A lenda do bosque sombrio
1 A lenda do bosque sombrio
Havia uma lenda que percorria as salas de aula e os corredores do Colégio Marista. Os alunos a sussurravam durante os intervalos, alertando aos novatos a jamais adentrarem o Bosque Sombrio, que se estendia além das quadras esportivas. Ali, em meio aos eucaliptos, diziam, adormecia um grande mal, apenas esperando que crianças curiosas invadissem o solo sagrado para que o chão se abrisse debaixo de seus pés e raízes os devorassem lentamente.
Já acontecera antes, dizia a lenda. Um garoto, há mais de sessenta anos, atraído pelos encantos da natureza, fora pego pelos cruéis espíritos das árvores e jamais retornara.
Claro que tudo não passava de boatos mas professores e coordenadores ajudavam a espalhá-los, evitando assim que alunas engravidassem no único lugar onde era possível se esconder até mesmo dos olhares mais vigilantes.
***
Na hora do recreio, Maurício acompanhou seus amigos. Era um costume, quase um ritual diário, os quatro garotos da quinta série se sentarem no pátio do prédio do colegial para observar e admirar as garotas mais velhas.
Abandonaram as dependências do ginásio, passando apressados por alunos que os convidavam para alguma brincadeira. Outro dia, respondiam. O outro dia jamais chegava, o recreio era sagrado. Principalmente para Maurício, que tivera aquela ideia, meses atrás.
Entre um prédio e outro, havia um grande pátio. Atrás, quadras esportivas se enfileiravam e, por fim, ao longe, avistava-se as copas dos eucaliptos do Bosque Sombrio. Maurício nunca dera muita atenção às lendas. Preferia mostrar as revistas adultas de seu pai para os colegas e levá-los ao prédio adiante, onde as garotas eram mais interessantes e curvilíneas do que as suas colegas de sala.
Mas ao atravessar o pátio sentiu um forte calafrio. Não daqueles incômodos e repulsivos, mas um agradável, semelhante ao que sentia quando sua mãe brincava de lhe passar os dedos pela coluna. Então, olhou para o bosque. Por algum motivo, achou que o vento que balançava os eucaliptos o chamava. Bobagem, pensou, e correu para alcançar os amigos.
Entraram no prédio do colegial e se sentaram na mureta que circundava o pátio interno. No centro do pátio, havia bancos de pedra e os sanitários, de modo que era o lugar mais movimentado durante os intervalos. Se dedicaram então à tarefa de avaliar as garotas, dar-lhes notas de zero a cem e dizer com qual sairiam, se pudessem.
Maurício desempenhava muito bem seu papel de líder, fazendo comentários, mas sua mente estava longe dali. Pensava em bosques, árvores, ventos e arrepios na espinha. Na volta para a sala de aula, decidiu passar correndo pelas quadras, sem olhar para a copa das árvores, para evitar aquela experiencia.
Mas a sensação permaneceu durante a aula de matemática. Não podia se concentrar e, ao invés de números, seu caderno era rabiscado por linhas aleatórias. Eram formas circulares como o trajeto de voo de uma folha levada ao vento. Depois achou que se pareciam asas.
Então, era aula de educação física. Como de costume, os garotos correram para a quadra de futsal e já começavam a escolher os times. O treinador os instruía a fazer os aquecimentos costumeiros e, quando estavam todos prontos, apitou o início da partida.
Maurício era conhecido por ser um artilheiro. Veloz e hábil, passava facilmente pelos adversários e chutava com precisão e não perdia oportunidades. Mas naquele dia, estava distante, distraído e, quase o tempo todo, olhava para o Bosque Sombrio. Repreendido pelo treinador e por seu time, procurou se concentrar no jogo. Recebeu um passe preciso que o levou de frente para o gol. Era fácil, não precisava ser habilidoso como ele para balançar a rede. Mas no preciso momento do chute, algo passou em frente seu rosto.
Primeiro, sentiu uma leve brisa. Lembrou-se da primavera e do orvalho da manhã. Depois, imaginou formas curvas se formando no ar, embora não houvesse nada visível ali. Era como se o tempo parasse, ele ainda tinha o pé direito prestes a chutar a bola. Viu cores brilhantes e algo se agitando com muita rapidez. Pensou em um beija-flor. Então, sentiu cócegas no nariz. Uma espécie de purpurina verde se espalhava no ar, ao seu redor.
Naquele momento, Maurício teve a sensação mais prazerosa e suave que jamais teve em toda a sua vida. Cada poro de sua pele foi invadido por aquele pó brilhante e pelo frescor, deixando-o extasiado, completando-o. Esqueceu-se do colégio, do futebol, das garotas do colegial. Lágrimas escorreram do seu rosto e a felicidade plena preencheu seu espírito. Não precisaria de mais nada enquanto aquilo durasse.
Chutou a bola. O goleiro nem teve tempo de esboçar reação. Um belo gol. Maurício comemorava com os colegas, e sentia-se leve. Ninguém notara o lapso temporal que o envolveu, nem sabiam porque ele coçava tanto o nariz, espirrando.
Maurício olhou para o bosque. Seja lá o que acontecera, vinha dali, pois de eucalipto era o aroma que sentira naquele eterno segundo. Iria até o Bosque Sombrio.
