Cobra

Ainda me permito observar as estrelas, da mesma forma que as observava anos atrás. Desta vez só, apenas eu e minhas recordações. Há momentos em que desejo fazer o tempo voltar e apagar toda a tristeza, mas eu tenho a sensação de que, se o fizesse, também apagaria toda a alegria. Há momentos que apenas desejo voltar ao passado, mas não sei se teria forças para reviver certas situações outra vez, pois aquele menino forte e corajoso não existe mais. Na verdade, esse menino foi ‘morto’ e a única coisa que vejo em mim hoje, é um homem preso a recordações e sem vontade de viver.
Para ser mais preciso, minha vida começou há exatamente oito anos atrás e terminou dois anos depois. É como dizem: Estar vivo não é sinônimo de viver! Ainda me lembro de tudo o que aconteceu naquele período e, se quisesse, poderia contar tudo nos mínimos detalhes. Sempre revivo esses momentos em minha mente, em uma tentativa inútil de me fazer voltar à vida.


Quando eu tinha vinte anos era um garoto rebelde que não pensava em um minuto sequer na importância da vida. Só me preocupava em andar com os populares e não me importava com ninguém em minha volta. Minha diversão era maltratar e ignorar as pessoas. Hoje me envergonho em dizer isso, mas de nada adianta.


Quando eu menos esperava a minha vida resolveu virar do avesso, de um jeito tão estranho que ainda não entendo como aconteceu. A única coisa que sei é que uma surpresa me esperava e ela mudaria minha vida para sempre, de um jeito que eu nunca imaginei.


Jade, uma garota meiga e com a vida difícil, mas que sempre mantinha em seu rosto um sorriso cativante. Na verdade, já tinha visto antes, mas nunca a havia notado. Atrevo-me a dizer que, no inicio, não me importava com ela. Apenas tinha uma curiosidade absurda em descobrir o segredo que ela guardava por baixo de sete chaves.


(...)


- Muito prazer, sou o Ricardo.


Apresentei-me da melhor maneira que pude e tentando parecer o cara mais simpático e agradável possível.


- O que quer comigo? –ela perguntou desconfiada.
- Eu queria saber se você pretende ir à festa da faculdade, porque se for te convidaria para ir comigo.
- Eu aceito ir com você! –ela disse e eu comemorei, tinha sido mais fácil do que eu pensei que seria- Mas tenho uma condição!
- Qual?-perguntei rezando para que não fosse algo constrangedor de mais.
- Você tem que prometer que não irá se apaixonar por mim.


Apaixonar? Queria muito poder ter dito que ela poderia ficar tranquila, porque isso nunca iria acontecer. Não podendo dizer isso apenas prometi que o faria. Estava me sentindo maluco por me aproximar de uma garota apenas para descobrir seu segredo. Mas seria maravilhoso poder contar para todas as pessoas da faculdade o que Jade Gardel escondia, eu me tornaria mais popular ainda. E isso era ótimo!


Levei-a na festa e fiquei surpreso com a menina que existia por trás do que ela pretendia mostrar, ou melhor... Por trás do que os outros viam nela. Após a festa dois ou três encontro a mais. Fora as vezes que encontrava com ela propositalmente na faculdade. Todas às vezes eu ia a seu encontro, ela parecia gostar de me ter por perto, mas nunca tomava a iniciativa de se aproximar de mim. Aos meus olhos, parecia que ela tinha medo do mundo, medo de se aproximar das pessoas... O porquê eu não entendia, mas, com certeza, achava-a uma pessoa estranha por isso.


Não que eu não estivesse mais interessado em saber o tinha por trás de Jade Gardel, mas o meu interesse nela começou a ultrapassar isso. Eu gostava de tê-la por perto, gosta de conversar e ouvir suas teorias malucas. Comecei a sentir algo diferente. Comecei a querer ser uma pessoa diferente. Ela me ensinou a ver a vida de uma forma diferente, me ensinou que não importa as circunstancias, você deve estar sempre sorrindo. Que não deve reclamar quando lhe faltar algo, pois tem sempre pessoas em situações piores que a sua. Ensinou-me que dinheiro, fama e popularidade não são importantes, eles não te trazem felicidade. E quando eu achava que não podia aprender mais nada com ela, ela me ensinou que eu era capaz de me apaixonar. Isso mesmo, eu estava apaixonado. Apaixonado pela menina que eu queria humilhar. Ela me transformou de uma forma tão intensa, que eu não me importava mais em esconder isso. Eu queria que ela soubesse, queria que todos soubessem!


