A liberdade em um olhar
18 Impulsos
Notas iniciais
Liberdade em um olhar
O sol estava a pino conforme o dia fora se adiantando para acabar. Brittany sentiu a decisão infame de resolver o que podia naquela escola maldita para ela. Por mais idiota que estivesse se sentindo em toda aquela situação que acabara de fugir, não daria o gostinho para a afrontosa Ashley Silvester de a ver sendo expulsa. Santana teve tanto trabalho para lhe manter ali ainda, até ela tinha que admitir o esforço da mulher em dar a ela bons valores.
Um lugar como aquele nem sonhando teria a capacidade de conseguir por mérito. Santana era muito influente e ela não sabia o que havia dado em sua cabeça flutuante no universo das maravilhas dela, para enfiá-la numa escola com tanta pomposidade como a Elite Lions. Tudo que era tipo de gente rica e metida colocava seus pirralhos para estudar ali, uma realidade a anos luz da sua. Sua mãe era uma simples doméstica e a coisa mais cara que possuíam, ela ainda lutava para terminar de pagar as prestações e para não correr o risco de perder o teto que ainda podiam se abrigar embaixo. Depois da morte de seu pai, além da saudade, ele havia deixado muitas dividas a serem quitadas.
“E pode ter certeza que o quarto mais simples de Santana valia mais que a nossa casa medíocre caindo os pedaços.” Pensou ela.
“Santana. Não sei o que tem me ocorrido em relação a ela. Me sinto tão grande e tão pequena ao mesmo tempo perto dela. Estou cansada dessa situação. E estou cansada dela, da passividade, de tanto pudor, estou explodindo. Não consigo lidar mais com isso, com ela, como ela me deixa. Não quero me sentir assim nunca mais”. Brittany continuava, lamuriando em seu silêncio ao repor os livros deixados em qualquer lugar na biblioteca hedionda da escola, após a bibliotecária mais velha que Deus, dizia Brittany,ter lhe dado como tarefa.
Ashley ainda não havia dado sinal de vida. Brittany presumia que seu castigo poderia ser em outro horário, para não acontecer das duas se trombarem por aí. A diretora sentiu bem a pressão latina de sua patroa e com certeza não iria querer mexer com ela tão cedo. Pelo menos não diretamente.
Sua primeira reação foi de contactar o festeiro Pierre e tentar se afastar o quanto pudesse da mansão sem fim dos Lopez, que de tão grande, ainda conseguia sentir a tensão que havia deixado com Santana, tão densa que poderia ferí-la com uma faca afiada. Mas ao mesmo tempo sentiu que só estava agindo por impulsividade. Não seria a primeira vez. Também não seria de se estranhar se acontecesse algum desastre no meio do caminho. Porque não seria algo novo igualmente.
Entrou na escola a passos decididos, porém não foi diretamente a sala de aula. Se embrenhou por entre os corredores até a biblioteca, evitando os passos próximos e olhares cheios de julgamentos, resolvendo adiantar o que pudesse do seu castigo para se ver logo livre. Ninguém notaria seu sumiço, de qualquer jeito. Na verdade ela só era notada por alguém ali quando servia como alvo de piadinhas. Seria bom usar sua invisibilidade para entrar e sair dali sem mais dores de cabeça.
O sinal tocou despertando Brittany de seus pensamentos. Um livro caiu do nada, no lugar mais afastado da biblioteca. Haviam duas prateleiras grandes com livros antigos e empoeirados, tão intocados que parecia um lugar a parte do lugar. Brittany com receio de ser ratos comendo alguma enciclopédia que valia mais que sua vida, resolveu atravessar o mar de poeira e enxotar o que quer que estivesse derrubado o livro. Quanto mais perto, pode ouvir uma fala abafada, nervosa.
—Ratos não falam... – cochichou para si mesma enquanto tentava com cuidado afastar um livro afim de espiar a parte final da fileira.
Olhos azuis se arregalaram. Brittany levou a mão para abafar um gemido de espanto pela cena que acabara de presenciar. Sebastian, namorado da Silvester, seu tão disputando garoto, de costas para ela, calçar abaixadas, mãos apoiadas contra a base de uma estante de revistas antigas, enquanto um jogador do time de futebol investia contra sua parte traseira, agarrado a seu quadril como se fosse um pedaço de pernil no natal.
Sebastian tinha um braço dobrado, o antebraço apertando os lábios afim de vetar qualquer barulho de gemido que teimava armazenar para não revelar sua posição ali. Brittany respirou fundo, teve a sensação de rachar 3 costelas pelo tamanho esforço para não rir.
