de ver, o que fez ser um grande desafio para os policiais.
Em toda parte Morgana via pessoas sendo interrogadas e peritos criminais trabalhando duro numa análise completa da clínica. Ela assistia a tudo do topo da escada do dormitório, mas não podia ir além disso pois não tinha autorização, já era até demais o diretor ter deixado-a ficar ali. O restante dos pacientes estavam em seus quartos, ficariam lá até que os peritos terminassem de inspecionar tudo que precisavam.
Era tão estranho o jeito como a clínica ficou de uma hora para outra, parecia que nada seria igual novamente. Mas isso não importava para Morgana, pois logo sairia dali.
Lá embaixo na entrada principal, o diretor da instituição, Senhor Steven, estava sendo interrogado pela quarta vez por outro detetive. Ele parecia realmente perplexo com o que ocorrera em sua clínica. Gesticulava com a mão sem conseguir expressar seu desentendimento sobre aquilo tudo. Como algo tão cruel e bárbaro pode ter acontecido ali dentro? Morgana queria saber a resposta dessa pergunta.
Ela continuava a observar o detetive alto, loiro e forte conversar com Steven quando ela pescou o seu nome no meio da conversa. Morgana tinha certeza que era seu nome, pois um momento antes, o detetive a havia encarado e depois de perguntar algo a Steven, este olhou para ela e voltou a atenção para o policial. Agora estavam falando dela. Mas por quê? O que ela tinha haver com isso?
Morgana se enrijeceu ao ver o tal detetive se afastar do diretor e aproximar-se dela. Ela pensou em fugir para seu quarto, não queria ser interrogada, mas dai eles iriam achar que estava escondendo algo e então seria interrogada de qualquer forma. Lembrou-se da ultima vez que foi interrogada pela polícia. Ela acabara de sair do hospital após o incidente trágico com sua família, ainda estava muito frágil para falar sobre o que acontecera, mas foi obrigada, era algo importante. Então confessou sobre as ameaças do Serial Killer. Tudo foi registrado, mas nada resolvido.
O detetive subiu as escadas e parou a sua frente com a mão estendida.
— Bom dia, sou o detetive Riley.
Morgana estendeu a sua mão e cumprimentou-o cortês.
— O diretor Steven me disse que você é uma paciente curada e que sairá daqui em breve.
— Ele deve ter muito orgulho de mim, fala isso para todo mundo que chega aqui.
— Mas por que não falar? São poucos que se curam e quando acontece isso deve ser muito gratificante, saber que seu trabalho funcionou.
Morgana apenas sorriu gentilmente.
— Eu vim aqui falar com você porque talvez esteja apta para dar um depoimento — ele disse chacoalhando um gravador nas mãos.
— Depoimento? — ela pareceu desconfortável.
— Bem, não será grande coisa, apenas quero que fale um pouco do que sabe sobre a enfermeira Dill e sua relação com ela. Está de acordo em fazer isso?
O detetive Riley mostrou tanta gentileza em dizer essas palavras que Morgana não poderia recusar ao pedido, mas também não queria ter que o fazer. Ela se demorou uns bons segundos para responder, mas, hesitantemente, disse "sim".
Depois disso, Riley pediu emprestado uma sala qualquer ao diretor para poder extrair algumas respostas de Morgana, o que Steven fez sem contestar.
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— Senhorita Stewart, que relação tinha com a vítima? — Riley perguntou colocando o gravador perto da boca de Morgana.
Os dois estavam a sós na sala do diretor e não havia muito tempo que começaram o depoimento.
— Dill era a enfermeira encarregada dos meus remédios. Ela era nova, fazia uns dois meses que chegara.
— E o que mais eram? Amigas, talvez. Vocês conversavam?
— Não muito. Ela era mais do tipo profissional e não conversava com os pacientes coisas que não eram sobre a clínica, os remédios, o clima, essas coisas.
— Entendo — o detetive deu uma pausa pensando na próxima pergunta — Você e ela tinham uma boa convivência?
— Sim.
Riley esperou algo a mais na resposta do que um simples "sim", mas Morgana não tinha mais o que falar, era apenas isso.
— Você gostava de Dill?
Morgana franziu o cenho. O quê? Agora eles achavam que foi ela quem a matou? Que absurdo! Mas ela também ficou tensa com a imagem de seringas e as mãos fortes de Dill. Ela dava medo em Morgana e por isso ela não simpatizara muito com a enfermeira. Lembrou-se também da manhã no jardim, ela parecia muito curiosa e vigilante demais. Morgana desconfiava que Dill sabia de algo entre Peter e ela, mas não tinha certeza.
