A marca da Fênix
4 A fuga
Notas iniciais
Aurora estava entregue ao mundo dos sonhos. Ela estava na sala do trono, a mesma estava muito iluminada, e ela pode notar que haviam alguns respingos e pegadas de algo vermelho, escuro como o sangue. Ao olhar para o vestido viu que ele estava ensopado do líquido rubro, ela se espantou, engoliu em seco, um leve temor percorria seu corpo, fazendo com que ela não conseguisse se mover, ela levou aos mãos ao rosto em desespero, não sabia da onde tinha vindo todo aquele sangue.
Na parte elevada da sala, sentado ao seu trono estava Lidhrës, que fitava a jovem em seu desespero, ele se pôs de pé e chamou sua atenção, ela desviou um olhar de clemência para ele. O Rei pediu que ela viesse até ele, ela conseguiu se mover, bruscamente e sem coordenação, era como se fosse uma marionete pressa a cordas, ela arfava muito a cada passo que dava. Lidhrës a fitava lascivo, a roupa colada ao corpo por causa do líquido insinuava suas partes, aquilo o deixava em um grande frenesi.
Ela chegou perto dele sem subir os degraus, se ajoelhou no chão e começou a fita-lo nervosa, ela tremia e isso o causava mais euforia em seus sentidos. Ele se curvou e passou os dedos pelos lábios da jovem, que também estava ensanguentados, ela ficou mais ofegante, o coração batia forte, era uma mistura de medo e frenesi. Ele fitou a ponta dos dedos cobertos por sangue e depois os levou a boca, em um gesto simples provou o sangue que neles continha e lhe dirigiu um sorriso depravado.
– É um sangue bem doce. — Ele passou a mão pelo rosto de Aurora e depois pousou-a debaixo de seu queixo, elevou-o um pouco e tocou os lábios dela com os seus.
Aurora acordou de sobressalto, as batidas do coração alteradas, a respiração desbalanceada, demorou até que ela pode-se voltar ao estado normal. Ela deitou a cabeça novamente no travesseiro e esfregou os olhos, o sonho não tinha sido o pior pesadelo que ela já tivera, mas mesmo assim sim tinha sido perturbador.
Ela se sentou no leito da cama e fitou as cortinas da janela balançando com a leve brisa da manhã, ela se levantou e caminhou um pouco pelo quarto, para esvaziar a mente, ela abriu as portas do armário no canto oposto, haviam algumas roupas, túnicas, blusas e calças. Nada daquilo parecia ter sido tocado a algum tempo, dentro do armário em uma prateleira, havia um porta retrato, era uma imagem pintada a mão de dois meninos, o mais novo exibia um sorriso largo de mostrar todos os dentes e o mais velho trazia no rosto um sorriso simples mais alegre, os dois possuíam os cabelos amarelos como o sol, e as vestes verdes como o limo.
Ela fechou as portas do armário novamente e caminhou até a varanda, se debruçou sobre o guarda-corpo e fitou o jardim interno, a luz do sol beijava suavemente seu rosto e o vento afagava seus cabelos. Lirái atravessou o portão para dentro do castelo, o olhar dos dois se encontraram, mesmo a distância, ela lhe dirigiu um sorriso, mas ele desviu o olhar e seguiu em frente.
Lirái entrou pelo acesso e subiu a escadaria até o andar superior, depois adentrou a sala de jantar e pegou o acesso da direita que dava para um extenso corredor, haviam alguns quadros na parede com imagens distintas, ele seguiu até o final e adentrou, a passagem dava para a sala do trono. Lirái avançou por detrás do trono em direção ao pai, Lidhrës estava com a mente longe, demorou para perceber a presença do filho nos aposentos.
Lirái parou ao lado do trono e fitou o pai que estava com a mão apoiada ao fronte, ele mantinha pensamentos constantes em algo que não pertencia aquela realidade, talvez ele tivera um sonho ruim e o mesmo o estava afetando. Quando Lirái pousou a mão sobre o trono, foi que ele voltou a realidade, dirigiu o olhar ao filho parado ao seu lado.
– Ela já despertou? — Lirái assentiu levemente com a cabeça. — Ótimo! vou mandar um guarda para vigia-la. — Lirái olhou para o piso, pensando que ela não ia gostar da ideia de ter alguém cuidado cada passo que ela dava.
– Pai, o senhor acha que é mesmo necessário que alguém fique á vigiando?
– Claro, ela é importante para o destino de todos nós, se ela resolver fugir ou se for capturada estaremos todos em decadência. — Lirái concordou, mesmo querendo dizer que ela era mais forte do que eles pensavam, mas não proferiu palavra alguma. — Vou dar ordem ao nosso guarda de maior confiança para ficar encarregado dessa tarefa.
– Ótimo, diga á ele para não cair nos encantos dela, ela é uma ótima com persuasão e avise que ela não pode andar em lugar nenhum sem acompanhamento de alguém. — Ele terminou e Lirái fez uma reverência se retirando.
Ele partiu ao encontro de Eikki o guarda mais confiável do reino, ele possuía muitos títulos dados pelo próprio Rei, ninguém melhor do que ele para ficar com a responsabilidade de monitorar Aurora. Lirái ainda avisou que ela não podia ficar sozinha, que se ele precisa-se prestar serviço em algum outro lugar, era necessário que passa-se a guarda dela para alguém confiável.