—Então é por ele que Ashley afronta meio mundo? Bom saber- a loira pensou, decidindo começar a voltar e fingir que não tinha visto nada. Até porque isso não lhe dizia respeito.
Ela poderia bem tirar proveito da situação e atingir Ashley onde mais podia lhe doer, mas não estaria sendo pior que ela? Por que estava se questionando aquilo? Aquela idiota merecia coisa pior. Era mais ruim que o próprio demônio. Sempre que podia, fazia de sua vida um inferno. Isso sim.
Foi pensando nisso que Brittany sacou o celular, se certificou que estava no silencioso, tirou dezenas de fotos da melhor maneira que pode, recolheu suas coisas e mais que depressa saiu da biblioteca. Seu coração pulava carnavais em seu peito, sua respiração teimava desregular, como se seus pulmões houvessem desprendido como funcionar.
O corredor já estava quase vazio a essa altura do campeonato. A maioria dos alunos não faziam questão de passar mais tempo na escola. Brittany passou por um grupo seleto de adolescentes que compunham a banda marcial, arrastando seus instrumentos até o auditório para mais um ensaio. Ele sequer a notaram passar correndo como um raio por detrás de suas costas, nem mesmo quando ela tropeçou no balde de limpeza do zelador e derrubou meia dúzia de produtos de limpeza pelo corredor. Ela saiu rebimbocando pela parede e se jogou contra a porta de saída, ainda assim não sendo vista por ninguém. Enfim, como pensava, invisível.
Uma Mercedes bem encerada, na cor de carvão, estava devidamente estacionada na entrada com um Ryder impaciente batendo o pé ao som de uma canção imaginaria.
—O que está fazendo aqui, pinguim?
—Eu sempre busco vocês na escola, esqueceu?- Ryder rebateu sem muita paciência- Tem como você se apressar um pouco? Ainda tenho muita gente para buscar.
—Não precisa se incomodar comigo. Eu posso muito bem pegar um ônibus- ela firmou os pés no chão e ameaçou a caminhar no sentido oposto a porta aberta por Ryder.
Ele se apressou e tomou sua frente.
—Vamos lá, Brittany. Você sabe que Santana me esgana se eu te deixar andar sozinha por aí. Aqui é uma cidade potencialmente problemática. Até mais que você.
—Engraçadão você- ela se deixou vencer, passando por ele com o dedo do meio levantado. Ryder revirou os olhos- Onde está Charlie?
—Ele não veio hoje- o motorista disse fechando a porta. Brittany esperou que ele desse a volta pelo carro, entrasse para poder questionar.
—Posso saber por que ele não veio?
—Você não é babá dele?- debochou.
—Só responde a minha pergunta, idiota de terno- ele soltou uma risadinha.
—Na data de hoje, você já devia saber, aquela casa se torna outro lugar. Outra atmosfera. Outra Santana. Outro Charlie- ele ligou a ignição e o carro já estava escorrendo pelas ruas de Nova York- Se eu fosse você, também ia querer longe de lá por hoje.
— E por que assim?
—Achei que sua avó tinha contado sobre isso. Até mesmo Santana , já que vocês são tão próximas, hum? Vocês não são, tipo assim, amigas íntimas?
A loira encarou o motorista pelo espelho retrovisor.
—No que isso diz respeito a você mesmo, Ryder?- ela não havia gostado nada do tom que ele havia empregado no questionamento.
—Só acho que se vocês são tão ligadinhas assim, de um jeito que eu nunca vi Santana agir com ninguém, é de estranhar que tenha vindo para escola hoje. Até porquê Charlie nem veio.
—Eu só acho que 1- Ou você é muito enxerido, pinguim- ela se aproximou do ouvido dele para terminar – ou 2, tem uma queda não correspondida pela Santana e está se mordendo de ciúmes pelo fato dela dar mais atenção a uma recém chegada do que a você e seu péssimo gosto para ternos e esse seu cabelinho cortado na tigela.
Ryder limpou a garganta, se sentindo incomodado.
—Isso é infundado e você sabe- se ajeitou melhor no banco, o maxilar enrijecido- Santana é como uma irmã pra mim.
—Então você é um irmão muito do esquisito- Brittany voltou para sua posição no banco de trás, cruzando os braços sobre o peito- O que Santana e eu temos, se é que temos alguma coisa, mais um vez, não te diz respeito. Nem o que eu faço. Eu sempre te vejo torcer o nariz para o que eu falo ou faço. Só lembre-se de que Santana é cega, mas eu não sou. Já te vi olhar de uma maneira bem nojenta para ela. Ela é uma pessoa muito bacana, mas, bem, eu não sou.
—Isso não faz sentido.
—Só dirija, Ryder. Da minha vida eu cuido.
