A mulher do espelho
2 Capítulo 2 - Monstros escondidos.
Notas iniciais
Nova Orleans
Já era quase 6 horas da tarde, o sol já tinha ido embora e eu estava ainda pesquisando por alguma história relacionada aquela misteriosa mulher na grande e escura biblioteca de minha casa. Mas não encontrava nada, nem um resquício. Pensava em desistir em pedir ajuda a minha mãe ou ao meu pai, não podia, tinha que manter aquilo em segredo. Dizia aquilo para mim mesmo enquanto tentava iluminar os títulos dos livros na estante com uma vela já quase toda derretida.
Cocei os olhos e voltei atrás para a mesa de madeira que tinha ali perto, coloquei a vela em cima da mesa, ao lado do castiçal que ali estava. Apoiei minha cabeça em minhas mãos, na minha cabeça passavam os nomes de todos os livros que eu vi, e todas as coisas que li naquelas longas horas.
Quando então me lembrei de um livro, antigo, que minha mãe havia lido para mim a muitos anos. Num solavanco levantei da cadeira e fui até a estante onde estava pela última vez, segurando a vela que iluminava o meu caminho. Lá estava o livro de capa escura, o título em dourado se lia “Os monstros escondidos”, é um livro conhecido por suas histórias de monstros contadas, mas principalmente por como trata cada um. Os monstros não servem para assustar as pessoas, e sim, ajuda-las em algum problema o possível não problema, pessoas que começaram a se acostumar com seus problemas ou que faziam tempestade em copo d’água eram assombradas por esses monstros. Todos de uma forma arrasadora, muitos morriam e poucos sobreviviam para contar a história desses monstros.
Corri meu dedo pelo sumario atrás da página onde falava sobre a mulher do espelho, e lá estava ela, já para as últimas páginas.
“Uma mulher, bonita como a lua, e traiçoeira como uma serpente. Não se engane, ela não pensara duas vezes em faze-lo sofrer.
Ela o fará sangrar a ter não poder mais, o fará se perder em pesadelos e se atordoar em meio da luz pensando em que é a escuridão. A mulher do espelho, representa a sua alma, sua alma mais escura lhe fazendo delirar com medo e perdição.
Cuidado ao procurará em seu espelho, quando entrar lá dentro, outros irão com você. ”
Não entendi essa parte, de que outros ele queria dizer? Minha família? Amigos?
“Se você se encontrou com essa mulher, volte ao espelho onde a viu. Não quebre, não estraçalhe. Para entrar lá dentro é muito simples, apenas entre. Entre, agora! ”
Uma frente fria passou por mim e apagou a vela na hora, ainda bem que tinha um castiçal em uma mesa próxima. Rapidamente coloquei o livro de volta e sai da biblioteca, indo de volta ao corredor da ala leste.
Rio de janeiro
Uma rosa branca numa jarra limpa, uma vela brilhando e chamuscando com ardor e talheres tão limpos e brilhantes que dava para ver seu reflexo. Era isso o que eu mais encarava durante aquele estupido encontro, eu não queria me casar com ele e nunca iria querer. Sabia que nunca sentiria nada por ele e deixava isso claro o mais possível que dava, mas o menino parecia gostar de ser jogado de lado.
—-Você vai querer comer o que? – Ele perguntou entre sorrisos olhando o cardápio.
—-Nada, já comi em casa antes de vir. – Respondi passando meus dedos pelo garfo.
—-Hm.. Bem... – Ele limpou a garganta e eu olhei para ele, parecia preocupado em me fazer feliz. Idiota. – Você não gostaria de ir para sobremesa? Tem um sorvete de creme muito bom aqui. – Ele comentou voltando a olhar o cardápio.
—-Não gosto de sorvete de creme. – Cortei.
—-Tem de chocolate... E flocos. – Ele disse.
—-Prefiro de morango. – Respondi, eu senti ele suar frio depois da minha resposta.
—-Hm... Aqui não tem, mas eu sei de uma sorveteria no centro que tem. – Ele comentou indo tocar minha mão. – Venha. – Ele estendeu a mão dele para eu segurar.
Me levantei sem sua ajuda e fui na frente dele.
—-Eu sei o lugar, posso dirigir? – Perguntei e rapidamente respondeu.
—-Desculpa, mas não vou deixa-la se estressar no trânsito em um encontro. – Ele disse de uma forma tão educada, fiquei com pena, como podia ser tão fria com alguém assim? Me virei para ele e pude ver seus olhos brilharem sobre o luar.
—- Você sabe, não sabe? – Perguntei e ele parou me olhando, enquanto ainda estava em cima da escada.
—-Sei? Sei o que? – Ele perguntou confuso, engoli em seco. Ele era muito bobo.
—-Eu não gosto de você. – Respondi e ele sorriu para minha surpresa.
—-Ninguém se gosta em um casamento arranjado, mas pelo menos amigos podemos ser. – Ele disse e foi andando para o carro, eu fui atrás e rolei os olhos.
Amigos que fazem bebês, amigos muito interessantes. Pensei e me sentei no carro, o motor roncou e nós fomos em direção ao centro.