–
Aurora foi em direção a porta, mas ela estava trancada. Ela se jogou na cama que balançou no ar, ela ficou fitando as tábuas do foro, as imagens do sonho ainda invadiam sua mente, ela absorvera bem o fato de ser a princesa porque não se importava com isso, ela só queria o conforto de casa novamente, não queria se meter em nenhuma guerra, não queria travar batalha alguma, mas ficou pensando em Sídal, no que tinha dito, que não ia embora, pensou na nova amiga Mirdha, mas no momento estava pensando só no galante Cyd, que parecia estar certo quanto a Lirái, que agora mostrava seu real lado, o de rapaz cruel e frio.
Ela ouviu um barulho de tranca então levantou e olhou para a porta, ela se abriu, revelando um homem alto e forte, com armadura da guarda Especial, junto dele estava Lirái, que se vestia como de costume.
–Senhorita Aurora, esse é Eikki, ele ficará responsável pela sua vigilância, será seu guardião até segunda ordem do rei. — Lirái esticou a mão e o homem deu um passo a sua frente. — Você não pode caminhar por ai e nem deixar o castelo sem a companhia desse ou qualquer outro guarda.
– Que maravilha. — As palavras eram de desgosto. Lirái assentiu e seguiu para ir embora, Aurora correu e se segurou pelo arco da porta e estendeu a cabeça na direção dele. — Bom dia para você também Lirái.
Ela bufou e voltou para dentro, o homem ficou parado inabalável, parecia uma estatua de ouro com adornos de prata, Aurora o fitou e riu, ele lembrou a ela uma estatua de um museu que ela visitara com a tia uma vez, tinha várias estatuas engraçadas por lá ou pelo menos era o que uma garota de treze anos achava.
– Me diz, o que o Rei preparou primeiro na minha lista de coisa chatas para fazer?
– Na verdade, não há nada programado para você, eu só devo escoltá-la aonde você for. — Ele não se moveu, só o olhar que foi na direção dela. — Mas ele pediu que você fosse levada a sala de banhos primeiro, para ganhar vestes descentes.
Ele sai do quarto e indicou para o corredor para que ela o acompanha-se, ela saiu e os dois seguiram lado a lado, ele era bem alto, deveria ter quase uns dois metros de altura e era bem sério, mas ela sabia que pôr de baixo daquela armadura deveria existir um homem bem legal, ou pelo menos era o que ela pensava. ela tentou puxar assunto umas duas vezes, mas Eikki não respondeu, ficou quieto enquanto eles desciam as escadas para o andar inferior, mas na terceira vez ele cansou de bancar o silencioso.
– Você está a muito tempo na guarda?
– Faz algum tempo sim, e eu não tenho autorização para falar com você. — Aurora ficou impressionada, além de prende-la, o rei não queria que ela se comunicasse com ninguém.
– Mas o Rei não ficará conosco, então ele não vai saber se você conversar comigo. — Ela deu um sorriso simples, demonstrando confiança e Eikki a olhou com o canto dos olhos, não aprovando muito a ideia.
Ao descer as escadas eles foram para a esquerda, seguiram reto sem contato visual, chegaram a uma porta de madeira com adornos de pura prata, Eikki bateu e uma donzela a abriu devia ser a responsável por cuidar da afusão. Ela era bela, tinha a pele pálida e os cabelos longos e negros, ela se vestia com simplicidade mas elegância.
Aurora adentrou a sala e olhou para Eikki que parecia querer segui-la.
– Você não vai entrar não é? — Falou a jovem de cabelos negros, ele ficou com uma expressão de vergonha. — Espere ai fora.
Aurora riu da expressão do homem, parecia ter ficado intimidado com a jovem tão esguia comparada a ele, a moça fechou a porta e balançou a cabeça em negativa, como se essas coisas a deixassem impaciente, mas depois um lindo sorriso desabrochou em seu rosto.
– Como vai Aurora?
–Vou bem, obrigada. — Aurora estava alegre por encontrar alguém que não a olhasse como se fosse um funeral.
– Eu deixei tudo pronto por que o príncipe passou aqui um pouco mais seco avisando que você viria. — Ela foi em direção a uma mesa com alguns jarros e potes.
A sala de banho era bem ampla, havia uma enorme banheira de pedra branca no centro, ela estava cheia de água, em um canto mais abaixo da enorme banheira, havia algo parecendo uma cúpula de pedra fixada a bainheira, aquilo era o que mantinha a água quente, tinha a função de ser como um forno, para que a água não esfriasse durante o banho.
– Sabe, eu gosto de saber o nome das pessoas que vão cuidar do meu banho.
– Aurora estava sentada na borda da banheira passando a mão pela superfície da água, estava adequada para uma boa afusão.
– Me perdoe, que descuido o meu, eu sou Lírian. — aurora sorriu docemente com a mão ainda dentro da água. — Agora tire a roupa e entre na banheira, por favor.
– Você quer que eu fique nua aqui, com você me olhando? — Ela ficou totalmente envergonhada e Lírian não parecia tirar aquilo do profissional.
– Sim, ou onde você morava as pessoas tomavam banho de roupa? — Aurora ficou mais vermelha ainda.
Lírian foi até a enorme mesa no canto e quando ela ficou de costas Aurora se despiu rapidamente, e entrou nabanheira. Ela se acomodou completamente na água, os nervos que antes estavam tensos agora começavam a relaxar e ela não estava se preocupando com mais nada a não ser o momento ali em questão, Lírian voltou trazendo consigo uma jarra e um pote, de dentro do pote tirou algumas raízes e pétalas de flores e as jogou pela água, parecia um lago intocada depois de uma ventania, ela estava bem centrada fazendo seu trabalho, não chegava a piscar. A jarra continha um líquido com um aroma de chá, só que era como um creme, ela despejou-o sobre os cabelos de Aurora e começou a massagea-lo, o líquido criou uma espuma, deveria ser um shampoo natural.
