O gatilho fez um “click” ao mesmo tempo que um gelo desceu por minha espinha eriçando todos os pelos do meu corpo como se dedo frio da morte estivesse fazendo uma carícia. Humpf! Talvez fosse isso mesmo. Os 5/6 venceram.

Parece que as probabilidades seguem normais com a maioria vencendo, com a lógica prevalecendo. Você não joga na loteria um jogo e acerta de primeira porque as chances estão contra você, embora a possibilidade de acerto exista. Sorte. Agora que penso sobre isso eu tive muita sorte por muito tempo, então o que aconteceu talvez fosse a balança do destino se equilibrando. O azar era o que eu merecia.”

***

Íkaros estava assistindo a uns vídeos de filosofia, ele mesmo não entendia os escritos e felizmente hoje em dia havia muitos canais no youtube com gente que sintetizava o conhecimento de grandes mentes do passado de forma que qualquer idiota com um pouco de vontade possa entender. Íkaros gostava do tema porque a filosofia tinha um jeito simplório de trazer à realidade o significado de sentimentos e comportamentos das pessoas.

— Eu já te disse que entender o motivo das pessoas fazerem o que fazem não muda em nada a situação. – disse Violeta.

Íkaros baixou o celular e olhou para o lado, a namorada do adolescente estava sentada em sua cadeira gamer com os pés sobre ela apoiando um livro sobre seus joelhos dobrados quase em posição fetal.

— Pelo contrário, entender me permiti mudar meu comportamento e então a situação vai mudar.

Violeta baixou o livro, pôs os pés no chão e o encarou. Ela é uma garota linda aos olhos de Íkaros, de sua idade, magra com um estilo dark que ele sempre achou hipnotizante. Hoje mesmo em seu quarto ela estava usando uma maquiagem preta pesada que contrastava de modo expressivo com sua pele cor de leite, seus cabelos tinham sido tingido de roxo assim como suas unhas para combinar com o nome. Sua camiseta negra com um pentagrama e o short jeans curtos finalizavam o visual característico da jovem.

— Ah sim? Então você entender por que aqueles imbecis da escola fazem bullying com você vai mudar o fato deles fazerem? Eles vão parar?

— Não. Mas como disse Epictetus “O homem não é abalado pelas coisas e sim pela visão que tem delas” eu posso sofrer durante o ato de idiotas que não merecem viver como eles, mas depois acaba. Eu sofrer com medo ou agonia lembrando das ações ou temendo amanhã que eles façam algo é coisa minha, minha interpretação do cenário. Tipo agora, estou de boa vendo uma coisa legal na companhia da garota mais incrível da Terra.

Violeta franziu a testa. Levantou-se da cadeira e subiu na cama montando no colo de Íkaros.

— Você me elogiar quando eu quero discutir com você é jogo sujo.

Ele sorriu.

— Que culpa eu tenho? Eu te conheço e te amo, não poderia ser diferente.

Violeta tirou o celular da mão dele e curvou o corpo para um beijo rápido, que depois passou para dois beijos rápidos e então para um beijo mais demorado e em segundos para um beijo de língua. Quando suas ancas começaram se esfregar com o quadril do namorado ele pegou em seus braços a afastando.

— Minha mãe está em casa. Ela sempre fica sem jeito com você aqui. Vamos nos conter.

— Sua mãe me odeia.

— Isso não é verdade, ela só não te entende.

Violeta o encarou com a expressão mais cética que poderia tirar por debaixo do sombreamento denso.

— Ela até se recusa a me cumprimentar quando me vê.

— Ela não gosta do seu estilo ou talvez de ficarmos juntos assim no quarto, mas é só temporário, seja paciente.

Como se estivessem prevendo, três batidas na porta do quarto de Íkaros e a voz de sua mãe soa do outro lado. Rapidamente Violeta sai de cima do garoto ficando de pé ao lado da cama. A porta se abre e dona Joice aparece com um pano de prato preso na gola da camiseta para não molhar a roupa durante a lavação de louça.