—Tudo bem- ele disse contrariado- Mas eu vou estar lá quando você pisar feio na bola e, bom, serei a dar a carona da misericórdia para fora da vida de Santana.
—Fique com ela pra você, se quiser.
O carro parou na frente da entrada da grande mansão Lopez. Um segurança uma duas cabeças mais alta que os dois dentro do carro, aproximou com uma vara e um espelho na ponta, revistou toda parte debaixo do carro, porta-malas, encarou Brittany pelo vidro do carro e deu um sorrisinho condescendente, gritando um “pode deixar entrar” para outro em uma guarita.
Aquilo lembrava muito uma prisão de segurança máxima para Brittany.
Não demorou para que ela pudesse saltar do carro e daquela atmosfera pesada do metido do Ryder. Notou alguns outros muitos veículos espalhados pelo estacionamento frontal, achando estranho a quantidade. Em todo esse tempo, nunca viu tanta gente assim visitando Santana de uma vez só.
Ela atravessou a grande sala principal, notando alguns olhares contrariados a sua presença. Alguém, afoito, se meteu no meio delas e começou a perguntar se alguém havia visto Santana, o que foi negado por todos ali. A loira achou aquilo muito estranho, se dirigiu até seu quarto, botou uma roupa mais apresentável e fuçou entre as pessoas, buscando Charlie.
O pequeno loiro estava sentado no balcão da cozinha, tendo aparentemente uma conversa muito animadora com um senhor na casa do seus 70 anos, que era a pintura masculina de Santana. Apesar da idade, como a latina, ele tinha aquela presença, aquela postura charmosa e bem receptiva como a dela.
—Brittany!- Charlie gritou e correu até ela, saltando em seu colo.
—Ah, Oi, seu atacado. Eu te procurei no colégio.
—Hum, desculpa, Britt. Mas hoje em não pude ir- seu olharzinho se decaiu, cansado- Você viu minha mamãe?
—Não, Char, eu acabei de chegar- ela respondeu, se sentindo desconfortável em ter que falar na latina.- Mas aposto que ela está bem.
—Eu duvido muito- Charlie disse fungando- Hoje é o dia que mamãe San fica tão longe.
Brittany olhou por cima dos cabelos dourados de Charlie, o olhar entristecido do senhor fitando a pequena criança em seu colo.
—Me desculpe. A gente não se conhece, por acaso? Tenho a impressão que já lhe vi em algum lugar- o senhor riu quando ela falou.
—Você deve ser a neta de Susan. Me chamo Manu Lopez. Avô de Santana- ele a ofereceu a mão. Brittany ajeitou Charlie no colo para aceitar o gesto- Todo mundo diz que ela se parece muito comigo, mas creio que você se recorde de mim quando estive no enterro de seu pai.
—Ele cuidou de todos os gatos com o funeral do Roger, filha- Susan se fez presente na cozinha. Brittany sentiu o ar ficar rarefeito com tanta gente num cômodo daquele tamanho.
Sim, ela se lembrava dele agora. O generoso senhor que acompanhou o funeral de seu pai e ainda fez biscoitos para ela e seu irmão depois de toda cerimônia. Sua memória era vaga, pois estava bêbada o momento inteiro que passou aquilo. Fora ele que havia sentado do seu lado e ofereço café amargo para ela.
—Obrigada- ela soltou sem saber porque e ficou vermelha logo em seguida.
—Você está cada vez mais parecida com sua avó na sua idade.
—Ah, Manu!- repreendeu Susan- eu nunca fui tão linda assim.
—Você é uma chata, Susan, mas sempre foi muito cativante ao olhar- ele piscou, galante. Brittany teve certeza que a avó tinha ficado vermelha. Agora ela sabia bem para quem Santana havia puxado.
—Desculpe, mas acho que escutei dizerem que Santana sumiu- perguntou a loira, interrompendo o momento de flerte entre os dois idosos. Achou graça daquilo. Até Charlie parecia rir deles.
—Sim, Brittany. Mas é normal no dia de hoje. Você já deve estar ciente de que Santana perdeu o pai em um acidente, certo?- fez que sim com a cabeça- O dia de hoje é muito pesado para ela. Santana no geral é uma mulher muito forte e me orgulho nisso dela. Mas hoje ela só é aquela criança de 6 anos assustada, com saudade do pai. E como você vê, a casa está cheia de gente estranha e inconveniente que vem exatamente nessa data importuná-la com condolências sem sentido, mesmo após tanto tempo. Enfim, se me derem licença, vou expulsar todo mundo. Fique à vontade- dei-lhe um beijo carinhoso na bochecha- Bom te ver de novo. Espero que possamos ser bons amigos. Eu só tenho uma neta, então.