Aurora ficava mexendo nas pétalas sobre a água, como uma criança com um patinho de borracha em uma banheira, Lírian parou de mexer nos cabelos dela e se afastou, foi até a mesa novamente, mas não trouxe nada de lá, só se sentou em um banco perto da banheira e fitou a janela, que não era muito grande, mas fazia um ótima iluminação no cômodo.
– Você vai ficar assim um pouco, até que faça efeito. — Aurora assentiu, queria colocar alguma música no ambiente, como fazia em casa. — O que anda achando do nosso Reino?
– Eu o acho deveras bonito, mas eu quero muito voltar para minha casa. — Lírian sorriu, ela entendia muito bem o que era ficar longe de casa.
– Vejo que você e o príncipe são bons amigos. — Aurora desviou o olhar para água, ela pensava a mesma coisa antes, mas agora com a mudança de temperamento de Lírai ela já não sabia.
– Eu acho que sim, mas me diga, como é sua vida aqui. — Aurora quis mudar o rumo da conversa, Lírian ficou um pouco tímida devido a pegunta.
– Eu só trabalho na castelo atualmente. — Ela desviou o olhar e Aurora sabia que tinha algo mais, ela era boa em perceber quando havia algo mais na história.
– Já eu acho que tem algo mais, você não tem nenhum amante? — As duas riram, ambas estavam bem a vontade uma com a outra.
– Eu não diria amante, por que ele jamais me amaria. — Ela expressa tristeza e Aurora não gostava de pessoas tristes pelas perguntas curiosas e sem sentido dela.
– Ele deve ser um grande idiota por não querer amar você Lírian. — Ela exibiu um belo sorriso novamente. — Quem é ele?
– Acho que não devo contar. — Ela ficou muito vermelha e Aurora insistiu que ela contasse quem ele era. — É o Rei. — Ela suspirou e Aurora se calou, lembrou do sonho.
– Ele é lindo e sempre cavalheiro quando vem aqui, me trata com cuidado, e é impossível não admirar aquele corpo. — Lírian se perdia em devaneios, enquanto Aurora balançava a cabeça sorrindo.
Depois de retornar a realidade, Lírian foi até a mesa e buscou uma grande jarra, foi até a banheira e despejou a água pela cabeça de aurora, que no primeiro momento se tremeu com o choque térmico da água, a da jarra estava muito gelada, ela passou a mão nos olhos para tirar um pouco da água. Lírian pegou um pente de madeira com dentes bem largos e penteou o cabelos de Aurora para tirar os residuos restantes.
Ela se levantou e enrolou-se em longa toalha branca, Lírian perguntou a ela se queria ajuda para se vestir e ela disse que não, ela se vestiu atrás de um lindo biombo feito de bambu, o Rei havia mandado que trouxessem a ela um vestido branco com um estampado de flores na região do peito, ele era bem firme no dorso e tinha a saia não muito longa mas bem rodada, ela teve que colocar uma anágua por baixo para que fica-se com a forma certa, ela ganhou também um par de sapatilhas, parecidas com a que ela estava no dia que saiu de casa.
Ela ficou muito bonita, os cabelos por serem curtos já estavam quase secos, ela pediu a Lírian que refizesse sua trança no canto do rosto, Lírian a fez perfeitamente como sídal tinha feito, isso alegrou Aurora, ela prometera jamais esquecer a pequena e carregaria seu presente para sempre. Lírian passou um pó pelo seu rosto, fazendo a pele ficar mais pálida do que era. Ela já estava pronta para sair, Lírian abriu a porta para que ela saísse, Eikki estava parado ao lado da porta a esperando, ele se surpreendeu quando a viu, ela estava realmente muito bela. Aurora agradeceu a Líria, as duas se despediram e Aurora e Eikki seguiram em frente, em direção ao acesso da escada.
– Você disse que não tem nada marcado para mim aqui, não é?
– Sim madame, eu só tenho que escolta-la aonde você for. — Ele respondeu não mais tão sério quanto antes.
– Então vamos a casa de Mirdha Rosa-Azul. — Ele assentiu e os dois seguiram para fora, passando pelo jardim interno e depois pelo portão.
Os dois caminharam com Aurora puxando assunto a cada passo, ela estava ganhando a confiança de Eikki, mas não era para nenhum fim, era só por que ela odiava ficar ao lado de alguém por muito tempo sem falar nada, era como uma necessidade natural dela, ser sempre muito falante com todo mundo. Eles chegaram a casa de Mirdha e Aurora teve uma brilhante ideia.
– Eikki, disseram que algum guarda tinha que me vigiar, mas que não necessariamente tinha que ser você toda hora? — ela perguntava sorrateira
– Sim, mas só se eu fosse chamado para algum serviço em prol do Reino. — Ele a fitou bem sério, mas ela não se abalou.
–Eikki, por que não faz assim, você poderia ir para casa, ter um descanso e dar ordem a Mirdha para que me vigie, ela pertence as tropas e não trairia o Rei. — Ele ficou pensativo, a dias que não tinha um descanso merecido e ela tinha razão, ninguém ousaria trair o Rei.
– Esta certo, mas que ninguém saiba disso senhorita. — Ela sorriu contente, poderia conversar com Mirdha a sós sem ninguém para ouvir e delatar ao rei.
Ele assentiu, confiava em Aurora ou caiu em sua persuasão, coisa que o Rei adivertiu para que não acontece-se. Ele bateram na porta e Mirdha abriu, ficou contente ao ver Aurora, Eikki deu as mesmas ordens que recebeu a ela, Mirdha concordou com tudo, Eikki se despediu de Aurora, agora tinham um leve segredo entre eles, algo que os tornava comparsas.
