A outra face- Surgindo das cinzas
8 Capítulo 8- Desentendimento
Notas iniciais
Fazia um dia lindo naquele domingo de junho. Uma brisa confortante corria entre os cabelos negros de Santana. A latina estava encostada na lápide do avô. Quase todos os domingos ela ia o visitar, às vezes lia um livro por lá, o lugar era calmo e não tinha problema ficar por ali. Sempre que estava preocupada ou sentia-se mal, Santana ia ao cemitério ‘’conversar’’ com seu avô. Apesar dele não responder, ela de alguma forma se sentia confortada pela presença dele.
Ela estava abraçada aos joelhos com fones de ouvidos e um livro em suas mãos. Quando foi virar a página do livro, um raio de sol tocou sua aliança. A latina fitou o objeto por alguns instantes pensativa, deixando um sorriso bobo escapar de seus lábios:
–Acha mesmo que isso vai dar certo?- uma voz estranha soou do vazio. Ela se assustou tirando rapidamente os fones de ouvido olhando ao redor. Deu de ombros, talvez tenha sido alguém no cemitério que foi fazer uma visita. O clima começou a mudar bruscamente, ficando frio como se fosse nevar a qualquer momento. Santana olhou para o céu que agora estava escuro:
–Nossa... Fiquei muito tempo aqui e nem percebi- disse recolhendo o livro em seu colo preparando-se para levantar.
–E quem sabe não fica por aqui pela eternidade?- disse a voz novamente por trás de Santana que levantou rapidamente olhando ao seu redor, mas nada... Estava sozinha. O lugar começou a parecer assustador, o vento começou a ficar forte e ouvia-se sons horripilantes de corvos nas árvores mais próximas. Santana agarrou a jaqueta a abraçando mais contra si pra afastar o frio que se instalava pelo lugar.
–Quem está aí?- Santana perguntou firme analisando todo o local a procura do dono da voz. O silêncio predominou no local o tornando ainda mais assustador. Santana olhou para a lápide de Felipe e já ia se retirar, mas outra vez ouviu-se a voz:
–Já vai? Eu queria tanto bater um papo- Santana virou-se para encarar a pessoa, seu coração quase para ao ver de quem se tratava- Oi Lopez- a figura encapuzada com a voz modificada do seu passado a encarava encostado na lápide de Felipe, avô de Santana.
–V-Você... M-Mas como pode? Eu vi você morrer... – Santana disse dando um passo pra trás ainda não acreditando no que via.
–Não Santana... Eu não morri... Na verdade eu não posso morrer. Só estava descansando, mas agora estou de volta- disse sentando-se na lápide- Você como sempre linda.
–Isso só pode ser um sonho... É isso! Um sonho como os outros que tive durante aquele desastre de quatro anos atrás- ela disse confiante acreditando no que dizia- Eu só preciso acordar- fechou os olhos por alguns segundos.
–Isso não vai dar certo- ele cantarolou.
–Calado... Eu vou acordar e você vai sumir- Santana brigou sem abrir os olhos. Demorou mais alguns instantes ela abriu os olhos e ele não estava mais lá. Santana deu um sorriso de alívio:
–E aí conseguiu?- ele perguntou próximo ao seu ouvido fazendo Santana se virar bruscamente, se desequilibrando indo de encontro ao chão. A figura estranha gargalhou alto, enquanto Santana arregalava os olhos- Se machucou?- perguntou estendendo a mão para a latina como se fosse ajudá-la a levantar- Essa é a intenção- recolheu a mão a colocando detrás das costas.
–O que você quer comigo?- ela perguntou levantando-se massageando a nádega dolorida.
–Essa pergunta de novo?- ele disse andando de um lado para o outro- Pelo o que me lembro, eu já respondi isso.
–Eu sou inocente de tudo que me acusaram naquela época- Santana explicou procurando pelo seu carro.
–Eu sei...
–Então por que me persegue?- perguntou quase gritando.
–É divertido brincar com você. É tão... Instável. Seu consciente bagunçado me permite isso- respondeu voltando a sentar-se.
