A maneira que eu a amo.
1 Capítulo único
Eu ainda posso me lembrar do seu cheiro almiscarado de baunilha e o jeito que ela se movia e seu corpo suntuoso se movia junto. Ela era um conjunto grego poético. Seu corpo possuía as curvas mais sinuosas, sua pele banhada pelo ébano do sol trazia aquela cor caramelo que eu sempre secretamente achava a sensualidade em forma de cor. Seus olhos eram escuros como o breu de seu quarto,assim como seus cabelos lisos na altura dos ombros.
Diana, com seus um metro e setenta e cinco chegando todas as manhãs ao meu encontro, com suas roupas coloridas rendadas sempre disposta a um abraço apertado e um beijo tímido no rosto. Eu gostava dela, gostava de verdade. Eu sempre fui levando e jogando,sentindo mais que eu pretendia, escondendo como podia e sentindo cada vez mais.
Era um dia de verão de quarenta graus, eu tentava me refrescar de alguma forma e eu ainda pensava porque havia me mudado para o litoral. No fim eu nunca gostei da praia em si, apenas do mar e do barulho das ondas. Estava em um café que descobri no centro da cidade, mal imaginava descobrir um café numa praia. O lugar era muito simples mas aconchegante, fiz dali minha segunda morada. Naquele dia eu sentei-me numa mesinha do lado de dentro, perto do balcão. Estirei as pernas na segunda cadeira me odiando internamente por ainda insistir em usar jeans. Naquele dia eu também tomei o melhor frappuccino da minha vida, umas trocentas vezes melhor que aquele caro do Starbucks com gosto de puro gelo. Naquele dia eu mal imaginava que aquela mulher passaria pela porta, com seu vestido florido colorido demais até para meus olhos astigmáticos. Com um laço no cabelo preso e a pele reluzente, sem nenhuma aplicação de maquiagem. Mal imaginava eu que naquele dia, tão quente e tão estressante eu me apaixonaria e só perceberia quando tudo ruiria a baixo.
— Eu posso usar o wi-fi de vocês? – Perguntei a atendente já entregando meu netbook para ela colocar a senha. Ela fez uma cara de desculpas que já havia visto muitas vezes desde que me mudei. Aqui as pessoas dificilmente vão compartilhar seu wi-fi.
— Desculpe, moço. Não estou autorizada a dar senhas... – Novamente seu olhar de desculpas me deixou empático. Concordei com a cabeça e voltei a sentar, o jeito seria escrever no bom e velho modo: moleskine. Havia realmente um bom tempo que eu não segurava uma caneta a não ser para anotar números. O hábito de escrever em cadernos eu já havia perdido desde a época da minha adolescência, onde um tablet ou um netbook eram inviáveis. Escrevi palavras soltas de modo que nenhuma fazia real sentido, outro hábito adquirido da falta de criatividade e inspiração.
“falta de tempo, tristeza, abatimento. Coração continua batendo e eu não sei que horas são. Posso voltar para casa a hora que eu quiser, mas eu não quero. Eu espero algo grandioso acontecer, talvez a moça abatida como eu me passe a senha do wi-fi ou eu posso simplesmente me acostumar a escrever em moleskines novamente. O que eu estou fazendo aqui? Escrevendo um tipo bosta de diário. Esperando o inesperado que nunca acontece(nunca acontecerá)esperando uma senha. Esperando uma pequena chama de esperança perdida (nunca a irei encontrar)”
Fui tirado de meu lapso quando a porta de vidro do café bateu com força, mas que merda as pessoas desastradas. Olhei para a entrada revirando os olhos, uma garota alta atravessava o corredor estreito das mesas apressada como alguém da capital. Um vestido muito colorido, chinelos de dedo e uma bolsinha estampada com um gato preto. Não pude desviar o olhar daquele ser meio avatar, mexendo nervosamente no cabelo. Ela reparou que eu a estava observando e claramente seu nervosismo aumentou. Abria e fechava a bolsinha, reorganizando seu conteúdo enquanto a atendente abatida pegava um pedaço de torta de chocolate para ela. Do meu jeito cínico eu continuava observando. A torta foi colocada no balcão e ela olhou atentamente.
— Você pode trocar por um pedaço de bolo, por favor? – a avatar disse meio tímida,com os olhos arregalados, um meio sorriso muito nervoso.
— Hãn, claro. – A atendente disse e foi trocar o pedido. Achei a situação engraçada, internamente me segurando para não rir. Um grunhido falho saiu da minha boca e ela ouviu. Rapidamente seu pescoço branco tomou manchas avermelhadas. Seu rosto brandia em manchas nas bochechas e ela mordiscava os lábios. Não deixei de me sentir atraído por aquele ser, de uma forma deveras estranha.
