A liberdade em um olhar
8 É hoje!
Notas iniciais
–É hoje!
Charlie acordou de supetão, levantando-se rapidamente para fazer sua higiene matinal. No banheiro, ele puxou um banquinho que o ajudava alcançar a pia, pegando sua escova de bichinhos de fazenda e começou a escovar seus pequenos e bem cuidados dentes. Enquanto escovava, o pequeno Lopez catarolava I wanna hold your hand dos Beatles, balançando a cabecinha animadamente no ritmo da canção. Terminado sua higiene, ele desceu com cuidado do banco, o empurrou de volta e pôs-se a correr alucinadamente pelos corredores da grande casa até chegar a porta de uma certa loira, que lá dentro, dormia como um gato preguiçoso. Char entrou com cautela, se aproximando da cama onde Brittany repousava. Ele parou um instante para rir do jeito estranho que a babá dormia, toda jogada, onde uma mão estava para fora da cama e a outra enroscada nas madeixas loiras. O cobertor da garota estava parcialmente no chão e o travesseiro cor de rosa se encontrava entre suas pernas. Parecia que houvera uma batalha ali e a loira saiu perdendo. O pequeno então subiu na cama e passou a pular eufórico.
–É hoje, Britt. Acorda! É hoje, é hoje, é hoje... É HOJE!
–Santa mãe de Deus... TERREMOTO!- a loira acordou atordoada, se revirando de um lado pra outro enquanto Charlie pulava forte na cama. Ela ficou tão agoniada que se enroscou no cobertor branco, se debatendo pra encontrar uma saída- NOSSA SENHORA DO PERPÉTUO SOCORRO, FUI ATINGIDADA! RECUAR! SOCORROOOO!
–Britt-Britt é doida!- Charlie ria horrores da situação de sua babá. Riu tanto que caiu de joelhos na cama. Deu batidinhas no pé da loira- Não tem terremoto, bobinha.
–O quê?- a loira conseguiu se soltar das cobertas.
–Sou eu... Char- ela estreitou o olhar para o pequeno loiro, que à essa altura já estava quase sem ar de tanto rir- Terremoto... Terremoto! Socorrooo- ele caçoava, se contorcendo na cama.
–Charlie, seu monstrinho do satã- Brittany acertou o pequeno com o cobertor.
–Satã não... Santana- retirou o cobertor da cabeça, já controlado- Você é uma figura, sabia?
–Ah... O que você quer, loiro azedo?- perguntou emburrada.
–É hoje, Britt... HOJE- ficou pulando de joelhos na cama, numa animação que não cabia em si.
–É hoje o quê, criatura?- a loira exibia uma careta de confusão. Nunca tinha visto Charlie tão animado.
–A exposião no Central Park, esqueceu?
–Ah, isso. Fala sério!- se jogou pra trás, batendo com as costas no colchão. Levou a mão ao rosto, inconformada. Com a semana puxada que teve na escola, Brittany já havia esquecido de tal coisa. Como sempre, ela odiou tudo. Achou os professores extremamente chatos, os alunos uns metidos e a escola um porre. Mas fazer o que? Era aguentar ou não conseguiria pagar o tratamento de sua mãe e muito menos sairia logo da casa de Santana. Agora teria que ir a uma exposição chata que ela sequer tinha vontade de ir, mas como era babá do pequeno loiro, que ainda pulava feito um histérico na cama, ela teria de ir- Temos mesmo que ir nessa porra, Charlie?- ele parou de pular e a encarou.
–Claro que sim. Vai ser um máximo. E se você falar palavrão de novo, vai crescer um segundo dedão no seu pé esquerdo.
–Quem te disse isso, seu monstrinho?- ela riu ao perguntar.
–Vovó Susan.
–Só podia ser- balançou a cabeça negativamente- Quer um conselho?- o pequeno assentiu- Não acredite em tudo que a dona Susan disser... Ela é a bela de uma mentirosa.