—Emanuel!!!- Susan correu atrás do senhor convicto, que já espantava algumas pessoas pelo caminho.
—O vovô é legal, não é?- charlie disse, com o nariz enrugado.
—Mais legal que minha avó, com certeza- o pequeno riu-se. Brittany o pôs de volta no balcão- Como você está?
—Eu? Não sei. Acho que eu só quero jogar videogame o dia inteiro. No dia como hoje mamãe não quer falar com ninguém e eu prefiro respeitar o espaço dela, sabe?
—Você é verdadeiramente um menino bacana, Char- ela cutucou a ponta do nariz fino de Char, com algumas sardas soltas, fazendo-o se comprimir em risadas- Pode ir jogar. Daqui a pouco vou lá, peço uma pizza e a gente joga junto, tá bom?
—Eu vou adorar- Charlie lhe deu um abraço apertado, ela o ajudou a descer e ele saiu correndo em disparada pela casa.
—CHARLIE, NADA DE CORRER PELAS ESCADAS, ME OUVIU?
—NÃO VOU!- o garoto gritou de volta.
—Agora, Santana Lopez, eu sei onde te encontrar- revirou os olhos para si mesma com aquele vestido de menininha, o único mais comportado que achou- Brittany, sua idiota. O que você acha que tá fazendo?
...
Não precisou procurar muito. Brittany sabia onde seria mais provável da latina estar se escondendo. Havia uma estufa com flores plantadas pela própria mãe de Santana. A latina havia lhe contado em um de seus infinitos monólogos sobre a casa. Havia uma pequena e delicada porta e estava somente encostada, com uma frestinha deixando passar o mais belo som que Brittany já havia escutado.
Ela empurrou levemente a porta, atravessou alguns estantes com pequenos vasos, algumas rosas de cheiro adocicado que ela nunca havia visto na vida até chegar ao centro de uma espécie de pátio que havia lá dentro. Um grande piano branco se encontrava bem no centro. Ele era talhado em madeira, com pinturas sinuosas de flores formando uma família de três pessoas.
Lá estava ela. A latina banhada pela luz do sol já enfraquecendo pela noite chegando. Seus cabelos estavam presos, a nuca morena à mostra, como um leque macio. Seu corpo esguio estava sob uma blusa sem mangas, os músculos dos braços sobressalentes, ocupavam-se a deslizar com as mãos sobre as teclas do piano, transmitindo toda beleza que vinha de dentro do ser do ser humano que era Santana Lopez.
A loira se aproximou com cuidado e fechou os olhos, aspirando o cheiro maravilhoso que vinha das flores, do perfume delicado de Santana, do cheiro de sua pele pós banho, aguçando os ouvidos, deixando toda aquela sensação de sentimentos fortes adentrarem por seu ser.
A ponta de seus dedos enfim tocaram a pele morena, enviando-lhe milhões de cargas elétricas por seu corpo. Santana pelo contrário não se espantou, ela já havia sentido a presença da garota desde o momento que atravessou a porta. Ela respirou fundo e seu mundo foi diminuindo ainda mais, onde só cabiam as duas. Brittany sentou-se ao lado de Santana na banco ao piano, aconchegou o queixo contra a dobra de seu pescoço e respirou profundamente.
—Me desculpe- disse ela. Simples e profundamente.
Santana nada disse, tateou por seu rosto macio, aparou-lhe pela nuca a aprofundou contra seus lábios da maneira mais tenra que pode. Brittany logo correspondeu e cravou fundo sua boca na dela. Em um beijo com tantas palavras abafadas, com toda coisa envolvida, o transformou na intensidade de uma bomba atômica. A loira não pensou em mais nada, atirou-se contra a cintura de Santana e se aconchegou em seu colo, sem sequer soltar de seus lábios macios , sentindo agora o gosto salgado das lágrimas que caiam em cascata do rosto moreno.
—Eu sei. Eu também me sinto assim e eu tenho me sentindo como uma idiota esse tempo todo. Eu não devia ter dito aquilo para você. Me desculpa.
—Você não tem que pedir desculpas pelo o que você é- disse enfim Santana, com a voz embargada- Eu te respeito tanto, e eu também te quero tanto.
—So estou tentando me entender, San. Essa raiva toda que eu sinto de todo mundo.
Santana a beijou profundamente.
—Estou aqui, querida. Aos pedaços, mas estou.
Nenhuma palavra precisava mais dita agora, pois Brittany se sentiu mais segura como nunca esteve. Ela tinha muito o que entende ainda, mas não havia lugar melhor para estar agora do que contra o coração de sua latina e mergulhada naqueles lábios tão acetinados.
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