A lenda do Herói

1 Um sorriso apaixonante


Há muito tempo atrás, era contada a historia de um poderoso príncipe, que enfrentava muitos perigos e conquistava belas moças. Mas... Essa não é nossa historia, nossa historia é sobre um camponês simples que só saia do campo para vender aquilo que tinha produzido. Sequer era forte ou resistente, um simples resfriado já o derrubava.

–--------------------- E AQUI COMEÇA NOSSA HISTORIA ----------------------

Nossa historia é sobre um solitário camponês da Idade Média chamado Solan Aarm, que dedicava a vida ao trabalho, seus pais foram assassinados quando ele ainda era muito novo e foi morar com o tio, com quem aprendeu a ler e escrever, pois o tio já havia sido um nobre que por algum motivo havia se tornado um camponês, até que ele faleceu por causa de uma doença quando o nosso “herói” tinha 14 anos e desde então ele tem cuidado da fazenda do tio com muito trabalho e dedicação.

Com a pele bronzeada, alto, magro, mas forte e com músculos definidos, com cabelo escuro encaracolado e mal cortado que lhe caiam sobre os olhos e algumas cicatrizes nos braços, mal parecia um camponês, exceto pela parte que ele só tinha músculos, cicatrizes atraentes e um bronze impecável por causa do trabalho no campo. Sempre repetia a mesma rotina diária durante os quatro anos seguintes após a morte do tio. Até que um dia durante uma pesca para o jantar ele se deparou com algo impressionante, algo que mudaria sua vida para sempre...

Estava pescando num riacho que faz a divisa da plantação com a floresta, pois não estava muito com vontade de ir para as montanhas caçar, sem muita sorte na pesca já estava ali a mais ou menos duas horas e não tinha conseguido nada. Até que ao olhar para o lado, vejo na margem do riacho algo que não estava lá antes, uma jovem desacordada usando um vestido negro deitada nas pedras, completamente molhada. Ela estava respirando, então eu sabia que ainda estava viva.

A peguei nos braços e sai atravessando a plantação de trigo e adentrei na casa, a deitando no sofá encostado na parede, a enrolei num pano para a enxugar e a aquecer. Fui para cozinha atravessando a sala e passando por um corredor que atravessa a casa, preparei uma mistura de ervas que aprendi com meu tio, esperei o fogão a lenha aquecer e fervi um pouco a mistura, assim que terminei voltei para a sala e a fiz inalar o cheiro. Funcionou! Ela acordou quase instantaneamente. Completamente apavorada, parecia confusa, não sei direito. A única coisa que sei: Ela não parecia estar bem. Mas havia algo estranho que nisso, por fim decidi ignorar, provavelmente era minha imaginação.

– O-onde... Onde estou? – ela gaguejava enquanto falava – Q-quem é você?

– Calma senhorita, está na minha casa em um campo de plantação de trigo – respondi – Como se chama?

– Eu... Eu me chamo... – desviando os olhos de mim ela começou a encarar a parede como se não estivesse mais ali, então repentinamente ela retorna a me encarar, agora com o rosto serio – E-eu não lembro... Eu não lembro meu nome – ela disse entrando em desespero.

Eu a encarei serio, passamos alguns minutos em silencio com um clima pesado no ar. O único som que se ouvia era o produzido pelas brisas que entravam pela janela da sala e saiam pela porta dos fundos na cozinha. Ela começa a se acalmar trocando o desespero por algumas lagrimas.

– Eu... Eu não lembro! Não... Não me lembro de nada... – uma lagrima descia do seu olho.

Ela realmente estava muito confusa, por um breve momento logo que acordou achei que ela estava fingindo. Mas vi em seus lindos olhos sinceridade, medo, confusão, tristeza. Nenhum homem poderia fingir aquele olhar...

– Ei, está tudo bem, você ficará bem – falei sem muita confiança de estar certo – Eu me chamo Solan Aarm, vou preparar um chá para você e conversaremos. Trarei algumas mudas de roupa e poderá se trocar em algum aposento com privacidade.

Ela não respondeu nada então ficamos naquele silencio mórbido de novo, exceto pelo barulho da brisa, suas lagrimas já começavam a parar de descer então me virei dando alguns passos e parei pensando no que fazer primeiro, decidi pegar a roupa para que ela pudesse se trocar senão ficaria doente usando aquele vestido molhado . Atravessei metade da sala quando a ouvi soltar um baixo e gentil agradecimento – Obrigado, por tudo – isso por algum motivo me fez sorrir.