- Eu... Eu estou apaixonado. –ela olhou para mim discretamente, com um ar de sorriso e voltou a abaixar a cabeça.
- Você prometeu que isso não aconteceria.
- Eu sei! Mas, eu não pude controlar. Foi mais forte. –ela desfez o pequeno sorriso que tinha em seus lábios e olhou para cima, encarando as estrelas. O fiz da mesma forma, esperando que ela dissesse algo.
- Promessas não são fáceis de cumprir. Há um tempo eu prometi a mim mesma que não me aproximaria de mais ninguém e, olha só, as coisas deram errado.
- Não, agora as coisas estão dando certo. A sua promessa que foi errada. Você não pode se afastar do mundo, enquanto isso sua vida esta passando. Não tem medo do tempo?
- Tenho –disse- Sinto medo o tempo todo!
- E porque não demonstra?
- Eu demonstro, mas não em publico.
- Por quê? Não confia em mim?
- Não. Eu sei que você também está com medo.
- Do que eu teria medo?
- De saber o que eu guardo. E, sinceramente, prefiro que você não saiba.
- Para ser sincero, por muito tempo me preocupei com isso, mas agora não me importo mais. Nenhum pouco! Tudo bem, eu não preciso saber.
- Como eu disse, prefiro que você não saiba. Mas acho que não seria justo com você. Eu não posso me aproximar desse jeito da sua vida e depois...
- E depois?
- Me afastar... –ela disse num sussurro.
- Se afastar? Porque você faria isso?
- Acho melhor deixarmos isso para lá...
- Eu não posso, agora preciso saber. Por que você se afastaria de mim? Você quer isso?
- Eu tenho leucemia, Cobra. Eu vou morrer!
- Não, você só tem dezenove anos e... Você é perfeita! –forcei um riso, não queria acreditar naquilo.
- Não sou Cobra, eu não sou perfeita! Eu descobri isso há um dois anos e já não reajo mais aos tratamentos. Continuar com eles só me faria sofrer mais.
- Porque não me contou?
- Porque você não precisava saber. Ninguém precisava! Eu já tinha aceitado tudo, já estava conformada. Tinha conseguido me afastar de tudo e todos, mas então você apareceu e estragou as coisas. Agora você entende porque eu não quero ficar perto de você?


Jade chorava muito e eu olhava para ela ainda sem reação. Eu não podia acreditar que esse era o segredo. Ela estava passando por tudo isso sozinha e ainda existiam idiotas como eu que só se preocupava com coisas inúteis. Que se aproximou dela pelo motivo errado. Meu coração estava estraçalhado, mil facas de ponta fina entravam e saiam do meu corpo ao mesmo tempo. Eu não podia aceitar perder a pessoa que me trouxe de volta a vida.


- Você não pode desistir assim. Você tem que tentar! Tem que fazer alguma coisa!
- Nada do que eu fizer vai adiantar! Será que você não entende? Eu estou com os meses contados e a culpa não é minha! Não tem nada que eu possa fazer. A única coisa que me resta é ficar esperado ela chegar, a cada dia que passa a morte se aproxima mais de mim e não há nada que eu possa fazer! Ela me escolheu!
- Eu também escolhi você e não aceito te perder para ela.
- Você tem que aceitar, não tem outra opção. Volte a sua vida e finja que nunca me conheceu.
- Não posso, eu não tinha vida antes de você chegar e não vou ter vida sem você!


