A mansão Blackwood: Relatos de uma jovem escritora
4 Capítulo 4: A Revelação
Notas iniciais
Os amigos levaram a pedra e o anel para a delegacia, juntamente com todas as evidências que haviam coletado. Na recepção, o velho homem com cabelos grisalhos revirou os olhos ao ver as portas se abrindo.
— Todos os anos, nessa mesma época, dezenas de historiadores, curiosos, sensitivos, caça-fantasmas, entre outros, cruzam as portas da delegacia atrás de informações que possam ajudar a desvendar os mistérios da Blackwood. Sem mencionar os charlatões que inventam histórias absurdas através de visões ou psicografia. Eu me questiono como, até o presente momento, não tivemos um oportunista se aproveitando do ocorrido do ano passado. É como se a mansão seduzisse as pessoas... — desabafou o delegado com um dos policiais, repousando o copo com café sobre o balcão, enquanto Sarah e Douglas se aproximam.
— Boa noite, senhores. Encontrei a pedra utilizada por Otoniel para matar Salete.
O olhar do homem estreitou; sua mente rapidamente recordou-se daquele rosto. Ele voltou seu olhar para o horizonte, depositando o copo descartável em uma lixeira próxima, rumando em direção à sua sala.
— Aqui é uma delegacia e não o arquivo público. Peguei esses itens e me acompanhe.
Em sua sala, o delegado realizou uma ligação interna para o arquivo da delegacia, solicitando as pastas referentes ao caso e, após uma leitura minuciosa em silêncio, ele pigarreou algumas vezes, iniciando a leitura em voz mediana, onde novamente destacou algumas observações importantes. Douglas se aproximou de Sarah, que escutava atentamente e tomava conhecimento de que a necropsia descrevia a causa da morte de Salete Blackwood como envenenamento. A notícia surpreendeu Sarah, que se sentiu em uma encruzilhada: ela observava o sangue na pedra, sua mente criava diversos questionamentos. Todavia, ela sabia que era preciso voltar à mansão. Não havia apenas o espírito de Salete para libertar, mas sim alguns outros.
Nos corredores da mansão, Sarah e Douglas encontraram o espírito de Otoniel. Ao ser informado de sua inocência, Otoniel se libertou, mas ainda agiu como se escondesse mais algumas informações. Douglas, sem hesitar, revelou ter visto Otoniel com uma mulher, em encontros às escondidas na sala que dava acesso ao sótão. Otoniel confirmou a informação. Sarah se espantou ao saber que Otoniel, a quem dizia amar sua prometida, traía Salete e cometeu o crime por não aceitar o fim do relacionamento. Afinal, Salete informaria aos pais seu amor por Ulisses, que, mesmo humilde, dedicava-se a estudar nas horas em que não trabalhava no renomado baile da cidade.
— Se Otoniel não matou Salete, quem estaria por trás do crime? — questionou Sarah, desesperançosa.
Douglas caminhou pela mansão com a amiga, fazendo-a ter uma visão resumida das últimas décadas. Sarah vislumbrou o baile de máscaras, a banda, os senhores Blackwood e, finalmente, Salete, belíssima em seu vestido marsala, considerado o mais elegante da festa. Visualizou também dois funcionários deitando Salete em sua cama; a governanta acomodando travesseiros para a jovem; e a camareira que oferecia água e comprimidos a ela, murmurando algumas palavras próximo ao rosto da jovem. Horas depois, Salete começou a ter convulsões sucessivas, o que levou seus pais a acreditarem que ela havia atentado contra a própria vida.
Após a morte de Salete ser confirmada, Sarah baixou a cabeça e falou baixinho que a mulher que estava com Ulisses no cômodo que dava acesso ao sótão era a mesma que servira os remédios para Salete, reconhecendo ser sua bisavó. Emocionada, ela voltou para o quarto e se dirigiu ao espelho onde o fantasma havia aparecido.
