Notas iniciais
Eu lamento ter demorado tanto para postar este novo capítulo. Mil perdões. Espero que a demora seja compensada em qualidade - embora eu não o tenha revisado hihi. Hope you enjoy it!

O homem no centro da sala me olhava com carinho.

Eu estava paralisada. O caminho inteiro eu estava dizendo a mim mesma que não estava mais sozinha, que agora tinha uma família, mas dizer isso e ver que é realidade são coisas completamente diferentes.

O Senhor abriu um sorriso e eu sorri também, por reflexo. E antes mesmo de pensar, eu corri em sua direção e o abracei. Era real. Senti os braços dele ao meu redor e me aconcheguei no abraço dele.

—Eu procurei por você por tanto tempo, minha querida – disse ele.

A sensação de acolhimento nunca foi algo que eu tive, foi algo que eu sempre desejei. E agora eu tinha. As lágrimas começaram a cair de meus olhos, mesmo que eu não quisesse chorar.

—Não chore, querida! — disse o meu avô. Meu avô. É, eu gostei de como isso soa.

Desajeitadamente, tentei passar as mãos no rosto para limpar o rastro das lágrimas.

—São lágrimas de felicidade – eu disse.

Vovô tocou meu rosto com a mão esquerda gentilmente e me olhou profundamente nos olhos. Parecia estar enxergando ali algo familiar, pois seu rosto me mostrou um sorriso triste.

—Tem os olhos do seu pai, criança. Acho que é verdade o que dizem... Se viver por tempo suficiente, vai ver o mesmo olhar em pessoas diferentes. Tenho sorte em ter você de volta.

Ele me deu outro abraço. Não foi um abraço tão apertado como o primeiro, um abraço de reencontro, não. Foi um abraço delicado, quase com medo de que eu me fosse.

Eu entendi. Meus pais estavam mortos e eu era parecida.

Quando fui deixada no orfanato, não havia nenhuma fotografia de meus pais comigo, nem meus documentos ou algum objeto que servisse de lembrança, como outras crianças tinham. Mas no fundo, eu sabia. Sabia que parecia fisicamente com meus pais, afinal a genética nunca falha. Costumava fantasiar, toda vez que via uma mulher parecida comigo, que ela era minha mãe e viria até o orfanato me levar para casa.

Bom, a fantasia não havia se tornado realidade. Nenhuma mulher – que se parecesse comigo – foi ao orfanato me buscar.

—Vamos, minha querida – disse o vovô me guiando até a escada. — Eu pedi que Phasma preparasse um quarto para você, já que não entendo tão bem o gosto das moças da sua idade, mas saiba que pode mudar qualquer coisa. Ou até mesmo, mudar tudo.

Terminando de subir a escada, andamos pelo corredor da esquerda. Havia quadros e vasos de flores dispostos sobre alguns móveis que ficavam entre uma e outra porta branca. Próxima do fim do corredor, mas não sendo a última porta, vovô indicou que era meu quarto.

Aquilo não era algo realmente importante para mim. Sinceramente, eu poderia dormir em qualquer lugar. Mas ele parecia tão animado que eu não consegui não sorrir também. Eu nem havia aberto as portas ainda e já havia que tinha decidido que gostava do cômodo, pois isso o faria feliz.

Com isso em mente, abri as portas duplas e me deparei com muitos mais que o esperado.

Eu tinha consciência de que a casa era grande, eu vi isso do lado de fora, mas as proporções do quarto me fizeram ter outra noção de espaço. Caberiam todas as crianças do orfanato tranquilamente se quisesse trazê-las. Céus, caberiam muitas mais!

—Entre – disse o senhor parado ao meu lado. — Eu quero que se sinta confortável, minha criança. Esta é sua casa.

Eu não me movi. E tinha quase certeza que o choque que senti ao ver o que seria meu quarto ainda estava estampando meu rosto.

—Venha – disse meu avô, pegando minha mão e me levando para dentro do aposento.

As paredes de cor clara pareciam refletir a luz que entrava pelas janelas, mesmo com as cortinas que bloqueavam parcialmente sua entrada. Havia uma grande cama no centro do quarto, que parecia ter saído de algum conto de fadas. Do lado direito, próximo ao canto da parede, havia uma poltrona rosa bebê com uma luminária logo ao lado. O canto perfeito para ler. Do lado esquerdo, havia uma televisão grande fixada na parede, com outro sofá ali, mas esse era de um tom claro de azul, com um tapete branco sobre o chão e várias almofadas decorativas.

—Naquelas portas — vovô aponta para um par de portas no fundo do quarto que sequer havia notado que existiam. — Ficam seu closet e seu banheiro. Eu não sabia ao certo o que comprar, mas espero que Phasma tenha conseguido tudo o que possa precisar por hora. Com o tempo, pode ir decorando tudo a seu gosto, bem como comprar roupas com seu estilo.

Parecia bom demais para ser real. Era de verdade? Será que tudo isso não passava de um delírio? Eu teria ficado louca de vez?

