A moça e o dragão

10 Vai dar tudo certo


— Virginia, você tem que me contar o que está fazendo para ficar assim tão bem – Sandra insiste ainda surpreendida por aquela transformação, algo inexplicável.

— Deve ser o meu novo corte de cabelo – disse, passando a mão no corte mais moderno que fizera há alguns dias, na tentativa de parece mais jovem.

Ao mesmo tempo, quando passaram a morar juntos, Jonas começou a cultivar barba e bigode, que tinha um tom acobreado, no intuito de parecer mais velho, mas que, na opinião dela, o deixava ainda mais bonito.

— Pois esse seu cabelereiro faz milagre, precisa me dar o telefone dele. E muito caro? – Sandra perguntou, Virginia riu, imaginando o que sua colega diria se soubesse a verdadeira razão da sua mudança de aparência, era algo que não tinha preço. Porém, podia ser chamada de covarde, mas ainda não tivera coragem de abrir o jogo e revelar sua relação com um rapaz mais jovem.

Ao contrário de Jonas que a exibia para todos, sem nenhuma ressalva, como se fosse natural uma mulher de mais de trinta anos namorar um garoto de pouco mais de vinte anos. Mas, o pessoal do trabalho de Jonas era bem diferente do dela, criativos, artistas, descolados, não se importavam ou, pelo menos, fingiam que não se importavam com a diferença de idade entre eles. Podia se dizer que eram como Jonas em diferentes idades e gênero, com suas camisas de estampas modernas e cores pouco convencionais, camisetas com dizeres bizarros e provocativos, cortes de cabelos inusitados e, principalmente, eram inteligentes e estimulantes, apesar de, muitas vezes, suas conversas serem um tanto difíceis de acompanhar. Viviam em um mundo próprio com sua linguagem peculiar e dinâmica, sendo um tanto complicado para Virginia no começo, pois não estava acostumada com isso, porém, adaptou-se rapidamente.

Então, ela não viu nada de errado, quando Jonas a convidou para saírem juntos uma noite dessas, em um daqueles barzinhos descolados, cheios e barulhentos, um lugar que Virginia nunca frequentaria em outra fase da sua vida, no entanto, lá estava ela, cercada por gente animada e falante, bebendo cerveja e comendo pizza, divertindo-se.

— Você precisa provar isso, Virginia – Mauro insistia que ela tomasse uma bebida à base de tequila e frutas. Ele é um dos sêniores da empresa onde Jonas trabalha, o que quer dizer, que ele deveria ter mais ou menos a idade dela, com seu bigode a la Dali e sua camisa com estampa de minúsculos cachorros.

— Mauro, eu não me dou bem com bebidas fortes.

— Mas, essa é fraquinha e docinha. Além disso, você precisa brindar, temos que comemorar!

— Comemorar?

— Sim, o estágio – Mauro continuou despretensioso.

— Ainda não está nada certo – Jonas se meteu na conversa, um tanto aflito.

— O que não está nada certo? – Virginia se sentiu confusa, perdida no meio daquela conversa.

— O estágio de Jonas em Londres, em uma das maiores empresas da nossa área – Mauro conclui.

— Ah! Esse estágio – Virginia se esforçou para não deixar transparecer a sua surpresa e decepção.

— Não está nada certo, Virginia.

— Como não está? Está quase tudo resolvido – Mauro interveio e coloca o copo na mão dela, que o leva a boca, sem perceber e tomou um longo gole.

— Eu ia contar para você, quando estivesse tudo certo – Jonas murmurou no ouvido dela.

Virginia não escuta mais nada, o burburinho a sua volta soava como zumbidos, é como se estivesse em uma colmeia gigante, nenhum som fazia sentido, fica ali sentada, quase como uma experiência extracorpórea, pois só seu corpo está ali, enquanto sua mente vagava, perdida, por algum lugar além da traição, respondendo às perguntas que lhe eram feitas por monossílabos.

Indo de volta para casa, dentro do táxi, Jonas tentou lhe alcançar a mão, mas ela se retraiu, abraçando-se.

— Por favor, não fique assim, Virginia. Eu ia contar para você.

— Quando?

— Logo.

— Logo! Quando tivesse com a passagem comprada e as malas prontas, chegaria e diria: Estou indo para Londres por um ano, amanhã? Valeu!

— Eu nunca faria isso com você.

— Mas fez, escondeu de mim que iria embora.

— Eu não vou embora, só vou passar um tempo por lá fora. Você poderia vir comigo.

— E largar toda a minha vida por uma aventura?

— Talvez, já seja a hora, antes...

— Antes que eu fique velha demais.

