Notas iniciais
Um segundo flagrante

Zilda e Luíza saíram do quarto.

— A senhorita realmente se importa com a condessa, não é?

— Sim, Zilda. Muito. Me conte o que aconteceu.

A governanta detalhou o ocorrido, o que fez com que Luíza sentisse mais pena ainda de Vitória.

— Eu entendo melhor agora que a condessa tenha se agradado de sua companhia. Ela precisa muito de apoio, está sofrendo demais.

— Obrigada, Zilda. Você também é muito cara a ela, por mais que não admita. Luíza segurou as mãos da criada, que sorriu.

No final da tarde, a menina soube que Vitória ainda dormia. Havia tomado o calmante que Dr. Botelho recomendara caso se sentisse muito nervosa. Pensou que este descanso lhe faria bem pra alma atormentada. Depois do jantar, finalmente ela estva desperta. Havia dormido o dia todo e ainda se sentia sonolenta e miserável. Luíza conseguiu que tomasse um pouco da sopa que Zilda lhe havia trazido, mas estava muito abatida.

— Deus não quer que eu encontre meu filho, Luíza. Ele está me castigando.

— Não diga isso. Vai encontrá-lo, eu sei que vai!

— Não, você não sabe. Agradeço por se preocupar, mas ninguém sabe...meu filho se perdeu no mundo...é em vão continuar a procurá-lo.

— Vai desistir?

— Sim! Vamos realizar logo este casamento de Felipe e Melissa e voltar para São Paulo.

— Não desista! Ao menos deixe que Bento continue com as busacas até o casamento.

— Não vê que isto está me destruindo? Cada nova esperança? Cada vez que Bento tenta me enganar?

— Zilda conversou com ele! Está muito perturbado. Ele diz ter certeza que era o seu filho e que vai lhe provar isto!

— Não...ele não vai porque vou demiti-lo amanhã na primeira hora. É uma afronta a minha inteligência.

— Não faça isso! Vai se arrepender se desistir. E, mesmo depois que formos pra São Paulo, pode deixar homens continuarem a busca por aqui. E sabe por que deve fazer isso? Porque eu sei que você, no fundo do seu coração, não terá desistido.

— Você fala coisas, às vezes, muito maduras pro pouco que viveu, meu amor!

— Considere continuar com as buscas, sim?

Vitória sorriu e acariciou-lhe o rosto.

— Zilda vai me trazer um chá. Vá para seu quarto e volte na hora de sempre. Quero que durma comigo, só isso.

Luíza voltou, então, depois que todos já dormiam. Vitória parecia cansada apesar de ter dormido o dia todo. Beijou-lhe suavemente os lábios, depois o rosto, os olhos...Vitória começou a rir com as brincadeiras da menina.

— Vê? Conseguiu me fazer sorrir num dia como o de hoje.

Luíza deitou-se sob as cobertas e abraçou Vitória. Fazia frio naquela noite. No turbilhão das emoções do dia, esqueceu-se completamente de trancar a porta. O dia amanheceu sem que se dessem conta. E quando Zilda chegou no quarto para acordar a condessa, permaneceu paralisada e atônita com a cena.

As duas dormiam abraçadas e a governanta não entendeu o que viu. Nem em seus mais escusos pensamentos poderia imaginar o que de fato se tratava, portanto estava completamente confusa por não conseguir uma explicação plausível para aquilo. Pensou em sair mas estava como presa ao chão. Quando deu um passo, Luíza acordou assustada com o barulho.

— Dona Zilda?

— Senhorita!

Vitória acordou também assustada e todas permaneceram mudas. Luíza e Vitória se entreolharam como se atentando para o fato de que o plano de smepre de sair do quarto antes que amanhecesse o dia falhara. E o pior, a porta esteivera aberta o tempo todo.

— O que foi, Zilda? perguntou Vitória como se nada de anormal estivesse acontecendo.

— Senhora...

— O que está fazendo aí parada? Traga meu dejejum. Aliás, traga para nós duas.

— Não, senhora! disse Luíza levantando-se imediatamente. — Me chamou para que lhe fizesse companhia esta noite, mas não se preocupe. Prefiro descer e tomar o café lá embaixo. Com licença.

Luíza vestiu o pegnoir e saiu. Zilda continuava parada, atônita.

— Mexa-se, criatura! disse Vitória.

Zilda deixou o quarto cheia de questões mas jamais se permitiria imaginar algo além de uma amizade. Estranha, obviamente. Mas, ainda assim, amizade.