A maré do seu coração - Sukuita
2 Capítulo 2 - Informações
Notas iniciais
— Já pegamos tudo, Uraume? — Ryoumen questionou para o seu cozinheiro; uma das poucas pessoas que o pirata mais confiava e que o conhecia desde a infância.
— Sim, senhor. As ervas que a Doutora pediu eu já peguei ontem.
— Ótimo! Vamos voltar para o navio. Não quero ficar mais nem um minuto neste lugar. — O olhar torto que Sukuna dava para as famílias que passavam pelo local fez Uraume rir rapidamente, e, mesmo que sua risada tivesse feito Sukuna olhar para si, não o tinha feito desvencilhar.
Sukuna estalou a língua, proferindo um palavrão antes de falar para eles retornarem mais uma vez. Às vezes, ele simplesmente odiava o fato de Uraume conhecê-lo. Por sorte, a última parada tinha sido perto de onde o navio estava ancorado. O que preocupava Sukuna era saber qual seria o oficial que os acompanharia, apenas esperava que não fosse o inepto Gojo — nenhum dos seus homens merecia aquele tipo de companhia durante uma extensa e tortuosa viagem. Mas é claro que a sorte não estava ao seu lado.
— Era só o que me faltava — resmungou.
— Olá, Ryoumen — cantarolou a fonte do seu ódio, Gojo Satoru.
Seu imediato estava ao lado do oficial com aquele sorriso pequeno que ele conhecia muito bem. Suguru estava adorando aquele momento, ver seu capitão estressado era sua fonte de entretenimento — como também para Uraume. O restante da tripulação já estavam ajeitando as coisas para zarparem, sabendo que seu capitão queria partir o quanto antes. No entanto, ninguém sabia qual era a rota programada. Sukuna ignorou a existência do oficial e dirigiu-se até o leme, precisava de uma visão melhor dos marujos, no entanto, acabou se perdendo em seus pensamentos. Não fazia a mínima ideia para onde iriam, não possuíam informações, o que tornava tudo mais difícil.
Apesar de que tinha um lugar onde conseguiria qualquer informação.
— Estás pensando demais, Capitão — Suguru comentou, assim que se colocou ao seu lado. O olhar atendo de Ryoumen perseguia o oficial da marinha, que estava literalmente em cima da sua tripulação, conhecendo um a um, com aquele sorrisinho estúpido em seu rosto. Sukuna desviou o olhar para Geto, antes de voltar para os seus homens, logo eles poderiam partir.
— Não temos uma rota. Estamos sem informação — proferiu, cruzando os braços. — As únicas informações que temos são as que a marinha compartilhou e conseguiu ao longo do tempo, mas todas inúteis. Precisamos de novas. O problema é que o único lugar que vamos conseguir essas informações é o único lugar que a marinha jamais poderia saber.
— Não está falando de Unlostired? — Suguru olhou surpreso para o capitão. O silêncio respondeu a sua pergunta, e a pose tranquila do imediato se perdeu. — Ryoumen, você está louco? Não podemos ir, seria traição. A honra de ser convidado e saber de sua existência é algo que devemos levar ao túmulo…
— Você acha que eu não sei — interrompeu Sukuna, rosnando em plena raiva. — Mas se não quisermos morrer nessa merda é o único lugar.
Ao longe, Satoru tinha parado de pentelhar os tripulantes de Sukuna, descobrindo o quanto alguns são interessantes e outros tão monótonos que lhe davam tédio; no entanto, a atração principal estava na parte superior do convés, próximo ao leme. Sukuna e o imediato Suguru. As expressões raivosas em seus rostos e a forma que sibilavam baixo um para o outro atraíram sua atenção.
O almirante sorriu largamente antes de aproximar-se silenciosamente deles. Era tão divertido incomodar o pirata mais temível do mares, sabendo perfeitamente que ele não poderia lhe tocar já que conhecia a história — quase inexistente — do pirata; porém uma dúvida sempre pairou sobre si em relação a Sukuna e seu estilo de vida, e Satoru, em algum momento daquela viagem, iria querer uma resposta, pois sonhava com isso desde que seu amigo de infância virou pirata, já que queria entender o que o atraiu para essa vida. Bom, na verdade, ele até sabia e admitia que era bastante tentador, mas de nada adiantaria já que seu velho amigo se encontrava morto, caçado por si.
“Você nunca saberá os prazeres de viver livremente, ficando preso na caixinha do governo.”
