A ordem da Lua
2 Um homem sem amor.
Notas iniciais
Fazia duas semanas desde que Maddine havia chegado á mansão de Conde Clarck, Ela tinha agora seu próprio quarto, vestidos novos, uma empregada particular e um novo lugar favorito: a biblioteca do conde. Ela havia passado horas lendo livros e debatendo com ele sobre literatura, arte e música, e se sentia inesperadamente confortável em sua companhia. Todos os criados eram muito gentis, e o conde os tratava como se fossem sua família, entre eles havia um em especial chamado Harry, ele já era um senhor e cuidava de tudo na mansão, depois do conde ele era a pessoa com mais autoridade lá dentro. Certa vez, duas noites depois da inusitada chegada de Maddine a mansão, enquanto procurava pelo conde na enorme casa deparou-se com Harry saindo da biblioteca.
— Oh, Harry! -. Virando-se para encara-la, ele ergueu uma sobrancelha.
— Srta. Maddine, já esta tarde, o que a leva a vagar pelos arredores?
— Bem, estou procurando pelo conde, ele esta na biblioteca? — Harry desviou o olhar, como se aquela fosse uma pergunta inconveniente.
— O conde saiu á negócios, e não irá retornar tão cedo. — Ele se virou em direção á cozinha. — Sugiro que vá dormir. Boa noite Srta.
Ele seguiu o corredor, e sumiu na porta da cozinha. Maddine não tinha certeza, mas achava que Harry não gostava dela, também não gostava da forma como ele disse “negócios”.
Ignorando a sugestão do mordomo, ela entrou na biblioteca e pegou um dos livros que seu amigo conde havia lhe indicado. Sentou-se no confortável divã de couro marrom, e iniciou sua leitura, leu três vezes o mesmo parágrafo, mas seria impossível concentrar-se em ler, não conseguia parar de pensar no conde e em onde ele estaria agora, afinal, quem vai tratar de negócios depois da meia-noite? Com que tipo de negócios ele lidava? Todas as vezes que ela tocava no assunto, ele desconversava e ela não insistia mais.
Colocando o livro de lado, deitou-se no divã e olhou para a mesa do conde, de certa forma sentia sua falta, o vira apenas pela manhã e agora ele também não estava lá, olhou para o relógio e já era quase uma da manhã, sua curiosidade a estava matando; onde diabos estava esse homem? Fechou os olhos por um momento, e viu o conde beijando uma bela mulher. Não... Estaria ele com uma amante? Não havia pensado nisso antes, mas seria algo completamente normal, afinal, ele não era casado.
Um sentimento estranho tomou conta de Maddine, sentiu algo apertado em seu peito, não queria pensar no conde com outra mulher, ela estava ali, não estava? Não precisava sair à noite para se encontrar com cortesãs! Maddine fechou os olhos novamente, no que estava pensando? O conde nunca a veria dessa forma, afinal para ele, ela era apenas uma garota abandonada por sua família, mais nada. Ela pode sentir sua bochecha molhada, estava chorando novamente; havia feito muito isso na última semana, sentia falta de sua mãe desesperadamente, mas não tinha nada que pudesse fazer, sabia disso e ainda assim sentia um imenso vazio. Sua mente foi vagando cada vez mais pelo vazio, e por fim adormeceu, profundamente.
***
Já passava das três da manhã quando conde Clarck chegou em casa, estava cansado e de certa forma satisfeito, a reunião com a Clã de lune noire¹ havia levado apenas metade do tempo estimado, e ele poderia finalmente dormir adequadamente. Subiu as escadas e caminhou pelo corredor em direção ao seu quarto, passou pela porta do quarto de Maddine; parou em frente e pensou em bater na porta, mas ela provavelmente já estava dormindo e não queria incomoda-la.
Depois de tomar um banho quente, seguiu para a biblioteca pretendendo fazer uma pequena pesquisa antes de dormir, quando abriu a porta se surpreendeu com o que viu: Maddine estava deitada no divã de couro, perto da estante central, não vestia nada além de uma camisola rosa claro e um robe da mesma cor; uma das mãos apoiava a cabeça e a outra pendia para um lado, a fraca iluminação fazia com que sua pele brilhasse em dourado, seus lábios estavam entre abertos e os cabelos espalhavam-se por toda parte, o conde era simplesmente fascinado pelo tom de vermelho dos cabelos de Maddine, não era uma cor que se podia achar em qualquer lugar.
— Então é assim que você dorme... — murmurou o conde para si mesmo, ele nunca a havia visto dormir, afinal, seria inadequado observar uma jovem dormir em seus aposentos.
