A origem da guerra
1 Capítulo 1
Itaitinga – BR, sexta-feira, 13 de junho de 2014
Já passava das dez da manhã quando o agente penitenciário abriu a cela do prisioneiro Marco Antônio da Silva, também conhecido como “Cadeado”. O céu estava completamente nublado e, segundo a FUNCEME, a previsão era de mais chuva para o fim de semana. As nuvens carregadas, porém, não inibiram a determinação do homem negro, de 38 anos, que tinha os cabelos e a barba pintados de loiro. Queria ir – e foi – até a quadra, pois dizia que precisava fazer umas ligações importantes, deixando bem claro que não queria ser incomodado por “seu ninguém”.
Cadeado era cheio de regalias naquele presídio; em sua cela, televisão led, quarenta polegadas, além de notebook, com acesso à internet, cama box, frigobar... e outros utensílios; parecia até um quarto requintado de hotel. Todos os outros presos tinham medo dele e os próprios administradores do presídio o respeitavam, já que o bandido era um dos principais braços do temido traficante Raiden, e só estava ali porque dera alguns “vacilos”, que chamaram a atenção da polícia federal, culminando com sua prisão em uma operação realizada no interior do estado.
Raiden, o temido traficante que controlava a distribuição de drogas na grande Fortaleza e nas regiões metropolitanas, quando ficou sabendo que Cadeado tinha sido capturado pela polícia, decidiu ignorar o fato, para não criar mais problemas.
Porém, o traficante sabia que não podia deixar Cadeado na ociosidade, como a maioria dos presidiários. Pois apesar de ser um sujeito problemático, atrevido e viciado em álcool, drogas e prostitutas, Cadeado era um cara inteligente, organizado e extremamente perigoso; que não vacilava na hora de apertar o gatilho. Respondia por mais de quinze homicídios, além de tráfico, formação de quadrilha, corrupção de menor, latrocínio, lesão corporal... e outros tantos processos. Nem ele mesmo sabia ao certo quantas passagens tinha pela polícia ou por quantos crimes respondia na justiça.
Resolveu então lhe dá um “trabalho”.
De dentro do presídio, com um celular na mão, Cadeado se mostrou mais perigoso do que com uma pistola em punho, passando a organizar vários tipos de ações criminosas, tanto na capital como no interior do estado.
Atentados e ameaças a juízes, promotores, advogados, policiais e políticos que desempenhavam papel importante na luta contra o crime organizado, passaram ser constantes; assim como sequestros, execuções e rebeliões, tanto nos presídios como nas ruas.
Naquele dia, porém, ligava para marcar uma reunião.
Andando sem camisa pela quadra, exibindo seus músculos cheios de tatuagens, que relevam a natureza hedionda de seus crimes, principalmente contra policiais, o bandido de ombros largos e pernas finas, revidava com gestos obscenos as piadinhas dos conhecidos de outras celas enquanto fazia suas importantes ligações.
Despreocupado com a vida, “e o resto que se dane”, Cadeado sorria, andando de um lado para o outro, coçando a virilha e falando palavrões... quando escutou um estranho som vindo do alto. Quando olhou para cima, o bandido viu um vulto escuro desabando do. Em um segundo, o tal vulto se chocou contra a quadra e destruiu uma terça parte do piso de cimento com o impacto da queda.
Cadeado foi empurrado pela onda de choque, caindo com bunda no chão molhado, deixando o Smartphone cair e se espatifar pela quadra. Com olhos esbugalhados, e ainda incrédulo, observou horrorizado aquele vulto negro, de aspecto sombrio, ganhando forma “humana” à medida que se erguia imponente diante dele.
A criatura negra usava uma máscara acobreada, escura e aparentemente metálica, que estava perfeitamente ajustada ao seu rosto, não humano, contrastando com o vermelho vivo de seus olhos, faiscantes como brasas incandescentes do inferno. Sem boca, nariz ou orelhas, apenas algumas linhas negras, da mesma cor de seu traje, que era fosco, e que estava recoberto com uma imponente armadura que parecia ser feita de raríssimas pérolas negras, intensificando ainda mais a beleza sobrenatural do equipamento. Seu antebraço direito estava revestido por um estranho aparelho negro, intimidador, uma espécie de armamento futurista, que mais parecia uma turbina de avião, e estava ornamentado com doze gemas de cores roxas e brilhantes, de formatos hexagonais, fincadas ordenadamente em torno de sua superfície.
Puta merda! Cadeado pensou preocupado ao reconhecer a estranha criatura que lhe olhava com ódio cruel. Agora eu me lasquei!
A “estranha criatura” era um dos implacáveis “Vigilantes”... justiceiros que caçavam e atormentavam a vida de bandidos, pedófilos e, principalmente traficantes, tantos nos bairros da capital como adjacências.
Sim, era ele, uma das “Flechas de Iracema”.
