Notas iniciais
Yey. Estamos chegando na reta final. Como eu disse, aqui está o outro capítulo. Esse é o antepenúltimo. Espero que gostem. Boa leitura. E mais uma vez, tem uma música. Se for preciso, abram em uma nova guia.

Música

O semblante castigado de Dylan encarava fixamente os números que brilhavam acima da porta do elevador. Em suas mãos trêmulas, o celular era apertado entre os dedos. Ele segurava o objeto com força, como se pudesse prender a voz de Jen, que havia ligado para ele há alguns minutos.

“— Onde você está, Dylan?

— Jen? Jen, é você? Onde você está?

— Em casa, te esperando.

— Tu-tudo bem, estou indo agora mesmo!

A excitação com que ele fez o motorista mudar a rota havia feito aquele velho homem se sentir figurante em algo importante. Em poucos minutos estava na frente do prédio. Olhou para o alto por um breve instante, vendo a luz do seu quarto ligada. Ali naquele prédio tudo havia começado, e finalmente havia acabado. Sim, ela estava viva, e dentro de seu apartamento. Estava segura, afinal.”

Atravessou o corredor em dúvida se andava ou corria. Não tinha mais a postura de um arquiteto. Seus ombros estavam caídos, cansado, e seu cabelo todo bagunçado. Sim, ele estava um estrago. Segurou a maçaneta da porta, inspirou fundo e entrou. Um sorriso enorme apareceu quando ele a viu. Jen. Viva, e bem. Sem pensar duas vezes correu até ela, a abraçando tão forte que retirou o fôlego da garota.

— Dylan, meu Deus! O que houve com você?

Ela reclamou, enquanto dava tapas nos braços dele para que se afastasse. Assim, ela poderia ver o estado em que ele se encontrava.

— Por Aslan, o que houve com você?

Seus dedos finos apalpavam a roupa do namorado, e por fim ela ergueu os olhos, vendo o curativo no rosto.

Primeira regra. Nunca diga nada a ela.”

— Nada... eu apenas bati o carro, mas estou bem. Sério. De verdade.

O nervosismo era presente em sua voz. Nervosismo, alegria, satisfação. As pernas bambas, sentindo que não precisava mais carregar todo aquele peso angustiante que tinha carregado o dia inteiro. Ele havia passado por um verdadeiro tormento. Mas ela estava bem, e era isso que importava...

Uma olhada para o lado e notou duas malas no chão. E então a lembrança veio à sua mente. A conversa com sua sogra. Droga, não. Por favor, não.

— Jen...

— Não, Dylan. Eu não quero conversar agora. Já pensei muito sobre isso, e não irei voltar atrás.

Seu rosto baixo indicava tristeza, e ela segurava o cotovelo, como um meio abraço.

— Apenas... me diga o motivo.

Sim, Dylan merecia isso, não merecia? Mesmo se ele tiver feito algo que a magoou, todo esse esforço que ele fez o dia inteiro lhe dava algum crédito, certo? Mesmo sabendo que iria perder, ele continuou. Mesmo sabendo que ganhar ainda seria perder, ele não desistiu. Ele foi atrás. Talvez alguém poderia dizer que ele não fez mais que sua obrigação, salvar a sua companheira. E provavelmente esse alguém estaria certo, mas só por ser uma obrigação, os esforços dele não poderiam servir de algo?

— O motivo, Dylan?

Seus lábios tremeram por um instante, mas ela ficou firme.

— O motivo de eu estar indo embora nesse momento, Dylan, é que eu vi nosso relacionamento esfriar. O que antes era bom e verdadeiro se tornou cinza. Droga, Dylan, olha pra mim. Você sabe que não sou como as outras pessoas. Eu sei disso. Eu sei que eu não sou tão adulta quanto as pessoas que você conversa. Mas ainda assim, era eu quem estava do seu lado!

Ela inspirou fundo, ainda segurando o choro.

— Eu vi aos poucos você me deixar de lado, eu vi você dar mais atenção ao seu trabalho do que a mim.

Jen sabia que existia a possibilidade dela estar equivocada em algumas coisas ditas nessas palavras. Talvez ele não a tivesse deixado de lado, apenas não tenha se esforçado tanto quanto deveria nessa relação. Mas ela queria mesmo era falar o que estava segurando há um tempo. Ela queria falar o que estava machucando, nada mais.

— Mas eu percebi que eu não poderia te cobrar tanto, afinal, do mesmo jeito que eu não queria que você me mudasse, eu não tentei mudar você. Mas você nasceu para os números, Dylan. E eu... eu nasci para outra coisa.

— Jen, só...

— Não, pare. Pare de falar. Eu não quero que diga nada. Eu não quero escutar nada, eu não estou com cabeça pra isso. Só... me deixe ir. Por favor.

Ainda de rosto baixo, Jen pegou as duas malas e começou a caminhar para a porta, colocando a aliança no braço do sofá. Dylan ficou ali, parado, apenas enxergando o vazio. Então era assim que acabava? Desolado. Acabado. Seria egoísmo querer que acabasse de outro jeito? Seria egoísmo ter outra chance definitiva? Ele devia se conformar com isso? Passar todo esse tempo correndo como um desesperado atrás dela, e ao conseguir abraçá-la, ela ir embora por conta própria?

