A nova Ellcrys
1 Capítulo único
Notas iniciais
Wil já tinha avisado Eretria. Ele disse a ela que Amberle decidiu se sacrificar para se transformar na Ellcrys e arrastar todos os demônios de volta à Proibição. O primeiro instinto da nômade foi achar que aquilo tudo era brincadeira. Bobeira, a forma do meio-elfo de dizer outra coisa, de dizer que Amberle estava longe, mas que voltaria logo. Depois, conforme Wil foi explicando melhor, Eretria percebeu que não havia volta. Amberle não tinha ido a lugar algum... Ela estava lá, no Jardim Real ao reino de Arbolon, esticando seus galhos de folhas rubras por cima das outras árvores de forma imponente.
Essa percepção foi um choque. A nômade engoliu o choro para se retirar da presença de Wil e foi chorar sozinha, consigo mesma, tentando assentar na mente a ideia de que jamais veria aquele sorriso bobo que realçava as bochechas gorduchas de Amberle novamente. Jamais teria a oportunidade de ceder a aquele olhar pidão da princesa élfica, realizado quando ela queria que Eretria admitisse seus sentimentos verdadeiros. Jamais analisaria a cor dos olhos de Amberle, aquele âmbar que condiz com seu nome, aquele marrom claro esverdeado e mel. É, o choque foi intenso.
Até que Eretria decidiu visitar Amberle – ou a Ellcrys, como agora era chamada. Passaram-se semanas. Tudo estava em paz, e ela era extremamente bem vinda ao reino dos elfos, já que a conciliação entre os elfos e os humanos havia sido parcialmente bem sucedida.
Os guardas élficos fecharam os portões atrás de uma Eretria um tanto tímida. Ela adentrara o salão do jardim real, onde ficava a Ellcrys. Estava sozinha, pediu especificamente a privacidade ao rei Ander, que lhe foi concedida de bom grado. Wil se ofereceu para ir junto, porém a nômade cordialmente dispensou sua oferta (“Eu já falei que vou sozinha, Wil! Que droga! Deixe-me em paz por um segundo!”).
Eretria prendeu a respiração ao se deparar com a Ellcrys.
Era aquela árvore alta, imensa, de troncos grossos e raízes onduladas; com galhos elevados, pipocados de folhas vermelhas que brilhavam com a luz do sol que as banhava. Havia um ar mágico ao redor daquela árvore. Ela não era mais aquela antiga Ellcrys: era uma nova, cheia de vitalidade. “Porque não é a Ellcrys, é a Amberle”.
A nômade soltou um suspiro após ter passado os olhos escuros por toda a extensão da Ellcrys, analisando cada detalhe dela. Aproximou-se com passos lentos; as mãos formando punhos fechados ao lado do corpo à medida que as emoções e sensações começavam a borbulhar seu sangue.
— Amberle?
Como o esperado, não houve resposta. A voz de Eretria ecoou solitária pelo salão.
A nômade se aproximou mais do tronco da árvore. Subiu os singelos degraus e se achegou o suficiente para que pudesse, temerosamente, depositar uma mão por cima da grossa casca da árvore. Ela olhou para cima como se supusesse que os olhos de Amberle estariam perto da copa. Seus lábios estavam partidos, aguardando e ansiando por alguma réplica.
Não houve retorno.
— Eu não acredito que você está aqui dentro — ela soltou um riso nervoso e abaixou a cabeça, balançando-a de leve de um lado para o outro, dispensando a loucura que tinha acontecido. — Eu não acredito que você se tornou isto aqui. É idiotice demais.
E então, o local do tronco da árvore sobre o qual Eretria depositara sua mão começou a esquentar. Não era um calor insuportável, somente um calor... Humano. Como se Amberle estivesse dizendo para Eretria para que acreditasse, para que retirasse o que havia dito. E esse foi o estopim. Eretria sentiu o calor sob sua palma e ergueu os olhos de novo para ver a árvore diante de si, só que sua expressão não tinha mais escárnio ou dúvidas: estava repleta de indignação e tristeza.
