A liberdade em um olhar
7 Primeiro dia na escola
Notas iniciais
–Agora é oficial... Eu não poderia estar mais na merda!
Brittany resmungou se sentindo cada vez mais humilhada socialmente. Ela se fitava pelo espelho já fazia mais de meia hora, fazendo caretas de desgosto por seu uniforme da nova escola que consistia em uma saia de cor cinza que ia até os joelhos e uma blusa branca com o brasão da escola, um leão dourado, exibido sobre o peito esquerdo. Seu cabelo estava amarrado em um rabo de cavalo caprichado e nos pés haviam meias brancas que iam até pouco da canela alva e sapatilhas fechadas pretas.
–Parece uniforme de presidiária.
–Ou de uma testemunha de Jeová. Paz do senhor, irmã- Char zombava da cama.
–Não enche, Charlie- o pequeno estava deitado de bruços sobre a cama de Brittany e agora se contorceu gargalhando da carranca que a loira exibia- Nem vem zoando, seu o uniforme é igual o meu.
–Mas pelo menos eu não preciso usar essa saia que parece um leque- ele agora sentava na cama- Vovó Susan disse que meu paletozinho me deixa parecido com um lord inglês- segurou no topo do paletó azul escuro de maneira elegante. Santana usou de sua influência como advogada para conseguir uma bolsa de estudos para Brittany no colégio que Charlie estudava, na Golden Elite Lions. Escola bem vista e melhor ainda requisitada dos privilegiados de Nova York, que preparava o aluno desde o jardim até o último ano do ensino médio para o mercado de trabalho, para o lado empresarial especialmente. Santana mesmo estudou ali todos os anos escolares, acabando por se tornar um dos maiores orgulhos da Lions.
–Metido!- Charlie mexeu as sobrancelhas, com um sorrisinho sapeca. Alguém bateu na porta.
–Então, crianças, prontos? Santana aguarda vocês na sala- Susan avisou, entrando logo em seguida com algo em mãos.
–O que é isso, vovó?
–O restante de seu uniforme. Está passadinho e cheroso- entregou peça para a loira, que encarou aquilo como um sinal de morte.
–Não vou usar isso- disse firme, erguendo o paletó que era uma versão feminina do de Charlie e na cor cinza- Isso já é humilhação demais.
–Não mandei ser expulsa de sua escola em Lima. Agora veste ou não entra no colégio.
–Não vou vestir- cruzou os braços, com um olhar desafiador para sua avó. Susan bufou.
–Brittany, sejamos adultas. Veste isso e deixa de infantilidade- a senhora já estava quase vermelha de irritação. Sua neta não aliviava seu trabalho. Brittany deu de ombros, indiferente a ordem de sua avó- Diabo! Veste isso, menina.
–Não- Susan olhou para o alto, pedindo forças para o universo ou ela surtaria com a neta.
–Brittany Susan Pierce, você está pedindo pelas palmadas que nunca levou- ergueu a mão sinalizando isso.
–Vai apelar pra violência agora, dona Susan? Uhhh, agora a verdadeira Susan Eleonor Pierce está se mostrando. A que ama os outros e repudia a neta- Brittany rebateu com amargura- Tudo bem, eu entendo. É difícil suportar sua própria prole podre, não é?
–Veja bem como fala comigo, sua garota malcriada- a senhora elevou a voz, apontando o dedo indicador para a loira. Charlie assistia tudo com uma carinha de assustado, pois nunca havia presenciado uma discussão dessas. O pequeno saiu correndo do quarto.
–Mas não é a pura verdade? Você nunca gostou de mim, só me atura por ser sua neta- agora a loira gritava.
–Eu sempre amei você, Brittany. A todos meus filhos e meus netos. Não sei o que te perturba, mas não é a mesma. O egoísmo a deixou cega.
–Eu sou egoísta? Eu? Quem aqui prefere dar a alma ao diabo do que cuidar dos filhos? Vovô que sempre fez tudo, você sumiu logo cedo e jogou tudo nas costas dele. Só porque apareceu agora como uma senhora gentil e bondosa por cuidar de uma cega, acha que virou santa? Me poupe- rolou os olhos.
–Eu me arrependo amargamente por isso, minha filha, mas me redimo a cada dia por meus pecados.
–Acha que anos de sofrimento podem ser esquecidos só porque de agora dá uma de boa mãe?- riu ironicamente- Espero que esse tal “arrependimento“ cure a mamãe.
–O que está tentando insinuar, Brittany?
–A senhora sabe bem o quê- Susan sentiu o peito arder pelas palavras duras da neta. Ela nunca imaginaria que um dia chegaria a esses termos com alguém de seu sangue.