–Saia da minha cabeça- ela pediu alterada.
–Não posso- ele disse se aproximando lentamente- Você não deixa.
–Como assim?- Santana perguntou franzindo a testa.
–Santana... Santana... Você é tão bobinha- comentou passando a mão no rosto de Santana que se afastou com o contato- Seus pensamentos me pertencem... Suas emoções, preocupações, instintos e até mesmo o seu futuro.
–Não... Eu tenho controle de mim mesma, sempre tive- ela discordou.
–É mesmo? E com Logan? Foram quantas costelas quebradas, mesmo?- comentou com as mãos nos bolsos- E sua mãe? Você se preocupou com os sentimentos dela quando aquilo tudo aconteceu? E Quinn? Você a afastou mesmo sabendo que ela te amava, mais de uma vez. Você não visitou seu avô por muitos anos e não perdoa seu pai pelo o que ele fez. Por quê?- disse cruzando os braços, Santana abriu a boca pra responder, mas ele completou- Por que é uma filha da mãe egoísta que só pensa em si mesmo e acha que o mundo vai parar só pra ter seus caprichos realizados.
–Quem é você pra me dizer essas coisas?- Santana perguntou alterada, sua raiva e medo só aumentavam ainda mais com a proximidade daquele ser estranho e encapuzado.
–Um conhecedor nato de uma certa latina que tem a cabecinha bagunçada- ele respondeu passando as mãos pelos cabelos de Santana, que mais uma vez se afastou.
–Não me toque- ela pediu sentindo cada vez mais esfriar o local.
–Tolinha- ele gargalhou- Eu posso mais do que você imagina.
–O que você quer comigo?- Santana perguntou novamente e ele mais uma vez se aproximou. Pelas fendas da máscara dava para ver olhos pretos mais que o normal, que de repente começaram a pegar fogo.
–O que eu quero?- ele disse colocando uma mão sobre o ombro de Santana. Ela sentiu arder dolorosamente o local e seus olhos lacrimejaram, mas ela continuou firme- Eu quero seu coração Santana. Vou despedaçá-lo e tirar tudo de bom dele, começando pela vadia da sua namorada- ele disse em um tom sério e horripilante. Santana não conseguia se mexer ou falar alguma coisa, sua garganta queimava- Que tal uma amostra grátis?- ele disse e enfiou sua mão no peito de Santana arrancando seu coração.
–Não... – Santana disse ao acordar extremamente assustada em sua cama. Depois da conversa com Quinn e Kurt, ela tomou um frio e demorado banho. Resolveu deitar um pouco para descansar e deixar Quinn à vontade com seu amigo. Sentou-se na cama, passou a mão no rosto tentando acalmar sua respiração. O sonho foi atordoante, ela sentia-se cansada e confusa. Estava suada e sua cabeça doía, fazia anos que não tinha um sonho tão aterrorizante como aquele. Levantou-se, foi até o banheiro lavar seu rosto com água fria para despertar, ainda sentia o tremor do sonho. Resolveu tomar outro banho para ver se relaxava, encostou sua testa na parede enquanto a água escorria pelo seu corpo, flashes do sonho apitavam em sua cabeça:
‘’ -O que eu quero?- ele disse colocando uma mão sobre o ombro de Santana. Ela sentiu arder dolorosamente o local e seus olhos lacrimejaram, mas ela continuou firme- Eu quero seu coração Santana. Vou despedaçá-lo e tirar tudo de bom dele, começando pela vadia da sua namorada’’.