Aurora entrou na residencia de Mirdha, ficou com saudades daquela saleta e dos bancos de madeira, o castelo podia ser grande, mas era vazio e sem nenhum conforto, mesmo com suas enormes instalações refinadas. Ela e Mirdha se abrasaram, Mirdha tinha ficado preocupada, Aurora tinha ido, mas não tinha voltado e isso a deixou com um sentimento aterrador.
– O que aconteceu lá mocinha? — Mirdha a olhava preocupada, Aurora suspirou relembrando a véspera.
– O Rei revelou o que eu realmente sou. — Mirdha ficou quieta, ela meio que já tinha noção disso, mas não quis admitir.
– Nossa, é um fardo grande de mais para uma garotinha carregar sozinha. — Mirdha pousou as mãos em seus ombros e deu um sorriso encorajador, na verdade Aurora para a idade élfica não era adulta ainda, só quando completa-se cinquenta e cinco anos, seria uma adulta perante as leis.
– Não é um fardo que eu queira carregar, mas parece ser o meu dever. Ela sorriu sem jeito. — Mas não foi por isso que eu vim, tenho que lhe contar uma coisa.
Então Aurora narrou todo o sonho para Mirdha que ficou perplexa com os detalhes, talvez, fosse pelo sangue ou pelo fato de envolver o Rei, mas ela estava com uma súbita sensação de desconforto, não era difícil para ela acreditar nesses sonhos, ela mesma já havia tido muitos pesadelos mas não como esse. Mirdha sabia com quem Aurora precisava falar, um dos únicos que ia entender e conseguiria explicar o porque do sonho.
– Aurora, eu não conseguiria explicar corretamente o significado desse seu sonho, mas há alguém que pode. — O sonho assombrava a mente de Aurora e ela queria saber o que ele significava. Ela concordou em ir ver o homem. — Só que eu não posso ir com você.
– Por quê?
– Sídal vai voltar daqui a pouco e não posso deixá-la sozinha. — Aurora ficou desapontada mas entendia a situação.
Mirdha explicou corretamente como chegar lá, para que ela não se perde-se. Aurora partiu, o lugar ficava um pouco longe, umas sete ruas a oeste do castelo, ela fez o trajeto se escondendo de qualquer guarda que passava ao seu lado, ela optava por pegar alguns becos como passagem em vez das ruas principais, ela suspirava de preocupação e receio a cada beco que adentrava, ela tentava afugentar o medo, mas ela era fraca e sabia disso.
Ela chegou até o lugar que as informações de Mirdha indicavam, era grande com feito de pedra branca, possuía algumas janelas, tinha pilastras de mármore na frente que sustentavam a longa varanda no nível superior. As portas eram de madeira, duras e pesadas, Aurora teve de exercer um pouco de força para empurra-las, lá dentro era lindo o paraíso para qualquer amante de livros, era uma majestosa biblioteca, com paredes brancas lisas, que reluziam a luz do sol que emanava das janelas, tinha muitas estantes e prateleiras repletas de livros, no primeiro e no segundo nível. O segunda andar não possuía o piso completamente fechado, continha passarelas ligando um corredor ao outro.
Aurora caminhava encantada. Mais ao longe um homem se aproximava, ela não o viu chegar, estava absorta folheando um livro da estante ao seu lado, as letras eram diferentes do alfabeto que ela estava habituada, mas mesmo assim ela conseguia ler, como se aquilo fluísse em seu sangue, como se fosse parte dela. O livro falava sobre um jovem que parecia ter se aventurado em um lugar distante, deveria ser um conto típico.
O rapaz se aproximou dela, trazia um sorriso nos lábios, ele tinha os cabelos pretos e penteados para trás com leveza, vestia uma túnica verde clara e uma calça na cor bege, ele olhou por cima do ombro dela, para saber qual livro ela estava lendo, ele conhecia todos os exemplares que ali haviam.
– Eu recomendaria As vestes da Aranha, são do mesmo escritor, mas o outro é melhor. — Ela se surpreendeu, conhecia aquela voz, se virou rapidamente e ele sorria, ela largou o livro e o abraçou.
– Cyd, que bom te ver. — Ela estava feliz por vê-lo, não sabia o por que, só estava alegre, ele sorriu elegante e amável.
– Você está linda, mas receio que não veio por mim e nem muito menos para ler alguma obra daqui. — Ela assentiu pensativa. — Venha comigo.
Eles seguiram no corredor por entre as estantes até uma parte aberta, que continha uma grande mesa, com um jogo de chá posto perto da ponta, tinha uma cesta com frutas e um prato com um tipo de pães parecendo biscoitos. Cyd puxou a cadeira mais para perto da ponta para que ela senta-se, ela sorriu agradecida e ele puxou uma outra cadeira para si, eles ficaram frente a frente, mas não rente a mesa, ficaram ao lado de onde estavam as xícaras, ele serviu o chá nas xícaras e alcançou uma á ela, que aceitou de bom grado.
– Cyd pode me alcançar esse prato com os pães. — Ela encarou o prato faminta.
– São ärghäns. — Ele alcançou o prato para ela, que devorou uns dois de uma só vez, deixando Cyd intrigado. — Eles não deram comida para você no castelo?
– Dar eles deram, mas eu não quis comer nada que me ofereceram. — Cyd deu uma risada doce, como quem acaba de ouvir algo divertido.
– Mas você não veio por isso, o que queria conversar?
