A morte do meu primeiro amor
1 Capítulo 1
Outro dia recebi um zap de uma amiga de infância com um vídeo de tv, falava da morte de um conhecido nosso, a causa talvez seja hipotermia. Ele dormira na rua e um simples cobertor cedido por vizinhos não foi capaz de aquecê-lo o suficiente. Era um bêbado.
Não foi um choque para ninguém, ao contrário, parecia uma tragédia anunciada para todos que conviviam com ele. Exceto para mim.
A gente não nasceu e morou na mesma rua, como se fosse o sol e a lua, dividindo o mesmo céu.
Ao contrário, eu o conheci na pré-adolescência, num clube que frequentávamos em comum. Depois o vi na escola, naquela época era o colegial, fazíamos o mesmo ano, mas não na mesma sala. Um dia também fui na casa de um amigo do meu pai e lá estava ele.
Éramos todos muito jovens, nessa época da vida a gente geralmente anda em bando, em turma. Mas nós éramos poucos, o dinheiro não era farto, a vida era difícil, tudo era contado. Minha turma nunca foi grande, eu nunca gostei. Mas as vezes participava da turma dele. A cidade era pequena então andávamos a pé, não havia telefone fixo para todas as casas, no bairro dele não tinha nem linha, era tudo no orelhão. 1987, pouco mais de 30 anos atrás.
Uma colega gostava de um, outra colega de outro, era um encontro, um aniversário, o clube, barraquinhas na cidade, uma bebida escondida, um beijo roubado, um tempo de descobertas.
Eu comecei a acha-lo lindo, o mais bonito de todos. Talvez fosse mesmo, para mim, menina feia e desajeitada, como a maioria aos seus 13, 14 anos e ele um ano mais velho, com aquela sabedoria falsa que os garotos querem fingir que possuem. Eu me apaixonei com todos os tiques que as paixões permitem, coração acelerado, vergonha exacerbada, medo.
Nunca tive coragem de contar a ele o quanto o amei. Naquela minha cabeça de menina, de adolescente, de jovem isso jamais seria importante para ele, não ficamos juntos afinal de contas. Gostei dele muitos anos depois, o via e ficava sem ação. Curiosamente ele não foi meu primeiro beijo, nem o primeiro homem.
Mas foi o primeiro amor. E primeiro amor a gente nunca esquece.
Saber de seu falecimento me causou uma estranheza diferente, não o via há muitos anos, não tínhamos ligação, acho que sequer lembraríamos da existência um do outro não fosse por este vídeo do whatsapp. É a estranheza da impermanência das coisas, como falei com outra colega em comum.
Os amigos da nossa adolescência ficam muito marcados, porque somos muito intensos. Apenas alguns permanecem para sempre no nosso convívio. A vida oferece os caminhos e tendemos a achar que todos mudam como a gente, na mesma direção, as mesmas evoluções positivas e negativas. É um susto entender que nem todos conseguem seguir adiante, alguns adoecem, outros tiram a própria vida, outros somem, mas invariavelmente todos mudamos.
Em algum ponto de nossa existência eu parei de encontra-lo, nossas turmas mudaram, vieram o trabalho, mais estudos, outros relacionamentos, novas amizades. Nos perdemos naquele momento em que a maioria dos amores adolescentes acabam, no início da vida adulta.
Um tempo depois soube que ele havia se casado e um pontada no coração me bateu naquele longínquo 2001, como se devesse ser comigo. Loucura da cabeça de uma pessoa que nunca se declarou e que só não viveu o mais platônico dos amores porque o destino de vez em quando me dava uma ajuda, um encontro num boteco com um violão mal tocado, um arremedo de encontro numa barraquinha, tudo tão mal arranjando e confuso, quanto divertido.
Não sei quando deixei de amá-lo. Sempre achei bonito esta história de amor para sempre. Se amei uma vez, jamais sairá do meu coração, sem entender que amor também é construção diária.
O revi novamente em 2005, recém operada da perna, num supermercado as 3 da tarde. Algo tão cotidiano quanto acordar e escovar os dentes. Ele estava com a esposa e um ou dois filhos, não tenho certeza. Não tenho certeza do que conversamos, se vi felicidade, se demonstrei interesse, se interagimos, porque algo que nunca consegui é estar 100% natural na presença dele. Nunca mais nos falamos.
O vi algumas vezes depois sempre de relance, infelizmente, a partir daí, talvez antes, eu não tenho certeza, ele estava sempre bêbado. Sempre desconexo, como disse a amiga que o encontrou certa vez.
Não parecia mais ele, esse das minhas memórias felizes de adolescência. Cresceu, virou adulto, se transformou em outra pessoa. Uma que eu não reconhecia, que nossos mundos não mais se interagiam.
Deu tristeza o dia que o vi, antes das 7 da matina, num boteco sujo tomando uma cachaça. Me perguntei como as pessoas que o conheciam estavam aguentando.
Pelo visto não estavam, no vídeo de uma reportagem de tv, o irmão que encontrou seu corpo disse que agora era assim, ele dormia pelas ruas, ele tomava remédio controlado, ele morava na casa dos pais, mas era trancado para fora de casa, ele bebia mesmo sem poder, ele estava aposentado. Alguém mencionou até drogas.
Informações desencontradas de uma pessoa que eu não sei mais quem era. Eu só conheci seu passado.
Mudamos de formas diferentes e o seu caminho chegou ao fim, chegando a notícia a mim de forma quase amadora, sem querer.
Gosto de pensar que era para eu saber, para que não seja apenas a morte de mais um alcoólatra no Brasil, algo que eu leria no jornal sem dar muita importância.
Ninguém pareceu se importar. Talvez isso tenha me entristecido tanto, a família abandonou, com toda sua parcela de razão, imagino que os amigos também, o mundo seguiu, ele virou uma pessoa que todos viam, mas ninguém mais sabia quem era. No facebook umas poucas frases de descanse em paz e uma pessoa que disse tê-lo visto dias antes e recebido um cumprimento efusivo. Um fragmento de momento da vida inteira de uma pessoa.
Fazendo disso um depoimento, eu não sei onde ele se perdeu, que escolhas fez para si mesmo, onde a fraqueza ganhou, onde a vida ficou insuportável. Se no final de tudo, ele foi feliz, se valeu a pena.
Eu não tenho essas respostas, a imagem para mim é sempre bonita, de um garoto que me lembrava Jose Wilker, hoje concluo que tão inseguro quanto eu, uma boa amizade, numa época em que tudo que queremos é nos sentir aceitos. Não sei onde e se ele deixou de acreditar em si mesmo, gostaria de poder ter dito que é difícil mesmo viver, para todo mundo. Não faria o menor efeito, mas talvez sua partida não fosse tão constrangedora para todos nós que um dia o conhecemos.
Hoje ele me resgatou a nostalgia, em geral não ligo para o passado, acho que estou muito melhor hoje do que fui naqueles tempos. Não é assim para todo mundo, as vezes tudo que sobra a uma pessoa é seu passado. As vezes nem isso.
A vida é feita de pequenos momentos, né? A gente nunca sabe a hora.
Todas estas frases feitas me vem a cabeça para terminar este texto, que não vai servir para nada, apenas para homenagear, na minha cabeça, alguém que não se lembrava nem de si mesmo.
Se serve para alguma coisa, jogo estas lembranças ao universo, na esperança de que onde ele estiver, esteja melhor e mais feliz que aqui. Sorria como quando éramos jovens e siga seu caminho evolutivo, encontre as pessoas que perdeu pelo caminho.
Que as lembranças sirvam de combustível.
Vá em paz !
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