–Não tenho culpa pela doença de sua mãe.
–Tudo bem, dona Susan. Fui eu então- mais sarcasmo- Saiba de uma coisa: Mamãe pode tê-la perdoado, mas não sou tão boa. Só espero que esse inferno acabe logo.
–BRITTANY!
–Acalmem-se, madames- Santana cortou mais uma gritaria, entrando no quarto- Suas vozes podem ser ouvidas no portão de entrada.
–Me desculpe, Santana. Eu me excedi, mil perdões- Susan pediu envergonhada.
–O que aconteceu aqui? Charlie veio até mim assustado, pedindo que eu subisse logo ou vocês se matariam. Fiquei preocupada- a latina relatou, sentindo Charlie abraçar sua perna com os olhinhos cheios d‘água.
–Foi apenas uma discussão irrelevante, Santana. Não se preocupe- olhou para a neta demonstrando mágoa.
–Vocês estão bem? Achei que virariam o Hulk em qualquer momento- o loirinho perguntou hesitante em se aproximar. Santana acariciou a cabeça do filho como se pudesse tranquilizá-lo com o gesto. Até ela tinha se assustado com a discussão.
–Estamos sim, meu querido- foi até ele e se abaixou para ficar da sua altura- Desculpa a vovó pelo susto, ta?
–Tudo bem, vovó- disse docemente, abraçando a senhora.
–Bom, vou voltar pra minha cozinha. Desejo-lhes uma boa aula.
–Obrigado- Char foi o único a dizer. Brittany virou-se de costas para terminar sua maquiagem, tentando não borrá-la com o choro que segurava- Britt Britt?
–Hum?- ela murmurou tentando ignorar o nó na garganta. A discussão havia a afetado terrivelmente.
–Sei que isso não te agrada, mas vem na escola comigo, por favor. Não dê mais motivos para as pessoas acharem que você não pode mudar ou que é alguém ruim- ela suspirou parando com a maquiagem- Faz essa forcinha, por favor. Gosto de você, de verdade- foi até a loira e pegou em sua mão de maneira carinhosa- A escola não é tão ruim. Tem algo muito legal por lá.
–E o que é?
–Eu- apontou para si mesmo, sorrindo de maneira divertida- Tem coisa melhor que Charlie Fabray Lopez?
–Moleque chato- a loira agarrou o pequeno e o girou torto pelo o quarto. Santana acampanhava tudo da porta, ouvindo todos os movimentos e as risadas dos dois loiros, sorrindo um tanto esperançosa pela formação dessa amizade que poderia ser proveitosa a todos. Saiu do quarto deixando os dois na brincadeira onde agora Char gargalhava intensamente enquanto Brittany o girava e depois lhe fazia cócegas.
–Ai, estou tonto!
–Eu também- os dois riram, sentando na cama.
–Então... Você vai? Será legal ter você por lá me fazendo companhia- Brittany encarou os garoto demoradamente em reflexão. Se fosse, ela daria o braço a torcer para sua avó e perderia a batalha da vez. Entretanto, se não fosse, daria mais motivos para pegarem em seu pé e demoraria mais para conseguir seu passe para fora dessa casa. Não tinha maior coisa depois da melhora de sua mãe que ela queria mais do que sua liberdade e retorno a Lima. Sem falar que Charlie contava com ela e a mesma não queria decepcionar o garoto, já que ele foi o único que até agora lhe foi tão companheiro e compreensivo.
–Pode contar comigo, moleque. Eu vou.
–Obaaaaaaa- o pequeno Lopez pulou de alegria por ter Brittany no colégio com ele- Obrigado, Britt Britt. Prometo não deixar ninguém caçoar de você pela cara de testemunha de Jeová saída da prisão.
–CHARLIE!- ela correu atrás dele, que disparou se desmanchando em rir. Pode se dizer que daqui em diante uma verdadeira amizade havia se formado.
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Santana aguardou os dois para irem com ela em seu carro. No caminho, Brittany ia calada, apenas observando a latina brincar com o filho a sua frente. Apesar de tudo, ela achava até que bonita a relação de Santana com o pequeno Charlie, pareciam muito amigos e companheiros. Ela ás vezes quando os via assim, ficava tentando imaginar o porque de Quinn ter se divorciado de sua patroa. Santana se mostrava ser boa mãe, tinha sua própria empresa e era famosa em seu meio. O que teria levado a separação das duas se demonstravam ser tão amigas e tudo mais?