Ela me abraçou forte e enterrou sua cabeça em meu pescoço. Abracei-a de volta e choramos juntos. Queria ser capaz de tirar toda dor que ela estava sentindo e todo mal que tinha em seu corpo e coloca-los no meu. Se eu morresse seria bem melhor, ninguém sentira minha falta e em pouco tempo eu seria esquecido... Bom, ela sentiria, mas logo se acostumaria e seguiria sua vida a diante. Eu não faria falta no mundo, mas ela, ela sim. Ela faria muita falta. Se fosse possível, trocaria minha vida pela dela.


- Eu prometo que eu vou cuidar de você e vou te fazer a mulher mais feliz enquanto estiver ao meu lado.


Aproximei-me de seu rosto, ainda molhado pelas lagrimas e selei nossos lábios. Segurei-a bem perto de mim, com os olhos fechados, perguntando-me se alguma coisa na minha vida já havia sido tão perfeita, e, ao mesmo tempo, sabendo que não. Pedi passagem com a língua e ela logo cedeu. Estremeci ao sentir minha língua em contato com a dela. Nosso beijo era calmo e doce, mas, ao mesmo tempo, tentávamos aproveitar cada parte um do outro. Me doía só de lembrar que eu não teria aquele beijo para sempre. Acho que desespero é a palavra certa.


(...)


Lembro-me de um domingo, mais precisamente pela manhã. Aproveitando que estaria sozinha em casa, convidou-me para ir até lá e conhecer ‘o palácio da rainha’, como ela costumava chamar. Eu estava bem nervoso. Cheguei um pouco antes do que tínhamos combinado, encontrei a porta aberta, então me dei à liberdade de entrar. Ela estava na cozinha preparando algumas torradas. Pude me imaginar adulto, chegando do trabalho e vendo ela preparando a comida com amor, enquanto cuidava das crianças. Mais uma certeza de que isso nunca aconteceria.


- Ei, você está aí há muito tempo?
- Tempo suficiente para ver que você não sabe fazer torradas. –brinquei e ela riu.
- Vou fazer você se arrepender de ter dito isso. Vem, senta aqui. –fiz o que ela pediu, e ela sentou-se ao meu lado. Colocou algumas torradas na minha frente e esperou para ver minha reação.


- Hm... Melhor do que pensei.
- Bobo! –sorriu- Posso te perguntar uma coisa?
- Quantas quiser!
- Você tem um sonho?
- Não, acho que não sou o tipo de pessoa que sonha.
- Como assim? Todas as pessoas tem um sonho! Você é norma?
- Acho que sim –ri- Só prefiro a realidade. E você? Qual o seu sonho?
- Tenho vários, mais se eu tivesse que colocar em ordem de importância sei exatamente qual deles colocaria no topo da lista. Pode parecer bobo, mas se alguém me mandasse escolher e perguntasse o que eu gostaria muito de fazer antes de morrer... –ela disse inocente e eu a olhei de cara feia, não gostava quando ela falava assim- Eu iria querer ser capaz de estar em dois lugares ao mesmo tempo.
- Sério isso?
- É sim. Seria o máximo!
- Não é possível estar em dois lugares ao mesmo tempo... Ou é?


Olhei para ela como se eu tivesse tido a ideia mais brilhante do mundo e, realmente, eu tinha tido. Peguei-a pela mão e a levei para o meu carro. Praticamente o caminho inteiro ela perguntava o que eu estava fazendo ou para onde iriamos. Aquela mulher era muito insistente. Chegamos em uma estranha cercada de mato pelos dois lado, ela me olhou sem entender e descemos do carro.


- O que é isso Cobra?
- Você está vendo aquela linha amarela que divide a rua?
- Sim. O que tem ela?
- É a divisão dos dois estados. Antes da linha ainda é o Rio de Janeiro, depois da linha passa a ser Espirito Santo.
— Eu não estou entendendo!


Peguei, mais uma vez, por suas mãos e a levei para perto da linha. Pedi que colocasse um pé direito de um lado da linha e o pé esquerdo do outro lado. Fiz o mesmo que ela.


- Tecnicamente, você está em dois lugares distintos ao mesmo tempo.
- Você... Você é incrível!
Ela correu em minha direção e se jogou nos meus braços. Podíamos sentir um misto de emoção e alegria.
- Obrigada por isso!
- Não precisa me agradecer. Eu fiz isso porque queria ser o cara que realizou o teu sonho. Eu amo você!
- Eu também te amo!