O espírito de Salete surgiu e foi informado de que o atestado de óbito indicava envenenamento. Salete sorriu, apontando para a pulseira que Sarah usava, composta por uma correntinha e um enfeite no centro. Douglas observava à distância a conversa entre as moças.
Ao olhar no espelho, Sarah viu o gato deslizar as patas. Para evitar um acidente, ela o afastou. Seus olhos se arregalaram e um nó se formou em sua garganta: quando o gato se sentou, abanando o rabo com o olhar vidrado em seu próprio reflexo, lambendo o espelho como se estivesse acariciando alguém que alisava seu pelo.
A sensação de aperto tomou o peito de Sarah em uma intensa agonia, revisitando memórias brevemente adormecidas. Um homem de aparência jovial a encarou fixamente com o olhar marejado. Sarah, ao vê-lo, virou-se em sua direção e questionou o que ele estava fazendo. As luzes azul-avermelhadas cintilavam nas paredes e vidraças. Contudo, ao aproximar-se da janela, não havia nada além das plantas espalhadas pelo jardim.
O jovem, ao ver o corpo caído no chão, caminhou em sua direção e se ajoelhou. No primeiro toque, o corpo já sem vida apresentava marcas de sufocamento provocadas, supostamente, por múltiplas convulsões.
Passos ligeiros que percorriam o corredor invadiram o quarto, como quem lutasse contra o tempo. O paramédico, verificando o pulso, realizou massagens cardíacas em vão, enquanto frases suplicavam ao vento, chamando pelo nome de Sarah.
— Douglas, o que está acontecendo aqui? — questionou Sarah. — O corredor está completamente vazio, que visões são essas, Douglas? — Sarah gritava aguardando uma explicação.
A jovem, cobrindo o rosto, caiu em lágrimas. Ao ver Douglas, retirando o anel solitário do bolso, o momento lhe trouxe à memória a noite em que o jovem a pediu em namoro e a presenteou com o anel de compromisso que ela admirava na vitrine de uma loja local.
O rapaz informou a Sarah que sua bisavó foi a responsável pelo envenenamento de Salete, pois havia escondido o veneno no detalhe da pulseira, que servia de recipiente secreto. Ele ainda avisou que o sangue encontrado em uma das pedras do labirinto não era de Salete, mas sim o de Sarah, que o expeliu ao sentir os primeiros sintomas do veneno. Atordoada, Sarah negou as palavras de Douglas, insistindo que sua presença era real.
Salete atravessou o espelho, corroborando com as palavras de Douglas, informando que Ivanusa era sua camareira pessoal e descobriu que ela tinha um caso às escondidas com Otoniel. Surpresa com a descoberta de Douglas, Salete informou que havia presenteado Ivanusa com uma grande quantia em dinheiro para custear um tratamento médico. No entanto, Ivanusa decidiu se demitir dias após a morte de Salete, alegando um profundo caso de tristeza.
Quando ela visitou a mansão alguns anos depois para visitar os Blackwood e apresentar sua filha que completaria um ano em uma data próxima, Ivanusa e Salete se reencontraram, e desde então Salete passou a questioná-la sobre sua morte, fazendo com que Ivanusa demonstrasse um quadro de saúde mental até então desconhecido pelos médicos, que se agravou, principalmente após ser abandonada por Otoniel, que se casou com outra mulher, a qual, infelizmente, não pôde dar-lhe herdeiros devido a uma enfermidade.
Ivanusa viveu atormentada junto de sua filha, presa ao silêncio de não poder revelar quem era o verdadeiro pai de Madalena. Após tomar conhecimento de que Otoniel havia perdido todos os seus bens diante de investimentos e crises financeiras, Ivanusa retirou a própria vida alguns anos mais tarde
Nesse instante, Sarah entendeu que a condição financeira de sua família era resultado de roubos e fraudes. Avisou a Douglas que nunca soube que sua bisavó tivera problemas graves de saúde. Salete, em um último ato, estendeu as mãos, tocando em Sarah, que se espantou ao perceber que a mulher não apresentava mais a imagem de um fantasma, mas sim, a de uma bela mulher de cabelos longos castanhos escuros, olhos castanhos claros, sorriso meigo e um toque aveludado.
