Notas iniciais
Se você perfurasse meu crânio com uma faca, e cortasse meu cérebro ao meio, minha loucura escorreria para fora, quente e pegajosa, brilhando como purpurina, mas malcheirosa como fezes e fumaça. Ela sairia de mim, me deixaria livre por algumas horas, permitindo que eu dormisse um sono sem sonhos, mas ela rapidamente voltaria, e então tudo se repetiria.
Era verão, mas flocos de neve caiam sobre a sala. Peguei um sobre a palma de minha mão, o que tinha formato de estrela, e o assisti derreter no calor da minha pele. Uma minúscula poça d’água se formou, e então eu lambi. Tinha gosto de algodão doce, mas jurei sentir o sabor metálico de sangue na ponta da minha língua.
O casal sobre a mesa fodia como animais. Rápido, violento, furioso. A mulher de cabelos cor-de-rosa estava de quatro, o rosto dela pressionado contra a madeira envelhecida. Ela gemia alto, quase um ganido interminável, saliva escorria do canto de seus lábios. O homem dourado a penetrava brutalmente, movimentos programados. Entrar e sair, entrar e sair, entrar e sair. Ele tinha arranhões em suas costas, linhas carmim cortando seus músculos. Vermelho como seu pau.
— Você deve – A mulher grunhiu – Sabe que deve. Vá, apenas faça. É o melhor pra você – Ela me encarou, olhos nos olhos. O homem não parou por um segundo com suas estocadas e ela mesma pressionava seus quadris para trás, mas agora ela olhava fixamente para mim, metade de seu rosto ainda esmagado contra a mesa – Você deve.
— Eu não quero – Eu respondi, meu olhar posando sobre uma cicatriz horrenda em sua coxa. Eu não havia notado aquilo antes.
— Não importa, você deve.
— Não quero.
— Apenas faça.
— Você não manda em mim.
— Sim, mas eu não estou sozinha.
Desviei meu olhar dos dois, subitamente enojada. Senti a bile ameaçar subir até minha garganta, mas fui forte e me controlei, engolindo saliva, meu interior queimando como brasa. Sentei-me no chão, procurando por alguma estabilidade. Eu gostaria de estar na praia, sentir a areia macia entre os dedos dos meus pés, a maresia atingir meu rosto, a água salgada arder meus olhos e ressecar minha pele. Em vez disso, eu fitava azulejos azuis-turquesa com olhos vidrados, as flores amarelas e roxas rastejando pelas paredes como trepadeiras. Uma rachadura estampava o canto superior direito, e dali de dentro saiu uma pequena aranha. Ela perambulou ao redor, dançando uma coreografia desajeitada. Jurei sentir seus muitos olhos me julgando, antes dela voltar para sua casa.
— Lucius gosta de tâmaras – Eu disse, sem perceber – Lucius gosta de tâmaras embebidas em mel. Toranjas também. Ah, ele ama toranjas! Eu posso vê-lo agora mesmo, aqui dentro da minha memória, o rosto coberto com o suco das toranjas que ele saboreou! – Calei-me, uma pontada irritante em minha têmpora – Quem é Lucius?
Eu vi luzes psicodélicas passarem como um flash em minha frente, mas elas se foram rápidas demais e nem tive tempo de dizer olá. As margaridas estavam em uma fervorosa discussão sobre o fanatismo religioso e suas relações com a sociedade moderna, mas as violetas jogavam conversa fora, falando sobre uma mulher invejosa, um cachorro sarnento e as bebidas que queriam tomar.
— Faça – A solitária petúnia disse em um sussurro – É bom pra você, sabe que sim.
— Eu não quero.
— Querer não é uma opção. Faça.
— Não quero.
— Deixe de ser tola. Você está implorando por isso.
— Não estou.
— Está.
— Não estou.
— Se não estivesse, estaria debatendo comigo?