Eu me sentia o cara mais feliz do mundo quando a ouvia dizer isso. Pude perceber que a expressão de Jade mudou de feliz para algo que eu não conseguia definir. Seu rosto, antes corado, estava pálido. Em volta dos olhos e da boca começou a aparecer uma cor estranha, como se fosse roxo, que estava ficando cada vez mais forte. Toquei em suas mãos e elas estavam frias.


- Jade, o que é isso? O que você está sentindo?
- Eu... Eu não sei.


Ela disse num sussurro. Sua vos estava fraca e ela mal conseguia abrir os olhos. O desespero tomou conta de mim. Coloquei-a no carro e dirigi o mais rápido que pude em direção a um hospital mais próximo. Estava me sentindo culpado por tê-la afastado ainda mais da cidade. Já a tinha visto passar mal algumas vezes, mas nunca desse jeito. Agora parecia mais sério. A cada segundo que passava eu a sentia mais distante. E se não desse tempo de chegar? Se não adianta-se mais? Eu ainda não estava pronto para perdê-la. Acho que nunca estaria, mas aquela hora com certeza não era a hora dela. Não podia ser! Chegamos ao hospital e logo a colocaram na maca, enchendo-a de fios e tubos. Não me deixaram entrar, nem me deram noticias. A noite estava chegando, já tinha perdido as contas de quantas horas havia passado. A única coisa que eu sabia era que eu precisava ficar ali, caso alguma coisa de ruim acontecesse. O médico entrou na sala de espera, vazia e gelada. Corri em sua direção, sedento por notícias, mas com medo delas. Ele disse que ela tinha conseguido ‘se segurar’ mais um dia, mas não sabia por quanto tempo mais aguentaria. A doença tinha ficado mais alarmante, ela estava mais fraca e sentia mais dores, talvez não conseguiria mais sair dali.


- Oi. Como você está se sentindo? –perguntei sentado ao lado da cama e segurando uma de suas mãos.
- Um pouco melhor, mas ainda dói. Achei que não te deixariam entrar.
- Eu também, mas eles não são loucos. Eu entraria de qualquer jeito. –ela forçou um riso.
- Não foi dessa vez que se livrou de mim.
- Eu não quero me livrar de você.
- Eu sei! Eu estava pensando que se aquela tivesse sido a minha hora, eu teria ido feliz. Esse tempo que passei com você foi melhor do que toda mina vida. Obrigada por isso.
- Não, eu que preciso te agradecer. Você me trouxe a vida, antes de te conhecer eu não tinha uma. Eu não sabia amar e você me ensinou isso. Obrigado!
- Quando eu não estiver mais aqui, quero que você se lembre sempre que eu nunca vou deixar te amar e que você foi responsável por fazer uma mulher feliz.
- Eu também te amo. Mas não pense nisso agora, nada vai acontecer. Agora dorme, você precisa descansar. Eu vou aqui cuidando de você.


Ela segurou minha mão mais forte e não me respondeu, apenas sorriu para si mesma. Como se soubesse de alguma coisa e não quisesse me contar. Ela adormeceu e não acordou mais. Segunda-feira, dezoito de setembro, foi o dia que eu a perdi. Foi o dia que eu perdi minha vida. Junto com ela minha alma tinha sido enterrada e tive a certeza de que eu nunca mais teria vida. Sem ela, não existia felicidade, não existia esperança, não existia nada. Sem ela não existia vida. Ela me deixou. Houve um tempo que nossas histórias eram uma só, mas esse tempo não existe mais e nunca votaria a existir. Não foi fácil aceitar essa verdade. Na verdade, ainda não aceitei e acho que nunca irei aceitar. Eu estava ali parado tentando absorver minha dor e minha solidão.


Enquanto minhas lembranças sobre Jade eram as estrelas que davam vida àquele céu. Posso dizer que a minha se resumia naquele espaço assombrado e vazio entre elas.

Fim

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