— O que está fazendo deitado, menino? Você tem consulta com o médico! Vá tomar um banho e se arrumar.

— Ok, ok... Violeta e eu só estávamos conversando.

Então a expressão da senhor de quarenta anos se contorce, ela sorri sem graça e perde todo o humor que tinha ao falar:

— Ah. Certo, só ande logo.

Ao fechar a porta, Íkaros fica de pé e vê a expressão da namorada. Ele dá de ombros, pede desculpas pela falta de educação da mãe e vai se arrumar.

***

Ao chegar no consultório Íkaros ia direto falar com a secretária sobre seu horário, mas se absteve ao ver Luís sentado no sofá verde em L mexendo no celular. Geralmente eles tinham o mesmo dia de atendimento, mas Luís era primeiro; quando Íkaros chegava o colega já estava indo embora.

Assim decidiu ir falar primeiro com o rapaz da sua idade.

— E aí Luís, o que houve?

O garoto ergue a cabeça tirando atenção do celular.

— Fala ae Íkaros. Caralho você já chegou, maldito Bruno. Já está uma hora atrasado!

Luís explicou que quando chegou a secretária disse que o doutor ia atrasar um pouco, mas que já estava a caminho. Assim Íkaros sentou-se no sofá ao seu lado, eles não eram do mesmo colégio nem amigos próximos, mas depois de meses indo naquele consultório e se encontrando, começaram a conversar e trocaram contato. Luís gosta da companhia de Íkaros por que o considera muito inteligente e pessoas inteligente podem ajudar em momentos de crise como agora.

— Perfeito! Eu pretendia mandar mensagem hoje à noite, mas com você aqui é melhor. Preciso da tua ajuda!

Íkaros sorriu, também gostava do jeito de Luís, ele era do tipo de pessoa enérgica e com uma grande falta de confiança, mas sempre tratava todos a sua volta com aquele astral e paciência mesmo que isso lhe causasse problemas de vez em quando.

— O que houve?

— Minha namorada faz aniversário nesse sábado, eu já comprei o presente dela, só que não é o bastante. Eu queria escrever um cartão, uma parada que a faça sorrir, saca? Mas não um sorriso de deboche e sim um sorriso do tipo “Ah meu namorado é muito bobo, mas muito fofo!”

— Você ama mesmo ela.

— Não tem como não amar, a gente se conhece desde pirralhos. Moramos na mesma rua desde o berço, quando ela aceitou namorar comigo achei que fosse implodir. Somos perfeitos um para o outro, até nossos nomes combinam: Luís e Luana, tipo uma dupla sertaneja. Contudo — Luís guarda o celular e junto as mãos entrelaçando os dedos apoiando a cabeça numa pose visível de preocupação — meu poder Sith me diz que ela está temerosa.

— Temerosa? Com o quê?

— Ela vai fazer 16 anos e seu corpo não mostra sinais que vai evoluir muito mais, dizem que mulheres crescem até os 18. Sua angústia deve ser assolada por causa daquela influência pecaminosa que ela chama de amiga.

— Ah.... a melhora amiga.

— Minha arqui-inimiga você quer dizer.

Íkaros franzi a testa como Violeta.

— Claro, foi isso o que eu quis dizer. A amiga te critica muito né.

— Não é esse o problema.

— Então qual é?

— Aquela bruxa de cabelos dourados como a ganância de mil ladrões está... está... – Luís ergue a cabeça olhando para — com um corpão.

— Hã?

— Cosete se desenvolveu muito rápido, ela está com mais curvas que Interlagos. Seus peitos e bunda... droga... ela tá muito gostosa.