Aquelas foram as últimas palavras que ele proferiu antes de Satoru puxar o gatilho. Ele teria que discordar, afinal, Satoru era livre desde que Fushiguro Toji virou o novo comandante. Claro, que ainda vivia sobre algumas regras, mas eram apenas detalhes. Continuou se aproximando na surdina, estava curioso para saber o que eles tanto conversam para que os deixassem com os rostos franzidos.
— Nós não temos mais opções — Sukuna disse.
— E que opção seria essa? — Satoru chegou perguntando.
O clima pesou em diversos níveis. E Sukuna avançou um passo contra o almirante, e Suguro, que normalmente apreciaria o momento, interveio, colocando-se na frente.
— Eu ainda sou contra isso!
— Então me dê uma ideia melhor. É o único lugar em que teremos uma resposta, uma direção.
Poderia ter chegado no meio do assunto, mas, em poucas palavras, Satoru já tinha entendido tudo e sorriu debochadamente.
— Ora, ora… — Suas mãos deslizaram-se sobre os ombros do imediato de Sukuna, como se fossem íntimos, e Satoru, petulante como é, não deixou que ele escapasse de suas garras, apertando-o e deixando seu rosto bem ao lado do dele. — A marinha vive sendo estraga prazeres dos piratas, não é mesmo?! — cantarolou — Mas, não se preocupem com esse lugar misterioso que o governo não pode descobrir. — E afastou-se, ficando sério ao colocar as mãos no bolso de sua calça. — Contar para eles seria tão tedioso.
Satoru revirou os olhos, realmente seria tedioso contar algo para o governo, ele sempre era assim, quando achava alguma coisa que a patente superior desconhecia, preferia deixá-los correr atrás feito patinhos. Era muito mais divertido ver os tombos e a burrice deles para algo simples.
— Você realmente é uma víbora — sibilou o capitão.
— E alguma vez eu deixei de discordar. — O sorriso arrogante do almirante fez o sangue de Sukuna ferver ao ponto de Suguru pedir para que se acalmasse.
Geto estava começando a se arrepender amargamente de ter adorado ver seu capitão tão estressado com o almirante, porém, com a atual situação, queria morder a língua. Aquela viagem seria longa. E, pior, teria que ficar aparando um possível assassinato.
Sukuna olhou feio para Suguru e afastou-se agressivamente.
— Eu não confio em você — ele rosnou. Satoru sorriu, como se não ligasse. E não ligava.
— Capitão — chamou Suguru, ainda mantendo as palmas das mãos erguidas —, eu sei que não confia nele, mas o Senhor confia em mim. — E não ficou esperando uma afirmativa antes de continuar: — Eu já ouvi falar da fama do Almirante Gojo, ele realmente é desse tipo que não conta nada aos superiores. Até mesmo debocha deles. Podemos usar isso a nosso favor.
— Não temos garantias, Suguru. Você mesmo disse que ir até lá com um oficial seria sinal de traição.
Ambos piratas se encararam, enquanto Satoru morria de tédio para saber se iriam ou não para o lugar desconhecido. Definitivamente, não queria ficar ali esperando alguma decisão, preferindo simplesmente sair e ir atrás da Doutora do navio.
— Eu sei o que eu disse. Sei que bati o pé com o Senhor sobre isso, mas eu também sei que você tem toda razão. É impossível sobrevivermos sem informações. Estaremos correndo esse risco, mas peço que confie em mim. Assim como confia a sua vida. — Sukuna fixou-se no rosto sério de Suguru e balançou a cabeça.
— Não me decepcione, Geto. — Em resposta, o imediato apenas acenou, entendendo o peso daquelas palavras. — Qual é o seu plano?
— É certo que já sabem sobre nossa busca, assim que temos alguém da marinha em nossa embarcação. Então precisamos ir do jeito mais difícil. O Almirante deve nos seguir devido ao acordo, detalhe importante que eles não sabem, usaremos isso ao nosso favor também. Quando chegarmos lá, além dele estar com roupas nossas, podemos dizer que é um recém recrutado. Infelizmente, para chegarmos até a ilha, teremos que ir com um barco pequeno. — Suguru sorriu amarelo.
Sukuna olhou sério para o seu imediato.
— Um barco? Um barco pequeno? Você está brincando comigo? Vai levar mais dias do que o necessário. Além disso, como terá garantia de que ele sabe agir como um pirata? — Encheu-o de perguntas, mas Suguru deu um sorriso sereno, como se já tivesse as respostas na ponta da língua.