–Por que odeia tanto a vovó? Ela é tão legal!- ele tinha a testa comprimida de intriga.
–Ela finge bem, só isso. Você não entenderia certas coisas.
–Adultos- pulou da cama, parando de frente a Brittany- Vocês complicam tudo, sabia?- coçou a cabeça, confuso- Eu hein!
–Não queira crescer, monstrinho- Brittany perdeu o olhar na janela que exibia os revigorantes raios de Sol de um dia que se mostrava ser lindo em todo seu decorrer- Às vezes dói isso.
–Por que?- Charlie sentou na pontinha da cama ao lado de Brittany, encarando-a com curiosidade. Ela deu um profunda suspirada para responder.
–Porque fica mais difícil superar certas coisas. As perdas mais ainda- abraçou as pernas contra o peito e ficou em um silêncio doloroso, onde até o pequenino sentiu pesar.
–Odeio assuntos sérios- fez uma careta de zangado- Eles acabam com qualquer clima.
–Pois é- a loira concordou encarando o vazio.
–Não entendo muito dessas coisas, mas quando eu perdi meu primeiro dente, senti que nenhum dente que viesse logo depois ocuparia a sensação que o outro causava quando eu mastigava. Fiquei com medo de ficar um banguela amargurado- ele disse numa seriedade que fez Brittany sorrir- Mas daí, mamãe San me explicou que certas coisas que gostamos muito um dia se vão, e, dependendo da forma que as cultiva em seu peito, ela será eterna em você pelo simples fato de acreditar naquilo que tanto ama ou preza. Eu acredito que nada morre, apenas passa por uma transformação em maioria boa. Eu perdi meu dentinho da frente, mas no lugar veio um mais forte e até mesmo mais confortável. Então sei que o antigo ainda está lá, ajudando o novo a me manter saudável, assim como sei que seu papai está lá no céu, dando uma mãozinha para as pessoas que te ama, para mantê-la bem e amada- Brittany escutava tudo atenta, achando aquilo tudo uma coisa assombrosa. Por dois motivos: Aquela criaturinha só tinha quatro anos. E outra: Era a primeira vez que ela realmente escutava alguém dessa forma verdadeira. Era realmente assustador- Fica triste não, Britt. As coisas se resolvem.
–Quem sabe, não é?- Char concordou, enviando um sorriso encorajador a sua babá. Ela suspirou pesado, como se o mundo repousasse sobre seu peito.
–Eu sei o que a fará se sentir melhor.
–E o que é, mocinho?- ele sorriu grande, com uma pitada de malícia ali.
–Uma exposição no Central Park. Uhuuuuu- acertou Brittany com seu travesseiro, fazendo festa.
–Ora, seu monstrinho duma figa- ela preparou pra acertar Charlie com o travesseiro, porém este fugiu pela porta antes, deixando só uma parte da cabeça à mostra- Fala sério... Eu mereço!
–Aproveitando o sentimento de revolta, eu tenho uma confissão que pode não lhe agradar muito.
–Fala, seu diabinho- a loira ordenou impaciente.
–Bom... Ontem eu meio que não encontrei meus lápis de cor para terminar um desenho, então usei sua maquiagem.
–Você fez o quê?
–Minha nossa senhora!- Charlie temeu por sua vida, disparando na carreira assim que Brittany ameaçou se levantar.
–VOLTA AQUI, CHARLIE!
~°~
Charlie entrou correndo na cozinha, onde Santana tomava tranquilamente seu adorado café, imersa em profundos pensamentos.
–Hey, hey... Vai com calma aí, bear- ela interceptou o filho quando sentiu sua presença mais próximo- Lembra da conversa que tivemos sobre descer ou subir correndo pelas escadas?
–Eu posso tropeçar e fazer dodói, certo?- ele fez uma careta fofa, coçando a nuca ainda ofegante pela correria.
