A mulher do espelho
1 Capítulo 1 - Quem sois vós?
Notas iniciais
Rio de Janeiro.
Já estava cansada desse país e dessa família, nada de interessante acontece por aqui e eles ainda querem me forçar a se casar com um zé ninguém? Eu nem quero me casar, quero viajar pelo mundo e conhecer várias paisagens antes de me dar a chance de me apaixonar ou apenas me casar.
Enfim, tinha que me arrumar para o encontro com o zé ninguém, quer que eu queira ou não queira eu teria de ir.
Vesti um vestido vermelho de saia rodada, sapatilhas brancas e meias altas até o joelho. Sentei na penteadeira, me olhei no reflexo e fiquei admirando por um tempo minha imagem. Cabelo curtos e um pouco cacheados, negros, olhos grandes e cílios também, uma boca redonda e rosada, uma pele branca e aveludada. Minha ama sempre me dizia que maquiagem era besteira para mim, não precisava de tal coisa banal, mas eu gostava de me maquiar, me fazia sentir outra pessoa.
Comecei a passar o pó branco, sempre que eu fazia isso o espelho ficava todo sujo.
—-Onde será que eu coloquei o meu lenço? – Me perguntei procurando naquela mesa bagunçada.
Senti um vento frio passar pela minha nuca exposta, na hora senti meu corpo inteiro tremer. Olhei para a janela e reparei que estava aberta, rapidamente fui até ela. Estava chovendo na cidade do carnaval, eu adorava quando isso acontecia, a cidade parecia mais acolhedora e com menos confusão por causa do verão.
Voltei para a penteadeira e encontrei meu lenço, estava pendurado no espelho da penteadeira. Como eu fui tola em não ter visto, agarrei o lenço úmido e comecei a limpar o espelho. Sentei na cadeira e peguei um batom vermelho, tirei a tampa de plástico e voltei meu olhar para o espelho, para passar a vermelhidão em meus lábios.
Foi quando eu a vi, a mulher do espelho, ela sorriu para mim, senti minha perna ficar mole no exato momento. Não é por ela ser bonita ou coisa parecida, e sim por ela ser extremamente branca e eu podia sentir sua presença gélida ao meu lado, então ela ainda sorrindo chegou ao meu lado e beijou minha bochecha, tocando meus ombros, ela se virou para o espelho e fez um sinal de silêncio com um semblante sério, como se me culpasse.
—-Quem... – Quando eu me virei para ver a mulher ao meu lado, ela desapareceu.
Me levantei na hora da cadeira e comecei a procurar pela mesma em meu quarto, mas a única coisa que eu senti dela, foi o frio.
Roma.
Meu quarto era cheio de quadros para todos os lados, quadros inacabados, era o que eu fazia, pintava metade de um quadro e deixava como estava. As pessoas consideravam isso arte, eu considerava isso uma maldição. Nunca tinha inspiração suficiente para acabar de pintar um quadro inteiro e me odiava por isso, mas como as pessoas adoravam comprar esses “semi-quadros” por preços absurdos eu deveria pelo menos estar feliz.
Eu estava deitado em minha cama, sentido os raios da manhã em meu peito, eu estava ainda me acostumando com a ideia me levantar daquela cama e ter que fazer isso sem acordar as duas prostitutas, quero dizer... mulheres que aceitam transar em troca de serem pintadas, que estavam sendo entrelaçadas pelos meus braços.
Sai da cama e elas nem pareciam estar perto de acordar, só iriam acordar daqui a muito tempo pelo o que parece, devo me lembrar de agora em diante nunca mais deixar essas duas beberem vinho comigo até tarde.
Fui direto para o banheiro, tomar banho na banheira do hotel, sim, eu moro em um hotel, é mais fácil e eles me deixam ficar lá de graça se eu der alguns quadros para eles.
Deixei a torneira aberta por um tempo para poder encher a banheira, enquanto isso fiquei encarando os espelhos em voltar da banheira, achava aquilo um tanto desnecessário, já que eu nem era narcisista, mas por algum motivo fiquei ali um bom tempo encarando meu reflexo nu, até que senti um vento frio. Estranhei aquilo, durante essa época do ano Roma fica tão quente.
Fui até a porta do banheiro para trancar a mesma, depois voltei para a banheira e desliguei a torneira. Devagar entrei na água fria, me acostumando com aquele choque.
Fechei meus olhos e me permiti sonhar acordado, porém senti que tinha alguém tocando meu braço, aquelas imbecis deviam estar tentando me assustar.
—-Me deixem descansar um pouco... Depois eu vou pintar vocês. – Resmunguei, mas elas não pareciam convencidas.
A mulher chegou mais perto de mim, pude sentir seu corpo tocando o meu e então devagar ela tocou os meus lábios com seus lábios frios. Abri meus olhos rapidamente e ela fez um sinal de silencio com o semblante divertido, rindo de mim.
—-Quem eis... – Quando eu ia perguntar ela desapareceu na minha frente. – Acho que vou parar de beber por um tempo. – Comentei e voltei a relaxar na banheira.
China.
—-Yong! Vem aqui! – O grito da minha mãe do outro do lado da vendinha deu para ser ouvido do balcão, onde eu estava.
—-Aqui está seu pedido, senhora. – Disse entregando para uma mulher de idade uma sacola de compras com uma lata de tinta dentro.
—-Obrigada, agora eu acho que seria uma boa ideia você ir até sua mãe. – A velhinha disse piscando o olho e depois foi embora.
