Notas iniciais
O final dessa vida- A história continua em "A mulher do retrato-2" *tive um problema com a formatação deste capítulo*

“Meu amor,

Parto na quinta-feira pela manhã para São Paulo. Esperarei por você até lá e até o último minuto em Porto Alegre, antes do embarque. Desejo imensamente que ainda possa perdoar meus erros. Viver sem teu amor, tenha certeza, será uma provação imensa para mim.

Vitória." Luíza já havia se decidido mas sabia que precisava olhar em seus olhos uma última vez. Talvez, se não o fizesse, se arrependesse no futuro. Disse ao menino, portador da carta, que iria, ela mesma, até o casarão falar com a senhora. Era só o tempo de mandar selar seu cavalo caso ele quisesse adiantar-se em levar o recado. Cavalgou sem pressa, o pensamento vazio. Não tinha ânsia de vê-la como nas tantas outras vezes. Apeou na frente do casarão e, honestamente, ainda pensou em desistir de entrar. Mas devia a si mesma este desfecho. Zilda abriu-lhe a porta com um sorriso tímido. Luíza olhou-a com pena, afinal, toda a criadagem sentia-se afetada pela fofoca na cidade. A governanta disse que a condessa lhe esperava em seu quarto, que subisse. Luíza encontrou Vitória de pé, à janela. Não virou-se para recebê-la. A jovem também não caminhou em sua direção. – Fiquei com medo que não viesse! – Eu pensei, mesmo, em não vir, mas acho que me deve uma explicação, não? O engraçado- e Luíza riu-se com ironia- é que nem eu entendo porque ouvi-la, nada vai mudar em meu coração. – Agora, e só agora, você realmente sabe de todo meu passado, de tudo que fiz. Vitória virou-se e olhou a menina nos olhos.- Já lhe disse uma vez que não me arrependo de nada e talvez isso é que faça de mim uma pessoa má. Tentei afastá-la e não pude. Saiba que tudo que fiz foi para defender a pessoa que eu mais amava sem medir as consequências de meus atos. O amor, para mim, justifica qualquer coisa. – Justifica mandar matar alguém... – Qualquer coisa...Imaginei que não quisesse mais me ver mas precisava saber se ao menos um resquício do amor que me dedicara sobreviveu à verdade. Eu não poderia ir embora sem ter certeza de que, realmente, tudo acabou. –Vitória, para mim parece tudo muito simples agora: a mulher que amei não é nem nunca foi você. Culpa minha ter idealizado alguém que não existe...culpa tua não ter me dito logo toda a verdade... – Por medo de perdê-la...ao menos a tive por algum tempo, ao menos tive seu amor, mesmo não o merecendo. – Teve uma amor que à base de mentiras. Às custas do meu sofrimento! – O amor que sinto por você não é uma mentira! – Não me importa...eu não lhe tenho mais amor! É tão estranho...é como se a Vitória que amei tivesse morrido aos poucos e definitivamente naquela noite. – Fui eu que você teve em seus braços todas as vezes que nos amamos...fala como se fosse sua imaginação...ao menos algo em mim você amava. É muito nova ainda para saber disso, mas ninguém é totalmente bom ou mal, Luíza! – Como eu acabei de lhe dizer, o que eu amava em você morreu com suas mentiras. Uma assassina? É horrível...Eu nem consigo mais olhar para você sem sentir deprezo. Nesse momento, Luíza finalmente sucumbiu ao pranto que guarva desde aquela noite e caiu sobre seus joelhos. Vitória tentou aproximar-se mas ela lhe fez sinal que nada fizesse. – Meu Deus, este quarto...eu fui tão feliz aqui...agora tudo não vai ter passado de um sonho... – Reflita, por favor, não é possível que não sinta mais absolutamente nada por mim... Luíza levantou os olhos e obsevou novamente Vitória por longos segundos. – Talvez sinta! Mas o desprezo que sinto por você é muito, muito mais forte que qualquer coisa que ainda possa existir no meu peito! A jovem levantou-se enxugando as lágrimas. – Não me deixe, Luíza! Eu imploro, não me deixe. Em nome de tudo que vivemos, você ainda tem alguns dias para decidir. – Em nome de tudo o que vivemos é que vou deixar esta casa e a senhora antes que eu me decepcione ainda mais. Não lhe desejo mal, condessa, embora imagino que não poderá ser senão infeliz! Espero que possa continuar sua vida mesmo sem seu filho, sinceramente. – Eu vou esperá-la em Porto Alegre, antes do embarque, até o último minuto! Luíza fez-lhe uma saudação formal e deixou o quarto. Na volta para casa, galopou até um lago próximo e deixou-se ali, às margens, desmanchada em pranto. Sentia, só agora, como se, de fato, a mulher que amava desesperadamente tivesse morrido, desaparecido, e contra isso nada podia fazer. Os Castellini voltaram para São Paulo e em Belarrosa não ouviu-se mais falar deles, todas as histórias logo acabaram. Luíza, no ano seguinte, passou umas férias na casa de uma tia materna, numa cidade próxima, onde conheceu um primo de segundo grau. Decidiu casar-se com ele, o que seus pais aprovaram imensamente. Não o amava, mas a vida lhe era agradável, ao lado de três filhos, todos meninos. Nunca contou sobre seu romance com Vitória nem ao marido nem a ninguém. Muitos anos depois, quase vinte, em visita a mãe, soube, através dela, que tinha notícia de que a condessa havia morrido. Luíza sentiu o peito apertar-lhe, mesmo tantos anos depois. De Bernardo, sabia-se que morava nas redondezas com a mulher e não lhe avisaram de nada. Luíza pediu que lhe selassem um cavalo e foi até o casarão. Velho, abandonado, nem o jardim de rosas, que mesmo com a casa vazia, anos antes, se mantinha cuidado, aparentava a beleza de antigamente. Apeou, sentou-se no chão por longo tempo a observar a janela do quarto principal. As memórias daqueles dias nunca lhe haviam saído da mente, mas agora voltavam como fantasmas, confundiam-se, entrelaçavam-se. Sentia, ao menos, que havia conhecido o amor. Tantas pessoas passavam pela vida sem nunca senti-lo. Mesmo sendo uma ilusão ao final, foi real por muito tempo. Caminhou alguns metros, colheu um maço de flores do mato e depositou na frente do portão. Ela já havia sepultado Vitória em seu coração há muito tempo mas agora, com a notícia de sua morte, tudo acabava, definitivamente. Fez uma oração por sua alma e agradeceu a Deus por tê-la colocado em seu caminho. Pensava, afinal, que o amor era uma bênção. O que viveu lhe fizera o que era hoje. Não importava tudo o que tinha acontecido, não se arrependia de nada. Nunca fora tão feliz em sua vida e, se pudesse voltar no tempo, teria acompanhado, da mesma forma, os pais no jantar de recepção dos Castellini.
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