Não damos valor até perdermos é uma frase comum, indica que não apreciamos quando temos e sentimos falta quando perdemos. Não gosto dela. Nós apreciamos o máximo quando no limite do momento presente. Na verdade quando perdemos somos forçados a pensar que “podíamos ter feito mais” retroalimentando o ciclo destrutivo do sentimento ruim da perda. E como um barco com uma fenda em seu casco elevamos o peso em nossa consciência para afundarmos depressa.”

***

— Já disse João! A Yuki é a melhor personagem! Estatura média, pele branca como a neve, cabelos num tom leve de roxo e olhos azuis tão serenos que parecem emitir a luz de sua alma pura.

— Impossível Luís! Ela é do tipo que fica passiva ante uma crise. A Killer por outro lado representa tudo o que um homem precisa em sua mulher. Uma Elfa negra de pele chocolate com seios grandes cintura fina, rosto simétrico, olhos dourados como o mais refinado mel e orelhas pontudas projetando-se para fora de seus longos cabelos brancos lisos... uma guerreira que é bela e forte! Ahhhh Killer! Minha querida esposa!

Luís, Marcelo e Fernando ficaram olhando para João abraçar o celular com o papel de parede da personagem de uma jogo de guerra medieval misturada com mundo fantasia do tipo que Tolkien criara quase um século atrás.

— João! – Luís apontou o dedo na direção — deixe-me te dizer a verdade sobre a vida seu tolo punheteiro. Mulheres de verdade têm seios pequenos, no máximo médio! Não abrace tanto a ficção assim meu amigo, você pode não conseguir voltar para a realidade!

João encarou Luís, guardou lentamente o celular no bolso ajeitando os óculos redondos estilo Harry Potter e se aproximou do amigo, pigarreando antes de falar.

— Luís... escute com atenção — e sem aviso prévio sua voz subiu vários decibéis com cuspe saindo a cada estalar de língua — SEU IDIOTA!!! SEIOS GRANDES SÃO A ESPERANÇA E O DESEJO DE TODO HOMEM, GRANDES E MACIOS COMO TRAVESSEIROS, ESSA DUPLA DE MAMAS REPRESENTA O PORTO SEGURO DA CABEÇA DE UM HOMEM APÓS UM DIA LONGO DE BATALHA NA VIDA EM SOCIEDADE!!! Imagine, após chegar em casa com seu chefe ter descontado a raiva dele em você, sua belíssima esposa está te esperando para um abraço caloroso onde pode colocar sua cabeça cansada naquelas nuvens de gordura feitas por Deus!

Luís limpou a saliva em seu rosto e pôs o dedo indicador no peito do amigo.

— Seios pequenos são charmosos! Eles são a elevação tímida da pureza de uma garota inocente! São proporcionais e cabem na palma da mão!

Nesse momento Marcelo, João e Fernando arregalaram os olhos e foram para cima de Luís agarrando sua camiseta o puxando para todos os lados num interrogatório improvisados de um prisioneiro sob tortura.

— Seu filho da mãe! Safado! – berrou Marcelo.

— Idiota lascivo! – disse Fernando.

— Vai se fuder, então você e a Luana já... já fizeram!?

Os três encararam Luís com expressões embasbacadas numa mistura de ansiedade, inveja e curiosidade. Dos quatro amigos, Luís era o único com uma namorada. Para garotos de quatorze anos como eles, tímidos com a atenção voltadas para jogos, animes, mangás, novels e tudo mais o que a cultura japonesa, coreana e chinesa tenha a oferecer, ter uma namorada real, em 3D, era uma meta e um objetivo quase tão importante quanto conseguir uma ambrosia.

Devagar, num tom contido de vergonha e raiva uma quinta voz soou no quarto de Luís, vinda da porta sem que os amigos tenham percebido sua abertura.

— Não... não fizemos isso seus malditos tarados punhenteiros.

Os quatro olharam para Luana parada sob a fresta de entrada. Com as bochechas levemente rosada e os punhos cerrados ela encarava Luís que até aquele momento já tinha mudado de cor três vezes, passando do branco do susto para o vermelho da apreensão e por fim o azul do desespero como se estivesse perto da morte.

Ao lado de Luana estava a amiga Cosete com as mãos nas ancas balançando a cabeça na negativa.

— Vocês são nojentos.

