A p r i l
9 N o v e
Notas iniciais
Meu olhar estava pousado no teto branco do meu quarto, enquanto eu estava deitada na minha cama. O quarto estava completamente escuro, apenas a janela iluminava o local. Virei minha cabeça para o lado direito, olhando para cômoda onde se encontrava o relógio, e notei que ele marcava duas horas e trinta e seis minutos. O sono não vinha, minha cabeça estava com um turbilhão de pensamentos e perguntas, todas sem respostas.
Há poucas horas atrás, consegui finalmente negar o pedido de Harry de dormir no meu quarto. Não sabia o que Harry poderia tentar comigo enquanto eu dormia, por isso ele agora estava dormindo no sofá da sala.
Hoje eu não teria que trabalhar, já que era sábado. Além do mais, também teria a próxima semana livre, para as férias de Halloween. Não que eu achasse que fosse algo necessário, já que eu não fazia nada fora do normal.
Mas talvez dessa vez fosse diferente já que eu estaria com o Harry.
Escutei passos lentos e firmes soarem pela casa. Por mais que meus pensamentos me fizessem querer acreditar que talvez fosse o Harry, outro lado me alertava que poderia ser algum ladrão. Afinal, eu tranquei a porta antes de deitar, certo?
Os passos ficaram mais próximos, e meu corpo estremeceu quando vi eles pararem a frente da porta do meu quarto. Senti meu corpo arrepiar-se assim que vi a maçaneta girar, então só ai me dei conta que não havia trancado a porta do meu quarto. Virei meu corpo para o lado oposto a porta e cobri todo meu corpo com o lençol. Escutei a porta ranger, me fazendo perceber que ela havia sido aberta. Forcei a mim mesma a controlar minha respiração, que nesse momento estava acelerada.
Os passos foram novamente escutados e, em poucos segundos, os passos pararam perto da cama. Senti o outro lado da cama afundar e logo a quentura do corpo ao meu lado chegou até mim. E então logo caiu a ficha: era o Harry. Por que um ladrão entraria na minha casa para deitar comigo? Virei meu corpo para lado e logo confirmei minha hipótese. Harry respirava lentamente e seus olhos estavam fechados, enquanto seus lábios estavam entreabertos. Harry passou seu braço por cima do meu corpo e me puxou para perto dele, enquanto sua mão fazia pequenas caricias em minhas costas.
Eu sentia a respiração de Harry bater no meu rosto, notei também que suas sobrancelhas estavam um pouco franzidas e logo senti também Harry enroscar suas pernas junto as minhas. Minhas pernas expostas agora tocavam as do Harry, e logo senti o calor do seu corpo se misturar mais ainda ao meu corpo.
—Uh... Harry? — Sussurrei, tão baixo que até duvidei se ele havia escutado ou não. Mas para minha surpresa, Harry respondeu.
—...Hm? — Ele respondeu, esse som parecia ter saído de sua garganta.
—O que você veio fazer aqui? — Falei em um sussurro de novo. Harry apertou mais ainda meu corpo contra o seu, e senti nossos peitos se tocarem de leve. Harry trouxe sua cabeça até a curva do meu pescoço e descansou ela lá, inspirando fundo, parecendo inalar meu cheiro.
—Eu estava me sentindo sozinho lá no sofá... — Ele falou finalizando com um suspiro. Em seguida, senti leves beijos serem depositados em meu pescoço, beijos molhados e demorados — E aposto que você também estava se sentindo assim.
Arfei quando Harry sugou com força meu pescoço, sem me importar com a marca que ficaria ali. Senti a mão dele descer um pouco e ser colocada na minha bunda, enquanto Harry a apertava de leve. Meu olhos estavam fechados enquanto eu desfrutava da sensação que estava sentindo, mas logo me lembrei da conversa que havia escutado. "Eu sei, mas essa não é nem a primeira vez que você faz isso. Não, isso não é uma forma de você demonstrar seu amor por mim."
"Tudo bem. Também te amo, idiota, mas você faz muita besteira."
"Você sabe que só faço isso com elas por sua culpa. É meu momento de fraqueza."
Harry era gay, e estava apenas me usando por causa da sua riga com o Josh, que provavelmente deveria ser seu namorado. Apenas de pensar na palavra "namorado" me causava enjoo. Não gostava da ideia do Harry namorar, e ainda continuar com essas caricias que ele fazia em mim.
Coloquei ambas as mãos no peito de Harry e o afastei um pouco, e em seguida virei para o outro lado. Eu não tinha direito de me sentir assim, Harry nunca me falou que queria algo comigo, apenas me prometeu que iria me ajudar a sair dessa rotina pacata. Mas era impossível evitar essa sensação, imaginar que quando Harry se encontrasse com esse tal de' Josh" ele iria beija-lo e após me beijar também, me incomodava bastante.
Harry pareceu não dar muita atenção a esse meu ato e levou sua mão por cima da minha cintura até meu ventre. Em seguida, ele me puxou para traz, grudando seu corpo ao meu. Por mais que essa história toda me incomodasse, era ótimo dormir com o Harry, sentir o calor confortável que emanava do corpo dele.
