A onda do medo
22 Capitulo 22
Notas iniciais
Kiron
– Força, Clea.- Sussurrou Mikala.
Era a maior onda que eu vi nesta zona.
Estava espantado, surpreso mas ao mesmo tempo com medo por Clea. Ela era incrível mas ficou semanas sem treinar. E era uma onda maior do que ela alguma vez surfou.
–Ei Dave?
Duke bateu-me no ombro.
–Quê?- Murmurei atento na minha menina.
Ele riu.
–Ei Owen vê só. Dave está com os cabelos em pé.
Ambos riram e revirei os olhos cruzando os braços sobre o peito.
–E vocês não? É vossa irmã.
Eles calaram-se olhando um para o outro e de volta para mim.
–Ela é Clea.- Disseram juntos.
Não neguei apenas sorri.
Eles tinham razão.
Ela era Clea.
Ninguém vencia Sullivan.
–Atenção pessoal, Sullivan está em alta.- Disse o júri.
Ela sempre esteve em alta.
–VAI CLECLE!- Gritou Niel sentado no chão com os cães.
Clea fez um Cut Back e saiu de pé.
Estava ganho.
Minha menina tinha ganho.
–BOA!- Gritou Duke.
Corri para a água sentindo-os correr atrás de mim.
Peguei-a no alto girando-a.
–Conseguia, Kiron! Consegui.
Eu ri e beijei-a com força.
–Eu sabia que ias conseguir. És incrível, Sullivan.
–CLEA!- Gritou Keani e logo todos a abraçaram.
–Muito bem bebé.- Disse Nina abraçando-a apertado.
–Tínheis dúvidas? Minha neta é uma Victória.
Clea riu e abraçou a avó.
–Obrigado, vó. Mas o que fazeis aqui?
–Não ia-mos perder este dia por nada, meu amorzinho.
Olhei para o júri e sorri.
–E que tal aquilo ali?- Apontei para o placar.
Eles olharam e Mika gritou.
–Ganhas-te! Ganhas-te!
Abracei Clea tirando-a do meio deles.
–Eu disse-te. Ninguém te vence.
Ela sorriu para mim fazendo meu coração saltar como apenas ela sabe fazer.
–Obrigado, Kiron.
–Porquê? Não fiz nada.
Ela negou com a cabeça.
–Estavas aqui. Foi a melhor coisa que podias ter feito.
–Eu sempre vim ás tuas competições, Sullivan. Sempre.
–Eu sei. Mas desta vez é diferente. Desta vez estás aqui. Comigo. O melhor presente de todos.
Sorri com as sobrancelhas levantadas.
–Então não queres o teu presente?
–Que presente?
Aproximei-me da orelha dela enquanto tirava uma caixa vermelha do bolso das calças.
–Este presente.- Sussurrei.
Ela olhou para a caixa animada.
–O que é? O que é?
Ri e beijei-a na testa.
–Abre-o.
Ela abriu-o sem demora e mordeu o lábio quando viu o interior.
–Ó Kiron… é lindo.
Lentamente tirou o colar com um pigmente em forma de prancha que dizia “Nunca se desiste de algo que se ama!”.
Peguei nele e pulo ao redor do pescoço dela.
–Obrigado, Kiron, obrigado.
Ela saltou pra me abraçar e enterrei a cabeça no sedoso cabelo loiro dela.
–Para ti, sempre.
–O meu deus, são os homens de Gold Coast!- Ouvi Mikala dizer.
Dois homens de terno aproximaram-se nós.
Terno? Numa praia? Sério?
–Bom-dia, Clea. Sou Jack Danieli e o meu colega Robert Col. Deves saber quem somos, não?
–Claro. Gold Coast.
Ele assentiu sorrindo.
–Soubemos do teu acidente por ti e não estávamos á espera de te encontrarmos aqui. Ainda precisávamos de uma surfista, então decidimos vir ver quem seguiria na fila. Mas o espectáculo que deste foi impressionante. Se quiseres o lugar é teu.
Fiquei tenso mesmo sem querer.
Ser patrocinado por Gold Coast era incrível mas isso a levaria daqui. Clea teria de se mudar para o outro lado do globo.
–Obrigado senhor Danieli, mas não.
Olhei surpreso para Clea.
Era o sonho dela.
–Sullivan?
Ela sorriu para mim e apertou-me a mão.
–Eu não quero.
–É o teu sonho.
Ela olhou em volta e negou.
–Não. Meu sonho está aqui. Tu estás aqui.- Sussurrou a última parte apenas para mim.
Era lindo mas… estava a deitar tudo fora.
–Clea, não desperdices esta oportunidade.
–Não estou.- Voltou-se para os homens.- Lamento, mas já aceitei outro patrocínio.
–JÁ!?- Perguntámos todos surpresos.
–Sim.
–Qual?- Perguntou o pai dela.
Clea sorriu para mim.
–Dave´s.
O QUÊ?!
–Tu… meu pai vai patrocinar-te?
–Sim. Ele falou comigo antes do tubarão aparecer. Ele disse-me que se quisesse o lugar ele era meu. Mesmo depois que perdi a visão ele não retirou o convite. De manhã eu liguei-lhe e aceitei.
–Dave´s não chega aos nossos calcanhares.- Bufou Robert.
–Ai é que te enganas.
Vira-mo-nos para meu pai que andou até nós com os olhos postos nos homens de Gold Coast.
–Não é preciso muito para fazer de Clea uma estrela. Sabia que ela o era antes do acidente e continuei a saber mesmo quando estava cega. É uma miúda forte e lutadora. Tinha a certeza de que ultrapassaria uma simples contra tempo. E para vossa informação, ela já tem duas entrevistas marcadas e uma sessão de fotos. Agora retirai-vos.
Resmungando eles partiram.
Olhei para meu pai confuso, surpreso e até mesmo orgulhoso.
–Não tinhas desistido?
Ele olhou para mim e sorriu um pouco.
– Pensei em desistir. Mas então vi Clea e a forma como ela se entrega a uma onda. Não ia deixar que ela se afasta-se daqui. Ela pertence aqui. Pertence a ti.
Franzi a testa espantado.
–Não penses que eu não sabia. Só um cego não via. Agora venham. Vamos comemorar.
Eles foram andado e fiquei onde estava com Clea nos braços a ver a forma como nossos pais falavam sobre o futuro dela.
–Então, gostaste do meu presente?- Perguntou-me sorrindo.
Ri e levantei-a fazendo-a gritar.
–És louca mas eu amo-te.
Ela riu e beijou-me lentamente.
–Eu também te amo. E se agora fossemos acabar o que começamos?
Ela pegou na prancha dela e olhou-me desafiando-me.
–Será que tens pedalada para me derrotar?
Sorri e peguei na prancha de Keani.
–Podes ter a certeza, Sullivan. E se fizéssemos uma aposta? Quem vencer fica criado do outro durante uma semana?
Ela sorriu e estendeu-me a mão.
–Combinado.
Peguei-lhe na mão.
–Mas que fique combinado que lá por seres meu namorado, não te vou facilitar.
–E eu não esperava outra coisa de ti, Sullivan.
O mar cria ilusões, a onda as questões e o surf as respostas que eu descobri.
Fim!

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