O homem que antes tagarelava fraseados de duplo sentido enquanto falava ao telefone, agora não conseguia sequer emitir um som. Queria gritar, pedir ajuda, mas as cordas vocais não obedeciam às ordens do cérebro. Queria correr para o mais longe possível, mas as pernas finas pareciam presas ao cimento da quadra.
— E aí, “Cadeado”? – Cadeado ouviu a voz áspera e distorcida do justiceiro, soando através da máscara, aparentemente metálica, como uma criatura das trevas, do submundo, enviada do próprio inferno com um único propósito: capturar sua alma.
— Que tal darmos uma voltinha?
Ao fazer o “convite”, o Vigilante deu um salto mortal para trás, no momento em que duas parafernálias desacoplavam de suas panturrilhas e se uniam uma a outra, automaticamente, de maneira rápida, precisa e perfeita sob seus pés – ele ainda no ar –, formando uma espécie de quadro tecnológico.
Cadeado viu dois pequenos “discos”, logo abaixo do “aparelho” tecnológico, emanando energia de cor azul esbranquiçada e girando em sentido anti-horário, anulando a força da gravidade, e quase enlouqueceu.
Ele sabia qual era o real motivo que levou o Vigilante justiceiro a fazer-lhe aquela inesperada “visita”. Tinha que fazer alguma coisa, e rápido, antes que o pior lhe acontecesse. Enfim, instigado pela adrenalina, as pernas finas, atendendo suas preces, resolveram colaborar. O bandido correu feito um louco, aos gritos, tentando alcançar a grade do corredor, que dava acesso ao seu pavilhão e ficava do outro lado da quadra, mas, para sua infelicidade, foi interceptado antes.
O Vigilante manobrou seu quadro tecnológico de maneira habilidosa, girando e contornando um arco imaginário, se posicionando entre o portão que dava acesso ao corredor e o bandido.
— Que foi? – O Vigilante, planando no ar, inquiriu de maneira zombeteira. – Não quer passear comigo?
Nesse exato momento, os presos que ficavam nas celas ao lado da quadra, entendendo o que estava acontecendo, passaram a gritar e a bater nas barras de ferro com toda sorte de objetos disponível, pedindo ajuda, mas o único guarda que estava no portão, há muito, havia corrido. Mas quando o Vigilante os encarou com aqueles olhos de chamas faiscantes, voltaram ao silêncio.
Cadeado aproveitou a oportunidade e correu para o outro lado da quadra, mesmo sabendo que não tinha como fugir por ali.
— Não é uma opção – disse o Vigilante ao bandido enquanto se aproximava flutuando pelo ar em seu quadro tecnológico. – Você vem comigo, “Cadeado”, quer queira, quer não!
Cadeado estava encostado na parede alta e viu quando o justiceiro apontou sua estranha “arma” e com ela disparou um pequeno objeto metálico, que tinha a forma de “x”, atingindo seu peito nu. O bandido deu um grito de horror quando o pequeno objeto metálico o atingiu e liberou uma fina liga transparente e pegajosa, semelhante a teia de uma aranha, que envolveu seu tórax, grudando em sua pele, prendendo-o firmemente.
Chorando como uma criança desesperada tentando se libertar do pequeno objeto com as mãos suadas, não chegou a ver quando os discos do quadro tecnológico do Vigilante, emitindo luzes pulsantes com maior intensidade, o arrebatou para o céu, enegrecido pelas nuvens de chuva.
Levantou os olhos e, por um segundo, imaginou que Vigilante tinha indo embora e o perigo havia passado. De repente, uma linha de energia brilhante e errante, semelhante a um raio, se formou entre a estranha arma do justiceiro e o pequeno objeto, preso ao peito do bandido, puxando seu corpo para alto, de maneira violenta, quase quebrando sua coluna, seguindo no rastro do justiceiro.
Inclinado sobre o quadro e arrastando sua presa para o alto, o Vigilante avançava para as nuvens carregadas, atravessando-as como uma flecha, ao som do trovão e descargas elétricas, até que conseguiu ultrapassá-las.
Então parou... e ali ficou, como quem contempla as belezas de um lugar.
E que lugar!
Ali, acima das nuvens, entre o céu e a terra, o Sol brilhava em todo o seu esplendor, iluminando o céu azul de um mundo sombrio.
Cadeado, ainda chorando, olhou para o tapete cinza ondulante, formado pelas nuvens carregadas, logo abaixo de si, sentindo seu corpo ser agitado como uma folha pela força do vento.
— Eu só quero saber de uma coisa. – A voz do Vigilante soou com estrondo. Cadeado viu as chamas faiscante de seus olhos, olhando para baixo, para onde estava, atravessando sua alma como duas espadas inflamadas. – Se você me disser, deixo você ir, esqueço até que você existe. É só me dizer onde será a reunião.