–Exatamente. Sabe como a mamãe vai ficar triste se você fizer dodói.
–Desculpa, mamãe. Tomarei mais cuidado da próxima vez, ta?- foi até sua mãe. Acariciou o joelho da mesma, isso era um sinal de que queria colo. Santana se abaixou para pegá-lo, o envolvendo em um abraço apertado.
–Tudo bem. Vou cobrar- depositou vários beijinhos brincalhões pelo rosto e pescoço do pequeno, que ria tentando se soltar pelas cócegas que isso causava.
–Mamãe, posso te fazer uma pergunta?
–Claro, filho- deu uma pausa na brincadeira- O que quer saber?
–Você e a mamãe Q não se gostam mais?- a pergunta pegou Santana de surpresa.
–Claro que a gente se gosta, meu filho. Sua mãe e eu somos grandes amigas, como sempre fomos.
–Mas então por que ela foi embora?- a latina respirou fundo. Elas já haviam conversado juntas sobre a separação com o pequeno, mas ambas já temiam que isso não houvesse ficado tão claro ainda para Charlie.
–Bom, Char, chega uma época em que sentimos que algo não está dando certo, então para não fazer dodói bem aqui- levou a mão até o peito esquerdo do pequeno- Se deve deixar que as coisas fluam sozinhas. Lembra do passarinho que mamãe e eu falamos, não é?
–Lembro sim, mas por um lado é triste. Ninguém merece ficar sozinho- Santana nada disse, apenas depositou um beijo casto na testa do filho. Resolveu mudar de assunto antes que o pequeno se entristecesse.
–Mas e aí, por que a euforia ainda agora?
–Duas coisas- ele respondeu com um sorriso amplo- Uma: Estou louco para ir ao nosso passeio no Central Park. E dois...
–CHARLIE!- Brittany gritou do andar de cima, em um tom assustador,
–... Bom, Brittany quer me matar. Se me dão licença, vou salvar meu lindo pescocinho- o garoto saltou do colo da mãe e correu em disparada pela porta dos fundos e sumiu de olhos arregalados. Santana riu da situação do filho, sorvendo mais um pouco do delicioso café de Susan.
–Esses dois!- foi a vez de Susan rir, balançando a cabeça negativamente. Talvez Charlie estivesse conquistando sua neta... Seja lá como fosse.
–E esse passeio, San?
–Está a todo gás, minha cara Susan. Só preciso acertar algumas coisas na empresa e estarei livre o restanto do fim de semana.
–Que bom então, menina. O pequeno Char está realmente muito animado com isso.
–Me sinto cada vez mais viva quando deixo feliz a pessoa que mais amo no mundo- disse apaixonada- Char é minha felicidade, minha paz... Pra fazê-lo feliz eu desistiria de tudo. De tudo mesmo.
–Você é uma mãe maravilhosa, filha. Se orgulhe muito disso.
–Sinto sim, muito orgulho. Mas por ser mãe de Charlie- ela suspirou orgulhosa, terminando seu café- Obrigada pelo delicioso café, dona S. Estava magnífico como sempre- Susan tocou no braço da morena, carinhosamente. Todo e qualquer toque para Santana tinha sua importância. Como não enxergava, era assim que sentia certas reações das pessoas- Certifique-se que Brittany e Charlie fiquem prontos até as duas, ok? Passo para pegá-los.
–Tudo bem, menina. Bom trabalho pra você.
–Muito obrigada, querida babá- apertou tenramente a mão da senhora em seu braço e saiu pela cozinha até alcançar a pasta que sempre deixava em uma mesinha perto da porta de saída. Logo seu dia no trabalho começaria.
