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2 Capítulo 1
Notas iniciais
18h56 Hora da Costa Leste — 23h56 Hora de Greenwich
Aeroportos são verdadeiras câmaras de tortura quando se tem claustrofobia.
Não apenas por causa do iminente perigo — ficamos presos como sardinhas e somos catapultados pelo ar dentro de um tubo de metal —, mas também por causa dos terminais, da quantidade de pessoas, da confusão que turva a vista, do zumbido que atordoa, de todo o movimento e do barulho, do frenesi e do vozerio, tudo isso selado por janelas de vidro, como se fosse uma monstruosa fazenda de formigas.
Isso é apenas uma das várias coisas que Regina está tentando ignorar enquanto espera no balcão de embarque. Está ficando escuro e o avião já deve estar sobrevoando o Atlântico. Ela pode sentir alguma coisa em seu interior se desfazendo, como o ar que sai lentamente de um balão. Parte da sensação se relaciona ao voo muito próximo e parte ao aeroporto em si, mas o maior problema — o maior de todos — é saber que vai se atrasar para um casamento ao qual nem queria ir. Essa ironia do destino a faz querer chorar.
Os atendentes da companhia aérea se reuniram atrás do balcão e olham para ela com impaciência. A tela atrás deles já anuncia o próximo voo do JFK para Heathrow, um voo que só sairia em três horas. Fica cada vez mais claro que é Regina quem está impedindo que o expediente da equipe acabe.
— Lamento, senhora — diz uma das atendentes, disfarçando um suspiro. — Não há nada que possamos fazer, a não ser colocá-la em um voo mais tarde.
Regina concorda. Ela passou as últimas semanas desejando secretamente que alguma coisa desse tipo acontecesse, embora as cenas que imaginou fossem mais dramáticas: greve nacional dos aeroviários, uma chuva de granizo épica, um caso raro de gripe ou de sarampo que a impedisse de viajar. Seriam razões perfeitamente aceitáveis para que não visse o pai caminhando pelo corredor da igreja para se casar com uma mulher que ela nunca havia encontrado.
No entanto, atrasar-se quatro minutos para o voo soava um pouco conveniente demais, até suspeito, e Regina não sabe ao certo se seus pais — tanto o pai quanto a mãe — entenderiam que não foi culpa sua. Na verdade, isso provavelmente faria parte da pequena lista de tópicos sobre a qual os dois concordavam.
Foi ideia dela faltar ao ensaio para o jantar e chegar em Londres na manhã do casamento. Regina não via o pai havia mais de um ano e não achava que seria capaz de sentar em um salão com todas as pessoas mais importantes para ele — amigos e colegas de trabalho, o mundinho que construiu no outro lado do oceano — enquanto brindavam a sua saúde, felicidade e vida nova. Se pudesse decidir, nem iria ao casamento, porém, essa decisão não foi negociada.
— Ele ainda é seu pai — dizia a mãe como se ela tivesse esquecido. — Se você não for, vai se arrepender depois. Sei que é difícil imaginar isso quando se tem 17 anos, mas acredite em mim. Um dia você ainda vai se arrepender. Regina achava que não.
A atendente digita no teclado do computador com certa ferocidade, batendo nas teclas e fazendo barulho ao mascar o chiclete.
— Você está com sorte — diz, balançando as mãos no ar. — Posso colocá-la no voo de 22h24. Assento 18A. Janela. Regina fica até com medo de perguntar, mas arrisca mesmo assim.
— Chega que horas?
— Chega 9h54 — diz a atendente. — Amanhã de manhã.
Imagina a caligrafia delicada no grosso convite marfim de casamento, que estava há meses em cima da cômoda. A cerimônia começa no dia seguinte ao meio-dia, o que significa que, se tudo sair conforme planejado — o voo e a alfândega, os táxis e o trânsito, se tudo for perfeitamente coreografado —, ainda há uma chance de conseguir chegar a tempo. Uma pequena chance.