Ignorando todos os avisos do meu cérebro, me encolhi mais contra o Harry, fazendo nosso corpos grudarem mais ainda. Escutei Harry soltar uma risada nasalada e colocar sua cabeça novamente na curva do meu pescoço.
—Para de empinar a bunda, April. Caso contrário, não responderei pelos meus atos.
Senti uma onde elétrica passar pelo meu corpo ao escutar tais palavras saindo da boca de Harry, ainda mais com seu tom de voz rouco e em sussurro.
—Eu estou dormindo, Harry — Respondi, tentando esconder minha vergonha.
Fiquei esperando uma resposta do Harry, mas a mesma não veio. Deduzi então que ele já havia dormido, então fiz o mesmo.
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Minha mão estava coberta por um pano, enquanto eu segurava a tábua de cortar carne com a mesma. Provavelmente o cheiro de queimado já havia chegado a todos os cômodos da casa, suspeito que qualquer pessoa que esteja passando pela frente da minha casa sinta esse cheiro. Eu devia estar a mais ou menos quatro passos do fogão, em uma mão segurava a tabua para não bater pingos de óleo quente em mim e com a outra eu segurava uma espatula, numa tentativa falha de virar os ovos que estavam na frigideira. Provavelmente eu havia exagerado na quantidade de óleo, se é que eu deveria ter usado óleo.
Nunca fui boa em cozinhar, tinha problemas até em ligar o fogão. A maioria das comidas que eu comia eram todas almoços já pronto que eu comprava ou apenas café com alguns pães da loja ao lado da minha casa.
A minha ideia de fazer meu próprio café estava indo por água a baixo. Desde ontem resolvi começar a fazer coisas que eu sempre havia evitado fazer por eu considerar "coisas muito complicadas". Eu geralmente evitava arrumar minha casa, havia chegado aqui a mais ou menos um ano e ainda haviam caixas com coisas empilhadas no sótão. Aliás, eu só descobri que aqui tinha um sótão há um mês atrás, antes disso as caixas ficavam empilhadas em um canto do meu quarto.
Comecei a tossir freneticamente quando a fumaça começou a ficar cada vez mais forte. Passos rápidos e pesados foram ouvidos do andar de cima e logo vi a figura de Harry correndo em direção a onde eu estava. Harry passou por mim e pegou um pano em cima do balcão, em seguida desligou o fogão e começou a abanar a cozinha com o pano, tentando fazer com que a fumaça saisse pelas janelas. Quando a fumaça finalmente amenizou, eu estava encostada ao balcão com os braços cruzados e o rosto para o lado da sala, evitando contato com o Harry. Eu sabia que ele iria brigar comigo, provavelmente ele deve ter quase morrido após ter inalado tanta fumaça no quarto enquanto dormia.
—April, o que você estava tentando fazer? — Harry falou calmamente. Olhei para ele e vi que ele estava de cabeça baixa com o cenho franzido.
—Eu estava... Tentando fazer meu café da manhã... Só que não deu muito certo..
—Eu nem sabia que era possível queimar ovos! — Ele perguntou espantado.
—Não era minha intenção queimar eles...- Abaixei minha cabeça e logo percebi que Harry estava apenas usando sua cueca boxer, e nada mais que isso — Harry, por que você não esta usando roupas?
—Eu dormi assim, qual o problema? -Ele perguntou sem entender.
—Espera um pouco, você esta dizendo que você dormiu a noite toda comigo, na minha cama, usando apenas isso?! — Exclamei. Como eu não havia notado isso? Quando senti ontem suas pernas enroscarem na minha, sua pele foi de contato a minha. Harry estava usando calças quando chegou, então eu não deveria ter sentido isso.
—Sim, qual problema?
—Céus, Harry! — Exclamei cobrindo meu rosto com ambas ambas as mãos. Comecei a dar alguns passos para me distanciar dele e fui para o outro lado do balcão — Como eu não havia notado isso! Que vergonha...
Harry parecia estar se divertindo com a minha reação, enquanto eu estava procurando algum buraco para enfiar minha cabeça.
—Não esquenta, April — Ele falou com a expressão neutra, porém podia ser notado que ele estava segurando o riso — Deveriamos esquecer tudo isso e tomar um banho.
—J-juntos?! — Perguntei exaltada.
—Meu Deus, April, como você tem a mente poluída — Ele falou risonho e se debruçou sobre o balcão, deixando sua face próxima a minha — Nunca falei nada sobre tomarmos banho juntos. Apenas falei que deveriamos tomar banho.
—Mas que droga, Harry! — Exclamei tentando não deixar visível a minha vergonha, transformando-a toda em raiva — Você parece gostar de me provocar...
—Talvez eu goste — Respondeu com um sorriso de lado. Antes mesmo que eu pudesse piscar, Harry me deu um beijo rápido.
Por mais que eu tentasse negar, eu já estava me acostumando com esses atos do Harry. Mas o pensamento de que ele poderia voltar com esse Josh ou simplesmente desistir de ficar perto de mim me amedrontava. Eu estava literalmente me apegando ao Harry e quando tudo isso acabasse, eu seria a única a sair machucada.
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