Finalmente ela sentou-se numa mesa próxima aos janelões e bem longe de mim, claramente. Agora mais calma ela mordiscava o bolo, mexia nos guardanapos, nos temperos, no celular. Eu tinha parado de escrever e deixava minha atenção fluir para ela, criatura que gostaria descobrir. Ela suspirou profundamente ao encontrar meu olhar, um suspiro de indignação. Algo em mim a chamou atenção,talvez fosse a calça capri cor de abóbora e minha camiseta preta com um rasgo na gola muito evidente. Ou talvez meu cabelo estivesse oleoso demais, e realmente deveria estar devido a tanto calor e tanto suor na cabeça. Não me achava uma criatura feia, mas excêntrica. Minhas roupas refletiam meu certo descaso com a casca do ser humano. Raramente compro roupas novas, apenas quando as velhas estão inúteis demais e rasgadas em lugares onde uma agulha e linha não fazem efeito. Minhas sardas espalhadas em lugares não estratégicos sempre me fizeram parecer sujo, principalmente se você juntar isso com uma pele quase transparente e com muitas pintas que novamente, parecem sujeira. Juntamente com um cabelo ondulado e oleoso eu pareço um mendigo-hipster-não-intencional. Isso raramente atrai as mulheres. Raramente me vejo sendo observado pelo fato de ser atraente e muito pouco tento parecer-me um cara atraente. Sou eu mesmo, sem máscaras. E ela parecia ser assim também, de um jeito muito nervoso.
Aquela brincadeira de olhares já durava um bom tempo, até que ela digitava sem parar no celular. Voltei-me para o moleskine agora sim, com algo para escrever.
“Eu a trataria bem. De um jeito eu me imagino numa cama muito amarrotada com ela nesse vestido colorido demais para meus olhos. Ela fuma um cigarro junto de mim porque ela não parece ter frescuras e ela também não acha estranho o fato de eu gostar muito de certa banda louca que ninguém desse país, cidade e estado conhece. Talvez ela também goste dessa banda. Talvez sejamos a parte que falta um no outro e nesse momento de delírio ela está me olhando e sei que ela pensa que eu sou um mendigo louco escrevendo em um caderninho velho rasgado olhando fixamente para seus olhos pretos como de uma bruxa-avataresca”
Após escrever a última frase, olhei para cima e vi o nosso último olhar. Seus olhos sorriram e sua boca permaneceu aberta, eu abri os olhos, pisquei, tentei sorrir mas então ela já estava de pé, arrumando o vestido enquanto andava do mesmo modo apressado que entrara. Ela saia para fora, levando o choque do mormaço de verão. Através dos janelões pude vê-la atravessar a rua para nunca mais. E assim acabou-se, como uma torta que foi trocada por um bolo de chocolate.
Finalmente, após cinqüenta longos minutos consegui sair daquele café, odiando os deuses por aquele clima tão exageradamente quente. Que saudades me abatiam ao lembrar-me do inverno. Talvez se fosse inverno aquela garota não estaria com aquele vestido, não estaria comendo torta nem bolo. Ela estaria com um cachecol vermelho e pediria um café. O meu cabelo não estaria oleoso e nem estaria com uma camiseta rasgada na gola e nem de chinelo mostrando meus pés peludos. Eu estaria de alguma forma minimamente atraente e ela talvez, só talvez dividiria um café comigo. Sentaria ao meu lado e perguntaria o que eu estava escrevendo. Ela iria dividir um café e histórias comigo. Diria quais são seus livros favoritos e as bandas que ela escuta. Diria que quer viajar e só precisa de uma companhia. Mas é verão e isso não aconteceria em um calor de quarenta graus de sensação térmica. As coisas boas acontecem no inverno. Coisas boas dificilmente acontecem a um cara como eu, coisas boas raramente acontecem com Will T.
O verão tinha passado de uma forma muito lenta e desesperançosa. Meu humor ia de mal a pior a cada dia e nada em mim rendia, estava decaindo. Passaram-se meses e eu após aquele dia no café não me lembrava mais daquela garota alta e bonita. Não lembrava dela, mal como ela era. O moleskine estava perdido no fundo da gaveta e aquele dia ficou na memória perdida de tantos outros dias quentes demais. Quando finalmente o inverno chegou, mudei-me. Literalmente mudei-me para outro lugar, de apartamento e de bairro. Aquela pequena nova vida invernal estava saindo como os conformes. Apenas me faltava algo, que eu não sabia explicar o que. Uma saudade de não sei o que. Uma nostalgia de momentos que eu nunca vivi! Tudo tão inexplicável que eu não saberia definir inteiramente. As crises dos 25, finalmente e infelizmente havia chego.
