A lua na água
1 A lua na água — capítulo único
As gotas de chuva se acumulavam no vidro da janela. Pouco a pouco. Uma gotinha após a outra, se misturando a poeira que estava acumulando a meses na superfície transparente e a chuva, havia a chuva do outro lado da janela. O céu cinza. O frio. Como se cada pelo do seu braço se eriçasse devido ao suor das horas de sono passadas.
A cafeteira emitira seu costumeiro som, anunciando que todo o café já havia sido coado e estava pronto para ser adoçado, enquanto ao fundo sua mente registrava a força das gotas de chuva batendo sobre o vidro da janela e a lentidão se apossava de seus membros, fazendo com que cada movimento pudesse ser mudado no meio do percurso.
Ele quase pegara o pote de margarina pensando ser o de açúcar, balançando a cabeça para os lados enquanto fechava a porta da geladeira com o recipiente certo.
O vapor ainda subia da cafeteira quando ele se pôr a adoçar o líquido escuro e amargo com fartas colheres e lânguidas mexidas giratórias rente a borda da leiteira metálica. Nenhum dos dois se importava realmente com a ausência de sacarose na bebida mas ultimamente ele passara a adotar o hábito de adoçar o café, ao menos assim ele poderia começar seu dia com doçura, quem sabe.
Sua companhia pouco se importava com esse tipo de pensamento, aliás.
Tal como pouco se importava em assustá-lo logo pela manhã enlaçando os braços em torno de sua cintura — pouco notando o curto salto que ele dera por estar tão imerso em seus próprios pensamentos — repousando o queixo e sua massiva cabeça idiota sobre seu ombro direito.
Uma péssima mania essa a que ele tinha, sempre o pegando desprevenido mas o estranho era ele ter levantado tão cedo naquele dia. Ele detestava acordar, principalmente em dias chuvosos.
O café estava enfim pronto.
— O que houve dessa vez?
— Eu tive um sonho.
— E?
O queixo em seu ombro mexeu para os lados.
— Eu era um pirata nele.
— Hm, e eu estava nele também?
Outro movimento do queixo, só que dessa vez causando um arrepio.
— E o que eu era?
— Um pirata também.
— Nós dois, piratas?
— É. E o Luffy era o nosso capitão.
Ele rira, se voltando para encarar o rosto sonolento dele, os olhos semicerrados.
— Isso é bem a cara dele.
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