— O embarque começa neste portão às 21h45 — comunica a atendente, entregando-lhe vários papéis organizados num pequeno envelope. — Tenha um excelente voo.
Regina vai até as janelas e examina as fileiras de cadeiras cinza. A maioria está ocupada e as que restam estão com o estofado amarelo à mostra, como ursinhos de pelúcia descosturados. Ela coloca a mochila sobre a mala de mão, pega o celular e procura o número do pai na lista de contatos. Está registrado como “O professor”, apelido que ganhou da filha há um ano e meio, quando anunciou que não voltaria a Connecticut; depois disso, a palavra pai acabou virando um incômodo sempre que ela abria o celular.
Seu coração dispara com o toque do telefone; ele liga regularmente, mas ela quase nunca liga de volta. É quase meia-noite na Inglaterra, e, quando finalmente atende, a voz do pai está rouca e lenta de sono ou de álcool — talvez de ambos.
— Regina?
— Perdi meu voo — diz com o tom seco que naturalmente aparece quando fala com o pai. É efeito do desgosto que sente por ele.
— O quê?
Suspira e repete a informação.
— Perdi o voo.
Ao fundo, Regina escuta Belle murmurando, e alguma coisa queima dentro dela, um pequeno surto de raiva. Apesar dos e-mails carinhosos que a mulher mandou desde o noivado — eram cheios de planos para o casamento, fotos da viagem a Paris e pedidos para que não ficasse distante, todos assinados com um entusiasmado “:-)))” (como se apenas uma carinha feliz não bastasse) —, há exatamente um ano e 96 dias, ela decidiu que ia odiar aquela mulher, e um convite para ser madrinha não era o suficiente para mudar isso.
— Bem — diz Gold, seu pai —, conseguiu outro voo?
— Sim, mas só chega às dez.
— Amanhã?
— Não, hoje — responde. — Vou viajar de cometa.
O pai ignora o comentário.
— É muito tarde. Muito perto da cerimônia. Não vou conseguir buscar você — informa e cobre o telefone para falar com Belle. — Podemos pedir para a tia Marilyn ir te pegar.
— Quem é tia Mary lin?
— É a tia de Belle.
— Tenho 17 anos — lembra Regina — com certeza consigo pegar um táxi sozinha até a igreja.
— Não sei — diz o pai — é a sua primeira vez em Londres... — Ele afasta o telefone e tosse, limpando a garganta. — Você acha que sua mãe concordaria com isso?
— Mamãe não está aqui — responde Regina. — Acho que só participou do primeiro casamento.
Silêncio no outro lado da linha.
— Vai dar tudo certo, pai. Encontro você na igreja amanhã. Não devo me atrasar tanto assim.
— Está bem — responde o pai com carinho. — Estou com saudade.
— Eu sei — responde, sem conseguir dizer o mesmo. — Até amanhã.
Só se lembra de que devia ter perguntado sobre o jantar de ensaio depois que desliga. Na verdade, não está tão curiosa assim.
Por um longo tempo, ela fica parada com o telefone na mão, tentando não se apavorar com o que a espera no outro lado do oceano. O cheiro de manteiga que vem de uma barraca de pretzel está deixando Regina enjoada. Queria se sentar, mas aquela área está lotada de passageiros. É o fim de semana do feriado de Quatro de Julho. As telas de previsão do tempo mostram mapas com tempestades se aproximando do Centro-Oeste. As pessoas já começam a se acomodar em vários cantos do terminal como se fossem morar lá para sempre. Há várias malas ocupando assentos, famílias acampadas, caixas gordurosas de lanches do McDonald’s. Ela passa por um homem que está dormindo em cima da mochila. Sente o chão e as paredes muito próximas e a pressão da multidão. E tem que se lembrar de respirar fundo.
