A luz
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Boa leitura.
Já passava de dez horas noturnas. Quando me dei por conta do que estava acontecendo, não pensei duas vezes ngggg que faria. Apenas entrei em meu carro, um humilde fusca marrom com um dos faróis quebrados e um pneu semi murcho, e pisei no acelerador sem medo.
A estrada não parecia ter fim. Já estava dirigindo há pelo menos quinze minutos, as lágrimas escorriam pelo meu rosto e não fazia questão de controlá-las. "Como ele pôde ter feito isso comigo?", era só o que conseguia pensar. Na verdade, eu conseguia pensar em outra coisa: "qual seria a melhor maneira de tirar a minha vida?"
Eu tinha feio absolutamente tudo por ele, tudo! Desde o momento em que conheci ele no colegial, passei a fazer tudo para agradá-lo! Construí minha vida ao lado dele, cursei engenharia junto com ele... Mas tudo isso pra que?
De repente, reparo que estou trafegando na pista contrária e há um carro em alta velocidade vindo em minha direção. "Está ai" pensei em meio ao choro frenético, "uma bela maneira de morrer"! Pisei no acelerador o máximo que pude e fechei os olhos, esperando o momento. Porém, na última hora, algo puxa minha mão para o lado, levando a direção e o carro consigo. Abri os olhos e olhei pro lado, mas não havia nada, apenas tinha volteado para a pista de mesmo sentido e tudo que escuto ao fundo é uma buzina enquanto o carro continuou seu trajeto.
As imagens invadiram novamente minha cabeça: os movimentos que ambos faziam, os gritos de prazer que ela dava, as caras e bocas deles... E a cara do meu esposo quando os vi, no auge do prazer carnal! Essa traição não aguento, não depois de tudo que eu fiz por ele. Minha vida simplesmente perdeu o sentido.
Em meio ao choro e gritos, notei que passava por uma usina hidrelétrica e ali que decidi por fim a esse sofrimento. Parei o carro no meio da estrada, a qual estava deserta. Aproximei-me da borda e observei a queda: tinha, com certeza, mais de trinta metros, mais do que suficiente.
Deixei que as lágrimas continuassem escorrendo e me debrucei por sobre a grade de segurança a qual não era muito alta. Após repensar sobre tudo que poderia, decidi que não tinha mais pelo que viver: minha mãe não morava comigo, estava do outro lado do país; meu pai já está morto; não tenho nenhum irmão ou irmã para sofrer comigo e meus melhores amigos me ignoraram completamente... "Eu sou uma inútil"!
Com um pouco de dificuldades passei para o outro lado da grade e pus meu tronco para a frente, me segurando ainda à ela. Um vento forte soprou e olhei para cima. O céu estava lindo, a lua brilhava mais que o normal é havia poucas nuvens. Voltei meu olhar novamente para a queda, engolindo o choro, fechei os olhos e me preparei para soltar a grade.
Vindo da minha esquerda, um barulho chama minha atenção e volto a me segurar firmemente na grade de proteção. Olho pra fonte do barulho: é uma BMW azul conversível que estaciona muito próxima ao meu fusca. Pensei rapidamente em todos os meus amigos que poderiam ter um carro daqueles, mas nenhum teria tal condição financeira. Em seguida, pensei em quem na cidade teria tal carro e novamente nenhum nome me veio na cabeça embora não conhecesse muita gente.
De dentro do carro, saiu um homem moreno, alto e magro. Não era nem atlético nem gordo. Vestia um terno completo e estava com a cara meio abatida. Ao sair, fechou a porta, abotoou o paletó e começou a andar em minha direção, porém, olhava para o além.
-Não se aproxima ou eu me jogo — gritei olhando pra ele.
O homem se assustou e ficou me encarando por alguns segundos. Um toque soou: era seu telefone. Puxou do bolso o modelo 5 da maçã e pôs no ouvido.
-Eu já sei de tudo, seu traíra! Nós começamos isso juntos e agora você me apronta essa... Vai se ferrar!
Tirou o telefone do ouvido e o arremessou o mais longe que pôde, voltando a me encarar:
-O que você está fazendo aqui? Perguntou sério.
-Eu vou me jogar, minha vida perdeu o sentido! Voltei a encarar a queda — e não vem não, porque se você se aproximar eu me atiro daqui!
-Então seremos dois, porque eu também vim aqui pra isso.
Ele se aproximou da grade, me olhou de cima a baixo e tornou a perguntar:
-Por que alguém como você se jogaria daqui? Você deve ter a vida perfeita!
-Ai que você se engana... Mas o que quis dizer com alguém como eu? Voltei a olhá-lo.
-Você é muito bonita. É loira, se veste bem, tem lindos olhos e ainda por cima tem uma voz muito sexy. Por que alguém assim se mataria? Enquanto ele falava, atravessou a grade de segurança, mas permaneceu segurando-se firmemente a ela.
Fiquei confusa! Ele estava ali, do outro lado da grade segurando-se como eu estava, pronto para pular e então ele me fala que tirar a minha vida seria um desperdício? Fiquei realmente confusa.