~°~
Em sua sala, a latina estava a mesa analisando alguns papéis com novos e importantes casos que sua firma era famosa em resolvê-los rápidos e sigilosamente. Para que Santana se engajasse a um tinha que lhe ser realmente muito interessante e desafiador, caso contrário, o entregava para um de suas centenas de advogados pelo mundo para resolverem. Ela tinha a fama de ser alguém astuto e sábio na hora de resolver um caso. Passar a perna naquela latina era uma tarefa nada fácil, pois o que ela não tinha de visão, ganhou de esperteza. O telefone de sua sala tocou. Ela tateou até o aparelho, apertando um dos botões.
–Pode falar.
“-Senhorita Fabray está na linha, Santana".
–Pode passar, obrigada- sua secretária encaminhou a ligação. Santana pegou o fone e pôs no ouvido- Admita, Fabray... É uma tortura ficar sem ouvir minha linda voz, não é? Ou o loiro não faz como eu fazia? Ainda dá tempo de voltar, sabia? Ainda guardo minha aliança.
“-Ha ha ha... Engraçadinha! Estou morrendo de rir aqui, sua cachorra"- Santana riu com gracejo- “Oh desmiolada, liguei pra saber de meu filhinho... Como ele está?"
–Muito bem. O levei ontem para fazer sua primeira tatuagem enquanto tomávamos uns shots de vodka com limão. E claro, acompanhados de duas belas moças para cada um. Ah... Antes que reclame, sim... Eu lhe dei camisinhas. Os Lopez zelam por sua saúde- a loira deu um grito no telefone, o que fez a latina afastá-lo do ouvido.
“-Santana Lopez... Quando eu retornar aí, vou dar nessa sua cara lavada até virar asiática"- Santana abafou um risinho com as costas da mão- “Deixe de graça... Como está Char?"
–Bem, oras. Deixou seu filho com a mãe dele, não com uma bruxa devoradora de criancinhas.
“-Que bom. Teria pena de te castrar quando eu chegasse aí. Iria costurar seu bem mais precioso"
–Ui, isso não seria nada romântico!- a latina fez careta, imaginando tal coisa.
“-Não seria mesmo"- a loira riu do outro lado- “E você, como está? Me parece animada".
–Vou levar Charlie e Brittany para uma exposição no Central Park. Ele está em uma alegria contagiante.
“- Sei bem. Quando Charlie se invoca com uma coisa, acabou-se o mundo"- Santana concordou. Charlie era um menino muito intenso, carismático e carinhoso, porém não eram lá muitas coisas que o fazia se fissurar,e,quando encontrava uma que realmente valesse a pena, nada o importava mais- “Mas vem cá, a marginalzinha vai também?"
–Não fale assim dela, Quinn- pediu delicada- Brittany é lá meio cabeça dura e inconsequente, mas esse termo além de depreciativo, não é verdade.
“- A mim ninguém engana, Santana. Pode confiar quando eu digo que aquela garota ainda te dará muita dor de cabeça."
–Então você falará “eu te avisei". Já sei, mas relaxa. Minha mente não pára, Fabray.
“- Não mesmo. Fico até com medo do que sai daí"- a morena sorriu.
–Eu também- as duas riram intensamente, como duas crianças. Santana foi a primeira a voltar a ficar séria- Sabe, Lucy, ultimamente eu venho pensado muito.
“-Então isso é mau!"
–Por que?
“-Primeiramente porque acabou de me chamar de Lucy, então isso significa que está carente".
–Não estou nada.
“-Está sim e cala a boca"- Santana riu pelo nariz-“Te conheço muito bem, Santana Lopez. Vai, me conta... No que estava pensando?"
–Em nós- respondeu, deixando Quinn muda por alguns instantes- Em nosso casamento.
“-Acho que já não existe um “nós" nesse termo para a gente há um bom tempo, Tana. Você sabe“.
–Eu sei. Ou talvez acho que sei, não importa. Mas sou apenas eu, ou você também acha que foi algo um tanto, vamos dizer, sem sentido? Não sei, não fiz tanta questão na época por ter sido uma escolha de princípio sua, mas não lhe intriga isso?- a loira do outro lado respirou fundo para responder. Como se talvez aquilo tudo pesasse agora como uma bigorna em seu peito.