Aquele café de esquina parecia um lugar muito propício agora, que a temperatura caíra de quarenta graus para os maravilhosos onze e meio. Desde aquele dia eu nunca mais havia ido àquele café. No inverno, dia dezessete de julho eu adentrei o café. Sentei-me na mesma mesa. A mesma garçonete me atendeu, seus cabelos agora estavam ruivos e o meu cabelo estava longo e não oleoso. Seus olhos tinham mudado, mas ainda continuavam com a mesma melancolia de quem não faz o que gosta.
— Vocês agora liberam a senha? – Indaguei brincalhão, porém ela não me reconheceu. Ela fechou sua expressão.
— Não sou autorizada a dar senhas. – não houve nenhuma expressão de desculpas além de uma linha tensa e de mãos irritadiças. Era um mal dia para ela e um dia tão tranqüilo para mim. Concordei com a cabeça, pedi um café e um pedaço generoso de bolo de chocolate. Pensei comigo que deveria deixar uma gorjeta para ela, afinal sempre temos a oportunidade de mudar o dia de alguém positivamente. Uma sensação de dejà-vú me abateu quando ouvi a porta batendo com um barulho forte atrás de mim, passos ocos de um sapato pesado atravessaram as estreitas fileiras entre as mesas. Olhei para trás e a vi, era um sonho. Era um destino? Eu só conseguia vê-la com um cachecol vermelho enrolado apertado no pescoço,uma calça jeans branca meio surrada, uma camisa masculina azul apertada contra o corpo. Seu rosto queimado pelo frio, as bochechas incandescente. Ao perceber o meu olhar a mulher estacou onde estava. Seus cabelos agora enrolados e volumosos caíram sobre suas costas, seus olhos pareciam ter um brilho molhado. Seus lábios tão avermelhados naturalmente se curvaram em sorriso fechado muito duvidoso. Ela me reconheceu, eu lembrei-me dela.
O feitiço logo se dissipou e o que me pareceram horas duraram poucos segundos. Ela se direcionou ao balcão, apoiou a bolsa caramelo em um banco ao lado, olhou para a vitrine muito menos nervosa. Olhou receosa para trás, me procurando. Tendo a certeza de eu estava ali, que eu ainda estava ali a observando. Pediu um bolo de chocolate, um expresso sem açúcar. Sentou-se de costas, através do espelho nitidamente observava minhas feições que agora tremiam levemente. Ela era linda, sem dúvidas alguma.
Ela levantou-se com a xícara de café e o prato do bolo na outra mão, delicadamente caminhou para a mesa ao lado da minha, sentou-se delicadamente e lentamente. Tomava cuidado com todos gestos e ações, mas nada daquilo era programado. Estava nervosa, muito menos. Mas ainda mexia nervosamente no cabelo numa tentativa de acalma-lo.
— Por a caso já nos vimos antes? Eu tenho essa leve impressão. – Ela disse num tom baixo e infantilizado, mal parecia sua voz levando em conta seu tamanho. Me surpreendeu também sua curiosidade latente, obviamente ela não conversaria comigo se não tivesse essa sensação.
— Já nos vimos aqui. No verão passado? Você pediu uma torta de chocolate, mudou de idéia e pediu um bolo igual a esse que estamos comendo hoje. – disse casualmente, controlando meu tom para que eu não parecesse afobado demais nessa coisa de “é destino”.
— Certo, realmente! Você não parava de me olhar e eu fiquei assustada. Você parecia meio maluco... – ela disse rindo, mexendo nervosa nos guardanapos.
— Ainda pareço? – Dei um gole no café já meio frio.
— Sim. Não, não claro que não. Que besteira minha. Não estou acostumada a manter conversas com pessoas bem, como você. Não que você seja alguém ruim, apesar de eu não te conhecer. – ela se embolorou nas palavras e seu nervosismo era algo palpável e me chateava. Normalmente não suporto pessoas assim, porém tinha algo nela. Algo que eu queria conhecer.
— Primeiramente, fora Temer. Segundo, pessoas como eu? Tenho extremamente confiança em mim mesmo, pode me esculachar.
— Primeiramente, fora Temer, também. Então, praticamente te achei meio neurado. Problemático. Assim como eu! – Ela disse quase entoando, sua voz era muito doce nesse momento.
— Bem, realmente. E o cabelo também fazia a coisa ficar mais tensa né? – disse rindo, ela se levantou e sentou de perna cruzada de frente a mim. Sua pele estava viva, parecia brilhar de forma magnífica como se fosse agraciada por uma luz divina.
— Um quase certeiro complexo com o cabelo oleoso? Isso é um certo charme. Assim como as tuas sardas. É um complexo... eu diria seu nome, mas não fomos apresentados né? – ela riu, sua risada era solta, leve como pena.