Fui correndo até as escadas deixando a loja por conta da minha irmã mais velha, subi as escadas para dentro da nossa casa, encontrei minha mãe na sala.
—-Mãe, você está bem? – Perguntei para ela.
Minha mãe estava com saúde debilitada nos últimos dias e mesmo assim o que ela mais se preocupava não era com ela mesma e sim com seus filhos, sua família.
—-Filho, você não vai... – Ela parou por um momento de falar para tossir. -- ... A carta que recebemos. – Seu semblante era de felicidade enquanto ela agarrava a carta como se fosse a coisa mais mágica do mundo.
Me sentei no chão ao seu lado e segurei sua mão.
—-Fique calma mãe, deixe-me ver essa carta. – Peguei a carta e comecei a ler.
Era uma carta dizendo que fui aceito em uma faculdade em Hong Kong, que daqui até lá são 20 horas de viagem.
—-Mãe, eu não posso deixar você, papai e todos os outros para ir para Hong Kong. – Respondi e coloquei a carta no tapete ao meu lado.
—-Você não pode, mas irá é uma oportunidade que não pode ser simplesmente jogada fora. – Ela disse seria.
—-Mas... – Comecei a falar, mas ela me interrompeu.
—-Nada de mas, você vai para essa faculdade. Quando seu pai chegar... – Ela parou para tossir. -- ... Eu falo com ele. Agora vá arrumar suas malas. – Ela me ordenou e eu fui sem negar.
Eu sabia que meu pai diria não para aquilo, não podia deixar apenas minha irmã e meu irmão cuidado da loja, mas eu não queria deixa-la nervosa isso poderia deixar ela mais doente e não era o que eu queria.
Fui até o meu armário e peguei uma mala surrada, comecei a arrumar a mala. Peguei só o necessário se eu fosse para lá. Depois que acabei de arrumar tudo sentei na cama e fiquei olhando meu reflexo na porta aberta do armário, aquele espelho sujo e enferrujado chegava a dar pena, igual ao meu reflexo cansado.
Senti um vento frio passar pela minha barriga, mas dei de ombros, estava muito frio ultimamente. Me levantei para fechar o armário e então vi uma mulher apoiada na parede atrás de mim, com um semblante preocupado. Congelei na hora, ela parecia um fantasma, aquilo não me deu medo, mas me deixou preocupado. Será um fantasma bom? Um ancestral querendo me dar um conselho? Ou apenas uma alma má querendo atrapalhar minha vida?
A mulher foi andando e chegando cada vez mais perto de mim, ela tocou o meu ombro e com um sinal pediu para que eu chegasse para trás, fiz o que ela mandou. A pálida mulher ficou na minha frente com um olhar de pena em seu olhar e então me deu um abraço, depois olhou nos meus olhos e me beijou.
Quando parou de tocar meus lábios olhou de novo nos meus olhos e então sorriu com malicia.
—-Quem tu s... – Quando eu ia perguntar, ela fez um sinal de silêncio e desapareceu na frente dos meus olhos, como se nunca estivesse ali.
Nova Orleans.
Morar no mesmo solo de um cemitério de escravos para as outras pessoas seria algo horrível e que daria pesadelos, para minha mãe, uma cigana que ficou muito rica com seus feitiços, é um presente.
Desde pequeno moramos nessa casa gigantesca, eu, minha mãe e meu pai, fomos abençoados por termos do que comer e do conforto por conta do trabalho de minha mãe, uma feiticeira ou bruxa, como você quiser chamar.
Rapidamente ela conseguiu dinheiro e ficou famosa, mas isso não importa, pelo menos é o que ela me fala, o que importa e nós lembrarmos sempre quem somos e de onde viemos. E esse é um dos motivos dela ter comprado esse terreno, nunca consegui fazer o que ela faz, mas sempre gostei de ver ela e tentar imita-la, mas ela me diz que só iria conseguir quando ficasse mais velho. Durante toda a minha infância ouvi histórias de minha mãe, histórias que a avó dela contou para ela quando mais nova, histórias sobre a tribo de onde eles vieram da África.
As histórias dela são tão magicas que me fazem pensar como ainda ninguém fez um filme animado sobre, mas a Disney parece preferir histórias sobre meninas com cabeças de vento que perdem sapatinhos de cristal e se casam sem conhecer a pessoa.
Enfim, lá estava eu, andando pelo corredor da ala leste, todos os corredores têm janelas grandes quem trazem a iluminação do dia para dentro e grandes espelhos para iluminar mais ainda os cômodos.
De repente senti um calafrio passar pelas minhas costas, parei na hora e olhei para trás, uma mulher me encarava, mas apenas me olhava pelo meu reflexo no espelho.
—-Quem sois vós? – Perguntei e ela sorriu maliciosamente.
Fez um sinal de silêncio me pedindo para deixar aquilo em segredo, e então foi até o espelho, beijou o meu reflexo e desapareceu tocando o espelho. Cacos de espelho substituíram sua sombra no chão.
A primeira coisa que eu pensaria de fazer era dizer a minha mãe pergunta-lhe o que aquela mulher pálida do espelho significava, mas eu sentia que não precisava e que não podia. Apenas iria deixar aquilo em segredo e me lembrar daquele espelho, espalhei os cacos de espelho na borda do espelho, no chão, para eu me lembrar qual deles é. Voltei a caminhar pela ala leste, em direção a biblioteca.
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