— A ilha tem um ponto cego, infelizmente, podemos deixar o navio nessa parte e ir o restante com o barco. Daremos um balão, mas seria o jeito de enganá-los, além de ser um pouco arriscado, mas podemos tentar. Mahito irá nos acompanhar, para ficar de olho em Satoru também; mas não apenas isso, durante nosso percurso, seja com o barco ou com o navio, ele ficará de venda. — A melhor parte daquele plano que Sukuna gostou, sinceramente. — E, sobre ele se encaixar como pirata… — Ambos desviaram o olhar para Satoru, vendo-o incomodar Shoko, mas que estranhamente não o afastou. — Acho que em questão de comportamento, não teremos problema.
Ryoumen logo deu as costas para Suguru e ficou diante do leme.
— Dê as ordens de nossa coordenada para os nossos homens, silenciosamente. E faça os preparativos — ordenou, tentando não pensar caso falhassem. Era um risco enorme. Quantos piratas sonham em se aposentar em Unlostired e não podem, porque apenas aqueles que foram convidados possuem o direito. Seria uma traição, mas também era a única opção.
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Faltava apenas alguns metros para que pudesse atracar no pequeno cais, Satoru já foi removendo a faixa ao redor do olhos com um sorriso largo, completamente ansioso para ver uma ilha que era certo possuir diversos piratas que sumiram do radar da Marinha. No entanto, o que o almirante não esperava era que a ilha pudesse ser tão linda. Tão verde e bem cuidada, vislumbrando até mesmo diversos canteiros de frutos, nem parecia que viviam piratas naquele lugar.
— Como é a cidade? — questionou Satoru, todo empolgado.
Porém, foi completamente ignorado por Sukuna que apenas o olhou de canto. Suguru e Mahito viraram os rostos e tamparam a boca para não rirem alto do bico enorme que se formou na boca de Gojo. Conforme seguiam o caminho, Sukuna tentava ao máximo apreciar a ambientação. A última vez que pisou naquele lugar foi a três anos atrás quando um mensageiro da ilha foi atrás de si, levando consigo o convite para se aposentar em Unlostired e a sua verdadeira localização. Todo pirata sonha em viver ali, mas apenas alguns conseguem. Receber o convite é uma honra que é levada para o túmulo para não ser descoberto pela marinha.
Ao respirar, conseguia sentir os diversos cheiros das plantas, flores, aquele doce aroma de mato, que conseguia deixar qualquer um satisfeito, sentir o cheiro de terra molhada em dias de chuva arrancava até mesmo um sorriso. Os pássaros cantarolavam uma doce melodia, que não enjoava. Até mesmo os animais que passavam por ali olhavam curiosos para aquele bando de homens. Ryoumen não conseguia deixar de pensar sempre que estava em sua cabine se algum dia realmente viria morar na ilha. Seus homens estariam sempre livres para se aposentarem, mas Sukuna não conseguia se imaginar morando em Unlostired sem ninguém ao seu lado. Seria solitário demais. Mórbido.
— Uau!
A constatação de Satoru fez com que sua mente retornasse para a realidade. O almirante olhava para os lados todo empolgado, e Sukuna não deixou de pensar que ele parecia um gato curioso, pensamento este que lhe fez sentir raiva por comparar um animal incrível com um ser humano como aquele. Ryoumen olhou ao redor, vislumbrando algumas sutis mudanças que ocorreram, mas nada muito chamativo.
— Vamos logo — ordenou, não queria ficar tanto tempo naquele lugar.
Algumas crianças corriam pelas estradas, gargalhando, deixando Satoru cada vez mais interessado por aquela ilha. Sua imaginação para uma ilha cheia de piratas era completamente diferente do que via. Porém, diferente do almirante, Sukuna estava se aborrecendo com aquele cenário. Vendo todas aquelas famílias felizes, divertindo-se umas com as outras, fazia-o se lembrar de sua infância.
— Tsc! — Sukuna resmungou, após uma criança esbarrar em si.
— Você parece um velho rabugento — comentou Satoru. Suguru olhou rápido para o seu capitão, vendo-o fuzilar o almirante, a mão de Sukuna pairando sobre a pistola e a tensão que ele tinha apenas por ter que se segurar, Geto não conseguia acreditar na tamanha ousadia de Gojo, desafiando a pouca paciência do capitão. Não queria ficar parando as tentativas de assassinato que certamente em algum momento iria ocorrer. — Então, posso saber por que nem todos os piratas sabem desse local?
