A lenda do descendente
1 Capítulo 1
Notas iniciais
A noite em que houve a troca de mundos foi uma noite como outra qualquer no País dos Nexos. Seria muito mais poético se fosse uma noite tempestuosa ou pálida, mas quando a mulher de preto e olhos muito azuis passou pela rua dos pais das crianças era só mais uma noite que os gaviões monitoravam.
Todos sabiam quem era essa mulher, mas nem sequer cogitavam a missão sombria que tomara para si. Os gaviões de vigia apenas viram sua sombra e o pequeno ruído de um bebê embrulhado em seus braços atravessarem uma porta qualquer em uma das casas e sumir.
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Querida tia, só estou escrevendo aqui porque hoje seria o meu primeiro dia de aula em anos e acho que estou muito contente por isso, mamãe até me levou para comprar roupas novas em uma loja que abrirá perto de casa, eu até posso sentir sua preocupação toda vez que o sapato ou a roupa não serve mais, ela sempre fica preocupada e às vezes sussurra algo com papai no telefone o que eu quase sempre não entendo, outrora ouvi conversando com ele “Está chegando a hora, John” foi o que conseguir escutar, será que ela se referia em me matricular em uma nova escola de verdade? Bom, espero que sim e acima de tudo que você me entenda.
Jason
O despertador toca. Posso ouvir mamãe gritar da cozinha chamando minha irmã, ela nunca me chama, pois sabe que eu sempre estou acordado antes mesmo de amanhecer o dia. Minha irmã Lexia era a que mais demorava em tudo então papai há acordava cinco minutos antes de mamãe começar a gritar.
-Eu já estou indo! — grita Lexia do porão.
-O que você está fazendo aí em baixo? — pergunta mamãe em tom desconfiado.
-Lembra-se daquela foto horrível que você me fez tirar para a identidade? A escola precisará de uma para a matrícula não é mesmo? — responde minha irmã muito animada por não ter que tirar novas fotos, nem queira saber o que ela aprontou ano passado quando mamãe a levou a uma lojinha que tirara fotos três por quatro.
-Mas o que aconteceu com as fotos que tiramos semanada passada?
-Ah, aquelas estavam horríveis então me livrei delas.
-Como assim se livrou delas?
-Achei!- grita minha irmã subindo as escadas e saindo do porão que fica perto da cozinha. -Eu realmente era esquisita nessa época! — diz minha irmã com um tom de desaprovação. Nesse momento saio do meu quarto e vou até a cozinha.
-Bom dia filho! — diz minha mãe alegre. –Eu estava falando com sua irmã a respeito de...
-De que ela rasgou as fotos da matrícula? É, eu sei.
Mamãe lança um olhar de surpresa para mim e esconde um leve sorriso, por um momento vi que ela está feliz então não digo mais nada, ela se volta à mesa onde sentei e diz:
-Tudo bem querido? Nesse momento seus olhos foram de encontro aos meus e pude perceber que ela já sabia o que eu estava pensando.
-É só que...
Não terminei de falar, comecei a pensar em todas as vezes que eu e minha irmã nos matriculávamos em uma nova escola e sempre acontecia algo de errado, ou era um valentão querendo sempre puxar briga ou era algum animal que ao se aproximar de nós morria, mamãe sempre ia ao colégio, o telefone de casa tocara quase todos os dias, mas ela parecia não se importar, ela sempre dizia que iria ficar tudo bem, então eu logo não me importava até que em um dia todos os alunos da nossa classe ficaram doentes. Mamãe nos tirou do colégio, e logo planejou viagens na qual sempre dizia conhecer um lugar lindo que ficara perto de alguma cidade de Nova Iorque.
-Jason? Você está ai?