“-Nos casamos tão jovens, Tana. Fomos mães tão jovens, e isso meio que nos confundiu, não sei. Depois de um tempo pra mim não era mais a mesma coisa. Sei que pra você também era assim, então foi melhor desse jeito. Ninguém saiu machucado e isso é o que mais importa".
–Temo que isso de alguma forma afete nosso filho futuramente. Já não é fácil ser fruto de uma união homoafetiva, e agora também tem que enfrentar um divórcio tão cedo das mães. Fico com medo do que isso possa lhe causar. Ele mesmo veio me perguntar sobre isso hoje- disse preocupada- Estava pensando em talvez tentar novamente. Não sei, quem sabe aquilo tudo foi uma fase e dessa vez dê certo. Prometo tentar fazer dar certo.
“Eu sei, Tana, e te entendo. Isso me preocupa também, mas acho que forçar a barra pra algo que não está dando certo, só torna as coisas mais doentes"- a loira foi até a sacada de seu quarto, admirando o contraste das ruas de Londres-“Char ainda é muito novinho para entender algo assim. Mas relaxa, logo ele desencana. É um menino muito esperto".
–Você tem razão. Mas devo admitir que sinto falta de tudo. Sei que Char sente também. Demorei um pouco para me adaptar com sua ausência no lado direito de minha cama. De vez em quando eu ainda dava umas palmadinhas no seu antigo lado e dizia: "Hey, Fabray... Será que sua bunda se importaria de ir mais pra lá? Daqui a pouco eu caio"- Quinn gargalhou de uma maneira gostosa, que só Santana sabia fazê-la gargalhar.
“-Eu realmente amo seu senso de humor, latina".
–Eu sei, loira... Mas pelo o que me recordo, não foi lá muito com a minha cara e minhas piadas quando nos conhecemos há quase seis anos, se não me engano.
“-Por aí... Eu te achava muito chata, não sei por que".
–Puro recalque- Quinn soltou uma gargalhada estrondosamente sarcástica.
“-Meu Deus, mas se acha uma coisa dessas! Eu era a melhor daquela faculdade, sabe por que?"
–Porque eu já estava saindo?- a latina provocou, fazendo Quinn gargalhar de novo.
“-Não. Porque em meu primeiro ano, consegui solucionar um caso que estava há cinquenta anos dado como perdido"- disse cheia de si- "E quanto a você?"
–Não fui lá isso tudo.
“-Então?"
–Só fui nomeada presidente de uma empresa conceituada, abrindo cento e cinquenta filiais em 13 países. E ainda deu tempo de evitar que um homem inocente condenado a cadeira elétrica depois de 45 anos preso injustamente fosse executado, conseguindo tudo e um pouco mais que ele tinha direito pela injustiça e ainda tomei chá com a rainha da Inglaterra ao evitar que um de seus netos fosse preso por porte ilegal de drogas quando veio ao Estados Unidos, descobrindo assim que a droga fora implatada para incriminar o rapaz, que poderia ser o futuro rei da Grã-Bretanha. Tudo isso e muito mais antes dos vinte. Satisfeita?
“Depois dessa, eu me retiro. Beijo"- a latina riu imensamente de sua amiga.
–Sabe que eu te amo, não é?
“-Pior que sei. E pior mais ainda que eu te amo também. Urgh! Amar ex deveria ser crime. Principalmente quando ela não presta".
–Relaxa, Fabray... Você é minha ex favorita.
“-Vish, e foram tantas assim?"- perguntou com desdém.
–Ciúmes?
“-Ah ta bom... Tchau, Santana. Vê se arruma uma namorada pra curar essa carência".
–Está bem. Vou ali perguntar se a senhora sua mãe quer. A idade só deixou Judy cada vez mais bela.