– Uma das coisas é que você sabia quem eu era, mas não disse nada. — Ela estava engolindo o quarto ärghän, enquanto terminava a frase, voltou os olhos para cyd carregados com algo que parecia irritação, Cyd retribuiu com seu famoso semi-sorriso.
– Não era eu quem deveria contar-te sobre isso princesa. — A palavra "princesa" a deixou um pouco desconfortável, talvez ela não tenha absorvido tão bem aquela ideia. — E qual seria a outra coisa?
– Mirdha disse que você entende de sonhos. — ela suspirou fitando as mãos sobre os joelhos e Cyd percebeu que tinha algo errado.
– Sim, eu entendo algumas coisas sim.
Aurora suspirou fortemente e pôs todas as palavras para fora, Cyd ouviu tudo centrado, não ficou surpreendido nem perplexo, só pensou e quando ela terminou, ele ainda permaneceu em silêncio. Um silêncio que aborreceu Aurora, afinal o desconhecido a encantava e aborrecia, tudo ao mesmo tempo e ela já não sabia o que sentia, o peso de ser a última descendente de uma raça, se misturava com a saudade de casa, mas algo parecia nascer em seu íntimo, algo novo que ela só sentira uma vez à muito tempo e parecia brotar novamente dentro de si, como uma lagarta que se enfia em um casulo e demora anos para sair novamente. Cyd começou a falar dando fim ao silêncio.
– No nosso mundo os pesadelos não são meras projeções da mente, os pesadelos são forças da escuridão que tentam apoderar-se de nosso consciente, fazendo com que nossa mente fique concentrada só naquilo, e que nossas ações mudem baseadas no sonho em questão. — Ele fez uma pausa em meio as palavras que pareciam ser postas para fora as presas.
– Quem domina esses pesadelos?
– O mal de todos os males, a escuridão...
– Mas como Drakenus sabe que estou aqui? — Ela o interrompeu drasticamente, deixando-o perdido em qual assunto estava.
– Drakenus pode não saber , mas Tehöa sabe, ela pode estar aprisionada, mas ainda é onisciente sobre tudo a sua volta. Não me interrompa mais mocinha. — Aurora teve um calafrio aterrador, a expressão de Cyd era seria. — Ela tenta a todos, não importa quem seja, é mais um em seu exército de dor, e seu sonho com o Rei, me faz ver que o mesmo também está sendo atormentado pelos vermes da escuridão. Ela sabe quem você é e vai tentar você, não pode deixar que ela te sucumba.
– Você tinha pesadelos no outro mundo? — Ele solvia um gole do chá, falava como um psiquiatra.
– Sim, os médicos achavam que eu podia ser esquizofrênica, porque tinha pesadelos muito frequentes e completamente lúcidos. — Ela o olhou melancólica, essa foi uma fase de sua vida que ela preferia manter enterrada, junto com muitas outras coisas, como agora a morte de seus pais que não foi por um acidente e sim um assassinato, ela tentava afastar esse fato, para que continuasse com a mente limpa.
– Eu imaginei que sim, lá ela não tinha força para te manipular, mas aqui ela terá, resista as tentações Aurora, nunca acredite em seus sonhos. — Ele colocou a mão sobre a dela na mesa e sorriu acolhedoramente, implorando para que ela o ouvisse.
Eles ficaram ali converando, ele lhe contava sobre suas obras favoritas e ela sobre as dela, Aurora era uma amante de livros, passava horas na biblioteca da cidade, devorando as paginas dos contos. Ela se sentia bem ao lado de Cyd, ele era verdadeiramente um homem sábio, deveria ter investido sua vida inteira aos estudos, mas mesmo assim ele parecia sozinho, como se um vazio morasse nele e conhecimento algum pudesse preencher, e agora ele se sentia encontrando o que podia completar sua vida e ele estava abraçando esse sentimento com todas as forças para que ele não fosse embora, não escorrega-se dos seus dedos como a água de um rio.
Cyd contou a ela sobre o mundo que agora também a pertencia, contou sobre os outros reinos, sobre as outras raças, como a das ninfas: Espíritos de feminilidade, que nascem das auras das árvores e rios ( as dos rios são cruéis, se alimentam de fresca), elas se envolvem com os elfos só por procriação , algumas sub-raças nascem dessas reproduções; Como as Niründeis, uma raça composta só por mulheres, são mais pálidas e medrosas que as elfas normais, mas poderosas com o uso da natureza; Os Iluriaty que são uma espécie só de homens, mistura das ninfas com os elfos negros, eles tem a pele acinzentada e são mais altos que os elfos comuns e tem mais massa muscular, a cor do sangue deles também é diferente, possui uma coloração azul e eles só pensam em guerra, não tem piedade alguma com ninguém, matam sem pensar, mas são uma raça em decadência, por que as ninfas estão parando de procurar elfos negros e ninguém quer ter relação com um Iluriaty, por isso estão fadados a extinção.
Contou a ela sobre os espíritos antigos, forças nascidas dos elementos, que habitaram um pouco depois da batalha pelo destino do mundo e ajudaram Mirdor a dar vida aos demais elfos pelos elementos, mas só restou um espírito, os outros desapareceram, a profetisa é a única restante de todos eles. Mas o assunto atual era os dois mundos.
– Sabe nosso mundo é muito vasto e há muita coisa enexplorada por aqui ainda. — Ele se pôs de pé, e caminhou um pouco entre as estantes, Aurora o fitou sorrindo docemente. — Tem as cavernas de Franang, cuja pessoa alguma voltou viva; Tem o Mar do Norte, nenhum navegador voltou até hoje. Há muita coisa desconhecida ainda, seres que ninguém sabe.- Ele deu a volta ficando atrás da cadeira dela. — E tem as passagens que levam a outros mundo que ninguém viu.