“Vai ver a loira chata cansou desse jeito de bem com a vida dela. Quem aguenta alguém sorrindo vinte e quatro horas pra você? Mas se bem que é um belo sorriso... A ceguinha até que é bonitinha e tem um corpo legal. Eu diria até sexy. Putz grila, Britt. Que diacho de pensamento é esse? Credo!"
A loira pensou observando Santana rir por algo que Charlie lhe contara. Ela se repreendeu por tal pensamento, porém não podia negar que Santana era sim muito bonita. Apesar daquele óculos escuro que ela não tira do rosto. Brittany sentia-se curiosa quanto ao ver os olhos da latina, pois não sabia como ela havia perdido a visão.
–Olha só, mamãe. Aqui diz que terá uma exposição de quadros e esculturas de amadores no Central Park. Terá artistas de vários lugares. Muito legal- Charlie contou animado a mãe, ao ler a notícia em um site por seu tablet- Podemos ir? Será nesse fim de semana.
–Claro, filho. Adianto umas coisas na empresa para irmos dar uma olhada- Santana alcançou a cabeça do filho para acariciá-la.
–Obrigado, mamãe. Brittany pode ir?
–Ela deve ir. É educativo e divertido.
–Desculpe a intromissão, mas não vejo nada divertido ficar parada olhando rabiscos dos outros- Brittany expôs arredia.
–A arte está nos olhos de que as vê, minha cara Brittany.
“Como pode dizer isso se nem enxerga?". A loira riu ao pensar.
–E sim, dá pra saber disso sem precisar enxergar- se espantou com a latina. Ela escutava pensamentos agora?- Não existe apenas um sentido. Você vive de verdade, apartir do momento que o universo enxerga você por finalmente enxergá-lo sem precisar dos olhos para isso.
–O que quer dizer com isso? Que só pessoas cegas enxergam as coisas de verdade?- franziu o cenho, invocada.
–Não, Brittany. Eu quis dizer que você só enxerga de verdade as coisas quando a vida lhe toma algo, ou seja, quando você aprende que o universo é uma grande bola de boliche esperando pelo o momento certo para fazer um strike nos pinos frágeis que são suas emoções- Santana explicou pacientemente- Mas se você aprende vê-la de outras formas, de outros ângulos ou sentidos, pode com certeza impedí-la de derrubar seus pinos, ou mais precisamente... Suas emoções.
–Por que está me dizendo isso? É uma lição de moral por acaso? Porque se for, dispenso- foi rude ao dizer, porém a latina apenas riu pelo nariz.
–Não se preocupe, Brittany. Não sou como os outros que acham que te apertando é que obtêm algum resultado satisfatório- Brittany cerrou o cenho, sem entender onde a latina queria chegar- Você é quase adulta. Se age dessa maneira já é ciente das consequências. Porém sei que está perdida e sei mais ainda que posso dar a você a luz para se encontrar.
–Não estou perdida.
–Então prove isso mudando pra melhor e não maltrate tanto sua avó com certas rebeldias. Ser adolescente em intensidades é uma coisa, mas dar as costas para quem se importa com você mesmo depois de tudo e ainda o atingir onde mais dói, a torna cruel. Susan também sofreu e sofre por tudo- não era do feitio da latina opinar em situações envolvendo familiares, porém doravante aos fatos e levando em conta a tristeza de sua tão amada babá, ela resolveu aconselhar a adolescente.
–Só quem está dentro é que entende- disse de cabeça baixa, fitando as mãos- Mas eu queria pedir desculpas a você pela confusão de hoje cedo. Não quis assustar o Charlie.
–Tudo bem. Familiares discutem mesmo. Só tenho meu avô, mas de vez em quando nós discutimos sobre quem rouba mais no xadrez. Tenho certeza que ele, já que se aproveita de que meus lindos olhos azuis brilhantes não funcionam como deveriam- Brittany riu de maneira gostosa. Santana era muito bem humorada.
–Seus olhos são castanhos, mamãe- Char cutucou a latina.
–Shii, filho... Não me entrega- a loira riu agora de Charlie que fez careta tapando a boca- Você precisa relaxar mais, Brittany. De uma diversão leve e tão menos perigosa a que está habituada. É muito carrancuda pra sua idade, como Char diz.
–Não sou carrancuda- Brittany negou emburrada.
–Quem sou eu pra contradizer- Santana levantou as mãos, contraindo os ombros- Mas façamos o seguinte: Tirarei o sábado inteiro de folga e nós todos, incluindo dona S, iremos para o Central Park ver a exposição do Char e de quebra ainda faremos um maravilhoso piquenique. O que acham?