-Por que você diz isso? Está fazendo a mesma coisa que eu.
Foi eu completar a frase que aquele homem ali, do meu lado, que parecia ser um poço de firmeza, desabou em choro. Chorava mais do que uma criança quando perdia um doce ou um brinquedo desejado. Eu fiquei em choque, quase que literalmente.
Vendo aquela cena, voltei-me aos meus pensamentos, aos meus problemas... Já eram tantos, talvez não deveria saber dos problemas dele também. Pensei novamente na cena que vira, que me motivou a tomar aquela atitude e as lágrimas também tomaram conta da minha face. Apenas deixei rolar.
Ia cada vez mais tomando coragem para terminar o ato que começara. Do nada, ouvi uma voz em minha cabeça, “Se joga…” dizia, “...está demorando por que?”, uma vontade inexplicável tomou conta do meu corpo e quando ameacei soltar a grade, a voz do homem se fez novamente ouvir:
-Por que? Perguntou ele olhando para o nada — Por quê Deus?
Segurei-me novamente à grade e passei a encará-lo. As lágrimas ainda escorrendo pelo meu rosto, minha cabeça em desespero, não podia aceitar aquilo, simplesmente não podia, mas ver a figura daquele homem ali, chorando e confuso, estava mexendo comigo. Sempre achei que homens eram insondáveis, que não choravam por nada… Acho que a sociedade quer que você pense assim!
-Não consigo te entender — disse entre lágrimas — você vem aqui, me diz que o que estou fazendo é burrice, que sou linda e tudo o mais, mas está fazendo a mesma coisa? O que aconteceu de tão devastador para te motivar a isso? Garanto que seja o que for, não é pior do que o que aconteceu comigo… E desabei em choro novamente.
Vi pelo canto do olho ele cuidadosamente tirar uma das mãos da grade e limpar o rosto. Após alguns segundos, respirou fundo e me encarou.
-Você já construiu algum castelo de areia? Perguntou-me ele com a expressão séria.
-O quê? Perguntei sem entender. Ele está assim por causa de um castelo de areia, que burrice…
-Você já construiu um cas-te-lo de a-re-ia? Ele me perguntou novamente.
-Não! Nunca! Respondi ainda incrédula com a pergunta. As lágrimas dele haviam cessado e as minhas, com a inesperada pergunta, tinham cessado também.
-Você não imagina a dificuldade que é… Pegar a areia, molhá-la no ponto certo, colocar cada parte do castelo idealizado, pedaço por pedaço e ir moldando aos poucos. O último castelo de areia que construí foi há sete anos, quando fui a praia com minha falecida esposa... — o homem parou subitamente de falar nesse momento.
“Então foi isso” pensei, “ele está assim por causa da esposa…”. Meus pensamentos foram interrompidos pela fala dele:
-...leva horas até que o castelo dos seus sonhos seja montado, isso quando não vem alguem só pra te sacanear e destrói o que você tinha feito enquanto ia no mar buscar mais água, ou quando se vira pra buscar mais areia. Ou ainda, quando está pronto e então alguem pula em cima e destrói tudo… Pode não parecer, mas isso machuca.
Ele parou de falar… Uma lágrima escorreu de cada olho dele, e até então, não tinha reparado nos olhos dele. Eram olhos marcantes, verdes como uma esmeralda e brilhantes, muito brilhantes. Mesmo na escuridão aqueles olhos brilhavam na minha direção… Ele me olhava profundamente e eu finalmente tinha encarado o fundo dos olhos dele. Lágrimas escorreram pelos meus olhos também. Ele, depois dessa breve pausa, prosseguiu:
-E foi isso que aconteceu comigo. Passei os últimos quinze anos da minha vida estruturando minha empresa, construindo pedacinho a pedacinho, parte por parte! Passei por muitos apertos, tive que ir diversas vezes “buscar água no mar” e sempre tomei muito cuidado para que ninguém fosse lá e derrubasse o que eu já havia construído. Sempre trabalhei com pessoas leais, amigos do peito e nunca fui decepcionado… Até hoje!
As lágrimas agora escorriam sem cessar pelo rosto dele e sem saber porque, o meu rosto também foi banhado pelas minhas.
-Nunca poderia imaginar que meu melhor amigo, a pessoa que me ajudou a levantar o castelo, pisaria em cima dele quanto pronto. Tive uma reunião hoje. A reunião mais importante da história da empresa… Estava passando por um momento de aperto financeiro e se aquele contrato fosse assinado, estaria tudo resolvido.
Ele parou de falar por um instante e encarou a noite. A lua brilhava como nunca… O som da água saindo das comportas enchia o ambiente, mas não o poluía. Estava perfeito para um crime. Nesse momento de pausa, a voz novamente encheu minha mente, mas antes que pudesse lhe dar ouvidos, ele retomou a fala:
-No último instante, meu melhor amigo, meu irmão praticamente, assinou um documento sem ler e me convenceu também a assinar… Não sei o que me deu, nunca tinha assinado nenhum documento sem lê-lo antes! Mas até a tudo bem, erros são cometidos… Mas o que descobri é que eles já tinham armado tudo e aquele documento tirava todo meu direito de veto nas decisões da empresa. Não só isso, mas a companhia fora vendida a preço de banana e amanhã o prédio será demolido… Não tenho mais pelo que viver. O meu sonho será destruído!
