A mulher do retrato
29 Capítulo 29
Duas semanas se passaram e os preparativos para o casamento de Felipe estavam prontos. Luíza ajudou na escolha da decoração, dos doces e Melissa adorava as ideias embora impusesse as suas quando não concordava, como qualquer noiva. Os convites foram enviados a São Paulo com urgência, não para muitas famílias, mas era preciso arranjar o paquete e as acomodações para todos. Não havendo tantos quartos no casrão, Vitória decidiu que oferecer hospedagem na pequena pousada da cidade seria charmoso e de bom gosto. Ela também se distraía com os preparativos embora o tempo para que encontrasse Bernardo se esgotasse a cada dia. Já havia decidido que, realizada a boda, iriam para São Paulo. Luíza e Zilda insistiam que ela mantivesse homens à procura do filho na região mas, até aquele momento, acreditava não ter mais forças para enfrentar novas decepções. Quantos homens visitaria em hospitais, manicômios, para, ao fim, realizar que nunca encontraria Bernardo? Bento não trouxera mais notícias e Vitória já perdia qualquer esperança que lhe restara.
Mas uma tarde, Bento adentrou o casarão em desespero solicitando falar à condessa. Zilda avisou que estava descansando, mas o levou ao quarto ainda assim.
— Senhora! Agora o conde Bernardo está em minhas mãos e não escapará até que a senhora ponha os olhos nele! Eu lhe prometi que o traria e trouxe!
— Onde? Onde ele está?
— Num casebre aqui bem próximo, amarrado. Deixei um homem de confiança de vigia, armado. Ninguém ousará tirá-lo de vós. Nunca mais!
— Me leve lá agora!
Luíza ouviu uma movimentação de seu quarto e correu até os aposentos da condessa.
— Meu filho, Luíza! Eu sei que desta vez é ele! Eu sinto que é ele!
— Acalme-se, condessa! Tomara Deus que seja, mas não pode decepcionar-se de novo!
— A senhorita tem razão, condessa! Acalme-se! Pode não ser ele!
— Cale-se, Zilda! Cale-se e ajude-me!
— Eu vou com a senhora! Zilda já saía do quarto para pegar algumas coisas quando Vitória a interrompeu.
— Não, Zilda! Eu vou sozinha! Eu preciso encontrar meu filho sozinha!
Luíza e Zilda entreolharam-se preocupadas. Bento já havia se mostrado confuso em relação à identidade de Bernardo anteriormente. Vitória saiu de imediato, assim que Zilda lhe ajudou a vestir um casaco e a calçar as botas. Ambas deram-se as mãos e decidiram rezar juntas para que a condessa encontrasse o filho. Por sorte, estavam os outros descansando em seus quartos e não viram a sua saída.
Bento conduziu a carruagem por cerca de quinze minutos. Vitória desceu determinada, mas apoiou-se nos braços de Bento, que pode senti-la trêmula.
— Venha, senhora. Entre e veja com seus próprios olhos se não é ele!
Um rapaz, de cabelos longos, estava amarrado a um tronco, quieto. Vitória aproximou-se, observando-lhe as roupas sujas, os sapatos gastos. Sem hesitar, procurou-lhe o rosto e soltou um grito desesperado.
— Bernardo!!! Meu filho! É você, meu filho? Graças a Deus!!!
O rapaz, sonolento, não esboçou reação alguma enquanto ela o abraçava e tirava-lhe o pano da boca.
— Meu filho!!! Eu pensei que eu nunca mais iria poder olhar pra você, meu Deus! Agora tudo acabou, tudo vai ficar bem, ouviu, meu amor?
— Quem é você?
Vitória sorriu ao ouvir sua voz.
— Eu sou a sua mãe, meu filho! Eu sei, eu sei que não se lembra de mim mas agora tudo vai ficar bem, tudo...
Bento aguardou o tempo necessário, aproximou-se e questionou a condessa sobre as próximas providências.
— Não posso correr o risco de perdê-lo, Bento. Teremos que levá-lo pro casarão, mas sem que ninguém o veja. Ele precisa ser limpo, alimentado.
— Eu darei um jeito, condessa! Mas está alimentado. Não tem fome nem sede.
— Alguém cuidou do meu filho...
— Sim, senhora!
— Abençoada seja esta pessoa...