— O que? – Cadeado protestou olhando para o alto, para o Vigilante. – Eu não sei de reunião nenhuma cara, eu juro, cara, eu juro! – O que não era verdade. Claro que ele sabia, e que era isso que o justiceiro queria, que esse era o real motivo que o levou a fazer-lhe essa visita, mas deu “uma de doido”, o que não convenceu o justiceiro. – Porra, cara! Eu só vendo drogas... e mato pessoas, cara, só isso! Eu não sei de nada cara, é sério!
— Acha que eu sou idiota? – O Vigilante retrucou, sua voz soando como um dos trovões, que ribombavam entre as nuvens, e começou a se mover em seu quadro tecnológico, deixando o bandido ainda mais preocupado. – O Pantera te entregou, não tem mais como fingir!
Cadeado arregalou os olhos. Agora as coisas começavam a fazer sentido. Pantera, o traficante que morava e comandava o tráfico no bairro Planalto Airton Sena, também chamado de Pantanal, um dos poucos que conhecia o segredo de Cadeado. Mas como o justiceiro conseguiu encontra-lo?
— Eu sei que é você quem organiza as reuniões de Raiden! – O justiceiro parecia estar tomado pelo ódio. – Fala logo antes que eu te jogue daqui de cima!
— Não cara, não faz isso, eu tenho filhos cara, puta que pariu! – Cadeado suplicou, aos prantos, ciente de que se não colaborasse, o Vigilante o jogaria e o deixaria cair mesmo, sem mostrar o menor sinal de misericórdia. – Pantera, seu filho da puta...
— Deixa de frescura, porra! – Ordenou o Vigilante que, mesmo com a força do vento ali em cima, mantinha um equilíbrio perfeito sobre o quadro tecnológico. – Diz logo onde será a droga dessa reunião, seu merda!
— Ele vai me matar cara, ele vai me matar – o que não deixava se ser verdade.
— Ah, então Raiden vai te matar? – O Vigilante inquiriu cheio de escárnio. – E tu acha que eu vou fazer o que?
Nesse momento, a linha de energia brilhante e errante, que ligava a estranha arma do justiceiro ao pequeno objeto preso no peito do bandido, se desfez. Cadeado caiu e foi engolido pelas nuvens carregadas enquanto gritava desesperado.
— EU CONTO! EU CONTO! EU CONTO!
Enquanto sacudia os braços tentando se agarrar ao vento, Cadeado viu o Vigilante descendo do céu como uma águia caçadora em busca de sua presa, atravessando as nuvens e apontando a estranha arma que envolvia todo o seu antebraço direito para o pequeno objeto, que ainda estava preso ao seu peito, refazendo a linha de energia brilhante e errante instantaneamente.
Cadeado estava “seguro” novamente.
Olhando para o bandido e demonstrando toda a sua ira com seus olhos vermelhos e faiscantes, o justiceiro perguntou... e pela última vez:
— Onde?
Duas horas depois a polícia militar encontrou o corpo de Cadeado em uma mata, perto do presídio...
O Vigilante surfou nas ondas do vento enquanto seguia sobre as nuvens carregadas em seu quadro tecnológico, até avistar o topo de um prédio inacabado, que ficava em uma área isolada da região metropolitana de Fortaleza. Então inclinou o quadro tecnológico para baixo e desceu até a laje do edifício. Lá encontrou seu amigo e parceiro. Zero, o velocista. Só de olhar para cara dele percebeu que algo tinha acontecido.
— E o bandido? – Zero se adiantou na pergunta.
— Ele não tinha asas – disse o outro desacoplando o quadro de seus pés. O aparelho se dividiu em duas partes e se uniu as “botas” de seu traje, logo atrás das panturrilhas. – Onde você esteve, cara? Tive que fazer o serviço sozinho de novo.
— Bianka disse que deveríamos ficar na cidade – Zero disse, se justificando.
— O Pantera estava na cidade!
— Relaxa, cara – disse o outro.
— Relaxar? – O Vigilante questionou irritado. – Relaxar uma porra! Fui atrás do Pantera, cara, e depois tive que invadir a merda daquele presídio para conseguir a droga da informação! Estou nessa sozinho, cara.
— Ah, não está mesmo – Zero respondeu secamente enquanto acompanhava os passos do amigo que seguia na direção das escadas do edifício. – Olha, cara, o que me trouxe aqui é bem mais importante do que bandidos e traficantes.
— É mesmo?
— É sério, cara, as coisas podem mesmo estar saindo do controle – Zero o deteve antes que descesse. – Tales, Bianka tinha razão quando disse que deveríamos ficar em alerta.
— O que aconteceu? – Tales indagou e o velocista hesitou. – Diz logo, porra!
— Cara, pegaram a Chinesa – disse ele.
— O Que? – Tales indagou admirado. – Como assim “pegaram”?
— Ora, porra – o velocista retrucou um pouco irritado, e admirado pelo fato de seu parceiro não ter entendido sua colocação –, pegaram, derrubaram, mataram – e concluiu –, mandaram bala!
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