Pisco os olhos várias vezes e só o que consigo ver são cabelos loiros e olhos verdes, a minha frente vejo minha irmã Lexia me encarando, dessa vez ela estava mais bonita, seus cabelos longos caiam sobre seus ombros, seus olhos verdes estavam com um brilho intenso e o seu sorriso parecia alegrar meu dia, por um momento pensei que não estivesse ali, se não fosse pelo barulho de passos eu não teria despertado tão cedo. Nesse momento vejo um homem de pé do outro lado da cozinha e quase não acreditei em quem estava vendo, coloquei o pão de volta a mesa e corri em sua direção.
-Pai! — eu digo enquanto o abraço- Eu estava com tanta saudade.
Tinha me esquecido como era ter papai em casa e isso me fez lembrar-se de quando ele me levara para conhecer o quartel general, papai era do exército e estava em missão enquanto estávamos viajando.
-Como é bom te ver meu filho! Papai era alto então tinha que se abaixar um pouco para me abraçar, então começou a contar os dias em que tivera sozinho nos treinamentos pensando em como eu e Lexia estávamos, mas ele não pôde terminar porque logo minha irmã estava nos braços dele.
-Minha garotinha! — falava papai, geralmente Lexia não gostava de ser chamada assim ela já estava com 14 anos, mas mesmo assim pareceu não se importar.
— Você não sabe o quanto foi terrível ter de acordar todos os dias com mamãe gritando! – respondeu ela.
-Devo imaginar responde papai sorrindo por ver que minha mãe já se encontrava ao lado dele.
-Dália meu amor, desculpe ter demorado tanto eu...
Nesse momento mamãe se lançou nos braços dele o abraçando e beijando-o, esse foi o ano em que papai passou mais tempo fora de casa, um mês para ser exato, mamãe sempre ligara para ele, mas devido às missões ele quase nunca atendia, e quando conseguimos falar com ele foi para dizer que estávamos com problemas, mas claro que foi mamãe que conversou com ele, eles nunca tocavam nesse assunto comigo ou com Lexia, então com o dinheiro que economizaram meus pais compraram essa casa que fica em Nova Orleans no estado de Luisiana na região sul dos Estados Unidos. Logo ajudei papai a colocar suas malas para dentro, quase pude me esquecer de sua picape vermelha, ela está mais bela do que nunca, perguntei a meu pai se eu podia estaciona-la e então ele me perguntou:
-Seu aniversário é daqui a um mês, não é?
-Sim. — respondo — Inclusive será uma data especial, farei 16 anos!
-Então quando você assoprar as velas, conversamos sobre isso!
-Mas pai, eu posso não estar aqui, nunca se sabe quando...
A expressão de papai tornou-se séria, então ele ficou confuso, seus olhos oscilaram para cima e para baixo piscando, como se escondesse alguma coisa e por fim me perguntou o que eu quis dizer com aquilo, por um segundo eu não soubera por que tinha dito isso, eu simplesmente disse, enquanto eu pegara a mala pude ver Dália descendo os degraus e caminhando em minha direção, não pude me sentir mais aliviado, eu realmente não sabia por que tinha dito aquilo.
-Mamãe está chamando. — disse Lexia sorrindo. — O café está pronto e dessa vez não há ninguém para chegar.
Eu já havia esquecido, eram 8 horas da manhã e eu ainda não tinha comido nada desde cedo, então lancei um olhar de agradecimento para Lexia, peguei as malas que já estavam no chão e entramos todos para dentro.
Apressei-me o mais rápido que pude, não queria chegar atrasado logo no primeiro dia de aula, minha irmã então se trancará no banheiro, mamãe logo começará a gritar mais uma vez, então pude ver o dia voltando ao normal outra vez. Papai estará dormindo, talvez cansado de um longo dia, mamãe então estaria pronta para nos levar a escola como sempre, eu e Lexia trocamos olhares como se pudéssemos dizer “Lá vamos nós outra vez” então organizamos nossos materiais, pegamos nossas mochilas e entramos no carro. Lexia gritava chamando mamãe que estava fechando a porta e logo já vinha resmungando, o dia está nublado, possivelmente irá chover o dia inteiro, na verdade eu não me importo, afinal eu amo a chuva.
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