Vê um assento vazio e corre para lá, movendo a mala de rodinhas por entre um mar de sapatos. Nem quer pensar em como o vestido de seda lilás, que deveria utilizar no casamento, vai estar amarrotado quando chegar em Londres. No plano original, ela teria algumas horas antes da cerimônia, mas agora precisaria se apressar para chegar à igreja na hora. Embora esta não seja sua maior preocupação no momento, é engraçado imaginar as amigas de Belle horrorizadas; entrar na igreja sem o cabelo feito, com certeza, é uma catástrofe para elas.
A palavra arrependimento não descreve o que sente em relação a ter aceitado ser madrinha de casamento, porém, ela não aguentava mais os e-mails incessantes de Belle e os pedidos infinitos do pai, sem mencionar que sua mãe surpreendentemente apoiou a ideia.
— Sei que ele não é a pessoa que você mais ama no mundo neste momento — disse ela —, e, com certeza, também não é a que mais amo, mas você quer mesmo ver o álbum de fotos depois, talvez com seus filhos, e se arrepender por não estar lá?
Não fazia muita diferença para Regina, mas ela entendia o argumento. E era mais fácil deixar todo mundo feliz, mesmo que, para isso, precisasse usar um salto alto desconfortável e posar para fotos após a cerimônia. Quando os outros convidados do casamento — as amigas de Belle com trinta e poucos anos — ficaram sabendo que uma adolescente americana tinha sido incluída no grupo de e-mail pelo qual se comunicavam, Regina foi prontamente recebida com uma enxurrada de exclamações. E mesmo que não conhecesse Belle e tivesse passado o último ano e meio fazendo de tudo para que isso não mudasse, já sabia suas preferências em relação a vários tópicos acerca do casamento — questões importantes como a escolha entre sandália e sapato fechado, que tipo de flor colocar no buquê e, o pior e mais assustador de tudo, as preferências de lingerie para o chá de panela, ou, como chamam na Inglaterra, o chá de cozinha. A quantidade de e-mails que um casamento conseguia gerar era incrível. Regina sabia que a maioria das mulheres era do trabalho de Belle, na galeria de arte da universidade de Oxford, mas mal dava para acreditar que tivessem um emprego. Combinaram de conhecê-la na manhã do casamento, no hotel, mas teriam que fechar seus vestidos, pintar os olhos e enrolar os cabelos sem ela.
Lá fora, o céu está rosado e as pequenas luzes que delineiam o contorno dos aviões começam a ganhar vida. Regina vê seu reflexo no vidro: cabelos negros e grandes olhos castanhos, a expressão ansiosa e fatigada, como se a viagem já tivesse acontecido. Ajeita-se na cadeira entre um homem mais velho que vira as páginas de um jornal com tanta força que as folhas quase saem voando e uma mulher de meia-idade, com uma blusa de gola rulê com um gato bordado, que está tricotando alguma peça ainda sem formato.
Mais três horas, pensa e abraça a mochila. Chega à conclusão de que não vale a pena ficar contando os minutos para um evento temido; seria melhor dizer que faltam dois dias. Em dois dias, estaria voltando para casa. Em dois dias, poderia fingir que isso jamais aconteceu. Em dois dias, teria sobrevivido ao fim de semana que temeu por uma eternidade.
Arruma novamente a mochila no colo e percebe, um pouco tarde demais, que não fechou o zíper até o fim. Alguns objetos caem no chão. Regina pega seu celular primeiro, depois, seu fone de ouvido, mas quando vai pegar o pesado livro preto que o pai lhe deu, a garota que está na cadeira oposta se levanta e o pega primeiro.
Dá uma olhada na capa antes de devolver o livro, e Regina percebe que ela reconheceu o título. Demora alguns segundos para se dar conta de que a garota deve ter achado que ela é uma dessas pessoas que lê Dickens no aeroporto. Regina quase explica para ela que não; na verdade, tem o livro há anos e nunca nem o abriu. Em vez de dizer isso, sorri e olha para a janela a fim de evitar qualquer tentativa de conversa.
Ela não está com vontade de bater papo, nem mesmo com alguém que parecia ter sua idade. Não queria nem estar ali. O dia que a espera é como um ser vivo e pulsante, uma coisa indo em sua direção em alta velocidade; em breve, a coisa vai nocauteá-la. O medo de entrar no avião — e de estar em Londres — é físico e faz com que fique inquieta, balance as pernas e fique mexendo nos dedos.