— Complexo William. E você é complexo...?
— Diana. Não “daiana”, Diana. – ela estendeu a mão polidamente, apertei-a. ela tinha uma mão firme, delicada e macia.
— Agora que fomos apresentados, podemos sair daqui e nos encontrarmos no próximo verão. Você vai ser um deja-vu inexplicável. Teremos essa mesma conversa só que um pouco mais velhos e oleosos. – sorridente ela olhou nos fundos dos meus olhos, meu coração parou por alguns segundos e eu prendi a respiração. As manchas vermelhas tomaram a pele de Diana e ao mesmo tempo desviamos nossos olhos.
— Que tal mais um café? De verdade, esses encontros inexplicáveis não podem terminar com esses clichês de “nos veremos novamente” porque raramente, duas coisas maravilhosas acontecem subseqüentemente.
— Então foi uma coisa maravilhosa me encontrar pela segunda vez? – Ela indagou me olhando novamente daquele jeito arrebatador infantilizado e ao mesmo tempo tão maduro. O olhar de quem tem tanto a dizer, o olhar de quem tem tanto a ensinar e transmitir.
— Eu quero te conhecer Diana. De verdade, profundamente. O quão profunda você for eu quero te descobrir, te desbravar. Não acredito em... coincidências. Seu cachecol vermelho... eu te imaginei com ele, te imaginei desse mesmo jeito tomando café comigo, abrindo uma exceção para seu nervosismo. Eu sabia que iria te encontrar de novo e bom. Eu não quero te assustar, eu quero só a chance de conversar com você. – Tudo saiu da minha boca de forma muito brusca. Não processei nada, nenhuma palavra. Já estava feito. Ela me acharia um demente. Novamente o paradoxo do mendigo-hipster.
— Oh, uau. Bem isso é e foi impressionante! Eu queria mesmo ter falado com você aquele dia, mas eu me senti ridícula. E bem, acredito que a conversa que não tivemos aquele dia estamos tendo a oportunidade de ter agora. Eu não tenho muito com quem conversar, então a gente pode sair daqui e ir para algum lugar mais livre sei lá...
— podemos ir aonde você quiser, contanto que você e eu estejamos lá! – Rimos juntos, toquei a palma de sua mão com a ponta dos meus dedos. Correntes elétricas passavam por entre nossas veias azuis e vermelhas.
— William? Você tem noção do tempo que eu te esperei? – ela disse enquanto levantava da cadeira. Confuso a olhei indignado. – Certo, eu posso te explicar depois. Depois de um cigarro? – Não pude deixar de ficar confuso, sorridente, bobo. Paguei a conta, saímos do café. O ar gelado tomou nossos rostos. Sua pele antes tão dourada agora estava mais esbranquiçada e natural.
— Por favor, depois e durante um cigarro.
O ar quase rarefeito da baixada juntamente com a neblina intensa de quase serra fazia nossos cigarros e nossos cabelos ficarem tão cheios de pequenas gotículas de água. Ela fumava de um jeito diferente, delicado. Puxava pequenos tragos, soltava grande quantidade de fumaça. Batia as unhas no filtro para jogar as cinzas. Nunca me esqueci daquele dia, de como ela se movia. De como seu cabelo era tão cheiroso e de como sua pele era macia e pintada como a minha (em partes onde a roupa cobre).
Gostaria que ela se visse do mesmo jeito que eu a vi como pela primeira vez. Hoje talvez ainda nos encontremos em algum café. Em uma outra cidade ou estado. Planeta ou universo paralelo. Dindi me amou mais do que pretendia e mais do que devia. Dindi sempre me amou, mas eu nunca amei ninguém, só ela. Sou poeta e estou a aprender. Sou homem e só falho, sou falho.
Dindi depois daquele dia de inverno me fudeu de todas as meneiras.
O seu sexo me fazia delirar e nunca havia tido tantas experiências em tão pouco tempo. Aprendemos um com o outro os labirintos do prazer e do corpo.
Ainda ficamos tempos juntos. Ela gostava de cigarretes after sex, tame impala, fleet foxes. Sempre tinha uma lição de vida para transmitir, uma historia a compartilhar. Dindi me acompanhou por muito tempo.
Ah Dindi, como eu queria que tu lesse isso só uma vez. Talvez agora, depois desses anos você saiba o tamanho da sua beleza, do seu coração e do seu amor.
Ah Dindi, se tu soubesse, amaria e só amaria. Ah Dindi, como o destino fez eu te amar, como o destino fez você me esquecer, como a todo dia eu te amo (um pouco menos, sim).
Com amor, alguém que na vida deu um pouco minimamente certo.
Com amor, alguém agradecido.
Com amor, Will T.
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