A mulher certa para mim
4 O breve dia de folga.
Notas iniciais
Era sábado, 7: 50 para Jane em um dia de folga, qualquer hora que seja antes de onze é considerada “ madrugada”, então era sábado de madrugada. Jane estava dormindo de bruços, a detetive usava apenas uma calcinha box preta, uma camiseta regata branca e meias xadrez nos pés, uma mecha do seu cabelo desgrenhado caia sobre a sua face, ela passou a mão e tirou do rosto, de repente Jane abre um olho, ela estava ouvindo um barulho, “Jo Friday” pensou, mas ao passar a mão pela cama tocou algo peludo e percebeu que se tratava da cadela, ela sentou na cama e parou para ouvir, o barulho era de vidro, vidro se chocando contra o seu lixo, Jane andou até a cozinha, suas meias impediam que a responsável pelo barulho não ouvisse Jane se aproximando, a morena se escondeu atrás de uma parede e ficou olhando a mãe, Angela jogava vidros cuja comida em conserva já havia passado do prazo de validade, ela pegou um pote com ervilhas.
— 15/03/ 12. Esse pote de ervilhas está aqui a mais tempo do que aquelas panelas, a TV e o colchão da cama da Jane. Eu acho que nem vou jogar, em março faz quatro anos, farei um bolo, encherei algumas bexigas e cantaremos “parabéns pra você”_ Angela encarou novamente o pote e jogou no lixo.
Jane quase não se conteve com o comentário da mãe, levou a mão a boca para abafar a gargalhada, logo que conseguiu esconder o riso entrou na cozinha e sentou em uma cadeira.
— Bom dia mãe.
— Esqueceu que dia é hoje Jane?
— Hoje é sábado_ A morena riu, sabendo que essa não era a resposta.
— Hoje é dia que nós combinamos de limpar o seu apartamento.
— Ah, é verdade.
— Bom_ Angela voltou-se para a geladeira_ Eu acho que já joguei tudo que não servia mais para comer, agora vamos para o seu quarto.
Angela saiu da cozinha.
— Claro, vamos para o meu quarto, meu quarto é um ótimo lugar_ Jane parou de falar por uns segundos e percebeu o que a mãe acabou de falar_ Para o MEU quarto!? _ Ela levantou da cadeira e saiu escorregando com suas meias até chegar a porta do quarto_ Mãe pare! Eu mesma limpo o meu quarto, eu prometo.
— A última fez que você fez essa promessa, as caixas de pizza se amontoaram em baixo da cama. E ai a prima Giulia pisou na caixa, escorregou pelo quarto e caiu com as pernas abertas...
— Eu lembro! Mas dessa vez vai ser diferente, porque eu realmente_ Jane deu a ênfase a palavra realmente_ Vou limpar o meu quarto.
—Não acredito_ Angela abaixou e abriu uma gaveta do guarda roupa de Jane, justamente o motivo da detetive não querer que ela limpasse seu quarto_ Mas o que? _ Angela retirou de lá uma calcinha azul de renda, havia uma etiqueta “ Anna”, ela virou para Jane com os olhos arregalados e a peça na ponta dos dedos.
— Mãe...
Angela jogou a peça para Jane e remexeu a gaveta, lá dentro haviam várias calcinhas todas com uma etiqueta com um nome de mulher.
— Eu ... vou parar agora... porque tenho medo do que vou encontrar se continuar mexendo_ Angela levantou do chão, Jane fechou a gaveta e olhou para mãe que esperava uma explicação.
— Ninguém mandou mexer, eu disse para não mexer_ Angela permaneceu esperando a tal da explicação_ São tipo... lembranças.
— Sei...
— O que mais você quer que eu diga?
— Nada, eu já entendi, mas você sabe que vai ter que se livrar dessas “lembranças” quando tiver uma namorada, como você acha que ela vai se sentir com esse monte de calcinhas na sua gaveta?
— Quando eu tiver uma namorada, eu me livro das calcinhas das outras, para guardar as calcinhas dela.
— Não quero mais falar disso.
— Ótimo, eu vou vestir uma roupa, pode esperar fora do meu quarto?
— Claro, eu tenho muitos lugares para limpar_ Angela sorriu.
Isso não deveria acontecer, minha mãe devia ter limites, eu tenho trinta e seis anos, ela acha que sou uma garotinha, vem jogar minhas coisas fora e mexer nas minhas gavetas, tenho que impor limites.
Jane chegou na sala, sua mãe estava limpando as manchas de copo na mesa de centro, Jane liga a televisão e tenta ver uma episódio de uma série que ela gosta, mas vez ou outra tem que mover a cabeça para esquerda ou para direita, já que, Angela se movia limpando a mesa.
— Jane, caso você tenha esquecido eu darei um jantar na minha casa para família.
A série não tinha mais importância, Jane concentrou sua atenção na mãe.
— Quem vai estar nesse jantar?
— Seu pai...
Já começou mal — Jane não tinha uma boa relação com o pai desde que ele abandonou Angela para ficar com outra mulher, que agora era mulher do irmão dela.
— A prima Giulia, sua tia Antonella...
Agora tá melhor ainda _ Pensou Jane usando ironia_ Ela não gostava da tia Antonella, irmã do seu pai, mas isso foi bem antes da briga de Jane com seu pai, Antonella achava que ela era uma criança, apertava suas bochechas e ignorava o fato de Jane ser lésbica, sempre dizia “E os namorados querida?”