— Não! — Eretria desencostou a mão do tronco, relutante e alterada. Até mesmo levantou a voz para a Ellcrys. — Pare com isso! Pare com essa brincadeira, Amberle, não é engraçado! Você não pode fazer isso!
Sem que a nômade percebesse, os portões foram minimamente abertos, só o suficiente para que Wil deslizasse metade do corpo para dentro e observasse Eretria com dor nos olhos. Ele escutou a alteração no comportamento da morena e decidiu ver se tudo estava bem. Porém, achou melhor não revelar a sua presença, pois a comunicação entre Amberle e Eretria ainda não tinha terminado.
— Você entendeu? Pare com essa droga! — Eretria continuou. Seus olhos se encheram de lágrimas que ainda não caíram, só ficaram ali embaçando sua visão. — Nós tínhamos a semente. Nós derrotamos aquelas bruxas, nós chegamos ao Fogossangue! Era... Era para você plantar a semente... E não ser a semente...
Finalmente seus olhos cederam às lágrimas e elas iniciaram sua queda dramática pelo rosto da nômade. Eretria tinha assumido uma posição de ataque. Cuspia as palavras com ardor, como se elas pudessem ferir.
— Eu te odeio, Amberle — ela murmurou, limpando a bochecha aguada com a manga da sua blusa mostarda. — Eu odeio você, você é uma idiota e eu te odiei desde o começo.
Houve mais uma pausa para ela se recompor, e Wil ali atrás respirou fundo, sentindo muito pela nômade.
— Claro que você enxergou através de mim — Eretria tinha a voz baixa agora; ela pegou uma das lágrimas com a mão e a esfregou na outra, só para ter algo que fazer, já que não queria encarar a Ellcrys. — Claro que viu que eu não te odiava, e nem te odiei desde o começo. Eu sempre... Gostei de você.
Wil levantou aquele sorrisinho de canto de boca dele, apesar de estar triste.
— Gostei de como você lutava, de como se impunha diante de mim e de todo mundo. De como você era estúpida o suficiente para sair gritando aos quatro ventos que era “Amberle Elessedil, neta de Eventine Elessedil, o rei de Arbolon”, por mais que todos fossem inimigos dos elfos — ela soltou uma risadinha exausta e derrotada. Olhou para cima, para as folhas rubras. — Gosto de quando você se intromete na minha vida, porque... — E então ela parou, porque viu o erro que cometeu. — Gostava... de quando você se intrometia... na minha vida...
Outra pausa para Eretria respirar fundo e tentar medir as suas palavras, porque ela sabia que Amberle estava ouvindo. Suas costas arquearam com o movimento.
— E aí de repente você decide se sacrificar pelas Quatro Terras e vira uma droga de uma árvore? — a expressão da nômade se tornou mais uma vez inconformada, e até mesmo brava. — É assim que tem que ser? É assim que era pra ser? Não! Não era para ser assim! Era para você estar viva, aqui respirando, para ficar comigo!
Ela mesma se surpreendeu com o que disse. Tanto que até mesmo parou de falar nos momentos seguintes, repensando nas palavras que proferira. Wil segurou a respiração para tentar esconder o espanto que a confissão de Eretria causou em seu ser.
Com um rosto enojado pelo que havia dito e pelos sentimentos que Amberle trazia para ela, Eretria parou de chorar, e foi como se vestisse uma máscara de indiferença, ajeitando a postura e passando os braços neles mesmos.
— Vá se ferrar, Amberle — a voz da nômade se partiu ao meio. — Você me escutou? Vá se ferrar! Vá. Se. Ferrar!
Ela começou a dar tapas no tronco da árvore. Tapas fortes.
— Você mereceu ter virado essa árvore ridícula!
