A mulher do retrato
1 Capítulo 1
Notas iniciais
— Está atrasada, como de hábito, mas hoje não perderei meu humor. Lave-se e recomponha-se pois D. Otávia deve chegar em meia hora. D. Consuelo não admitia que ninguém em sua casa, ainda que para prestar-lhes serviço, fosse recebido com desmazelo. Luíza ainda tentou perguntar à mãe por que chamara a modista com tanta urgência. Em vão. Consuelo ainda tinha que o que tratar com o marido antes do compromisso.
Não estava suja, talvez um pouco despenteada. Só precisava trocar a roupa de montaria, passar uma água no rosto, nada que demorasse tanto e precisasse interromper a cavalgada matinal e as horas boas do sol. A menina logo apresentou-se asseada à mãe, que ajeitava a gravata de Peixoto.
— Bom dia, meu pai! Mamãe, o que acontece de tão importante?
— Uma festa, minha filha- adiantou-se Peixoto. Sabes a Casa dos Castellini? Pois não estará mais desabitada. Chega, na quinta-feira, a Condessa com o sobrinho e recebem na sexta, um jantar em que não se pode fazer feio.
— A condessa? Mas não vive em São Paulo? O que vem fazer em Bellarosa nesse casarão assombrado? Credo! Chega a dar arrepios! Não é uma velha?
— Não sabemos ao certo, Luíza, o povo fala demais. Ninguém a conhece de fato, há mais de vinte e cinco anos o casarão está fechado. É uma senhora muito elegante, tenho certeza, e se fomos convidados, vamos em grande estilo. Afinal, precisamos mostrar que não há nobreza só em São Paulo.
— Ora, e por que não seríamos convidados, Consuelo? Só as mais distintas famílias estarão lá!-retrucou o marido.
— Esta mulher podia não receber ninguém. Chegar e instalar-se e não receber ninguém. Mas mostrou-se uma dama...bem, logicamente é uma dama, por mais que a chamem de bruxa...coitada...perdeu um filho! As pessoas são más!
Após a saída de Peixoto, Consuelo viu-se pronta a receber a modista e ordenou a Luíza que escolhesse um modelo não muito simples mas também nada ousado demais. Talvez uma cor meio pastel, um verde-água... Luíza mostrou-se entediada e não sabia ainda que sua vida mudaria tanto e tão completamente. E que não poderia mais fugir. Nunca mais!
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