A mansão Blackwood: Relatos de uma jovem escritora
3 Capítulo 3: Segredos do Passado
Douglas fechou os olhos com força. As visões do passado, antes claras, começaram a se misturar à realidade da biblioteca. Ele viu o salão de baile de 1923, as máscaras, a música animada da banda e a jovem cantora dividindo o vocal com Ulisses. Viu os empregados, os anfitriões, o Sr. e a Sra. Blackwood, que admiravam o tão esperado evento com suas roupas de gala. O Sr. Blackwood usava seu traje social totalmente preto, e a Sra. Blackwood, seu longo vestido de tecido púrpura com detalhes em preto e os cabelos presos em um belíssimo coque, adornado com pedraria.
Sua filha, Salete, rapidamente chamou a atenção dos convidados em seu vestido rodado, desenhado em modelo exclusivo para a ocasião. Seus cabelos semipresos deixavam seu olhar ainda mais misterioso sob a máscara enfeitada com pequenas penas e paetês, que abrilhantavam seu sorriso enquanto ela descia os degraus da escadaria.
No fundo da sala, em um canto próximo a uma das janelas, Douglas viu Otoniel, um espectador sombrio engolindo a seco a bebida em seu copo, com o olhar fixo na jovem que encarnava uma dança inicialmente solitária ao som dos instrumentos, até ser envolvida por seu pai, onde bailavam juntos pelo salão ao som da doce voz da cantora.
No segundo andar, a camareira de feição simples e inocente, aparentando ter cerca de quinze ou talvez dezesseis anos, cobria parcialmente o rosto enquanto tossia, sorria, acompanhando os passos leves de Salete.
A respiração ofegante dos jovens fazia as anotações sobre a mesa balançarem. Sarah encarava o amigo desejando que seus movimentos não chamassem a atenção dos outros visitantes da biblioteca, enquanto tentava apoiar o braço de Douglas para firmá-lo. Ao deslizar a mão sobre a mesa, Sarah tocou o bloco de notas, conectando-se com Douglas, que abriu os olhos, exausto, após sentir acidentalmente as notas e vislumbrar alguns detalhes
— Eu vi o suficiente — sussurrou ele, ainda ofegante. — Otoniel não foi o primeiro a atentar contra a vida de Salete... pelo menos, não diretamente.
— O que você viu, Douglas? Fale baixo — pediu Sarah, preocupada com seu estado.
— Eu vi o baile. Vi a Salete e o Ulisses apaixonados. Vi o ódio do Otoniel, sim, mas havia mais. Naquela noite, depois que a banda parou de tocar e os convidados começaram a ir embora, Salete discutiu com sua mãe, a Sra. Blackwood… — Sarah franziu a testa, surpresa. — A mãe dela? Mas por quê?
— A Sra. Blackwood estava furiosa porque Salete se recusava a casar com Otoniel. Ela ameaçou deserdar Salete e arruinar a vida de Ulisses. A discussão foi acalorada, nos degraus perto do quarto de Salete. Ulisses estava lá, tentando intervir. A Sra. Blackwood o empurrou e, em um momento de fúria cega, pegou um peso de papel de cristal que estava numa mesa próxima.
A ficha caiu para Sarah. "Ela o atingiu com o peso de papel?" — Douglas assentiu gravemente. — "Sim." Ela atingiu Ulisses, mas ele conseguiu se defender e fugir. Salete deixou o quarto rumo ao labirinto. Não foi um acidente, mas também não foi um assassinato premeditado inicialmente por Otoniel. Seria um crime passional... de uma mãe possessiva e obcecada por status social.
— E Otoniel? — perguntou Sarah.
— Ele ouviu a discussão, viu o que aconteceu. Seguiu Salete até o labirinto, onde a golpeou. Depois disso, ele ajudou a Sra. Blackwood a encobrir tudo, transformando a morte em um 'acidente', para que o escândalo não manchasse o nome da família e ele ainda pudesse ter uma chance de herdar parte da fortuna ou manter sua influência, talvez chantageando a família.