Ele se aproximou da jovem que dormia profundamente, observando-a por um momento; ela tinha longos cílios, e suas maças do rosto pareciam estar sempre rosadas, até mesmo sua sobrancelha era bem desenhada, quase como uma pintura. Afastando pensamentos desnecessários, o conde a pegou em seus braços e se dirigiu a saída, foi o mais cauteloso possível para que ela não acordasse, mas ela dormia profundamente; quando abriu a porta do quarto de Maddine, ela se mexeu e murmurou algo que ele não foi capaz de escutar, seguiu todo o caminho até a cama dela, e a deitou com cuidado; ela quase não se moveu e continuou dormindo, ele a cobriu e preparou-se para sair, porém antes de deixar o aposento, ele a ouviu dizer "Conde", achando que ela havia acordado ele se virou para encara-la, mas ela ainda dormia e tinha uma expressão preocupada no rosto, “estaria ela sonhando comigo?” Pensou o conde, logo depois ela sorriu e se virou para o outro lado, ele agora não podia mais ver seu rosto, mas pôde ver seu sorriso, seja qual fosse o motivo já era suficiente.
Ele então seguiu para o próprio quarto, quando deitou e fechou seus olhos, sua mente se encheu com Maddine, tentou afasta-la mas não era tão fácil, não possuindo apenas uma beleza estonteante, mas também inteligência e um forte espírito. Ele olhou para o quadro que ficava pendurado na parede em cima de sua lareira, o retrato era de uma mulher francesa, de cabelos castanhos, pele bronzeada e olhos tão escuros quanto o mais profundo lago, ela era o completo oposto de Maddine.
Ele sempre pedia conselhos a ela, suas memórias e aquele quadro eram tudo que lhe restara, era o que lhe mantinha vivo, passaram-se seis anos e ele ainda a amava, amava muito. O cansaço e o sono tomaram conta de seu corpo, e ele adormeceu; sonhou com uma bela jovem que possuía o sorriso mais lindo de toda a França, ela caminhava ao seu lado e estava rindo de uma de suas histórias, como sempre; então ela parou, e lhe beijou a face, uma felicidade incomparável tomou conta de seu coração. Afinal aquela era sua amada esposa, Helenne, a jovem mais bela que ele havia conhecido, e a única mulher que ele amou e seria capaz de amar. Maddine sumiu de seus pensamentos, e sua mente foi preenchida com memórias de sua esposa, aquilo aqueceu seu coração, mas Helenne não estava mais lá, nunca mais estaria. Ela se foi há muito tempo e ele se culpava, de certa forma ele era responsável pela morte dela. Conde Clarck não era capaz de amar outra vez, e não permitiria que isso acontecesse novamente. Ele já havia perdido Helenne e toda a sua família, não perderia mais ninguém.
Sentiu uma luz em seu rosto, era o sol, já havia amanhecido e sua noite de sono tinha sido péssima, quando abriu os olhos quase parou de respirar, deparou-se com um par de olhos verdes que o encaravam determinados, antes que pudesse dizer algo, sentiu a suave pressão em seus lábios, sua mente se perdeu no leve gosto de cereja que sentia, e no doce perfume que emanava da mulher que estava em seus braços, logo ele estava correspondendo ao beijo repentino e seus dedos entrelaçaram-se no emaranhado de cachos vermelhos que ele tanto admirava, a situação foi ganhando intensidade e ela deixou escapar um gemido, o conde abriu os olhos e a primeira coisa que viu foi o retrato em sua parede; ele de repente se deu conta do que estava fazendo, e rapidamente afastou a jovem, se levantou e caminhou até a porta, parou antes de sair e olhou para ela, estava sentada na cama dele, seus lábios estavam vermelhos e seu cabelo bagunçado, ela ofegava descontroladamente, ele havia causado isso.
— Me...Me desculpe...Maddine.- Dito isso ele sumiu no corredor, seguiu até a biblioteca e se trancou lá dentro. Deitou-se no divã, e se lembrou de que ela havia dormido ali na noite passada, seu corpo tremia e até mesmo ele estava ofegante. Deus, ele iria enlouquecer, precisava se controlar, ela tinha apenas dezessete anos, e ele vinte e oito, ele era o adulto e deveria agir com maturidade e não se deixar levar por uma criança. Isso, uma criança, Maddine era apenas uma criança que ele havia adotado por ordem do círculo, uma garotinha, era assim que deveria enxerga-la, mas não era fácil. Garotinhas não beijavam daquele jeito.
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