Os tapas se transformaram em socos. Socos intensos, que machucavam mais as mãos de Eretria do que o casco polido e inquebrável da Ellcrys.
— Ninguém precisa de você mesmo! Você é uma besta! Elfa imbecil! Árvore miserável!
Foi quando Wil viu a necessidade de se intrometer, senão as mãos de Eretria ficariam em carne viva, se é que já não o estavam. Ele passou completamente pelos portões e gritou:
— Eretria!
Só que a nômade não parou. Continuou xingando Amberle e socando a Ellcrys com toda a força que seu corpo pequeno possuía. Até que o meio-elfo loiro a agarrou pela cintura e a puxou para alguns passos de distância da Ellcrys. Ele ficou segurando Eretria pelos ombros, e ela cedeu a todo o tormento de emoções que mesclava seu coração e sua mente e o abraçou com força, soluçando em um choro que não terminaria tão logo. Suas mãos estavam sangrando.
— Eu também sinto falta dela — Wil sussurrou baixo para a nômade, abraçando-a carinhosamente para lhe dar apoio. Ele olhou por cima do ombro para a Ellcrys e suspirou. — Nós ainda vamos achar uma forma de trazê-la de volta.
Eretria reuniu forças para erguer a cabeça para Wil e olhá-lo por olhos molhados e chorosos.
— Como? — ela perguntou.
— Eu ainda não sei. Mas vamos descobrir. Talvez possamos encontrar algo que substitua a Amberle na Ellcrys, e aí a Ellcrys vai poder viver sem depender de alguém.
Essas palavras pareceram acalmar Eretria. Os solavancos que ela impunha ao corpo de Wil com o choro foram ficando mais fracos, até enfim se cessarem.
— Com certeza deve existir algo... quero dizer... algo mágico... tipo as Pedras Élficas — ela sibilou.
Wil abaixou a cabeça e olhou para ela, concordando com esperança nos olhos azuis. Ele sorriu, e isso arrancou dela um comecinho de sorriso também.
— Vamos, vamos cuidar das suas mãos e começar a investigar isso já — o meio-elfo esticou um braço para pegar os ombros de Eretria e conduzi-la para fora do salão do Jardim Real.
Enquanto andavam, antes de chegarem ao portal, Eretria se virou para trás uma última vez para olhar a Ellcrys agora com outros olhos. Com olhos de esperança, com olhos de expectativa. Com olhos de amor.
— Nós vamos tirar você daí, princesa — ela disse. — Farei qualquer coisa para isso acontecer.
E ela e Wil saíram do salão.
Sem que qualquer pessoa percebesse, a Ellcrys se esquentou inteira. Se uma árvore pudesse ruborizar, ela o teria feito. Amberle sentiu na pele – bem, no casco – todas as palavras de Eretria, e sabia que elas eram promessas cem por cento válidas. Ficou feliz por saber que seus sentimentos eram recíprocos e se crucificou “mentalmente” por sentir a dor de estar afastada da nômade.
Amberle, que tinha aceitado seu destino com relutância, que não tinha mais por que pensar e pensar, já que nada mais aconteceria, sentiu uma esperança brotar dentro de si. Uma nova luz, uma nova salvação. Talvez ela pudesse voltar a ser uma elfa de novo. Talvez pudesse sair da Ellcrys e continuar sua vida ao lado de Eretria, e Wil. Talvez... Tudo terminasse bem!
Wil e Eretria embarcariam em uma nova jornada, com a ajuda de Allanon, para encontrar o que quer que fosse que pudesse substituir Amberle e tirá-la da Ellcrys. Esse ciclo cheio de sacrifícios tinha de terminar. Não era razoável por parte da Ellcrys exigir uma vida toda vez que começasse a falhar. Não era justo. E Amberle tinha a certeza, em seu coração e em sua alma, de que Wil e Eretria não iriam falhar.
Fim.
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