Íkaros entendeu, Luís tinha um libido natural para os garotos da idade deles, no começo o rapaz achou que era exagero, mas logo descobriu que o problema era ele. O libido de Íkaros talvez fosse baixo demais para aquela faixa etária. Ele não se incomodava, consumava sua paixão com Violeta sempre que possível e não precisava de mais nada. Aparentemente outros homens de sua idade não resistem a variedade.

Ele não conseguia entender.

— E por sempre estar perto daquela voluptuosa amiga minha amada pode estar se sentindo inferiorizada. Eu gostaria de animá-la, dizer que peitos pequenos e bunda reta também são a vontade de todo homem.

Essa era a parte que a sinceridade causava problemas para Luís, Íkaros não conseguia explicar para o colega sem magoá-lo de alguma forma e achou melhor não criticar os meios que ele estava tomando, assim mudou o rumo da conversa.

— Que tal um poema? Escreva no cartão um poema sobre vocês dois.

— Um poema? Eu não tenho criatividade para isso. Minha última novel enviada foi recusada porque disseram que era clichê demais.

Íkaros pensou um pouco.

— Vejamos, o nome dela é Luana... Luana... Lua... que tal isso? “ Luana, um céu sem luar é escuro e frio por causa das densas nuvens que o cobrem, elas impedem a luz prateada tocar a vida na terra, assim como privam os poetas do esplendor de sua beleza. Consegue imaginar? Essa é minha vida sem você. Sem minha Luana, minha Lua a minha vida é um mar de trevas escuro e frio onde a todo momento sinto que serei mergulhado em uma chuva de desespero que lavará as lágrimas da dor de sua ausência.”

Luís ficou encarando em silêncio por alguns segundos até forçar Íkaros a perguntar:

— O que foi?

— Não... eu achei romântico pra caralho, mas não rimou.

— O quê?

— Sabe... poemas rimam né? Tipo... “batatinha quando nasce se esparrama pelo chão, meu amor você é maior que meu tesão” precisa rimar. Epa... esse meu! É verdade, acabei de criar um poema! E um bem legal!

Íkaros colocou a mão no ombro de Luís.

— Use o meu, acredite. Violeta é do tipo que me ensina muitas coisas sobre as mulheres e uma delas é que elas desejam ser vistas mais do que um objeto de adoração sexual.

— Ok. Violeta né? Hum... ela... ela... veio hoje com você?

— Não. Violeta não gosta muita da ideia de eu vir a um psicólogo.

— É... né? É injusto não é? Minha avó faz um curso pelo celular de como mexer num computador e vai fuçar no meu pelas minhas costas. Daí ela vê o meu histórico de navegação e me manda pro psicólogo? Ela disse que se eu não vier não vai mais me dar mesada e eu preciso do dinheiro para levar a Luana para lugares legais. Só que tudo isso foi injusto! Não se julga os fetiches de um homem!

— Eu não entendo muito disso, mas ela deve ter achado um pouco perturbador seu pornô ser quase só sobre desenhos.

— Animes, meu caro. Animes. Há uma diferença. E eu não vejo qual o problema, sabe o que é mais frustrante nas obras de romance que eu gosto de assistir? Às vezes o casal principal termina sem dar um único beijinho! Sem um beijo! Como pode? Eles não retratam direito a natureza humana. Casais de verdade que se amam não conseguem controlar a vontade de diminuir a distância entre seus corpos, não dá controlar a vontade de apertar... de... aí eu busco almas saudáveis que partilham de minha angústia e que colocam o que realmente acontecem com os enamorados... bom... você sabe... você e a... a... Violeta fazem?

— Sim. É natural.

Luís ficou estancado pelo choque. Parado por um minuto inteiro como se estivesse tentando resolver um complexo cálculo de matemática ao ouvir o colega.

— Você e a Luana não fizeram?

A pergunta foi uma flecha dentada feita de aço que perfurou o peito de Luís.

— Tudo a seu tempo. Eu respeito o tempo dela, tenho certeza que Luana também está se controlando, ela sabe que ainda é muito cedo.

— Mas vocês não se conhecem desde sempre?