Sarah sentiu um misto de alívio e tristeza. A verdade era mais complexa e trágica do que a vingança simples que Salete pedia.
— Precisamos contar a Salete. Ela precisa saber a verdade sobre sua própria morte. E sobre sua mãe. — Douglas concordou. — E sobre minha bisavó, a camareira. Se ela se tornou confidente de Salete, tenho certeza de que ela sabia de tudo, mas teve medo de falar. A Sra. Blackwood era poderosa. — Douglas baixou o olhar, seguindo a amiga.
Com as anotações e a nova verdade em mãos, os dois amigos deixaram a biblioteca, o sol já se pondo completamente no horizonte, pintando o céu de laranja e roxo. A noite de Halloween estava apenas começando, e eles sabiam que seu retorno à mansão Blackwood seria o confronto final com o passado, um acerto de contas não apenas com um fantasma, mas com uma verdade há muito enterrada.
No caminho, Douglas avisa que antes de procurar Salete, eles precisavam encontrar o labirinto. Ele também informa que, independentemente do desfecho do mistério, Sarah teria que aceitar o destino de todos. Ela concorda, lembrando-se do jardim abandonado. A dupla, ao percorrer a área externa da mansão, encontra uma passagem para o labirinto de sebes, que estava abandonado e esquecido.
Sarah para por um instante, levando a mão à barriga, ela avisa a Douglas que conseguia "sentir" a cena de Salete sendo perseguida por Otoniel no labirinto, momentos antes da sua morte. Douglas a lembra de seu dom e, enquanto explorava o labirinto na esperança de encontrar uma pista, sente uma presença estranha. O ar fica frio e pesado, e ele ouve sussurros ao seu redor. De repente, uma figura sombria surge à sua frente: era o fantasma de Otoniel, ainda preso à mansão e atormentado por seus crimes.
Otoniel confessou com a voz abafada e arrependida ter assassinado Salete, movido pelo ciúme e pela ganância em administrar a fortuna dos Blackwood. Relatando que ele havia seguido sua futura noiva até o labirinto e a atacado com uma pedra. Imediatamente, Douglas questionou a real motivação do crime e Otoniel confessou ter recebido a informação de que Salete havia marcado um encontro às escondidas com Ulisses. Revelou que, após presenciar a discussão entre mãe e filha, ele imaginou que Salete juntamente com o artista pudessem fugir. Logo, ele seguiu Salete e a golpeou na intenção de que Ulisses fosse preso e acusado por golpe.
Na noite do ocorrido, Ulisses, mesmo ferido, se desesperou ao vê-la desacordada e prontamente avisou o incidente ao pai de Salete, que solicitou um médico com urgência. Gritando para que alguns funcionários ajudem a recolher o corpo da filha, levando-a até seu quarto. Otoniel, relatando as cenas, diz que o medo o levou a forjar um álibi e subornar as autoridades para encobrir o crime. Afinal, o pai de Salete se recusou a incriminar Ulisses, por saber que o rapaz era honesto e havia o procurado horas antes do baile para falar de seus sentimentos e futuro ao lado de sua filha. Nesse instante, o fantasma de Otoniel desapareceu, deixando os amigos sozinhos no labirinto.
Sarah, chocada com a revelação, encontrou a pedra que Otoniel usou para matar Salete, ainda manchada de sangue, junto a um singelo anel de pedra solitária. Agora, Sarah tinha a prova que precisava para provar a culpa de Otoniel e libertar o espírito de Salete. Douglas, atento às palavras da amiga, fechou o semblante, tentando dizer algumas explicações, embora em vão diante da agitação de Sarah, que insistia em dizer que solucionaria o mistério centenário. Douglas, sendo impedido de manifestar sua opinião, segue a amiga rumo à delegacia sem dizer uma palavra..
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