“-Vá se ferrar, Lopez".
–Também te amo. Adiós, chica- a loira desligou em seguida, fazendo pairar um sorriso fino nos lábios da latina.
~°~
–Vó, viu o Charlie, aquele loiro oxigenado safado?- Susan riu.
–Ele passou correndo por aqui ainda agora. Disse pra eu não dizer que ele se esconderia no armário.
–Hey!- o pequeno saiu revoltado do armário- Em alguns países, traição é punida com a morte, vovó- a senhora fingiu estar com medo, pondo a mão no peito. Ele riu.
–Valeu, vovó. Agora é comigo- ela olhou feio para Char, fazendo garras com as mãos. Ele deu um passo pra trás por segurança- Ora, ora, ora... O que eu faço com esse monstrinho?
–Por favor, não se vingue no meu cabelo- ele pediu assombrado, colocando as mãos na cabeça- Eu adoro o meu cabelo igual da mamãe Q.
–Uhm... Não tocar no cabelinho de ouro de Charlie Fabray-Lopez... Isso me deu uma ideia- colocou a mão no queixo, pensativa- Quem sabe se eu raspar tudo, dê pra produzir um espantalho?
–Ahhhhhhhhh- ele saiu correndo gritando desesperado pela casa. Brittany riu.
–Pare de torturar a pobre criança, Brittany.
–Relaxa, senhora... O que é dele está guardado- ela sorriu perversa, disparando atrás de Charlie.
–Santo Deus... Esses dois deram certo- a senhora sorria, balançando a cabeça negativamente.
Brittany começara sua tarefa árdua para achar Charlie e assim se vingar por ele ter mexido em seu estojo de maquiagem. A casa era enorme, então facilmente ele se esconderia. Mas talvez não por muito tempo, por um detalhe que Brittany conhecia muito bem.
–Nossa... Aquele não é o carrinho do sorvete?
–Onde?- Charlie saiu de sua toca, atraído para a armadilha mortal de Brittany, que pulou em cima dele e o segurou o envolvendo com as pernas quando eles caíram no chão. Ela tomou bastante cuidado para que ele não se machucasse.
–Te peguei, seu monstrinho descolorido.
–Aiii... Isso foi golpe baixo. Sabe que eu amo sorvete- ele reclamava tentando se soltar- Me solte, por gentileza!
–Não antes da minha vingança.
–Deus!- Char a encarou assombrado, perante o olhar maléfico de Brittany.
~°~
–Tem certos dias que eu odeio ser bisbilhoteiro- Char se lamentava, entrando na cozinha com um semblante de desgosto. Quando Susar se virou para olhá-lo, tomou um belo de um susto- Vai lá, pode rir também- o pequeno tinha a cara toda maquiada, da forma mais bizarra que alguém pudesse fazer. Parecia mais um palhaço surrado e maltratado, que antes era uma perua cafona.
–Uma lição para você aprender a ficar longe de minhas coisas- Brittany caçoava, rindo até não aguentar mais do pequeno loiro, que não estava lá achando muita graça como as duas loiras. Se olhou pelo reflexo do armário.
–Fala sério... Eu estou parecendo a irmã feia da Lady Gaga depois de um atropelamento!- Brittany riu mais ainda.
–Ah, vai lavar esse rosto, moleque- ele correu em disparada para o banheiro- Ai, Deus, eu nunca tinha rido tanto na vida!
–Pelo visto, vocês dois se deram super bem- Susan comentou indo para pia, onde começaria a lavar algumas louças- Parece gostar muito do pequeno Char. Já são bons amigos, não é?
–Que nada. Charlie é um bicudo chato. Sou apenas sua babá, nada mais- a loira deu de ombros, como se não desse importância para isso.
–Ele te lembra Kennedy, não é?- Brittany parou, atingida pela lembrança do irmão caçula- Admita quando sente algo, minha filha. Guardar certas coisas podem lhe deixar doente. Se liberte dessas coisas pesadas em si.