Diante do ocorrido, Sarah lembrou-se de que, há um ano, quando decidiu escrever sobre os Blackwood, sua família tentou impedi-la. No entanto, determinada, ela seguiu com seus planos, realizando anotações e compartilhando-as com seu então namorado, Douglas, que possuía o mesmo dom de falar e entender os mortos. Sarah recordou-se de que, na noite de Halloween, em que decidiu explorar a mansão, sua avó a avisou que, caso sentisse dores de cabeça ou enjoo devido ao ambiente, ela poderia fazer uso do comprimido guardado em sua pulseira. Lembrou-se de que, quando visitava o labirinto, a corda de sua câmera prendeu-se no anel e, acidentalmente, ela o deixou cair entre as pedras, mas optou por voltar para a mansão devido às fortes dores que sentia em sua barriga e por estar quase no horário que havia combinado de encontrar Douglas.
Após encontrar o corpo de Sarah, Douglas guardou para si somente a câmera e o bloco de anotações, mas nunca teve coragem de manuseá-los até o momento em que Sarah o visitou. Meses após a morte de Sarah Ewalin, sua avó e sua mãe se mudaram com todos os pertences de Crystal Ville. Venderam a casa por um altíssimo valor, sem deixar vestígios para onde estariam indo.
Sarah entendeu as condições que Douglas havia mencionado. O reencontro entre Sarah e Douglas não foi apenas para solucionar a morte de Salete Blackwood, mas também para que Sarah percebesse que também estava morta, fazendo parte da mansão que sempre admirou.
O espírito de Salete reencontrou Ulisses e revelou que, em um dos livros, havia guardado os laudos médicos e recibos dos pagamentos dos valores destinados a Ivanusa. Sarah, por sua vez, agradeceu o amor que Douglas sentiria por ela. Despediu-se, pedindo-lhe que contasse em seus livros as aventuras e os amores que ela gostaria de ter vivido e compartilhado ao lado de seu inesquecível namorado.
Sarah, Salete e Ulisses seguiram rumo ao eterno, livres das amarras que os prendiam à mansão. Douglas deixou o local sentindo-se realizado e grato. Ele havia resolvido um mistério centenário e libertado os espíritos atormentados. Sua história, inspirada em Sarah e nos eventos da mansão, serviu de inspiração para jovens escritores e tornou-se um sucesso de público e crítica. Ele continuou a escrever histórias de terror, sempre se lembrando de Sarah e da noite de Halloween em que conheceu o fantasma de Salete Blackwood e reencontrou Sarah Ewalin, sua eterna musa inspiradora. Passado alguns dias, ele solicitou a reabertura dos processos, munido das informações sobre os valores adquiridos pela família de Sarah. As autoridades investigaram e descobriram que Ivanusa nunca estivera doente. Diante da verdade e dos documentos encontrados nos antigos livros (as anotações de Salete sobre a doação de valores para a antiga camareira), os bens que estavam em posse da avó e da mãe de Sarah foram legalmente bloqueados e, posteriormente, doados para diversas instituições de caridade.
Douglas, em parceria com órgãos competentes, transformou a velha mansão Blackwood em um centro de memória e educação, visitado não apenas por moradores de Crystal Ville, mas também por turistas de diversas regiões. Os jardins tornaram-se um grande parque, onde famílias realizavam piqueniques e casais eternizavam seus ensaios pré-casamento. O evento mais aguardado, contudo, era o baile de Halloween, uma grande festa temática realizada em memória de Salete Blackwood e Sarah Ewalin.
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