– Há outros mundo?
– Muitos, mas não se sabe como eles são e nem o que há lá. — Ele se sentou na cadeira novamente. — Mas um dos grandes problemas, é o mundo dos homens.
– O que tem o mundo dos homens? — Ela fitou-o espantada.
– Daqui alguns anos possivelmente nós nunca mais tenhamos contado, por que nossas passagens são por meio de floresta, rios... Pela natureza em questão e eles estão destruindo o próprio mundo, por isso não acho que nossa conexão durará muito. — Aurora foi bombardeada por uma estranha tristeza, mas Cyd a consolou, ele não suportava vê-la triste.
A troca de olhares e a conversa estava magnifica, eles estavam confortáveis sobre seus próprios sentimentos, mas alguém ia atrapalhar aquela confraternização, esqueceram de avisar Lirái que a conversa era particular.
– Como eu pensava! — A voz de Lirái ecoou por todo o salão, Aurora se surpreendeu primeiramente, não imaginava que ele ia aparecer ali. Já Cyd, não deu atenção, ele só se virou na cadeira em direção a Lirái.
– Como me achou aqui? — Ele estava um pouco irritada, será que teria sido delatada por Eikki.
– Eu encontrei Eikki perto do rio, mas você não estava com ele, então eu perguntei onde você estava e ele disse que tinha te deixado sob os cuidados de Mirdha, fui até a casa dele e ela tentou me enrolar, mas acabou contando onde você estava. — Cyd suspirou e depois riu desdenhoso, como que em deboche, Aurora não entendia o que estava acontecendo entre os dois, parecia ter uma espécie de rixa entre os dois.
– Está irritado por que ela decidiu vir a mim do que à você. — Cyd cuspiu as palavras enquanto se colocava de pé.
– Eu não estou irritado, só um pouco incomodado da senhorita Aurora não acatar ordens. — Ele olhou para aurora que se engolia na cadeira. — E não tem porque eu me preocupar com o fato dela estar aqui Cyd, você jamais conseguiria cuidar de alguém que não fosse você.
– Ora Seu... — Ele ia socar Lirái mas Aurora segurou seu braço rapidamente e suspirou.
– O que está acontecendo aqui, vocês parecem duas crianças. Chega! — Ela se pôs entre os dois, dando fim ao empasse.
Os dois ainda trocavam olhares de ódio. Aurora tentava entender o que se passava ali, foi quando ela sentiu um aberto no peito e a sensação de que algo a queimava, ela subitamente perdeu o folego, se apoiou com a visão turva na mesa, ela arfava em busca de ar. Lirái foi surpreendido e Cyd ficou muito assustado, ambos foram acudi-la, mas ela se desequilibrou e caiu no chão, derrubou tudo o jogo de chá de Cyd no chão, espalhando o líquido do bule por todo lado.
Ela estava engasgando, ficando quase azul, ela se contorcia como se algo tentasse sair do seu peito. Foi quando ela olhou para a direita, o lado as estantes e viu uma mulher toda de branco, pele e cabelos pálidos como a neve, mas ela tinha os olhos negros, sem nenhuma ponta branca, só escuridão. Ela começou a se aproximar de Aurora, ela sentia um vento frio a cada passo que a mulher dava.
– O que você deu há ela? — Lirái gritava, só não socou Cyd por que a hora era inoportunua.
– Chá de flores roxas e ärghäns, mais nada. — Cyd estava assustado, não sabia como lidar com o que estava acontecendo. — Você está achando que eu queria matá-la?
– Não duvido nada de você Cydhriüm.
Aurora ainda se contorcia e a mulher ficou na sua frente, as vestes pareciam estar molhadas, ela se agachou e ficou com a visão no mesmo nível da de Aurora, ela fitou aqueles olhos negros como a noite, e relembrou direto o pesadelo, como se estive vivendo-o de novo, o som das vozes de Cyd e Lirái pareciam só ruídos ao seus ouvidos, era como se o tempo a sua volta tivesse ficado lento. A mulher aproximou o rosto do ouvido de Aurora, as palavras sibilantes.
– Ele deveria ter tido para não confiar em seus olhos... Não estará segura em lugar algum pequenina. — Seu coração começou a bater freneticamente e então sua visão ficou escura e ela desmaiou.
Lirái vendo que ela desfalecera, colocou-a em seu braços e decidiu que tinha que partir em busca de um curandeiro, porque se demorasse mais um pouco ela poderia possivelmente morrer e com isso toda a esperança. Ele correu as pressas e Cyd foi com ele, Lirái tentou afugenta-lo dizendo que agora sua presença era inútil, mas ele não deu ouvidos e os dois partiram para a casa do velho Absën, que por graças estava em casa.
Lirái não explicou muita coisa, só falou que ela parecia ter tido uma intoxicação, coloco-a em cima de uma mesa. Absën começou a misturar milhares de ervas que tirava de potes no armário, elaborou um tipo de chá e fez com que a garota bebe-se, mesmo inconsciente, Lirái em silêncio pedia para que ela não morre-se e cyd só ficava quieto, ele também temia pela saúde dela e se culpava pela situação.
– Ela ficara bem, foi só um susto. — Absën falava calmamente, com sua barba grisalha balançando junto com o queixo.
Isso trouxe alívio a todos, Lirái agradeceu ao senhor, eles colocaram ela em uma das camas do quarto que ele cedera para o descanso dela, Cyd ficou sentado ao seu lado no leito e Lirái ficou encostado na porta, contemplou o sentimento nos olhos de Cyd, viu que ele sentia algo pela jovem, só não sabia o que era.
