A mulher diagnosticada com sentimentos.

1 Capítulo Único -- Borboletas.


Foi um grande choque para a família. Parentes de todas as regiões desse Brasil viajaram até a cidade da pobre coitada, e vieram dar suas condolências, e rezar por piedade.

Trancada no quarto mais afastado de todos, a mulher encarava o colorido e detalhado do quarto com atenção. Sentia seu coração pesado, como se ele tivesse virado de carne para chumbo. Doía prender os sentimentos no estômago, mas o fazia pelo bem de todos e pela dignidade de si mesma.

Então viu uma mulher na janela, e ela lhe ofereceu ouvidos. Seus próprios ouvidos, para escutar com atenção aos sentimentos que a doente tinha. Iria ajudá-la, dizia.

— Tudo é ilusão. — recita a doente, incrédula.

— Tudo é ilusão, dizem os sábios. ­– continua a mulher saudável.

A infectada sabia muito bem o que a outra faria com sua doença. Escutaria e a faria piorar, incentivando o vírus a crescer e se desenvolver, até que se tornasse algo que não desse mais pra esconder. Sem sua ajuda aceita, a outra mulher desapareceu.

A doente suspirou de alívio. Problemas a menos.

Um dia depois, o doutor abriu a porta do quarto com a ajuda de uma chave.

Ele se aproximou alguns metros, ainda mantendo distância, por precaução.

— Diga “A”. – disse ele.

Ela encarou o médico por algum tempo, com medo.

— Tudo é ilusão. — disse a mulher.

— Eu disse que era “A”, não “Ô. – o doutor não parecia ter paciência.

— Ah. – deixou escapar a mulher.

E ela começou a tossir. Algo como tinta saiu no lugar de sangue, e de repente, algo vivo.

— Uma borboleta? – perguntou o homem, curioso.

A criatura sai voando pelo quarto, até encostar no dedo estendido do doutor.

— Interessante, interessante. – disse ele enquanto analisava a criatura. – Diga “A”, novamente.

E a mulher disse. Quando o fez, engasgou. Começou a tossir como se estivesse morrendo. O médico não se importou. Várias borboletas saíram da boca da mulher, apressadas, sujas de algo que parecia sangue mas era colorido demais para ser.

As borboletas voaram pelo quarto, poluindo o lugar com mais cores do que já tinha.

— É grave. – disse o médico. – Com tantas borboletas, não me admira que se já tenha desenvolvido o princípio de uma cegueira.

— O que eu devo fazer? – perguntou a mulher.

— Hm... – ele pensou por um momento, e se aproximou de onde a mulher estava. Aproximou-se mais. Até mais do que deveria. Ficou frente a frente dela.

As borboletas se agitaram. Suas pequenas asas começavam a fazer barulho, e as criaturas batiam nas paredes nervosas e desesperadas. A respiração da doente começou a se tornar irregular. O médico sorriu com aquilo. Seus olhos de mestre da biologia encaravam os da mulher, que tremiam, às vezes se desviando para o chão.

— Você é mais bonita de perto. – sussurrou.

O rosto da mulher virou escarlate. Um escarlate rosado, bonito como um pêssego. As borboletas se agitaram e passaram a bater nas janelas, com medo daquele ambiente.

— Eu tenho sentimentos também, sabia?

As borboletas pararam. A mulher franziu a testa.

— Disseram que é uma doença para você. Para mim também. Mas não é.

— Então por que dizem que é? – perguntou a paciente.

As borboletas se aproximaram, pousando em alguns móveis.

— Você já esqueceu do que tinha dito antes? – ele sorriu.

Tudo é ilusão.

A imagem tão próxima do médico desapareceu. Ele estava de volta a distância normal, com o mesmo olhar frio e sem vida de sempre.

— O remédio é quebrar o coração. Só assim pra voltar a ser saudável. – deu seu veredito.

O som veio logo em seguida. Todas as borboletas quebraram-se em mil pedaços, enchendo o chão de vidro colorido, que foi perdendo a cor com o tempo.

— Parece uma doença grande no início, mas é fácil de curar. Tenha um bom dia. – o médico fez um cumprimento e saiu pela porta.

A mulher, agora saudável, passou algum tempo imóvel. Mas logo todo o susto passou, e ela voltou a viver normalmente, como uma boa mulher sem sentimentos.

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