O caminho todo nós ouvimos músicas na rádio e conversamos sobre jogos de basquete que teriam na cidade. Ele torcia para um time muito bom, mas eu prefiro sempre torcer para quem perde, tem mais emoção.
De repente um carro passou buzinando no nosso lado e fez ele perder o controle do carro, o carro derrapou e bateu em um poste. Por um longo tempo fiquei parada, sem saber o que fazer, tentei acordar ele, mas não tinha resposta. Sai do carro e manquei, senti que minha perna havia quebrado. Ignorei a dor e rodei o carro até o outro lado, abri a porta do lado dele e tirei ele do carro. Carreguei ele nas minhas costas e o levei para sua casa.
Sua mãe ficou em choque e começou a chorar, não consegui me conter e chorei também. Seu pai fumava charutos ouvindo o rádio junto com o irmão mais novo dele, e os dois correram para ajudar. Levaram ele para o quarto e depois perguntaram se eu queria ajuda para chegar em casa, mas eu recusei. Não queria, mas andar de carros, não queria mais ajuda daquela família.
Andei pela calçada no escuro e me culpava enquanto ouvia passos atrás de mim, eu podia ter comido o sorvete de creme. Ouço os passos chegarem mais perto, olho para trás e vejo um homem estranho que sorri mais estranho para mim. Ele era todo torto, igual seu sorriso. Então ele puxou um canivete, reto e lustrado. Eu corri mancando, tão torta quanto o homem torto.
Roma
Um dia ensolarado e bonito continuava e eu já até tinha me esquecido daquela estranha mulher na minha banheira. Não ligava mais para aquilo, estava com problemas maiores.
Estava na frente do coliseu pintando o mesmo num seu estralado com deuses romanos no fundo estrelado, mas parei a pintura na fadada metade, um deus ficou cortado ao meio. Fiquei observando aquela pintura pela mentade e forçava a minha mente a continuar o desenho, mas tudo que eu tentasse apenas iria deixar a continuação estranha. Da ultima vez que tentei continuar, a outra parte ficou colorida de mais e com formas geométricas em vez do desenho e aquilo me deixou confuso, rasguei a tela na hora com uma faca.
—-O senhor que pintou? – Uma mulher mais velha me perguntou apontando para o quadro com ainda um pouco de tinta fresca.
—-Sim, por quê? A senhora gostou desse quadro pela metade? – Perguntei com o mesmo tom de sempre, sem acreditar naquelas pessoas.
—-Eu achei incrível, tão original. – Ela dizia pegando na sua bolsa dinheiro para me pagar. Quando ela me entregou percebi que tinha uma cédula estrangeira, ela devia ser uma turista.
—-Senhora? É muito dinheiro que você me entregou. – Disse recontando o dinheiro sem acreditar.
—-É quanto eu presumo valer, o senhor pode assinar para mim? – Ela pediu e eu assenti. Depois que assinei no canto vazio e branco ela levou a tela.
China
Depois que minha mãe e meu pai conversaram, minha mãe não aceitou o fato de eu não poder ir fazer uma faculdade por ela estar doente e precisarmos de dinheiro, ela considerava aquilo ridículo. Passou mal horas depois da discussão que nem teve gritarias, meu pai rapidamente tomou conta do problema. Com calma disse que era para eu e meu outro irmão mais velho ficássemos para olhar os mais novos enquanto ele e a mais velha iriam levar nossa mãe ao médico.
Nós dois ficamos e cuidamos dos mais novos, mas nem teve tanta agitação. Todos ficamos em um quarto preocupados com nossa mãe, depois de algumas horas todos os mais novos foram dormir e o meu irmão foi descansar no sofá. Eu fiquei no meu quarto encarando o espelho, tentava descobrir sozinho se aquilo tinha sido real e quem era aquela mulher. Ela não se parecia com ninguém da minha família, nem parecia ser do oriente, talvez fosse um espirito do mal tentando me atrapalhar de cuidar da minha mãe e pensar nela.
Só podia ser isso, não tinha outra explicação.
Nova orleans
Tinha enfim chegado na frente do espelho com os cacos no chão. Segurava uma vela que já estava na metade, da biblioteca até lá era muito longe e eu tive que trocar de vela duas vezes.
Coloquei a vela em uma mesinha que tinha ali e toquei no espelho. Não senti nada, nem o espelho para falar a verdade. Olhei minha face refletida e cheguei mais perto, meu braço entrou dentro do espelho, podia sentir o vazio, depois foi o meu outro braço, meu pé e então eu entrei por inteiro.
O que eu não tinha percebido e que enquanto eu fazia isso o espelho todo brilhou numa luz parecida com o luar, e aquilo não foi apenas naquele espelho.
Um espelho em uma casa de uma mulher de classe média que mora no Rio de janeiro, também brilhou e ela entrou no espelho, como se a passagem de sua penteadeira tivesse sido simples esclarecida para a menina perturbada.
Outro espelho brilhou em uma cor mais parecida com os raios do sol em um hotel em Roma, um pintor foi seduzido a entrar lá dentro.
E por fim, um espelho em um armário velho na china levou no meio do amanhecer para dentro do mesmo, o brilho dele foi dourado e um pouco parecido com o luar.
Mas a cor do brilho não importa, todos foram levados e todos voltariam diferentes ou não voltariam.
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