Eu a ignorei, dando as costas para suas malditas pétalas murchas. Olhei para minhas unhas, quebradiças e amareladas, sujeira sob elas. Desejei o esmalte branco como leite para esconder sua vergonha, mas eu sabia que não tinha habilidade nenhuma para vaidades.
Senti algo se revirar dentro de meu esqueleto, rastejando como um réptil, melado e agourento. Eu sabia o que era, sabia que havia saído da parte mais escura de meu encéfalo, desejando dominar o resto de meu corpo. Eu não queria que acontecesse, mas eu deixaria que tivesse sua vitória, tamanho meu tão estúpido orgulho.
Cinquenta penas prateadas estavam enfileiradas sobre o balcão da cozinha, mas o vento soprou e as levou embora. Um punhado de nozes repousavam sobre o granito, pareciam frescas e apetitosas, mas, por alguma razão, achei melhor não comê-las, mesmo que eu estivesse salivando por isso.
Cuco saiu de sua humilde casinha de camponês, gritando seu tão amado nome. Seu corpo amarelo fluorescente era como a calda de uma estrela cadente quando ia para lá e para cá, em sua dança narcisista e alegre. Cuco!, ele gritou, Cuco! Cuco!, urrou novamente.
— Eu já ouvi! – Exclamei irritada, desejando que ele parasse.
— Ouviu, é? – Suas palavras eram gralhadas e altas – Então ouça mais: Faça o que deve fazer!
— Você também?
— Eu também. Nós somos um conjunto, minha doce menina ignorante. E, o mais engraçado, nós somos você.
— Não são.
— E o que somos?
— Vocês são... vocês.
— Ah, uma piada! Você é hilária, por que não está rindo? Por que tem lágrimas rolando pelo rosto?
— Não sei – Toquei minhas bochechas molhadas, degustando meu choro na ponta de meus dedos.
— Você sabe! Sabe tão bem quanto eu! Você está sentindo? Sente arrastando-se dentro de sua cabeça tão suja? Sente infectando suas células e suas córneas? Sente zumbindo em seu ouvido e pinicando seu paladar? Sente seu toque grosseiro em seus braços e pernas? Você sente, sei que sente! Apenas faça o que deve fazer, menina burra! Apenas faça o que te mandam!
— Se eu fizer isso, eles estarão certos. Eu serei exatamente o que eles me dizem.
— Não entende, criaturinha idiótica? Você já é! Desde sempre, antes deles te dizerem a tão dolorosa verdade, você é o que é!
— Por que está sendo tão cruel?
— Eu sou cruel porque você é cruel. Faça o certo, e então eu serei tão gentil como o beijo de um amante. Apenas não deixe com que se espalhe por seu sistema, e prometo que de mim só ouvirá palavras ternas e gestos cheios de candura. Apenas aceite sua natureza doentia, e presentear-te-ei com canções e poesias!
— Mas aqui também é doce.
— Sim, mas a que custo? Não consegue sentir todo o veneno no ar?
Ele me convenceu. Ai dele e seu sábio discurso.
Caminhei com passos hesitantes até a mesa de centro, o frasco já estava aberto. Com cuidado, joguei duas pílulas em minha mão. Olhei ao redor, e encontrei a multidão me encarando, rostos de expectativa, murmúrios de incentivo jorrando de suas bocas. Adquirindo uma posição corajosa, coloquei as pílulas goela abaixo, engolindo com dificuldade.
Prostrei-me no piso frio, boca entreaberta e respiração tranquila. Aos poucos, vi as paredes bege e o quadro da paisagem de algum lugar bonito do interior. Vi as cortinas velhas e os imãs de geladeira em formato de frutas. Vi tudo o que deveria ver, e nada do que vi antes.
Nada mais se contorcia dentro de mim e eu estava feliz com isso, mas ao mesmo tempo tive vontade de nunca mais sentir nada.
Se você perfurasse meu crânio com uma faca, e cortasse meu cérebro ao meio, eu não precisaria mais sentir o que sinto.
E eu me via implorando por isso.
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