Nada na cabeça dele dizia outro julgamento além do da punição. Ele estava sendo punido. O universo o estava punindo. Castigando-o por ter recebido uma pessoa tão valiosa e não ter cuidado o suficiente, ter amado o suficiente. Mas será que o amor dele não havia sido suficiente? Será que ele poderia ter feito algo mais? Seu peito ardia, e lágrimas quentes começaram novamente a surgir em seu rosto. Quando alguém está totalmente moído, a dor chega mais rápido no coração. Inconformado, andou até o telefone, o puxou e começou a gritar.

— Está feliz agora!? Você está!? Hein!? Eu sei que está! Não foi o suficiente! Não foi!

Com força impetuosa, arrancou o telefone do gancho e jogou contra a parede. Chorou mais, soluçando e se abaixando no chão da cozinha. Nada mais poderia acontecer de ruim. Nada poderia piorar isso tudo.

Ou poderia?

Sim, poderia. E pioraria.

De súbito, Dylan ergueu o rosto, olhando em volta, tentando organizar os seus pensamentos. Aquela sensação – aquela maldita sensação que o incomodou desde que ele entrou naquele elevador. Como ele não percebeu antes? Se levantou, limpando as lágrimas. Aquela briga havia acontecido. Droga, droga, droga. Sim, e Jen havia ido embora daquele mesmo jeito, naquela mesma hora. E o velho desespero que o assombrou o dia inteiro? Ele havia voltado. Mais forte, mais aterrador. Porque o dia inteiro havia servido para tentar fugir dele, mas agora... agora que estava tão perto... Dylan não queria nem pensar.

Correu para o elevador, tremendo, e batendo no botão com força. Seus dedos trêmulos discavam o número dela. Ele ligou. Uma, duas, três vezes. Ela não atendeu. Entrou no elevador, andando de um lado para o outro. Maldição, Dylan estava realmente desesperado. Mais um tempo eterno até a porta se abrir.

— Eu preciso de um carro! Pelo amor de Deus, alguém me arruma um carro!

O pedido quase histórico do jovem desesperado foi ouvido por todos na recepção. Um senhor, vizinho deles, viu que a sua namorada havia saído mais cedo com malas na mão. Ele com certeza queria consertar a burrada. Levantou-se de onde estava sentado e caminhou até ele, entregando a chave.

— Vá, filho. Salve isso que está gritando em seu peito.

Dylan o encarou com olhos vermelhos por um instante e agradeceu, tão silencioso que nem voz havia saído. Correu, apertando no botão e fazendo o carro piscar suas luzes. Entrou, e se dirigiu para a pista. Jen estava indo para a casa da mãe, com certeza. Pesados minutos se passaram antes que ele pudesse ver o carro branco dela. Na ponta da avenida. Enquanto dirigia, e tentava acelerar mais um pouco – não tanto quanto ele queria, já que o carro não era seu e não queria causar mais outro acidente – enquanto ela se distanciava, mantendo uma distância quase constante. Mas à medida que ele se aproximava, seu peito começava a apertar. A acelerar. Não sabia o motivo, e não queria saber. Por fim o carro parou no semáforo. Perfeito. Dylan encostou o carro, e saiu, começando a correr pela calçada.

Droga, que esse dia acabe logo!

— Jen! Jen!

Ele gritava, balançando o braço. Mas ela estava com o vidro fechado, não iria escutá-lo até que ele se aproximasse mais. E foi isso que ele fez, quando ele chegou na ponta da calçada, e ficou de frente para o vidro, o sinal ficou verde. E ela acelerou.

Tudo durou apenas um instante.

O impacto. A pick-up acertando o carro de Jen em cheio pelo lado direito. O barulho. Os vidros. A violência da batida. Tudo aquilo fez Dylan gelar totalmente. Sem reação, vendo os dois carros ali, na sua frente.

Mesmo com todo o medo paralisando seus movimentos. Mesmo com todo o temor gelando seu sangue, e suas pernas estarem dormentes, ele correu. Lágrimas violentas saíam de seus olhos.

— Me perdoa, Jen! Me perdoa! Eu tentei! Eu te juro que eu tentei! Por favor, me perdoa!

E em meio ao choro, ao desespero e aos soluços, ele esmurrava o vidro da porta. O sangue começou a manchar os cacos, mas ele não se importou. Só ela importava naquele momento. Somente ela. Nada mais. A puxou, desacordada, a abraçando com tudo que tinha, a colocando no chão. Mal conseguia pronunciar as palavras.

— Me perdoa! Por favor, eu juro que tentei! Médico! Alguém chame um médico!

Seu peito explodiu em uma dor que ele não achou que fosse sentir nunca em sua vida. Mãos o seguraram, o afastando pra longe da jovem caída. Ele tentou se soltar, enquanto diziam para ele não movimentar ela. Mas ele queria ela. Ele precisava abraçar ela, e dizer que ia ficar tudo bem. Ele precisava pedir perdão até perder a voz.

Ele precisava dizer o quanto amava ela. E o quanto de pavor ele estava sentindo. Agora, mais do que nunca, ele sentia-se só.

Notas finais
...