Chegando ao corredor ignorei a primeira porta e fui direto ao meu quarto, entrando lá comecei a procurar nas minhas roupas algo que ela pudesse usar, peguei a menor camisa e calça que achei, era tudo o que eu tinha e mesmo assim ainda ficariam enormes nela. Voltei pra sala e ela continuava da mesma forma...

– Desculpe, não tenho peças femininas, pois moro sozinho – eu falei um pouco envergonhado, pois o vestido que ela usava... Provavelmente era alguma filha de nobre e tudo que eu tinha eram roupas velhas de um camponês – venha, lhe mostrarei onde pode se trocar.

Levei-a ao quarto do meu tio, então abri a porta que a pouco tinha ignorado... Na verdade passei anos ignorando essa porta, está trancada desde o dia que ele parou de usar, pouco antes de morrer na sala, por causa daquela doença... Aquela maldita doença... Entreguei a chave para que se sentisse mais segura e voltei ao corredor seguindo até o final, a cozinha, com o fogão ainda aquecido eu comecei a preparei um chá para acalma-la. Quando estava perto de terminar, percebo uma silhueta na porta de acesso ao corredor, estava lá parada, nem havia a notado. Estava linda! Sua pele pálida como o brilho da lua, seus cabelos balançando levemente na brisa que entrava pela janela, negros como a noite, e seus olhos pareciam estrelas que mudavam de cor constantemente, duas ou três cores ao mesmo tempo e no segundo seguinte mudava. E mesmo com roupas de homem que ficava enorme nela, ela continuava tão bela.

Termino o chá e o sirvo ainda morno oferecendo uma cadeira na qual ela se sentou, ela já parecia muito melhor, mais calma. Talvez já conseguisse lembrar algo, talvez o nome, ou de alguém ou até mesmo onde mora.

– Então se sente melhor? – o tom de preocupação era visível em minha voz.

– Me sinto melhor – ela respondeu – mas minha cabeça ainda dói muito!

– Ficará bem, o chá ajudará.

– Muito obrigada, está bem? Como eu poderia recompensa-lo? Gostaria de ajudar de alguma forma... – mesmo ela olhando para baixo era visível que estava ficando corada enquanto me oferecia a tal recompensa.

– Me dizer seu nome já seria ótimo – eu disse a encarando, estava seria – já se lembrou de algo?

Ela olhou ao redor, esfregando os olhos com a mão, seu belo rosto continuava com aquela expressão triste – Ainda não. Onde exatamente estamos? “Campo de plantação” não é uma localização muito definida.

– Estamos em um campo afastado de tudo, a cidade mais próxima fica a um dia e meio de viagem... – respondi não completando a frase.

Ela pareceu um pouco decepcionada com a resposta. Passamos alguns minutos em silencio enquanto ela voltava a tomar o chá. Aproximei-me dela parando na sua frente.

– Talvez... Possa ficar aqui até se lembrar, não tenho muito, mas... Posso dividir. E em troca você me ajuda com o que puder nos deveres do campo e da casa...

– Muito obrigada, eu aceito! – ela respondeu me interrompendo

– Não há de que – me sentei ao lado dela, respirei fundo e continuei – Temos trabalho a se fazer. O único quarto além do meu, é aquele onde si trocou e...

– Não tem problema, acomodo-me naquele, tudo bem. O que temos que fazer?

– Limpar o quarto ele não é aberto há quatro anos... – dei uma pausa, respirei fundo e continuei – Está cheio de poeira.

– Vou começar agora e... – ela se levantou e logo em seguida hesitou – Que nome eu aparento ter?

– Hum... – pensei um pouco e logo me veio um nome a cabeça — Ravenna, você tem cara de Ravenna.

– Então me chame assim de agora em diante! – ela deu um belo sorriso – Pelo menos enquanto eu não me lembrar de nada...

– Claro – dei um leve sorriso como resposta ao sorriso dela e fiz um leve movimento com cabeça indicando o quarto – vamos? Temos trabalho a ser feito!

– Vamos!

Então ela se virou entrando no corredor indo em direção ao quarto, fiquei a observando ainda sentado quando acordei do pequeno transe... Da pequena nostalgia do meu tio... Levantei-me saindo pela porta dos fundos para pegar o que iríamos precisar para a limpeza, depois de pegar tudo passei pela cozinha e corredor chegando ao quarto. Quando cheguei, ela estava parada na frente da janela observando a vista distraída... Apesar de ser só um campo de trigo, era lindo, parei na porta e observei-a um pouco, então bati de leve na porta, para não assusta-la. Ela estava tão distraída, que mesmo batendo na porta cuidadosamente, ela se assustou.