–O que foi aquilo?- ela se perguntou de olhos fechados ainda tentando processar o que havia sonhado. Santana tinha medo que aquilo significasse alguma coisa, pois quando teve sonhos desse tipo... Alguma coisa muito ruim acontecia. Será que tinha alguma coisa a ver com seu casamento com Quinn? Santana bateu a cabeça levemente na parede tentando afastar esses pensamentos- Calma... Foi só um sonho. Deve ter sido pela confusão com Mason... É isso! Eu só estou cansada- ela disse para si mesma tentando acreditar em suas palavras. Enxugou-se e foi para o seu quarto vestir-se. Saiu de seu quarto indo para a sala, quando chegou lá, encontrou Quinn com suas amigas conversando animadamente:
–Oi amor- Quinn disse levantando-se indo a sua direção lhe dando um selinho- Se sente melhor?- Santana confirmou com um sorriso forçado. Quinn percebeu seu olhar preocupado- Algum problema?
–Não, meu amor. Só estou cansada- Santana explicou e Quinn acariciou seu rosto.
–Por que não dormiu mais um pouco?
–Dormir é a última coisa que eu quero agora- Santana comentou, Quinn franziu o cenho confusa:
–Como?
–Nada... Só não gosto de dormir à tarde, me dá dor de cabeça- Santana disse sorrindo forçadamente.
–Ok então... Vem aqui que eu quero te apresentar umas amigas- Quinn disse arrastando Santana- Meninas... Essa é minha noiva, Santana- ela disse e Santana sorriu mais uma vez de forma forçada.
–Oi- elas disseram juntas.
–Muito prazer- Santana disse e se virou para Quinn- Amor, eu vou para a casa dos nossos pais. Tudo bem?
–Tudo. Você vai jantar por lá?
–Não... Prometo chegar a tempo do jantar- deu um selinho demorado em Quinn e se retirou.
–Bonita- uma das amigas de Quinn comentou- Com uma mulher dessas até eu viro gay- brincou fingindo abanar-se.
–Nem sonhe- Quinn disse brincalhona e as demais sorriram.
–Foi por ela que você virou gay?- Clair, umas das amigas de Quinn perguntou.
–Eu não sou gay- Quinn respondeu- Pelo o menos eu acho que não.
–E por que vai se casar com uma mulher?- Liv, outra amiga perguntou com a sobrancelha arqueada.
–Por que eu amo a San- ela explicou sentando-se.
–E então?- Clair questionou.
–É diferente... Eu amo a Santana, mas só ela me atrai. Nunca cheguei a me atrair por outra mulher. Só rapazes- explicou. Suas amigas ficaram lhe olhando confusas- Eu sei que é estranho e confuso, mas é o suficiente para nós duas. Eu amo a Santana e ela me ama. Já é o bastante- disse sorrindo.
–Continuo sem entender, mas o que importa, não é? Vocês são muito fofas juntas- Clair comentou olhando uma porta retrato com uma foto das duas.
–Quando vai ser o casório?- Kurt perguntou esfregando suas mãos.
–Daqui a dois meses...
/////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
Santana bateu na porta da casa de seus pais e uma Lupi sorridente abriu a porta lhe envolvendo em um abraço apertado:
–Oi minha menina. Como você está?
–Bem Lupi, mas se você continuar me apertando desse jeito eu vou explodir- Santana brincou e Lupi lhe soltou.
–Sua mãe está na cozinha me ajudando com o jantar- Lupi disse e Santana a seguiu.
Maribel estava na cozinha cortando alguns legumes, quando viu a filha entrar na cozinha abriu um enorme sorriso:
–Mi hija- Maribel disse indo ao encontro de Santana a abraçando- Como vai meu amor?
–Bem e a senhora, dona Maribel?
–Melhor agora. Faz tempo que você não aparece por aqui- sua mãe comentou voltando a sua posição antiga.
–Muito trabalho. Eu quase não vejo a senhora na empresa. Está doente mãe?- perguntou preocupada.
–Não querida. Só estou descansando um pouco. Mesmo assim... Você está cuidando muito bem da empresa, não preciso mais ir lá- brincou e as duas riram.
–O Puck está por aqui?
–Está treinando na casa da piscina.
–Estou indo lá, tchau- deu um beijo na bochecha de Maribel e saiu.
–Tchau filha... Vê se convence seu irmão a cortar aquele cabelo- Maribel pediu.
–É mais fácil ele cortar o braço mãe- comentou e sua mãe sorriu.