Ela acordou uns vinte minutos depois, abriu os olhos lentamente para se adaptar a claridade, estava com uma forte dor de cabeça, ela se sentou e viu Cyd ao seu lado. Lirái sabendo que ela estava recuperada, se desencostou da porta e saiu, foi embora deixando os dois a sós, Aurora não entendeu o porque dele ter feito isso, mas não disse nada que impedisse sua ida.
– Você está bem, me perdoe não tinha noção que o chá iria te fazer mal. — Ela sorriu e colocou a mão no ombro dele.
– Está tudo bem, mas eu preciso fazer uma coisa muito mais importante.
– O que é, me diga e eu a ajudarei. — Ele falou decidido, mas Aurora sabia que para o que ela iria pedir, ele talvez não pudesse cumprir com o que dizia.
– Eu preciso fugir, quando estava deitada no chão a figura de uma mulher me disse que eu não estaria segura em lugar algum e desmaiada eu tive uma visão, eu chegava a cidade dourado e ela estava arruinada, ouvia vozes clamando por socorro, chamando o meu nome e depois vi esse Reino em ruínas, os corpos sobre o rio. — Ela vacilou, quase ousou chorar mas não se permitiu. — Por isso preciso ir, esse povo precisa de mim.
– Se morrer não terá como salvá-los. — Ele a olhou suplicando para que desisti-se.
– Esse é o meu destino, não posso mais fugir dele, passei anos fugindo agora é hora de encarrá-lo, você me ajudará nisso?- Ele sorriu, faltava-lhe coragem, mas mesmo assim ele concordou, foi algo que a alegrou.
Aurora voltou a casa de Mirdha e contou a ela que precisava fugir do Reino, sem o Rei tomar conhecimento, Mirdha repúdiou a ideia e cyd ficou do lado dela, Aurora explicou todo o fato do porque precisar fugir novamente para ela, que se rendeu e aceitou ajuda-la na fuga. Eles iam ter que chegar até o portão principal e sair sem ser vistos e depois era necessário que Aurora tivesse uma montaria e um mapa.
Eles decidiram sair a noite. Aurora já havia ceado com o Rei e Lirái, ele não comentou nada do acontecido com o pai e ela foi levada de volta a seus aposentos depois da ceia . Ela olhou pela janela e viu que a lua começava a se por perto do auge, era hora de sair. Mirdha tinha dito que há apenas uma falha na vigilância da muralha, a segunda troca de turno a noite, quando a lua se colocava totalmente no auge os soldados que estavam lá saiam e não se davam ao luxo de esperar os que iam substitui-los no posto, deva a vantagem de quase quinze minutos entre um turno sair e outro entrar, eles decidiram usar essa vantagem.
Aurora roubou algumas das roupas que estavam no armário, eram masculinas e um pouco largas, mas ficaram perfeitas, as calças ficaram justas, as coxas dela era maiores do que as do antigo dono e as botas ficaram um pouco soltas nas canelas. Ela foi e abriu suavemente a porta do quarto para que ninguém a ouvise, mas ao abrir a porta ela se deparou com Eikki fazendo sua vigia, parece que ele não foi punido por deixa-la sozinha. Ele estava parado em posição de sentido e se virou ao ver a porta do quarto se abrindo e Aurora tentando sair.
– Você não pode sair! — Ele falou baixo mas austero, Aurora bufou impaciente, ela tinha um compromisso.
– Você deve saber quem eu sou. — Ele concordou, as pessoas começavam a cochichar sobre ela e sobre quem ela poderia ser. — Então sabe que eu tenho tanto poder quanto o Rei Lidhrës e ordeno que me deixe passar.
Ele concordou e ela foi rapidamente descer as escadas quando sua voz a chamou de volta.
– Espere, leve minha espada vai precisar dela Princesa. — Ele entregou nas mãos dela o presente, ela o recebeu e acertou a bainha a cintura, ele sorriu e ela se foi.
Passou despercebida pelo jardim interno, Lirái deveria estar dormindo, sua janela estava fechada e tudo parecia calmo lá dentro. Ela chegou até o portão, cautelosa olhou devagar para fora, os guardas não estavam lá, se o Rei soubesse dessa falta de organização alguem ia se ferrar. Ela saiu e correu em direção a rua principal, a Túnica verde era larga e a incomodava ao correr, mas então ouviu um ruido perto de onde era a adega, ela ficou tentando decidir se devia ou não ir até lá, foi vencida pela própria curiosidade.
Ela seguiu pelo pequeno túnel, o ruído aumentava a cada passo que ela dava na direção da adega, logo a história de Mirdha sobre Lirái veio a sua mente e ela sabia que era ele que a esperava no fim daquele estreito corredor, que encontraria ele sentado em um canto com uma garrafa de vinho e ela estava certa.
Lirái viu aquela figura se aproximando e reconheceu as roupas, ele podia jurar quem era, mas não podia ser, o mesmo já tinha morrido a tanto tempo e quando a figura ficou sob a luz ele teve certeza que só estava bêbado. Lirái contemplou Aurora com as roupas do irmão, achou que as calças ficaram melhor nela e aquela túnica verde com dourado estava desproporcional ao seu corpo, ela o fitou com um pouco de pena e desprezo.
– Não deveria usar as roupas de um morto. — Ele levou a garrafa de vinha a boca, ela já estava pela metade.
– Você não deveria passar as noites aqui bebendo. — ela caminhou pela sala passando a mão pelos barrios e indo para mais perto dele.
