A mentira tem perna curta
6 Capítulo 6: O trágico fim, parte 2.
No dia seguinte, Clark foi à escola decidido a encontrar Chloe. Na noite anterior, mal conseguira dormir. Em parte por causa do que havia acontecido com Lana — ele ainda custava a acreditar que não tinha sentido nada quando ela o beijou —, mas também porque sua mente insistia em voltar para Chloe. Parte daquilo era preocupação com a amiga, porém havia algo a mais.
Ele não esperou por Pete. Seguiu a passos rápidos até a sala do jornal da escola. Tudo dentro dele parecia correr mais depressa: a ansiedade, os batimentos cardíacos e o desejo de encontrar Chloe. Quando chegou, empurrou a porta com força. Lá dentro, de costas, estava ela. Um enorme alívio o invadiu ao vê-la, seguido por uma alegria quase imediata. No entanto, ambos os sentimentos desapareceram assim que percebeu que Chloe não estava sozinha. Havia um rapaz ao seu lado. Os dois conversavam sobre alguma pauta do jornal e pareciam tão concentrados que nem notaram sua chegada. Chloe sorria para ele daquele jeito leve e encantador que Clark conhecia tão bem.
A cena o atingiu em cheio.
Seus dedos se fecharam ao redor da alça da mochila enquanto tentava manter o controle. Sentiu os músculos se enrijecerem e precisou de todo o autocontrole para impedir que seus poderes reagissem ao turbilhão que crescia dentro dele.
Foi apenas quando os dois se viraram ligeiramente que perceberam sua presença na porta.
— Oi, Clark. — ela o cumprimentou com um sorriso. Fazia um tempo que ele não via aquele sorriso tão bonito e aberto direcionado a ele. E imaginar que o mesmo sorriso havia sido dado a outro cara fez com que apertasse ainda mais a alça da mochila. Precisava se controlar.
— Oi, Chloe. Eu não te vi ontem. Fiquei preocupado — disse, sem tirar os olhos do rapaz que estava com ela.
— Ah, eu fui me encontrar com o Justin. Lembra dele? Ele desenhava quadrinhos para o Tocha antes de sofrer um acidente — esclareceu. Mas a única coisa que a mente de Clark conseguiu absorver foi o fato de ela ter passado a tarde com Justin.
— Ah, sim, lembro dele. — a resposta saiu mais ríspida do que pretendia. Ele sequer dirigiu uma palavra a Justin, algo que normalmente faria se fosse qualquer outra pessoa. — Podemos conversar? — perguntou.
— Ah, claro! — respondeu, um pouco sem graça. Então se virou para Justin. — Depois conversamos.
— Tudo bem. Da próxima vez, vou me lembrar de comprar o seu café favorito. — Justin sorriu, arrancando outro sorriso dela. Antes de ir embora, inclinou-se e depositou um beijo em seu rosto. — A gente se vê.
Aquilo foi o limite para Clark Kent.
Ele lançou um olhar nada amigável para o outro rapaz. A vontade de acertá-lo com seus raios laser foi grande, mas conseguiu se conter. Quando Justin finalmente saiu da sala, Clark soltou o ar com força pelo nariz e voltou a atenção para Chloe.
— O que foi isso? — perguntou.
— Isso o quê?
— Você fica sozinha com um cara e ainda deixa que ele te dê um beijo no rosto!
Chloe o encarou por um instante e caiu na risada.
— O que foi, Clark? Está com ciúmes? — provocou. — Lembra que eu sou só sua namorada de mentirinha? Daqui a pouco você vai estar com a Lana. Eu não posso ficar com outra pessoa?
Suas palavras o atingiram mais do que deveriam, justamente porque continham uma verdade que ele não podia negar. Afinal, todo aquele teatro tinha começado para despertar ciúmes em Lana. Ele deveria estar satisfeito. Pelo que acontecera no dia anterior, a farsa claramente havia funcionado. Mas não parecia certo. Havia algo o incomodando desde a noite passada, uma sensação insistente que ele não conseguia ignorar. E ver Chloe ao lado de outro cara tornara tudo um pouco mais claro.
Clark deu um passo à frente. Instintivamente, ela recuou. Depois mais um. E outro. Até que suas costas encontraram o mural do esquisito do Tocha.
— O que é isso, Clark? O que está acontecendo com você? — perguntou, confusa.
Ele a encarou por alguns segundos.
— Eu não sei... — admitiu com sinceridade. — Mas preciso descobrir.
Antes que pudesse pensar melhor, inclinou-se e a beijou. Chloe foi pega completamente de surpresa. Sua primeira reação foi permanecer imóvel, sem saber como reagir. Até que a ficha começou a cair e, aos poucos, ela se entregou. Seus lábios se abriram e lhe deram passagem para a língua. Seu corpo, rígido pela surpresa, derreteu-se em seus braços. E aquela foi a melhor sensação que Clark já experimentara. Queria mais.
Mas, quando percebeu que estava começando a ficar desesperado por Chloe, com o pingo de consciência que ainda lhe restava, afastou-se. Ali não era hora nem lugar. E, com mais um minuto, desejaria Chloe Sullivan completamente para si. Só a ideia de tê-la deixava-o quente e eufórico, como nunca havia se sentido antes por ninguém, nem mesmo por Lana.
Chloe estava corada e ainda recuperava o fôlego. Seus olhos buscavam os dele, cheios de perguntas. Ela abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Clark falou primeiro.
— Vamos namorar. — sua voz saiu firme, sem hesitação. — Nada de mentiras, Chloe. Nada de fingimento. Eu quero ser seu namorado de verdade.
Naquele instante, Clark percebeu que a verdade estivera diante dele o tempo todo. Ele apenas demorara para enxergá-la.
E o velho ditado mostrou-se verdadeiro: a mentira tem perna curta. E para Chloe que estava cética sobre aquilo, ainda bem que foi curta.
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