////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////////
Quando Santana chegou à casa da piscina, Puck socava um saco de areia enquanto escutava música estrondosamente alta.
–Vai ficar surdo maluco- Santana disse diminuindo o som. Puck a olhou e correu na sua direção lhe abraçar- Eca Puck, você está grudento- ela disse se afastando.
–Grudento, mas gostoso- brincou indo buscar cervejas para os dois- A que devo a honra de Santana Lopez vir me visitar?
–Eu queria conversar- Santana respondeu pegando uma cerveja com Puck.
–Conversar?- ele perguntou achando estranho- Pensei que tinha vindo treinar comigo.
–Não estou com vontade- ela disse dando de ombros.
–Aconteceu alguma coisa?- Puck questionou vendo a expressão cansada de Santana.
–Nada de interessante.
–O que foi? Disse que veio conversar comigo e tudo que te pergunto não me responde- Puck perguntou encarando Santana que revirou os olhos- O que foi isso na sua boca?
–Um dos sócios me acertou- respondeu breve.
–Em que hospital ele está?- Puck comentou animado- Você deve ter estraçalhado ele.
–Não... Não fiz nada.
–O que?- perguntou incrédulo- Sério Santana, o que está acontecendo com você?
–Como assim?- ela perguntou franzindo o cenho.
–Você está muito diferente.
–Não Puck... Não estou- disse seca.
–E então?-
–Quer saber Puck, essa conversa está me enchendo- Santana disse levantando-se e Puck segurou seu braço.
–Não vai me contar mesmo o que está acontecendo?
–Já disse que não tenho nada.
–Você está ficando frouxa, sabia?- Puck comentou chateado.
–Eu não estou ficando frouxa. Só não quero conversar sobre assuntos que não existem- disse cruzando os braços. Puck já estava irritado.
–Eu sou seu irmão... Não quer conversar? Então lute comigo. Só assim nos entendemos- Puck praticamente gritou.
–Você quer lutar? Então vamos lutar- Santana disse irritando-se também. Tirou sua jaqueta e sapatos, se posicionado com Puck no tatame.
Ele foi o primeiro a atacar. Santana só desviava dos golpes e nada mais:
–Você não é a mesma. Não está concentrada, sua cabeça não está aqui- Puck disse com desdém- Se defenda- ele disse lhe dando uma rasteira a fazendo cair ficando por cima.
–Claro que sou. Você que é idiota- Santana disse empurrando Puck se levantando em seguida. Ele foi mais uma vez para cima de Santana lhe segurando por trás prendendo seus braços:
–Reaja Santana, mas que droga... — ele pediu gritando- Esse negócio de casamento está mexendo com você. Eu disse que não daria certo.
–Então você não quer que eu case com sua irmã?- Santana disse se soltando afastando-se de Puck.
–-Não é isso... Mas mantenha foco Santana- ele pediu- Você parece uma garotinha amedrontada- provocou.
–Você não sabe de nada- ela gritou. Santana foi na sua direção o tentando imobilizar, mas ele a segurou lhe derrubando a segurando com as pernas.
–Não sei de nada? Não sei de nada?- ele repetiu incrédulo- Eu sou a pessoa que mais conhece você Santana. Não venha com essa- ele disse a segurando mais forte enquanto ela se debatia- Eu posso adivinhar o que você sente só te olhando, mas vejo que você não confia mais em mim pra se abrir- disse soltando Santana e se levantando.
–O que é isso Puck? Mas é claro que eu confio em você. Eu só... – ela tentou se explicar, mas Puck a cortou.
–Vai ter um futuro e se esquecerá de mim. Eu sei como é- ele disse e saiu deixando Santana boquiaberta.
Não era sua intenção chatear Puck. Mas o motivo de sua raiva não parecia ser isso. Santana reconheceu que andava tão ocupada resolvendo o problema dos outros, enquanto seu irmão precisava dela e ela quase não o via.
–Parabéns Santana- ela disse pra si mesma- Mas que droga!
Fale com o autor