A moça e o dragão

1 E assim começou...


Era mais uma manhã comum, como tantas outras, quando Virginia entrou no elevador, encarou a mulher a sua frente e não gostou do que viu. O semblante cansado e abatido, a maquiagem já não disfarçava mais as bolsas sob os olhos, passou a mão nos cabelos a fim de acertar alguns fios rebeldes. Todo mundo envelhece, o que há de fazer? A vida é assim mesmo. Deu de ombros, não se importava mesmo, foi quando o elevador parou e a porta abriu, ela se aprumou, afastando-se do espelho, disfarçando, fingiu não prestar atenção no rapaz desconhecido que entrou.

— Bom dia.

— Bom dia.

Postura rígida, olhos fixos na porta, no chão, sutilmente, pelos cantos dos olhos, ela reparou nos cabelos claros dele, raspados nas laterais e comprido no centro, meio presos em um rabo de cavalo esquisito, tal qual um samurai moderno. Das mangas da sua camiseta, escapavam desenhos irreconhecíveis, talvez, seres míticos, imagens estranhas. Acho tudo aquilo muito esquisito, devia algum visitante, quem sabe, um morador novo.

Como se pressentisse que estava sendo analisando, o rapaz olhou, rapidamente, para ela, que abaixou a cabeça, dissimulada.

A porta se abriu no térreo.

— Tchau.

— Tchau.

Cada um tomou o seu caminho, afastando-se.

A condução cheia, a angustiante correria para chegar no horário ao trabalho, desviando dos outros passantes apressados, fez com que ela se esquece do breve encontro no elevador.

— Você está abatida, está precisando de um pouco de sol, Virgínia – Sandra, a colega da mesa ao lado, comentou ferina, antes de Virginia se sentar à sua própria mesa, ligar o computador e pegar a pilha de papéis ao lado, para começar mais um dia de trabalho, mas ela não se importava com aqueles comentários, dava de ombros e seguia em frente. – Sabe do que você precisa, Virgínia?

— Tomar sol?

— Não, você precisa encontrar alguém. Sabe, o meu marido tem um primo divorciado, um cara legal, dentista. Acho que poderia arranjar um encontro entre vocês dois.

— Obrigada, mas não estou interessada em nenhum compromisso por enquanto, Sandra.

— Mas devia, é ruim viver assim tão sozinha.

— Quem disse isso? Estou bem assim, eu não preciso de ninguém – Virginia falou, realmente, acreditando nas suas palavras.

— Você é quem sabe – Sandra deu de ombros. – Mas, caso mude de ideia, fale comigo.

— Obrigada, assim mesmo.

Mesmo antes, sempre foi poucas palavras, nunca foi dada a muita conversa ou a fofocas, não gostava de expor sua vida para ninguém, além de não ter muito para contar. Era apenas uma mulher por volta dos trinta, que morava sozinha, que, no passado, havia sido uma ávida leitora de romances e gostava de filmes de final feliz, até acreditava que poderia ser feliz. No entanto, tudo isso acabou, já não sonhava mais, havia descoberto que a vida não era para sonhadores, não acreditava em finais felizes, mantinha os dois pés bem fincado na realidade. Assim, a esperança e os sonhos se esvaiam lentamente a cada aniversário, deixando para trás uma alma seca e dura.

Nos dias que se seguiram, no elevador, nos horários de sempre, sucessivos bom-dia e boa-noite foram trocados entre ela e o estranho rapaz, sempre com uma educada indiferença. Durante suas curtas jornadas no cubículo fechado, pelos cantos dos olhos, ela tentava decifrar a figura mítica que lhe escapavam da manga. Talvez, uma serpente ou, quem sabe, um dragão? Não conseguia chegar a nenhuma conclusão.

— Tchau.

— Tchau.

E em mais dia de trabalho como qualquer outro, arrastando-se até o fim da tarde. Ao sair à rua, Virgínia percebeu o pesado céu com nuvens cor de chumbo preste a desabar, o calor úmido que lhe roubava as últimas forças, os demais pedestres, ansiosos, lutavam contra o vento, que teimava dificultar a volta para casa e a fuga para algum lugar seguro protegido da forte chuva, que se anunciava para logo. Aflita para chegar em casa, ficar salva outra vez, Virginia se espremeu na condução lotada, no trânsito tumultuado e vagaroso.

Já andava, apressada, a caminho de casa, quando a chuva desabou intensa e feroz, o guarda-chuva não bastava contra o vento forte, assim correu pelas calçadas, pulou poças d’água, atravessou as ruas fora das faixas e respirou aliviada ao alcançar a portaria do seu prédio, sã e salva.

— O mundo está desabando lá fora, Antônio – comentou com o porteiro, a caminho de elevador, sacudindo o guarda-chuva, que lhe fora de pouca serventia.

— Está mesmo – confirmou o homem, de modo pacato e desinteressado.

Ao entrar no elevador, reencontrou a mulher no espelho, semblante cansada, com os cabelos e as roupas molhadas pingando, aos seus pés se formava uma pequena poça de água, no entanto, em breve, estaria no conforto e segurança do seu lar.

Antes de subir, porta do elevador se abriu de novo e ele entrou, em pior estado do que o dela, as roupas e cabelos totalmente encharcados, cabelos grudados, o rabo de cavalo murcho.