— Bom, nós não conversávamos muito, como eu já disse, mas é, dá pra dizer que sim.
—" Dá pra dizer que sim"? Especifique isso — ele se inclinou para frente junto com o gravador, dessa vez mais interessado.
Os nervos de Morgana se agitaram, ela estava tensa com a especulação do detetive. E ela não sabia disfarçar isso. Mas por que ficar assim? Pensou ela. Não tinha "nada" a esconder, pelo menos não sobre o assunto que falavam.
— É que... é que — Morgana bufou baixinho nervosa — Não posso dizer que realmente gostava dela, mas eu não desgostava. Algum tempo atrás, quando eu ainda precisava de uns sedativos fracos, era ela quem aplicava e eu detesto agulhas. Acontece que ela não tinha um jeito delicado de fazer aquilo como a outra enfermeira que saiu, entende? Mas isso não é motivo para eu não gostar dela, mas também não conseguia amá-la.
— Compreendo — Riley assentiu sem desfazer seu cenho franzido — Hmm...só mais uma pergunta, Srta. Stewart.
— Sim? — ela disse ainda desconfortável.
— Desconfia de alguém que possa ter feito isso? Alguém que tenha uma ligação? Uma rixa, por exemplo — ele estava totalmente apreensivo.
Okay, ela não era mais suspeita. Agora era só responder a essa ultima pergunta.
— Não — ela respondeu, mas seus olhos vacilaram, desviando-os para o chão.
Morgana acabara de mentir para o policial, pois se pensasse melhor na pergunta teria respondido ''Gregory''. Contudo, não queria acreditar que seu amigo teria feito uma coisa daquelas, por isso, pela segunda vez, mentiu, mas desta vez para si mesma, colocando na cabeça a ideia de que Greg era inofensivo e acreditando nela.
Riley continuou encarando por mais alguns segundos o rosto de Morgana. Ele achava que ela podia desconfiar de alguém, sim, mas não queria falar por algum motivo.
— Fim do depoimento — ele desligou o gravador.
A sala ficou um silêncio constrangedor. Morgana levantou a cabeça para olhar para o detetive.
— Acabamos? Posso ir?
— Claro — ele sorriu.
Morgana se levantou e estava indo em direção a porta seguida de Riley. Já fora da sala, ele lhe entregou um cartão com seu número caso ela tivesse mais alguma informação relevante.
Ela caminhava de volta para o dormitório acompanhada do detetive quando esbarrou em Peter. O detetive o cumprimentou, entregou o mesmo cartão que dera para Morgana dizendo que esquecera de fazê-lo antes e saiu em direção a porta da frente do prédio.
— Você está bem? — Peter perguntou assim que o detetive saiu do campo de visão deles.
— Estou, ele só me fez algumas perguntas.Você já foi interrogado?
— Sim, Riley fez isso.
Eles ficaram calados por um segundo.
— Que loucura, não é? Quer dizer, isso...isso é a coisa mais macabra que já presenciei — Morgana desabafou.
— É, isso realmente é horrível. Pegará mau para a instituição.
— Isso é verdade — ela bufou — Quero sair logo daqui. Antes que vire um pesadelo. Você acredita que foi alguém de dentro?
— Bem, só sei que de fora não pode ter sido. Nossa segurança é ótima e os guardas não viram ninguém entrando ontem a noite, nem por câmeras.
— E se foi alguém aqui de dentro nós corremos perigo então?
— Ei, calma — ele a abraçou vendo que não tinha ninguém por perto — Nada vai acontecer a você, não deixarei.
Morgana afundou seu rosto no peito de Peter sentindo seu cheiro. Estava assustada com tudo isso, uma sensação que a lembrava de quando era ameaçada pelo Serial Killer.
— Ouvi dizer que Robert Connor é um forte suspeito — ele soltou.
— O quê? Como assim? Ele fica na Ala Restrita sob a vigilância dos guardas — ela o encarou ainda agarrada a ele.
— Bom, parece que ontem Dill foi aplicar sedativo nele e alguns minutos depois ele fugiu do quarto. Conseguiu passar por quatro guardas.
Morgana estava muito tensa agora. Ela sabia da fama de Robert, ele era o paciente mais violento dali e era um assassino perigosamente louco.
— Mas como ele conseguiu? E como conseguiram pegar ele depois e não saberem se foi ele ou não que matou Dill? — ela o encarou chocada — Eles o pegaram, não é?
— Morgana, não o pegaram. Ele fugiu para a floresta e ninguém mais o viu depois disso. Robert Connor está solto.
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