— Não, antes de se arrepender de não ter feito aquilo que desejava. Você poderia conhecer um monte de lugares que sempre sonhou, fazer o que gosta.

— Para você é fácil dizer, só tem vinte e dois anos, enquanto eu...

— Pare com isso, Virginia! Você é uma mulher inteligente, instigante e bonita, que resolveu agir uma velha antes do tempo, com medo da vida.

— Eu não tenho medo da vida!

— Sim, você tem.

— Chegamos – o motorista interrompeu.

Ele pagou a corrida e saíram do carro, entraram no elevador.

— Estou confusa, me dê um pouco de tempo.

— O que você quer fazer? Quer que eu saía da sua casa?

— Não!

— Então?

— Eu não sei. Para onde e quando será essa viagem?

— Seria para Londres, por um ano. Ainda não está certo, talvez nem aconteça. Eu só mandei uma proposta e alguns trabalhos, tem um monte de candidatos melhores que eu.

Eles saíram do elevador, ela abriu a porta do apartamento.

— O que acontece agora? – Jonas quis saber.

— Por enquanto, vamos dormir, conversaremos sobre isso amanhã.

— Virginia...

— Não, por favor, vamos deixar isso para amanhã.

Naquela noite, deitados na cama, lado a lado, fingiram que dormiam, pensando nas conversas que viriam, com a luz do dia.

Contudo, na manhã seguinte bem cedo, foram acordados com o toque do telefone dela. Virginia olhou para a tela e ficou preocupada, sentou-se na cama.

— É a minha cunhada Teresa – respondeu ao olhar inquisidor de Jonas e atendeu, apressada.

Nos minutos seguintes, apoiado no cotovelo, Jonas assistiu as mudanças de expressão de Virginia, seguidas de algumas palavras soltas e exclamações.

— Sim, por mim, está bem, estarei esperando. Até lá. Beijos.

— O que houve, afinal?

— Minha sogra, a mãe do Theo, está doente, parece que é o coração, e ela vem para cá com a minha cunhada, para fazer alguns exames e pediram para ficar aqui em casa – Virginia explicou, com uma expressão consternada.

— Só isso? – Jonas ficou aliviado.

— Mas, tem um problema, elas não sabem que eu moro com você.

— Simples, conte a elas.

— Eu não posso contar isso a ela assim.

— Por que não? Não estamos fazendo nada errado, você é viúva e eu sou solteiro.

— Eu sei, mas ela era muito ligada ao Theo e pode não aguentar se descobrir que eu o substituir por...

— Por?

— Por um rapaz mais novo.

— Virginia, depois daquela discussão de ontem à noite, você está sendo muito hipócrita.

— Eu sei. Quer dizer que você ficaria muito zangado se eu pedisse para passar uns dias com seus amigos do 5º andar? — Ele a encarou com os olhos em fogo

— Ficaria.

— Esquece! Darei um jeito.

— Que espécie de jeito você vai dar, Virginia? – O tom de Jonas não escondia sua preocupação.

— Eu vou dizer que alugo o outro quarto para você. E nós três poderemos dormir juntas, nesse quarto ou, ainda, eu posso dormir na sala.

— Você vai dormir na sala no seu apartamento? Tenho uma ideia melhor, eu durmo com você aqui e elas dormem no outro quarto.

— Eu não posso fazer isso.

— Por acaso, você sente vergonha de mim? – Jonas indagou, sentando ao lado dela e olhando nos seus olhos.

— Não é isso, Jonas! Eu não tenho vergonha de você. Só que minha sogra é uma pessoa muito conservadora, retrógrada mesmo, nunca aceitaria uma mulher mais velha morando com um homem mais novo e, ainda por cima, sem casar.

— Em que século ela vive?

— A cidade de onde venho parou lá pelos anos 50, por isso eu e Theo resolvemos sair de lá.

— Então, faça que ela veja que o mundo mudou, que estamos no século XXI.

— Eu não posso fazer isso com ela assim doente. Você não entende, que ela pode passar mal ou coisa parecida, tipo um infarto.

— Não entendo mesmo, você está sendo dramática – Jonas rebateu de mal humor.

— Não estou sendo dramática, só que quando minha mãe morreu, eu fiquei sozinha, Judite me deu muito apoio, me aparou, me fez sentir acolhida na família dela e eu sou muito grata por isso.

— Tudo bem, eu dormirei no sofá, enquanto elas estiverem aqui. E quando será isso?

— Muito obrigada, Jonas. Elas devem chegar daqui a uma semana.

— E como você vai me explicar aqui?

— E já bolei uma história. Vai dar tudo certo.