—Eu vou deixar você se instalar agora, querida. Preciso resolver algumas coisas – disse ele, dando um leve aperto em minha mão e saindo do quarto.

Eu estava sozinha agora, e o ambiente parecia ainda maior.

De repente me senti extremamente pequena.

Com passos não tão decididos como eu gostaria que fossem, fui até as cortinas que bloqueavam a luz das janelas e as abri dando de cara com uma varanda. Não era só uma janela, era uma porta. A sensação de adentrar um mundo totalmente novo pareceu um pouco melhor enquanto eu sentia a luz do sol contra minha pele. Era como ter achado um guarda-roupa que te leva para outro mundo. Seria aqui Nárnia? Se fosse Nárnia, eu seria Lucia ou Suzana?

Reanimada pelo calor do sol, voltei para dentro do quarto e me joguei na cama. Era tão macia que me fazia ter vontade de pular! Ponderei por um segundo se devia, mas antes mesmo de terminar de listar os contras eu já estava pulando.

Depois de alguns segundos, as portas no canto do quarto chamaram minha atenção, então fui até elas.

Será que a Nárnia de verdade estava do outro lado? Ri com minha própria piada, mesmo sabendo que era ruim.

Havia roupas, bolsas e sapatos expostos nas paredes ao meu redor e no fim daquela trilha, havia um espelho enorme. Era muito legal ter coisas que não caberiam apenas em uma mala ou uma mochila, mas não dei muita atenção àquilo.

Sai do closet e me dirigi as outras portas, que também eram duplas e, em tese, me levariam ao banheiro.

Ta legal... eu estava em Nárnia. Aquilo só poderia ser de outro mundo.

Havia uma banheira enorme ali. Além de uma bancada e o que parecia uma parede feita de plantas. Me aproximei da parede e toquei uma das folhas. Era de verdade!

Só por garantia, tateei o que havia por trás das plantas e fiquei feliz em saber que era uma parede sólida. Seria estranho ter apenas plantas como um divisor de ambientes.

Me aproximei da bancada onde havia uma pia e um espelho enorme fixado na parede. Senti o frio do material contra minhas mãos. Parecia ser feito de um tipo de pedra clara, muito diferente dos banheiros do orfanato.

Acionei a torneira e peguei um punhado de água para passar no rosto. A sensação da água fria em minha pele me fez notar que eu estava mesmo acordada. Era real.

Voltei ao quarto com um desejo crescente em meu peito de escrever. Já havia virado um hábito. Peguei um caderno e uma caneta e sai do quarto a procura do que seria o melhor lugar para me conectar comigo mesma.

Atravessei o infindável corredor de meu quarto e desci as escadas, talvez houvesse uma sala lá em baixo. Ou melhor, uma biblioteca!

Quando cheguei ao último degrau da escada me deparei com a luz do sol que ainda banhava a propriedade e entrava pela porta aberta. Deixei meus pés me guiarem para fora, como se já conhecessem todo o lugar.

Atravessei o gramado me dirigindo sem saber exatamente para onde, parecia que havia algo me puxando.

Chegando ao que parecia ser o limite da propriedade, com mais árvores de porte médio e uma cerca que eu mesma poderia pular se quisesse, me deparei com um banco branco. Me sentei ali e observei o sol se pondo bem a minha frente. Era uma visão maravilhosa.

Arranquei uma das folhas do caderno que antes era da aula de história e pus-me a escrever.

Lista de coisas que quero fazer: foi o que escrevi no topo da folha.

Fazer bons amigos foi o primeiro item que me veio à mente. Eu não sabia ainda o tamanho exato de minha família, mas não ter pais já era bem solitário. Talvez amigos me ajudassem a suprir esse vazio.

Fazer uma viagem. Era bobo, para a maior parte das pessoas, mas eu não podia sair muito devido a rigidez do orfanato. Conhecer um lugar novo foi algo que eu sempre quis fazer.

Ter uma festa de aniversário. Não é que eu nunca tenha comemorado meu aniversário, é que nunca foi como eu gostaria que fosse. Não tinha nenhuma memória de comemorar com pessoas que eu amasse e ter um bolo só para mim.

Ter um encontro em um parque de diversões. Uma das minhas memórias mais antigas e preciosas era de minha mãe me dizendo que seu primeiro encontro com meu pai foi em um parque de diversões, e, embora com o passar dos anos a memória tenha se tornado desfocada e eu já não tenha mais tanta certeza de como era sua voz ao me contar, sempre sonhei em fazer isso.

Havia ainda mais coisas que eu queria fazer, coisas a pôr na lista. Mas o destino é uma força imprevisível e certeira. Assim, uma rajada de vento soprou através do imenso jardim onde eu estava fazendo meus cabelos voarem em direção a meu rosto e levando minha folha de desejos para longe.

Eu tentei pegar, mas era tarde demais, a folha já estava para além da cerca da propriedade e continuava a voar.

Notas finais
Gostaria de agradecer a você que leu até aqui. Obrigado!