A pergunta feita por Gojo fez todos pararem e Sukuna olhar para ele seriamente, tentando desvendar as verdadeiras intenções por trás daquele súbito interesse. É claro que, para Gojo, era apenas curiosidade para saber se suas teorias estavam certas: apenas os escolhidos sabiam do lugar.
— Não te interessa — respondeu o capitão, continuando o rumo ao bar que iriam.
Satoru sorriu, era exatamente isso. Agora fez sentido o seu interrogatório um ano atrás, quando o pirata não sabia dizer onde seu capitão estava, que tinha sido abandonado por ele e sumiu, nunca mais ouviu falar sobre. As peças se encaixaram sutilmente, e parecia que aquele homem não era alguém de confiança para não saber onde seu capitão iria. E, mesmo que o encontrasse ali, não valeria a pena tê-lo sob sua custódia, era trabalhoso demais e muita burocracia; além de ser tedioso.
Chegaram ao bar onde iriam conseguir as informações que precisavam, no caminho que se seguiu, Satoru tinha parado de atazanar Sukuna e ficou tagarelando com Geto — que conseguia aturá-lo. O capitão cumprimentou os poucos homens e mulheres que estavam no local e foi direto à bancada. Satoru olhou para a moça que enchia uma caneca de cerveja para um dos marujos, ela era estonteante.
Cabelos longos prateados, divididos em duas tranças, uma cobrindo seu rosto e a outra sobre as costas. Os olhos castanhos desviaram-se para eles, e o sorriso lascivo que ela dirigiu deixou Satoru ainda mais interessado.
— Sukuna querido, estava esperando por você — ela disse, apoiando-se no balcão.
— As notícias correm sempre por aqui, não é, Mei Mei.
A risada debochada de Mei Mei fez Sukuna bufar ao se aproximar. E ela olhou para Satoru.
— Mas eu não sei quem é esse…
— Eu estou aqui para recolher informações, Mei Mei, não ficar vendo você se insinuar para… — Teve que morder a língua para não xingar Gojo, não poderia falar mal de um dos seus homens. — Tsc! Enfim…
— Você é? — Ignorando completamente o capitão, Mei Mei dirigiu-se a Satoru, que sorriu ladino ao aproximar-se dela.
— Satoru, encantado em conhecê-la.
Suguru e Mahito observavam de longe o capitão deles quase explodindo de raiva, enquanto os pombinhos flertavam pelo olhar. Eles tinham uma missão. Então, no momento em que a curiosidade dela sobre o cargo de Satoru surgiu, Sukuna não perdeu tempo para humilhá-lo e dizer que era seu criado de bordo, recebendo imediatamente o olhar fuzilador do almirante, mesmo que tivesse retribuído o sorriso que ele lhe deu, escorrendo da sua boca. A risada de Mei chamou atenção de ambos.
— Cuidado com o veneno, Sukuna — ela disse. Estava nítido que ela não acreditou, mas não iria continuar, afinal, Ryoumen entendeu o recado, alargando o seu sorriso. — Deixando isso de lado, que informações você quer? Não esperava vê-lo por aqui, principalmente por isso. — Ela retornou ao seu trabalho, enquanto esperava a resposta do pirata.
— Eu quero saber que informações vocês possuem sobre a Bruxa do Mar.
Mei Mei gargalhou, debruçando-se sobre o balcão.
— Ryoumen Sukuna, não me diga que aceitou a missão suicida do Rei Itadori, está desesperado?
— Me dê as informações, Mei! — O tom grosseiro de Sukuna fez com que ficasse séria, percebendo que era hora de parar com as brincadeiras. Ela suspirou e parou de limpar a caneca de cerveja, dispondo o pano sobre o ombro.
— Existem apenas boatos, você já deve saber sobre o caminho da ilha em que o esconderijo da bruxa fica, certo? — Ao receber o aceno, continuou: — Pois bem, existem boatos dessa ilha que, apesar de não ser o esconderijo da bruxa, é onde ela guarda os tesouros do mar. Mas é uma rota suicida se quer saber… tem que passar pela Rota das Sereias, onde ninguém consegue sair vivo. E mesmo se você passasse, Sukuna, morreria depois, já que a criatura que protege a ilha dos tesouros é um Kraken.
Sukuna olhou sério para ela. Ele já sabia para onde partiriam.
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