***
A aula havia terminado e Maurício, ao invés de ir para o fliperama com os amigos, escapou da vista de todos, correndo para a aventura. Ao contrário das histórias que contavam a respeito do lugar, não havia nada a temer. Era relaxante andar entre as árvores. Olhava para os eucaliptos que o cercavam, admirado com a altura que eles alcançavam. Eram árvores anciãs que, de certa forma, entorpeciam o garoto, perdido no aroma suave.
Foi quando “viu” novamente aquelas formas circulares. Mas não havia nada ali. Andou na direção em que elas pareciam voar. Em pouco tempo, se sentiu como se flutuasse, levado por uma lufada de ar. A brisa suave invadiu-lhe as narinas, inundando seus pulmões com uma espécie de ar que parecia vivo. Aspirou profundamente enquanto se entregava por completo àquela manifestação etérea.
Parou em frente a um eucalipto muito antigo. Uma brisa mais forte bagunçou seus cabelos e folhas caíram da majestosa árvore, agitando-se à altura do rosto do menino, e por um momento ele imaginou que elas tinham vida própria. As folhas então voaram, parecendo indicar um caminho. Foram para trás da árvore e entraram em um buraco estreito, com pouco mais de dois metros de profundidade. Maurício não pensou duas vezes e saltou para dentro, deixando a mochila azul do lado de fora.
Ao tocar o fundo do buraco com os pés, o garoto foi novamente invadido por aquela sensação maravilhosa invadindo seu ser. O tempo parecia paralisado quando o forte aroma de eucalipto invadiu-lhe as narinas e o frescor parecia purificar-lhe corpo e alma.
Dessa vez, pôde ver uma forma pequenina que agitava o ar, voando ao redor de sua cabeça. Era translúcida, mas começava a se tornar visível aos poucos. Então Maurício viu um par de asas pequeninas e verdes, se agitando tão rápidas quanto as de um beija-flor. Mas não era nenhuma espécie de ave. A criaturinha foi ganhando forma até que se pôde distinguir um pequeno rosto feminino. Tinha traços delicados, nariz fino, lábios avermelhados. O cabelo cor de amêndoa era preso no topo da cabeça, com uma tiara feita de minúsculas pétalas de flores azuis e brancas, algumas mechas cacheadas caíam-lhe sobre a testa e ao lado do rosto.
Já não havia margem para dúvidas. Contemplava uma fada, em toda sua beleza e encanto. Ela fazia movimentos graciosos enquanto tornava-se completamente visível, revelando um corpinho de cerca de vinte e cinco centímetros. Usava um vestidinho tricotado com fibras de folhas de eucalipto e segurava uma varinha de condão.
A fadinha agitou a varinha e, novamente, Maurício foi coberto de um pó verde que lhe fez cócegas no nariz. Sua pele absorvia aquela estranha substancia e foi invadido por um frescor paralisante. Suas pernas tremeram e se sentou, espremido naquela toca úmida e cheia de raízes grosseiras, mas ele não se incomodou.
***
Depois de muito tempo, que a Maurício pareceu segundos, conseguiu se comunicar com a fada, que em momento algum o deixara sozinho. Ela voava ao seu redor, toda serelepe, lhe contando por telepatia tudo sobre sua vida. Era solitária, mas agora estava mais feliz que nunca, pois tinha um novo companheiro.
Maurício a ouvia, assim descobriu que a pequenina era um espírito nascido dos eucaliptos daquele lugar. Prestou atenção à triste narrativa sobre o dia em que todas as de sua espécie foram mortas quando eucaliptos foram derrubados na ocasião da construção do Colégio Marista. Mas agora ficaria tudo bem, pois ficariam juntos para sempre.
***
O menino certa vez, sentiu que as raízes das árvores se enroscavam em seus pés, pernas e braços, e os finíssimos filamentos pareciam penetrar-lhe a pele. A fadinha dormia graciosamente sobre seu peito. Lembrou-se das lendas sobre árvores se alimentando de pessoas no Bosque Sombrio. Mas como vira várias vezes o sol nascer dentro daquela cova e jamais sentira fome ou fraqueza, concluiu que, ao contrário do que diziam as histórias, as raízes dos eucaliptos o alimentavam por ele ser o eterno companheiro da última fada, o espírito do bosque.
Maurício de nada mais precisava.
***
Um tumulto se formava no Colégio Marista. Um casal, que zombava das historias sobre o Bosque Sombrio, resolveu namorar com mais paixão nas sombras dos eucaliptos e voltaram apavorados. Correram para contar à diretoria mas os alunos, que ouviram o relato, chegaram mais rápido ao local, guiados pelo casal. Alunos, professores e a própria diretora se embrenhavam na mata a fim de constatar que a pavorosa história era verdadeira.
No chão, ao lado do eucalipto ancião, jazia restos de uma mochila azul. Se curvaram diante de um orifício estreito, quase completamente coberto por folhas em decomposição. Em meio à folhagem úmida, dentro do buraco, distinguiram a cabeça de um homem idoso, magérrimo, pele e osso. Julgavam estar morto, mas havia brilho em seus olhos perdidos, alheios ao movimento.
O velho sorriu, assustando a todos. Maurício, o garoto que desaparecera no Bosque Sombrio, sessenta anos atrás, ergueu sua mão decrépita, enrolada em um emaranhado de raízes, apalpando o vazio.
E ele estava feliz.
Fale com o autor