A menina de Alnmouth - Onde O Mar Encontra A Magia
3 O 11° Aniversário
A manhã do dia 4 de agosto acordou Alnmouth com uma raridade: um dia sem névoa.
O céu parecia feito de cristal azul e limpo, enquanto a brisa que soprava do Mar do Norte trazia consigo a maresia e o perfume suave das flores silvestres que cobriam as dunas da Alameda.
Para Alice, aquele era o cenário perfeito.
Às onze e meia, a família Meadowes já estava acomodada na praia, em uma enseada tranquila cercada por morros cobertos de capim-das-dunas.
Sobre a manta xadrez estendida na areia macia, repousavam sanduíches, uma torta de morangos, limonada fresca e, no centro de tudo, um generoso bolo com cobertura cremosa de chocolate — exatamente como no sonho que Alice tivera algumas semanas antes.
- Faça um pedido antes de soprar, Lika — disse Xavier, ajustando a câmera fotográfica para registrar aquele momento.
Alice olhou para os pais.
Catherine a encarava com seus olhos cor de mel brilhando de emoção, enquanto Xavier mantinha aquele sorriso orgulhoso que ela tanto amava.
Ela fechou os olhos.
Pediu apenas que momentos como aquele, cheios de paz e amor, durassem para sempre.
Então soprou a vela com o número onze.
Um aplauso carinhoso ecoou pela praia vazia, misturando-se ao som ritmado das ondas quebrando na areia.
Xavier levou a mão ao bolso do casaco marrom e retirou um pequeno pacote embrulhado em papel de presente vermelho, com um laço dourado.
- Espero que goste — disse, beijando gentilmente a testa da filha.
Alice abriu o presente e seus olhos se iluminaram.
- Um walkman... — murmurou, com um sorriso largo e os olhos marejados.
Ela olhou para o pai, emocionada.
- Obrigada, papai. Esse é o melhor presente do mundo.
Então se jogou em seus braços, envolvendo o pescoço dele em um abraço apertado.
Xavier sorriu, retribuindo o carinho enquanto dava leves batidinhas nas costas da filha, sentindo o cheiro dos cachinhos castanhos que desciam até seus ombros.
Durante toda a tarde, a praia pertenceu apenas a eles.
Correram pela areia molhada durante a maré baixa, observaram os pequenos caranguejos escondidos nas poças deixadas pelo mar e caminharam até perto do estuário para ver os barcos de madeira balançando suavemente no rio Aln.
Ao cair da tarde, já cansados de tanto brincar e com a barriga cheia, eles se acomodaram na grama enquanto o sol começava a pintar as ondas com tons profundos de verde-garrafa e azul-escuro. O vento soprou um pouco mais forte, trazendo consigo o ar gelado característico do norte.
- Acho melhor começarmos a juntar as coisas antes que esfrie de vez — sugeriu Catherine, enquanto dobrava as pontas da manta.
Xavier e Alice ainda permaneceram deitados por mais alguns instantes, observando as gaivotas cruzarem o céu.
Foi então que um farfalhar diferente chamou a atenção de Xavier.
Uma coruja grande e majestosa passou por eles, voando consideravelmente baixo. Suas penas eram de um cinza-pálido, misturadas com delicadas manchas castanhas. Parecia carregar algo no bico, mas estava longe demais para que pudessem enxergar o que era.
- Uma coruja? A esta hora do dia? — murmurou Xavier, franzindo a testa. — Elas costumam caçar apenas à noite...
Alice virou o rosto para o pai.
- É só uma coruja, papai.
Ela sorriu com um ar divertido.
- Não tem nada para investigar aqui.
Xavier soltou uma risada e começou a fazer cócegas nela.
- Tem certeza, detetive?
Entre gargalhadas, Alice tentou escapar das mãos do pai, até que ambos acabaram se levantando para ajudar Catherine.
Pouco depois, com o porta-malas cheio e o céu já tingido pelos últimos tons alaranjados do entardecer, a família iniciou o curto caminho de volta pela Alameda das Dunas. O silêncio confortável dentro do carro era quebrado apenas pela música baixa do rádio e pelos comentários ocasionais de Alice sobre o dia que acabara de viver.
Quando chegaram em casa, Xavier foi o primeiro a descer do carro. Era um hábito antigo. Seu instinto de investigador dizia que era melhor verificar o terreno antes da família, por mais tranquila que Alnmouth parecesse.
"Coisas ruins não avisam quando vão acontecer." Era o que costumava dizer.
Enquanto Catherine e Alice retiravam a cesta de piquenique e o restante das coisas do porta-malas, Xavier caminhou até a porta da frente.
Algo chamou sua atenção.
Um envelope repousava sobre o tapete de boas-vindas.
Ele franziu a testa e se abaixou para pegá-lo.
O papel tinha uma textura diferente de qualquer correspondência comum. No verso, escrito em tinta verde-esmeralda e em uma caligrafia elegante, lia-se:
Srta. Alice Meadowes
Alameda das Dunas, nº 12
Alnmouth, Northumberland
Xavier virou lentamente o envelope.
Então viu o selo.
Aquele brasão.
Seu coração pareceu falhar por um instante.
Não...
Não podia ser.
Depois de tantos anos...
Disfarçando o choque, deslizou o envelope para o bolso interno do casaco antes que Catherine ou Alice pudessem notar qualquer coisa.
- Papai! Já fez a verificação? — brincou Alice, equilibrando a manta em um braço e o walkman no outro.
Xavier piscou algumas vezes, afastando os pensamentos.
Respirou fundo e voltou a vestir sua habitual serenidade.
- Tudo limpo, senhorita Meadowes. Podem entrar.
Alice sorriu, satisfeita com a resposta, e passou por ele ao lado da mãe.
Xavier esperou as duas cruzarem a porta antes de entrar.
Por um instante, sua mão repousou sobre o bolso do casaco, sentindo o relevo do envelope escondido ali.
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