– Nossa, hã, desculpa – ela estava começando a ficar corada de novo – eu estava distraída, essa vista... Ela é...

– Linda, eu sei – completei a frase a interrompendo, ela estava com um sorriso enorme no rosto quando falei isso, mas era verdade era uma bela paisagem.

O quarto era espaçoso, quase do mesmo tamanho da sala, caberia duas carroças ali dentro. A limpeza seria fácil já que havia poucos moveis apenas uma cama, um criado-mudo ao lado da cama e um guarda-roupa enorme que ocupava toda a parede. Adentrei no quarto pondo tudo que carregava no canto da parede, voltei a ficar ereto pondo as mãos na cintura e olhei ao redor, esse quarto me trazia muitas lembranças. Ela ainda estava no mesmo lugar, do outro lado do quarto, mas agora de frente para mim encarando-me com um doce sorriso no rosto, quando retornei a olha-la seu cabelo balançava com a brisa que entrava, brisa era algo que não faltava no campo, respondi seu sorriso e caminhei em sua direção parei a dois passos de distancia dela e ficamos ali, nos encarando.

Então eu pigarreei quebrando o silencio e ela foi a primeira a falar – Então... Melhor começarmos logo.

Meio sem jeito eu respondi – Sim, sim. Vamos...

Aquele silencio havia sido estranho, ele foi agonizante e ao mesmo tempo constrangedor. Passamos mais alguns segundos ali sem sair do lugar e sem falar apenas nos encarando, ela repentinamente desviou o olhar e saiu do lugar. Caminhou até onde eu havia deixado o material para a limpeza e hesitou, depois se virou pra mim.

– Hã, o que devo fazer? – parecia constrangida por estar perguntando isso, então eu sorri.

– Primeiro vamos tirar as teias de aranha do teto com a vassoura, tirar a poeira dos moveis com um pano, trocar os forros da cama e depois varrer.

Ela apontou para a vassoura e eu confirmei com a cabeça, enquanto andei para me aproximar ela pegou a vassoura e começou a passa-la no teto para limpar. Em menos de cinco minutos ela já havia terminado então cada um pegou um pedaço de pano para a limpeza, ela se sentou na cama para limpar o criado-mudo enquanto eu limpava o arco da porta.

Ficamos ali em silencio fazendo a limpeza, assim que termino de limpar a porta começo a limpar a parede de madeira e alguns instantes depois ela veio ajudar. Ficamos ali um do lado do outro limpando a parede em silencio até que...

– De quem era esse quarto? – ela sorriu gentilmente quando terminou a pergunta.

Fiquei surpreso com a pergunta, não esperava por ela, congelei ali do jeito que estava e fiquei em silencio sem respondê-la. Acho que ela deve ter notado que aquilo era um assunto delicado, seu sorriso gentil foi trocado por uma feição de tristeza e disse – Se não quiser tudo b...

– Era do meu tio – a interrompi, olhando para baixo, mas não queria deixa-la sem resposta e ainda se culpando achando que não deveria ter perguntado, afinal ela não tinha culpa, ela não sabia – esse era o quarto dele, ele cuidou de mim depois que perdi meus pais. Ah, não ele não morreu aqui – dei um sorriso tentando disfarça a dor que relembrar aquilo me causava.

– Entendi... Peço desculpas por ser tão curiosa – ela voltou a limpar a parede cabisbaixa.

– Tudo bem – dei um sorriso largo para parecer mais sincero – não tem problema, juro. Alias, nem sei de que ele morreu, ninguém sabe pra dizer a verdade, ele estava com uma doença misteriosa e ficando cada vez pior, o ancião que cuidava dele disse assim que ele ficasse incapacitado por completo que eu deveria deixa-lo na sala, e assim eu fiz... – dei uma pausa, era difícil lembrar isso – Numa manhã ele acordou bem, levantou dessa cama e saiu andando, há noite já não tinha mais forças para andar de volta ao quarto, depois de alguns dias ele morreu deitado em sua cama improvisada, na sala...

Ficamos ali, parados em silencio com um clima pesado no ar. Depois de alguns segundos voltei a limpar a parede e ela recomeçou logo depois de mim, quando terminamos todas as paredes ela foi limpar o guarda-roupa e eu trocar as roupas de cama. Após ela termina varremos o chão e não trocamos mais nenhuma palavra durante isso, quando terminamos ela ficou me encarando e eu sorrir, recebendo outro sorriso lindo em troca.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.