–Wowww, que demais! Claro. Um super sim- Char dava pulinhos no banco ao lado de Santana, que riu pela animação do filho- Vamos, Britt Britt. Você vai gostar.
–Não sei. Não sou muito fã de parques.
–Por favor- o pequeno juntou as mãozinhas implorando- Sinto meu coraçãozinho doer só de pensar em nós sem você no Central Park.
–Não, pára. Não faz essa cara. Charlie!- Brittany mandou agoniada pela cara de choro que Char já fazia. Ele então produziu um bico adorável com os olhinhos cheios d‘água.
–Quero ver você escapar dessa- Santana brincou já imaginando o filho em suas artimanhas.
–Eu queria tanto ir- disse dengoso- Tanto.
–Argh. Tudo bem. Eu vou.
–Legaaaaal! — Charlie vibrou eufórico.
–Não era você que estava quase chorando ainda agora?- a loira indagou de olhos cerrados e braços cruzados.
–Eu me curo rápido. Sou um menino forte.
–Palhaço!- Santana riu, beijando o topo da cabeça do filho enquanto o mesmo dava risadinhas sapecas. Charlie realmente era único.
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–Tenham uma boa aula!- Santana os desejou enquanto saíam do carro- Qualquer coisa podem me ligar, ok?
–Tudo bem. Até mais, Santana.
–Tchau, mamãe.
–Tchau e juízo, hein?- ela apontou de maneira divertida. Depois que o vidro do carro fechou, o mesmo partiu, deixando Brittany e Charlie encarando a entrada da grande escola.
–Com medo?- o pequeno perguntou, pegando na mão da loira.
–Talvez e você?
–Já querendo voltar pra casa, mas como tenho agora você aqui, nem me preocupo- deu de ombros e Brittany sorriu- Vamos?
–Vamos.
Os dois andaram de mãos dadas pelo os grandes corredores da G.E.L, onde Char explicava algumas coisas do lugar para a loira. Ele indicou a ela aonde ficava a ala do médio e depois seguiu pra sua, dos pequeninos. Charlie era tão esperto que dava medo, era muito de Santana nisso. Esperto e inteligente. Logo Brittany encontrou sua sala e foi se sentar na cadeira mais ao fundo. Alguns burburinhos foram escutados até que o professor entrou e todos se aquietaram.
–Erga-se, por favor- ele pediu assim que viu Brittany- Bem vinda, senhorita. Queira se apresentar a nós, por favor- a loira levantou-se meio acanhada aos olhares curiosos.
–Oi, sou Brittany S. Pierce.
–Britney Spears?- um engraçadinho caçoou mais atrás.
–Silêncio, Liam- o prefessor o repreendeu- De onde vem, senhorita Pierce? Qual escola?
–William Mckinley de Lima- Ohio- muitos riram quando ela falou.
–Escola pública, hã?- ela assentiu, tentando evitar os olhares pesados nela- Lhe advirto logo que aqui não toleramos qualquer excedência, ok? Postura de aluno sério é o que queremos.
–Eu entendi.
–Que bom. Seja bem vinda novamente. Pode se sentar- a loira fez isso, já sentindo vontade de sair correndo dali- Agora que já estamos devidamente apresentados, abram o livro de história de vocês na página 15, por favor.
–Então, o que acha da nova aluna, Ashley? É bonita- Kim, uma das alunas perguntou. Ela sentavam mais frente na sala.
–Tem cara de pobre e cafona- a outra concordou- Veio de Lima, provavelmente se envolveu com algum homem rico que paga pra ela estudar aqui.
–Deve ser algum tipo de vadia barata.
–Pode até ser, mas logo eu acho uma maneira dela me ser útil por aqui. Ninguém brilha mais do que eu nessa escola. Eu mando e tem que me obedecer- Ashley disse arrogantemente- Se ela acha que veio dos confins das favelas de Ohio para se dar bem aqui, está muito enganada. Bettany vai ser meu novo brinquedinho.
–O nome dela é Brittany.
–Tanto faz- desdenhou, jogando os cabelos pro lado.
–Os meninos parecem que se agradaram dela- Kim comentou olhando para alguns rapazes cochichando algo sobre Brittany e outros a olhando maliciosamente- Pelo visto até o Sebastian gostou.
–Ah, não- a morena de olhos claros virou-se bruscamente para encarar o rapaz sorrindo para Brittany, que ficou um tanto encabulada com isso- Não o meu Sebastian. Ah, loira... Já começou errado. Comigo o jogo é diferente... Meu homem, meu colégio. Quero ver se pode com Ashley Silvester.
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