– Vai tentar me privar disso como os outros, aqui é onde expurgo minhas mágoas. — Ele a olhava entorpecido, como se não estivesse realmente ali, ela tinha pena, tinha vontade de conforta-lo, mas agora em diante tinha que permanecer rígida.
– Sabe, uma das coisas que aprendi esses anos todos, foi que não tem como esquecer o que aconteceu e esquecer as vezes é até pior, Você não deve esquecer quem eles foram Lirái e nem o que já passou, mas sim viver no intuito de honrar as memórias proporcionadas nessa vida. — Ele baixou o olhar, sentia-se envergonhado e ao mesmo tempo indignado. Aurora ficou na sua frente, ela ia tocar sua mão mas não fez. — Siga em frente, mas lembre, tentar apagar da memória só vai machucar mais ainda, se conformar e assumir seu lugar é o que você tem que fazer de verdade.
Lirái ia proferir algo mas se calou, fitou o chão silenciosamente enquanto Aurora ia embora pela passagem que dava para a rua principal. Ela correu de volta a bifurcação e até a muralha, escorado na ponte estava Cyd, que ao vê-la foi rápido em sua direção, eles não tinham mais muito tempo.
– Eu sou totalmente contra esse seu ato suicida, mas eu trouxe o que você precisava. — Ele tirou do longo capote marrom um papel com aparência antiga e entregou nas mãos da jovem. — Surrupiado discretamente dos arquivos militares, é um velho mapa que mostra tilhas não usadas mais hoje em dia, que você poderá usar para chegar a cidade dourada, mas ela tem desvios em muitos reinos e cidadelas.
– Obrigada. — Ela leu sua expressão ele estava abalado, triste mas mesmo assim ainda exibia seu sorriso galante. — Eu vou ficar bem.
– Aurora, você precisa saber que lá fora tem coisas piores que os Drakënëis, seres que venderiam você por moedas de ouro sem nem se importar, vão caça-la quando souberrem que está viva e tentando reaver seu lugar de direito. — Aurora sorriu e passou a mão pelo rosto suave do rapaz, ela sabia de tudo isso, mas tinha que enfrentar seu destino. — Saiba, que tem alguém que você precisa se preocupar mais do drakenus, seu braço direito Abalyn não vai se importar com nada, só vai querer matá-la, comparado a ele, Drakenus é um doce, tome cuidado Por favor Minäryn.
Agora ela não podia mais voltar, tinha que engolir os medos e ir em frente, um mundo dependia dela e seus amigos também, todos eles. Ela e Cyd partiram rumo ao portão, Mirdha esperava-os com uma espécie de alce, mas sua galhada pareciam galhos descascados, bem, na verdade eram. Aquela era uma espécie que deu origem aos alces e servos que habitavam aos florestas do mundo mortal, ali eles possuíam a galhada como galhos de árvore, que até floresciam na primavera e verão, eles eram sempre bem robustos, pois não haviam cavalos naquele mundo, então eles eram muito cogitados para o serviço de transporte.
Mirdha sentiu certo alivio ao vê-los, mas também estava brava, agora eles teriam muito pouco tempo para que ela fugisse, ela pedia aos céus que os guardas se atrasassem um pouco. Aurora abraço Mirdha que estava quase chorando, ela se apegara a Aurora no tempo que elas ficaram juntas, fora pouco, mas fora precioso. Mirdha pegou da cela do animal um tipo de corpete, só que mais duro e deu-o a Aurora, ela colocou e Mirdha ajudou-a a fechar as cordas na frente, ele tinha até um cinto com uns dois bolsos, ela fechou-o por cima do corpete, era bom sentir os movimentos mais rígidos novamente.
– É revestido de couro por fora e um metal tão duro quanto o ferro mas leve como uma pluma por dentro, eu o confecionei hoje para você, é impenetravel por espada e flecha alguma. — Mirdha sorriu e abraço-a novamente, dessa vez ela se permitiu chorar, Aurora também permitiu que algumas lágrimas caisem em reu rosto, Cyd permanecia com os olhos secos, mas seu senho estava marcado, com uma expressão de tristeza. Mirdha a soltou e enxugou os olhos. — É um costume presentear quem está partindo.
Mirdha se aproximou do portão e proferiu as palavras que o "destrancavam", ela deixou Aurora e Cyd a sós, ele se sentia mal, por estar abandonando o que poderia ser um duradouro romance, mas sabia que não ia conseguir mudar a opinião dela quanto a fugir e ele era covarde demais para partir junto dela. Ele pegou sua mão, algo que a espantou mas fez um sorriso brotar nos seus lábios, ele tirou do bolso da calça, algo que se assemelhava a uma pulseira, ele pegou sua mão e colocou a pulseira sob sua palma.
– É um costume presentear quem está partindo. — Ela teve vontade de beija-lo, mas sabia que não seria decente, então ela permitiu que uma lágrima pendese de seu olho e se desenha-se pelo seu rosto. — Me perdoe por não poder ir com você.
– Eu não poderia pedir que ninguém se sacrifica-se por mim, jamais. — Ele tirou o capote e pôs envolta de suas costas sorrindo.
– Você deverá chegar a cidade mercado pela manhã, vá devagar e descanse pela floresta, enquanto estiver pelos domínios do reino nenhum mal vai te acontecer, ao chegar lá fale com Aldeb, ele vai guiar você pela rota dos fugitivos, diga que fui eu quem te enviou. — Ele a ajudou a subir no animal, e quando Mirdha olhou para eles, ela partiu, a última coisa que ela viu do reino foi as lágrimas de Cyd despencarem em seu rosto enquanto ele mantinha seu sorriso galante com muito esforço.
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