A frase dita com aquela expressão de censura atingiu o âmago dos quatro que sentiram uma ruptura na frágil auto estima que tinham. Luana adentrou o quarto pegando Luís pela gola da camiseta o puxando para fora, já pedindo para Cosete ficar de olho nos três idiotas por que ela queria ter uma “palavrinha” com seu namorado.

Desceram as escadas com Luís sendo puxado numa chave de braço até que ela parou abruptamente.

— Ora querida que bom que desceram, vamos jantar. – disse Carminda a avó de Luís.

— Claro, Minda. Minha amiga já foi chamar os outros, eu só preciso falar um momentinho com seu neto lá fora.

A idosa de cabelos brancos e expressão serena sorriu.

— Claro, só não demorem para a comida não esfriar.

Quando chegaram ao gramado dos fundos Luana, treinada em jiu-jitsu desde os cinco anos deu um chute na parte de trás do joelho direito do namorado que caiu de quatro aos seus pés.

— Então... que porra de conversa era aquela que eu escutei?

Engolindo seco Luís suou frio. Ele não tinha medo da namorada lhe bater, ela nunca usava suas técnicas de verdade nele, nada que pudesse machuca-lo, o que o garoto mais temia era o inverso: ela lhe dar um gelo. Uma vez Luana ficou sem falar com ele por quase um mês levando o garoto a uma crise de culpa e medo de término que o fizeram implorar de joelhos na rua com um grande buque de flores e uma caixa de chocolates a frente de sua casa chamado a atenção dos vizinhos. Luana o perdoou mais pelo escândalo do que por ficar comovida, aparentemente tinham chamado a polícia.

— Depende – disse ele – a partir de que ponto você ouviu?

— Dos berros do João por seios grandes.

Luís engoliu seco.

— Então... pois é... como eu posso dizer... era um debate necessário entre homens.

Ela se aproximou curvando o corpo e pegou o rosto de Luís com as duas mãos espremendo as bochechas.

— Nós nunca fizemos sexo.

— Não. – sua voz mal saia pelo lábios comprimidos.

— Espero de verdade que você não fique querendo se gabar pros seus amigos imbecis algo que nunca aconteceu e mesmo se um dia acontecer não quero saber da nossa intimidade sendo espalhada por aí. Só porcos nojentos fazem isso.

Ela o soltou e Luís ficou de pé num salto.

— Calma amor, eu nunca faria tal coisa. Jamais diria algo sobre isso. Nós nunca fizemos e não é que eu esteja pensando nisso 24 horas por dia, mas nós nunca fizemos e eu não vou falar nisso se um dia, e um dia próximo eu espero, fizermos. Acredite em mim.

Luana cruzou os braços. Luís era muitas coisas, mas nunca um mentiroso. Era um dos grandes motivos dela gostar do namorado.

— Então? – disse ela — e aquela história de seios pequenos?

Luís travou.

— Era só um argumento! Eu sou um grande defensor do charme dos seios pequenos e médios. Para mim só mulheres charmosas tem um biótipo simétrico com ancas pequenas, cintura fina e busto de pouco relevo.

Luana pegou em sua orelha e puxou a cabeça de Luís para perto dele.

— Eu tenho 15 anos, certo?

— Certo.

— Vou fazer 16 e você 15, certo?

— Correto, meu amor.

— Ou seja, eu ainda estou crescendo.

— Sim... sim?

— Sim! – ela o largou e bateu o pé firme no chão com o rosto rosado de vergonha – eles vão ficar maiores! Agora vamos entrar sua avó fez o jantar para nós!

E deu meia volta.

***

Não importa o quanto eu pense naquela época, ver meus defeitos e imaginar que se eu tivesse feito algo diferente poderia ter mudado o resultado não melhora em nada meus sentimentos.”

Abro o tambor da pistola calibre 38 do meu avô. Coloco uma munição, fecho e giro o tambor várias vezes. Coloco a ponta da arma em minha têmpora e o dedo no gatilho. Um 38 tem capacidade para 6 tiros, ou seja há 1/6 de chances.

Então fecho os olhos e puxo o gatilho.

Notas finais
Eu posto o capítulo seguinte se houver ao menos um comentário no anterior. Assim o prosseguimento da história vai depender dos leitores, se eles acham que vale a pena ou não comentar.