Ao terminar a fala ele encarou a longa descida com determinação e se preparou para soltar a grade. Tive que intervir… Ele era tão bonito e charmoso e tinha tanta vida pela frente ainda… Não poderia acabar assim.
-E você acha que isso vai resolver? Pulando daqui?
Ele hesitou.
-Matar-se não trará sua empresa de volta, não trará sua vida de volta… Você tem que recomeçar, se reestruturar. Sei lá! Você é formado em que?
-Moça, você está se ouvi…
-Você é formado em que?
Interrompi-o novamente com a voz firme.
-Administração — respondeu ele — mas moça…
Não o ouvi, apenas continuei:
-Então! Garanto que essa sua cabeça jovem está cheia de ideias. Olha só pra você! É lindo, se veste bem, tem um excelente carro e tinha uma mulher que o amava, tenho certeza…
Ele voltou a olhar pra baixo dizendo:
-Ela fugiu com meu irmão e ambos morreram durante um voo…
Fiquei pasma, mas logo consertei:
-Desculpe-me… Mas você não pode deixar isso te abalar! Recomece a vida, mostre pra ela — olhei pra cima, ele imitou meu movimento — que você é maior do que tudo isso, faça-a se arrepender do que fez! Pelo que você fala, demonstra ter uma inteligência fora do comum e não é justo que você desperdice ela desse jeito…
Ele me encarou no fundo dos meus olhos e me interrompeu:
-Para — gritou ele — para de falar somente um minuto e pensa no que você acabou de me dizer — segui o que ele disse — não é você que veio aqui com o intuito de se matar? Sabe de uma coisa, você, até agora, foi a pessoa que mais fez por mim, então me permita retribuir. Já te disse que és linda e imitando o que me falou: pular daqui não vai resolver. Então eu te pergunto agora: por quê está fazendo isso? Vá viver sua vida, tem muitos ai que fariam tudo pra te fazer feliz.
Quando me dei por conta, estávamos nos encarando há minutos e nossos corpos apontavam um para o outro. No meio do meu silêncio, ele continuou:
-Desista disso, não tem sentido algum!
-Só desisto de você desistir também.
Ele hesitou… Ficou me encarando por alguns minutos, sem dizer nada. Eu tentava ensaiar algo pra dizer, mas sempre falhava. Por fim, ele virou novamente para o precipício e desabou em choro novamente. Chorou muito, enxugou as lágrimas e passou para o outro lado da grade.
Não pensei duas vezes. Imitei o movimento dele, corri até sua direção e o abracei com a maior força que pude. Ele retribuiu. Seu abraço era forte e marcante. Estava usando um perfume magnífico! Fiquei constrangida com minhas lágrimas molhando o paletó dele, mas quando tentei sair do abraço, ele me abraçou mais forte ainda. E assim ficamos por uns bons dez minutos.
Ele, então, saiu do abraço e me segurou pelos ombros, me encarando fortemente. Limpou minhas lágrimas e pousou seu polegar em meu queixo:
-Seus olhos são lindos… Sua boca é tão macia — disse ele enquanto acariciava meus lábios. Eu não interrompi nenhum movimento… Meu corpo concordava com aquilo — e tem um cheiro magnífico.
Então eu fiz o que ele queria fazer. Em um movimento só, beijei-o. Os lábios dele eram macios também. Sua mão direita foi diretamente para minha nuca e a esquerda para a minha cintura, puxando-me na direção do seu corpo. Minhas mãos estavam ambas em suas costas… Deixei que ele conduzisse o beijo. Os lábios dele se moviam suavemente, abrindo e fechando com perfeita sincronia. Depois de alguns segundos, a língua dele invadiu minha boca e com a minha língua encontrei a dele. Nossas línguas dançavam em perfeita sincronia.
O beijo durou muito e foi o melhor em toda a minha vida. Ao final, ele me encarou e sem desviar o olhar, tornou a falar:
-E agora? O que faremos?
Tomada por um impulso que não sabia da onde vinha, respondi:
-Recomeçaremos… Temos um ao outro agora! Sua vida está um desastre, minha vida está um desastre, mas temos um ao outro. Você é a luz que Deus colocou em minha vida!
E tornamos a nos beijar! Não sei de onde tirei isso pra falar, acabei de conhecê-lo, não sei nem o nome dele, mas meu coração diz que é ele… Que é por ele que devo viver, é com ele que devo construir meu futuro, e então, assim será!
Desvincilhei-me do beijo e tornei a falar:
-A propósito, sou Amanda!
-Gabriel!
E me puxou novamente para o beijo… Enfim, se ele está precisando, então vamos ceder!
Notas finais
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