O homem a seu lado assoa o nariz e, depois, volta a erguer o jornal. Regina torce para que não seja também o passageiro a seu lado no avião. Sete horas é muito tempo, uma parte muito grande do dia, para ser deixada nas mãos da sorte. Viajar com alguém desconhecido é uma ideia estranha, porém quantas vezes tinha voado para a Flórida, para Chicago ou Denver na companhia de uma pessoa totalmente desconhecida, lado a lado, ombro com ombro, pelo país afora? Viagens de avião são assim: você pode passar horas conversando com uma pessoa sem nem saber seu nome, pode contar seus maiores segredos e, depois, nunca mais vê-la.
O homem se inclina para ler o jornal e seu braço toca o de Regina. Ela se levanta abruptamente e joga a mochila sobre o ombro. A área de embarque ainda está lotada. Olha para a janela e sente vontade de estar lá fora. Não sabe como vai conseguir ficar sentada ali por mais três horas, mas a ideia de carregar a mala no meio daquela multidão é estressante. Coloca a mala perto da cadeira para que ninguém se sente e fala para a mulher de gola rulê:
— A senhora poderia dar uma olhada na minha mala? — pergunta. A mulher fica segurando as agulhas de crochê e franze a testa.
— Você não devia fazer isso — diz enfaticamente.
— É só por um ou dois minutinhos — explica Regina.
A mulher balança a cabeça como se não quisesse fazer parte das consequências do ato de Regina. —
Eu posso tomar conta — diz a garota.
Regina olha para ela — olha de verdade — pela primeira vez. Seu cabelo é loiro e levemente ondulado, e há migalhas na frente da camisa, mas ela tem alguma coisa interessante. Talvez seja o sotaque, que, com certeza, é britânico, ou a boca tensa, evitando um sorriso. O coração dela bate mais forte. A loira olha para ela e para a mulher, cujos lábios estão apertados em uma linha tensa, indicando um julgamento negativo.
— Isso é contra a lei — diz a mulher e olha para dois seguranças em pé ao lado da praça de alimentação.
Regina olha novamente para a garota, que sorri.
— Tudo bem — diz ela —, eu levo a mala. Obrigada mesmo assim.
E começa a pegar as coisas. Coloca o livro embaixo do braço e a mochila sobre o ombro. A mulher nem recolhe os pés para que ela movimente a mala. No final da área de espera, o carpete sem cor termina e dá início ao chão de linóleo. A mala trava na junção de borracha que une os dois pisos e, depois, balança de uma roda para outra. Quando Regina tenta estabilizá-la, o livro cai de novo. Ela se abaixa para pegá-lo, mas deixa o casaco de moletom cair.
Só pode ser piada, pensa, soprando uma mecha de cabelo que está em seu rosto. Arruma tudo e estica a mão para pegar a mala, mas não acha a alça. Ela se vira e fica surpresa ao ver a garota a seu lado. Ela está segurando a mala.
— O que você está fazendo? — pergunta, olhando para ela.
— Achei que precisava de ajuda.
Regina continua olhando.
— E se eu andar com você, vou ajudar sem estar fazendo nada ilegal — observa com um sorriso. Ela ergue as sobrancelhas a garota estica as costas, demonstrando certa insegurança. Ela pensa na possibilidade de ela estar querendo roubar a mala, mas, se o caso for este, o plano não é muito bom, pois só tem um par de sapatos e um vestido lá dentro, e ela até ficaria feliz em se ver livre deles.
Regina então pondera, a multidão está cada vez maior, a mochila está pesada e os olhos da garota têm um quê de solidão, como se não quisesse ser abandonada naquele momento. Regina conhece esse sentimento. Depois de alguns segundos, ela concorda. A garota desconhecida então, inclina a mala sobre as rodinhas e começam a caminhar.
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