A segunda flecha estava tingida com ácido e atingiu as costas de Luís.

— Essas coisas não podem... não podem ser pressionadas. Devem acontecer naturalmente.

Nesse momento Bruno chegou correndo já pedindo desculpas aos garotos e indicou para Luís entrar.

***

Luís e Luana estavam sentados numa banco de praça que fica próximo à casa dela, eles faziam isso de vez em quando, quase como um ritual. Ficam ali sentados juntinhos abraçados vendo o movimento passar na rua.

— E postei no insta aquele cartão com o poema. Minhas amigas se morderam de inveja e minhas tias te elogiaram muito.

— Quando eu penso em você, Shakespeare em mim brota igual erva daninha.

— Sei, Cosete até pesquisou na internet se você tinha plagiado, mas não achou nada.

— Aquela bruxa da ganância. Eu não copiei de ninguém.

Luana virou a cabeça e deu um beijo rápido nos lábios do namorado.

— Sim, agora a verdade: Quem escreveu?

Luís travou. Ele tinha um código, não trairia ou mentiria para Luana, nunca. Mas também não contava toda a verdade, muitas coisas ele omitia e omissão não é mentir. Contudo, se ela perguntar diretamente não tem escapatória.

— Você é má, não acredita que eu posso escrever algo tão bonito pensando em você?

— Não.

— Você é cruel.

— Conhecendo você Luís ia acabar escrevendo algum texto curto falando alguma coisa pervertida.

O fato dela o conhecer tão bem deixava a relação tão fácil e ao mesmo tempo tão difícil.

— Na quarta feira fui no psicólogo e encontrei o Íkaros. Ele me... ajudou.

— Ele escreveu tudo não é?

— E sem dificuldade nenhuma! Caralho aquilo tudo foi de supetão, como o cara consegue?!

Luana olhou sério para o namorado.

— Não fica com medo dele?

— Íkaros? Não, por quê?

— Pelo que você me disse... ele não é um pouco perigoso?

Luís suspirou pesadamente e soltou Luana.

— Eu não tenho medo, tenho pena. Quando ele me contou as coisas que tinha acontecido imaginei que todo o resto era inevitável. Cheguei até a conversar com o doutor Bruno e ele disse que minha postura era a correta.

— Mas é um pouco demais, não acha? Ele realmente acredita que a namorada imaginária é real. Ele até já apresentou para você. Eu fico imaginando como os pais dele devem ficar tristes quando o veem falando sozinho.

— Por hora eles segue as instruções do psicólogo, não ir contra. Não dizer que ela não existe. Só deixar fluir, com o tempo e o tratamento talvez ele a abandone.

— Mas... você me disse que é Íkaros influenciado pela namorada imaginária.

— Sim, isso que é doido. Ele tem minha idade, mas é muito mais maduro, confiante, tranquilo... sabe aquele tipo de pessoa passional? No universo de animes ele é um badass que se camufla a um figurante. E isso tudo graças a essa Violeta.

Luana hesitou.

— Só... toma cuidado, ok?

Luís sorriu e voltou a abraçar a namorada.

***

Li uma frase que diz que “ as coisas são como elas são, a gente só sofre por que imagina que poderiam ser diferentes” não nego que há certa verdade, todavia no meu caso eu não imagino que elas poderiam ser diferentes, eu sofro pelas lembranças de como eram.

Abro o tambor do 38 novamente, a munição está lá presa entre cinco espaços vazios. Pego outra e insiro no primeiro buraco em que encaixe, giro o tambor com força e o fecho igual os pistoleiros do faroeste. Agora são 2/6 de chances de tudo terminar.

Levo o cano curto do 38 ao meio da minha testa dessa vez.

E puxo o gatilho.

Notas finais
Sigo a mesma regra. Posto o próximo capítulo se houver pelo menos um comentário neste. Assim, fica a decisão dos leitores se vale a pena um comentário.