— O seu amigo Giovanni_ Esse pelo menos havia aceitado que ela era lésbica, mas só depois de ver Jane beijando uma mulher e colocando as mãos dentro da blusa dela para tocar os seios da fulana_ Uma nova amiga que fiz no meu emprego, seu irmão Tommy, Lydia e o Tommy Jr, e o Frankie.
— E a namorada dele.
— what?
Nesse momento Jane se deu conta que havia falado demais.
— Frankie tem uma namorada?
— Sabe_ Disse Jane levantando_ Eu acabei de lembrar que não levei Jo Friday para passear_ Jane colocou a coleira na cadela e saiu correndo pela porta, antes que Angela pudesse raciocinar.
***
Maura estava cuidando do jardim da sua casa, ela estava ajoelhada junto às rosas, podando alguns galhos, depois disso iria correr no parque, Maura adorava correr, preferia correr com alguém, mas Verônica não estava por perto, então ela teria que correr só. Levantou do chão, a calça jeans estava suja nos joelhos, Maura sacudiu um pouco da terra e levantou sorrindo, o vizinho que estava saindo de casa falou com ela.
— Bom dia doutora Isles.
— Bom dia_ Maura caminhou em direção à porta da sua casa.
— Tem algo para fazer na terça feira às nove horas ?
— Não, não tenho nada para fazer.
— Gostaria de ir à exposição das obras do Vincent van Gogh?
— Claro, eu tentei comprar os ingressos, mas não consegui.
— Então nos vemos na terça doutora Isles.
— Por favor me chame de Maura_ Ela sorriu e ele retribuiu o sorriso.
Maura estava se alongando no parque antes de começar a correr, ela já estava correndo quando viu uma mulher conversando com outra, uma das mulheres estava segurando a coleira de um cachorro, Maura conhecia aqueles cabelos revoltos e aquela risada.
— Jane?
Jane virou-se para ela sorrindo.
— Hey Maura, não sabia que você gosta de correr_ Ela olhou para a mulher com quem estava conversando antes de Maura chegar_ Maura essa aqui é a Sofia, ex- namorada do Frankie, continuamos amigas, Sofia essa aqui é Maura ela é bastante inteligente e também é minha amiga.
As duas mulheres apertaram as mãos.
— Jane_ Disse Sofia_ Eu preciso ir, nos vemos por ai.
— Claro.
Sofia beijou o rosto de Jane ao sair, mas só porque a morena virou o rosto se não o beijo seria na boca. Jane a acompanhou indo embora com o olhar.
— Então... O que foi aquilo?
— É muito comum entre os animais haver a competição por uma fêmea, então quando Sofia me viu ela se sentiu ameaçada e tentou se mostrar para a fêmea, sabe essa competição é essencial porque o vencedor fica com a fêmea e...
— Tudo bem , eu já entendi, vamos parar antes que essa fêmea fique horrorizada com as suas palavras. Sabia que eu também gosto de correr?
— Isso é muito bom, porque eu não gosto de correr sozinha e a Verônica está viajando.
Isso é um convite Jane, você não está imaginando coisas.
— Tudo bem, você escolhe a hora.
— Ás sete horas, antes de ir para o departamento.
Acabo de me arrepender de ter deixado ela escolher a hora, de madrugada Maura? O que mais você gosta de fazer de madrugada?
Jane começou a imaginar uma série de coisas.
— Está bem pra você?
— Excelente.
— Então, nos vemos depois_ Maura acenou e continuou a correr, deixando Jane sem rumo e apaixonada.
— Vamos para casa Jo Friday, se eu lembrar onde é a minha casa, depois que Maura apareceu na minha vida ás vezes eu nem lembro o meu nome.
A cadela olhou para Jane como se estivesse entendendo cada palavra.
A detetive abriu a porta do apartamento, mas não por completo, apenas uma fresta por onde a Jo Friday passou, ela procurou a mãe em todo lugar, aparentemente Angela havia terminado a faxina e já havia ido embora , Jane colocou ração para a cadela, abriu uma cerveja e ligou a TV, colocou a garrafa na mesa de centro, mas uma mancha para Angela limpar. Estava passando um documentário sobre flores, ela pensou em mudar de canal, mas bem, documentários lhe lembravam Maura e com isso Jane poderia puxar assunto com a legista.
“ — No seu jardim de hoje falaremos sobre flores exóticas, a primeira da lista é a Tacca chantrieri, popularmente conhecida como Flor-morcego.
A flor-morcego é uma planta tropical, herbácea, hermafrodita e acaule, conhecida por suas flores exóticas e ornamentais. Apesar de ser chamada também de “orquídea-morcego”, esta espécie exótica não tem parentesco com as orquídeas...”
Jane dormiu antes de o documentário acabar, quando acordou tomou um banho e pediu uma pizza, sentou novamente no sofá, olhou para todo o apartamento, só havia a sua cadela dormindo próxima a seus pés, mas um dia sozinha. O telefone tocou às três horas da madrugada_ Que não era a madrugada da Jane e sim a nossa.
— Rizzoli, sim estou indo.
Ela desligou o telefone.
“ Eu sei que as pessoas não escolhem uma hora certa para cometer crimes, mas poxa, são três horas”.
Jane entrou no quarto para se vestir e se dirigir a cena do crime.
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