Notas iniciais
Flagrante

Amanheceu e Zilda subiu ao quarto da condessa, ainda muito cedo, já com o médico. Achou absurdo encontrar Luíza deitada ao lado de Vitória e a acordou de pronto.
— Acorde, senhorita! Acorde e saia!
Luíza levantou assustada e Zilda a conduziu para longe da cama enquanto Botelho acordava a senhora.
— Você é uma menina muita petulante mesmo! Como achou que poderia dormir na mesma cama que a condessa? Eu, nesses tantos anos junto dela, jamais tive tamanha audácia.
— Ela me pediu que deitasse ao seu lado. Além disso, eu não sou uma criada! respondeu a menina que, a esta altura, também já se cansara da governanta.
— A senhora está sem febre! apontou Botelho. — A senhorita fez as compressas com água durante a noite?
— Sim, dr. Botelho. No início da noite. Depois percebi que a febre já havia cedido, por volta da meia-noite! respondeu Luíza ao médico, ignorando Zilda e sentando-se novamente ao lado de Vitória, que acordava.
—Sente-se melhor, condessa?
Vitória olhou para Luíza e sorriu.
Foi o tempo da criada trazer o chá e também Felipe veio ao quarto, de chambre ainda, para ver como estava a tia. Botelho confirmou que seu estado era muito bom, precisaria apenas repousar mais um pouco.
— Luíza, acho que pode ir descansar agora. Zilda assumirá agora! disse Felipe. — Você foi muito gentil e minha tia lhe tem muito carinho.
Zilda deu um sorriso vitorioso à menina, que logo respondeu:
— Eu vou para casa, me troco e posso voltar.
— Não, Luíza. Sua mãe não há de gostar e, além disso, minha tia já está boa, ficará apenas em observação.
Vitória olhou para Luíza e assentiu com a cabeça.
— Vá, Luíza! -disse com a voz rouca. Muito obrigada, mas Zilda assume agora seu posto! E piscou-lhe um olho, o que deu certeza à jovem de sua melhora.

Luíza voltou para casa e encontrou o pai na sala, tomando café. Peixoto revelou que vinha conversando com sua mãe sobre esta sua estranha permanência no casarão e que não aprovava completamente a ideia.
—A condessa está com pneumonia, papai.
—Não se trata apenas desta noite. Não entendo qual o propósito de uma menina de sua idade passar tantas horas com uma senhora. Você não é uma criada!
— Mas ninguém me trata como uma criada lá, meu pai! Ao contrário! E estou ajudando na decoração do casamento do conde, penso estar sendo útil.
— Você não está apaixonada por este conde, não é? Porque se conseguiu se enfiar no casarão...
— Não, meu pai! Ele tem uma noiva e acabei de dizer que estou ajudando nos preparativos para o casamento. Por que eu ajudaria se estivesse apaixonada por ele?
—Para ficar próxima, oras!
—Papai, tranquilize-se! O conde Felipe nem fica muito no casarão. Eu faço companhia à condessa e é só isso. E eu estou muito feliz!Minha vida era um tédio antes de chegarem todos eles, o senhor sabe!
Peixoto teve que concordar com a filha. Luíza deu-lhe um beijo e subiu para tomar um banho e descansar. A saúde de Vitória ainda lhe deixava preocupada, mas ter passado a noite ao seu lado, ainda que naquela situação...ela não havia vivido ainda nada mais intenso que esse momento. Iria tomar um banho e descansar, pensar nas palavras da condessa, nas mãos unidas, no perfume que a inebriava...