–Falou, vovó. Vou tentar lembrar enquanto sou reprimida por quem por acaso me dá agora esse valoroso conselho- disse fortemente com sarcasmo, sorrindo à altura- Vou ali cuidar do banho do monstrinho. A mamãe alegria infinita deve estar chegando. Passar bem, dona Susan- deu as costas para avó e subiu correndo pelas escadas. Susan moveu a cabeça de um lado para o outro, sentindo doer o peito pela amargura tão profunda que a neta demonstrava.
~°~
Por conta de uma reunião inesperada, Santana chegou duas horas atrasada para o passeio. Se desculpou com o filho e Brittany, e os três seguiram para o Central Park. Susan não foi, pois tinha uma reunião no centro de apoio a pessoas viciadas em alcool e drogas onde era voluntária. Quando chegaram no lugar, estava tudo bem colorido. Vários artistas vindo de diversos países apresentavam suas obras variadas, alguns faziam demonstrações de engenhocas que levavam a alegria e animação de Charlie as alturas. Tudo ele queria ver, tocar, interagir e até mesmo perguntar como funcionava, pra quê servia, o que levou o artista a fazer aquilo, e entre outras coisas. Quem não conhecia, não diria que aquela pequena peça só tinha quatro anos. Em certo momento, Ryder colocou o pequenino no ombro para poder ver melhor por entre a multidão de pessoas enquanto Brittany e Santana iam mais atrás. Apesar da confusão de vozes pelo lugar, entre as duas imperava um silêncio reflexivo. Santana em seus sobre sua família, e Brittany pensando em como sair logo dessa vida.
Depois do passeio pelas exposições, resolveram fazer um piquenique na grama verdinha em um lugar mais afastado. Char mal comeu e disse que queria brincar. Puxou Ryder para uma brincadeira de pegar e ficaram nisso por um bom tempo. Ele adorava o motorista. Era a única figura masculina que convivia na casa da mãe, depois do bisavô que vivia em viagens. Santana e Brittany ficaram sentadas na toalha estirada na grama. A latina comia um sanduíche de frango calmamente enquanto a loira apenas observava o Sol se pondo mais ao longe.
–Lugar formidável, não acha?- Santana quebrou o silêncio, deixando seu sanduíche de lado. Brittany respirou fundo.
–O pôr do Sol daqui é lindo- admitiu admirada.
–A natureza é intensa.
–É sim- passou a mão pelos cabelos loiros.
–Você sente?
–O que?- se virou para sua patroa.
–O pôr do Sol... O dia nos abandonando e dando lugar a noite.
–E dá pra sentir isso?- Santana riu pela intriga da loira.
–Tudo pode ser sentido, minha cara Brittany. Só as pessoas que se esqueceram de como. Não é preciso não enxergar para dar valor a isso.
–Mas com os olhos tudo é mais fácil- deu de ombros.
–Sem eles também. Vou lhe mostrar- deslizou um pouco para mais perto de Brittany, fazendo-a encará-la sem entender- Feche os olhos, por favor.
–Por que?
–Só feche, por favor. Confie em mim, vai gostar- a loira os fechou meio hesitante- Finja que está sozinha. Sem ninguém ou nada por perto. Os barulhos são extintos, o vento não consegue tocar sua pele... Você está no centro do universo... Sem nada.
–Isso é fácil. Faço isso toda vez que minha avó começa a falar... Às vezes até com você também.
–Se concentre, mocinha- Santana pediu, rindo do comentário.
–Ok... Estou sozinha.
–Agora respire fundo e deixe minha voz ir sumindo aos poucos- a loira acatou, respirando fundo e depois devagar. De repente tudo ficou mais calmo, uma tranquilidade nunca alcançada por ela. Era como se o peso que sentisse do mundo desaparecesse naquele instante, só sobrando ela e nenhuma preocupação mais.