— Boa noite.

— Boa noite

Pelos cantos dos olhos, observou a camiseta branca grudada no corpo, transparente, deixando entrever os desenhos escondidos marcados na sua pele e, de novo, ficou imaginando o que seriam. Sob o tecido molhado, veio a revelação, as cores enroscadas davam a forma a um dragão de boca aberta, mostrando os dentes afiados, parecendo mais sorridente do que ameaçador.

O elevador começou a ascender e, de repente, parou com um chacoalhão e mergulharam no breu, por um breve instante. Virginia solta um grito aflito e a luz de emergência acendeu, dando ao pequeno espaço um ar fantasmagórico.

— Acho que acabou a luz – disse seu companheiro de cárcere.

Virgínia não pensou duas vezes, apertou o botão do interfone.

— Antônio! Antônio!

Silêncio.

Ela olhou seu telefone, sem sinal, pensou se por acaso, o mundo lá fora houvesse acabado, só restando aqueles, iguais a eles, presos em elevadores, metrôs ou garages subterrâneas, acabariam morrendo ali dentro esquecidos, de fome e sede.

— Deve ser por causa da tempestade, só podemos esperar – o rapaz concluiu, de um jeito sereno, deslizando pela parede até sentar no chão. Virginia achou aquilo muito anti-higiênico

— Eu não posso ficar aqui!

— Não tem outro jeito – Ele deu de ombros.

— Antônio! Antônio! – Tentou outra vez o interfone, sem resposta.

— Não precisa se preocupar. Daqui a pouca a luz volta, devem estar consertando.

O tempo passou e a luz não voltou, o calor do ambiente ajudou a secar as roupas molhadas, as pernas delas doídas venceram o nojo e, com muito cuidado e rezando para não pegar nenhuma doença, sentou-se no chão, o mais distante possível do rapaz esquisito, mesmo assim, de olho no dragão escorregando pela manga e se enroscando pelo antebraço dele.

Já que iriam ficar por ali, não se sabe por quanto tempo, talvez, morressem juntos, tinha que ser educada, iniciando uma conversa civilizada.

— Você mora aqui há pouco tempo?

— Há menos de um mês, vim morar aqui com uns amigos, por causa do trabalho.

Foi quando reparou nos olhos deles, tinha uma cor indecisa, talvez verde, talvez castanhos claros, ou seria apenas naquela luz.

— E o que você faz?

— Design gráfico, eu me formei e arranjei um emprego aqui.

— Sorte sua.

— Sorte mesmo.

— Isso, nunca aconteceu antes, faltar a luz por tanto tempo.

— Tem alguém aí? – Uma voz vinda de fora quis saber, sinal que a vida na Terra não foi totalmente extinta.

— Antônio! Eu estou aqui, Virgínia do 703 e... – Ela olhou para o rapaz.

— Jonas do 502 – ele se apresentou.

— Por favor, tire a gente daqui!

— Não dá, dona Virgínia, o elevador está parado entre dois andares.

— Então, chame os bombeiros!

— Não dá, dona Virgínia. A cidade inteira está sem luz, um raio caiu em uma linha de transmissão. Os bombeiros só estão conseguindo atender os casos mais sérios.

— Como assim, Antônio? Esse caso é muito sério!

— Não dá, dona Virgínia. Só estão atendendo em caso de vida ou morte. Vocês vão ter que esperar.

— Esperar? Por quanto tempo?

— Até a luz voltar.

— E se a luz não voltar.

— Eles estão resolvendo o problema.

— Antônio! Antônio!

Silêncio.

— Ele deve ter mais coisas para ver – Jonas supôs, Virgínia gemeu dolorosamente. – Você mora aqui há muito tempo?

— Sim, há muito tempo, e jamais passei por uma situação dessas.

— Sempre tem a primeira vez – Ele deu de ombros.

— Espero que seja a última.

— Não precisa ficar com medo.

— Eu não estou com medo! Só estou aborrecida, quero ir para a minha casa.

— Pelo menos, vai ter uma história para contar para os seus amigos, amanhã.

— Preferia que fosse outra história. Meu Deus, será que vai demorar muito?

— Quer ouvir música? Ajuda a acalmar.

— Música?

— É, eu tenho aqui no meu celular.

— Eu não quero me acalmar, eu só quero sair daqui.

— Se importa se eu ouvir? Estou sem fone de ouvido.

— Não – Virginia encostou a cabeça na parede e fechou os olhos, mas deu um pulo, assustada, com o rock estridente e alto encheu o exíguo recinto, ele baixou o som depressa. – O que é isso?

— Desculpe. Foi mal.

— Podemos ficar em silêncio? Estou com dor de cabeça.

— Tudo bem. Só pensei que a música ajudaria você relaxar um pouco.

— Eu só vou relaxar quando sair daqui.

Subitamente, a luz acendeu, um solavanco e o elevador começou a se mover lentamente, até parar no quinto andar e abri a porta.

— Graças a Deus! – Ela saiu correndo lá de dentro.

— Esse não é seu andar – Jonas avisou.

— Não tem importância. Eu vou pelas escadas. Não quero me arriscar.

— Valeu, Virgínia.

— Boa noite, Jonas.