O capataz decidiu não revelar toda a história naquele momento. Ajudou a conduzir a condessa e o filho para dentro da carruagem. Solicitou que o outro homem pudesse acompanhá-los já que Bernardo poderia tentar fugir no meio do caminho. Vitória se manteve abraçada a ele por todo o trajeto. O rapaz a olhava com atenção, mas não expressava nenhuma emoção. Bento arrumou uma cocheira onde abrigá-lo por aquela noite e garantiu que cuidaria ele mesmo de sua higiene e alimentação. Vitória, a muito custo, despediu-se do filho e subiu para o quarto, onde Luíza e Zilda a esperavam ansiosas.
O sorriso de Vitória foi a resposta para uma pergunta que nem precisou ser feita. Luíza correu e abraçou-a. Vitória olhou para Zilda e abriu-lhe os braços. Choraram juntas e permaneceram sem nada dizer por longos minutos.
— Onde ele está, condessa?
— Bento arrumou uma das cocheiras onde ele poderá ficar abrigado até que vocês possam levá-lo para São Paulo, espero que o mais rápido possível.
— Como ele está?
— Sujo, maltrapilho, mas saudável. Alguém cuidou do meu filho, ele não estava perdido no meio do mato. Não me reconheceu mas eu sabia que seria assim. O que importa é que eu o encontrei! Encontrei meu Bernardo! disse Vitória em meio às lágrimas.
— Senhora, preciso ajudá-la a se arrumar para o jantar. Não pode dar motivos para que desconfiem que há algo de diferente na casa.
— Tem razão, Zilda, tem razão...Meu Deus, como posso fazer uma refeição à mesa sabendo que meu filho está naquele lugar imundo...
— Eu mesma me encarregarei de preparar a melhor das refeições para o conde Bernardo, senhora! Não se preocupe! Será por pouco tempo!
Luíza queria ver o filho da condessa. Imaginava-o de tantas formas diferentes, mas conteve-se. Vitória não mencionou que ela poderia conhecê-lo. Decidiu esperar para que conversassem à noite.
No jantar, apesar da alegria imensa, Vitória tentou ao máximo disfarçar o entusiasmo, mas Felipe lhe percebeu diferente.
— Havia tempos não a via tão disposta, minha tia.
— Sim, Felipe, estou mesmo me sentindo melhor. Talvez sejam os ares do casamento que se aproxima...
Luíza bateu à porta no horário de costume, mas não havia ainda se trocado. Achou que, naquela noite, não poderia passar muito tempo com Vitória. Bento podia solicitá-la, ou mesmo Zilda. E era melhor que não estivesse no quarto da condessa de camisola. Jogou-se na cama ao lado da amada, que lhe esperava.
— Agora sou a mulher mais feliz do mundo...
— Fico tão feliz ao vê-la sorrir assim...
— Mas só ficarei tranquila assim que Zilda e Bento levarem Bernardo de volta ao sanatório.
Luíza não acreditava no que ouvira.
— Como? Pretende internar seu filho novamente?
— Claro que sim, meu bem! Todos acham que ele está morto!
— Mas você quase o perdeu para sempre! É a chance de reverter toda esta história e tê-lo consigo!
— Eu disse que não me arrependia de nada que havia feito. Bernardo está morto, Luíza! Eu não vou expor meu filho ao ridículo. Não expus antes e não o farei nunca! Ele será conduzido ao sanatório, onde será bem cuidado!
— Eu não consigo entendê-la! Que tipo de amor é esse? Que tipo de mãe é você?
A jovem já havia se levantado e andava pelo quarto fazendo perguntas para ela mesma.
— Eu estou preservando a integridade, a memória do meu filho! Fale baixo, por favor!
— Você tem vergonha dele, Vitória! Vergonha!
— Não...
— Seu orgulho a deixa cega! Como pode agir assim? Como?
— Você não sabe como meu filho era bonito, Luíza! Como era elegante, fino...não...as pessoas vão continuar a se lembrar dele como ele era!
— Ele pode se recuperar ao seu lado. Ele lembrou o nome da tal Allegra!
— Não mencione esta mulher! Ele não se lembrou de nada! São imagens aleatórias que surgem na mente dele. Só isso!
— Ele veio de São Paulo até aqui, Deus sabe como! Exatamente no exato lugar onde vivia. Se isso não é memória...
Vitória não havia parado para pensar nisto, por mais óbvio que fosse. O ódio por Emília era tão grande que ela só pensava que o filho recordara-se de uma coisa: Allegra!
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