–Uau... Isso é muito bom mesmo- Santana sorriu de canto, pegando a mão da loira para que ela a repousasse em seu próprio peito.
–É sim, mas pode ficar bem melhor. Agora abra os olhos e desperte seus sentidos- Brittany não entendeu, mas no momento que fez o que Santana pediu, parecia que tudo que era lindo conversava com ela agora. As luzes do Sol sumindo ficaram mais intensas... Os pássaros cantavam com mais vigor, mais alegria.. A grama parecia mais verde... A brisa levemente gelada tocando seu rosto lhe causava um prazer indescritivel. Até a risada de Charlie ficou mais gostosa. Seus olhos se deram com a feição tranquila da morena mais perto de si. A loira chegou nesse momento a admitir que Santana era realmente muito linda... De perto muito mais, principalmente porque lhe enviava um sorriso encantador agora. Sentiu o coração sob a mão pulsar mais forte encarando a mulher a sua frente e ela não soube por que, mas queria muito olhá-la nos olhos agora.
–Por que... — pausou respirando fundo para perguntar. Se sentia meio entorpecida com a proximidade- Por que você não tira esses óculos?- Santana pareceu afetada pela pergunta.
–Me sinto melhor com eles- Brittany não soube de onde tirou a coragem, mas levou as mãos ao objeto, fazendo menção de tirá-los, porém Santana parou seus movimentos.-Não- disse séria.
–Por que?
–As pessoas se incomodam, não quero que sinta repulsa de mim.
–Por querer ver seus olhos?- Brittany se intrigou.
–Eles não têm foco... Estão mortos. Não são lá algo a se agradar.
–Isso eu decido, ok?- Santana permaneceu hesitante por alguns instantes, mas deu consentimento para loira tirar seus óculos. Assim que o fez, a loira ficou um tempo em silêncio, apenas observando tudo, cada partizinha daqueles olhos há tanto tempo sem luz.
–Você está a minha frente, mas nunca vão achá-la- disse contendo o medo da loira de se enojar dela. A outra porém sorriu levemente, acariciando com serenidade as pálpebras dos olhos que Santana escondia a todo momento.
–São lindos.
–Você acha?- indagou em quase um sussurro, pois o toque da pele de Brittany contra a sua lhe causava um efeito anestésico- Por que?
–Possuem mais luz do que muitos que já vi- a loira puxou as mãos de volta, porém Santana as parou. As duas ficaram se encarando, porém apenas Brittany pode ver a intensidade do olhar apagado que a morena lhe enviava. Era como se agora ela pudesse enxergar sua alma. Uma conexão desconhecida por ambas parecia ter sido criada naquele instante... E os dois corações, esses estranhamente começaram a soar em batidas sincronizadas.
–Mamãe!- Charlie apareceu, cortando o transe das duas. Santana alcançou os óculos nas mãos da loira e os colocou de volta no rosto para vira-se ao filho.
–Que foi, bear?- perguntou carinhosamente e o pequeno sentou em seu colo.
–Quero ir pra casa agora. Estou com sono. Podemos ir?
–Claro. Ryder!
–Sim, Santana- o motorista correu até ela, suado pela brincadeira com Charlie.
–Prepare o carro para nossa partida, por favor.
–Ok. Já estou indo- Ryder foi buscar o carro e logo retornavam para casa. Brittany estava sentada nos bancos opostos ao de Santana, que tinha Charlie dormindo com a cabeça em suas pernas enquanto ela acariciáva-lhe os cabelos loiros. A adolescente tinha o semblante pensativo, e não estava tão diferente de Santana, porém era amarga a sensação que Brittany tentava reprimir ao lembrar de tal conexão com a morena no parque. Aquilo em nada a agradou... Sentiu vontades que não deveria sentir. Numa bufada, murmurou:
–Nem fodendo isso pode acontecer, Brittany.
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