Já era noite e a casa estava impecável, a mesa posta e uma apetitosa refeição sobre ela. Melissa preparou tudo com carinho para que Jack se sentisse em casa. Apesar da vida humilde que levava, ela e o irmão eram sempre bastante acolhedores.

A porta da sala rangeu e ela, sorridente, correu para receber os dois rapazes que a essa altura deveriam estar famintos.

— Escuta! – Exclamou Belamir detendo a ronda por um instante.

Jack baixou uma das sobrancelhas e se concentrou prestando atenção no ambiente e nos sons a sua volta, mas nenhum deles em especial chamou sua atenção.

— Eu não ouço nada. – Exclamou intrigado.

— Exatamente! Sabe o que isso significa? – Disse Belamir criando todo um suspense. – Significa que, acabou nosso expediente, finalmente aqueles feirantes irritantes foram embora e agora a gente vai pra casa. Aposto que Melissa preparou um delicioso jantar, só porque temos um hóspede.

Eles seguiram caminhando juntos para casa por alguns minutos. Belamir ia um pouco à frente, sorridente, lançando alguns gracejos para as belas moças que encontrava. Ele tinha um bom humor quase inabalável.

Não dava para levar Belamir muito a sério, pensou Jack, mesmo assim ele estava feliz por tê-lo conhecido. Por trás de todo aquele ar imaturo, ele era um sujeito decente, sem segredos, sem maldade, talvez por perder a mãe muito jovem ele tenha congelado no tempo da inocência.

— Ué, Melissa deixou a porta aberta? – Murmurou Belamir quebrando o pensamento de Jack.

Ao entraram pela porta da sala, seus corações se encheram de temor. Era inacreditável o estado do local, a casa inteira estava em ruínas. A singela mesa onde a pouco se encontrava um belíssimo jantar, agora estava em pedaços, com pratos e restos de ensopado espalhados por todos os lugares do imóvel, janelas e jarros estilhaçados, nada estava intacto. Um vazio gelado tomou conta do local atravessando seus corpos.

Em um canto, na parede da sala, espetado com uma faca, estava um pedaço do vestido branco de Melissa com a seguinte mensagem.

“Aqui se deve, aqui se paga”

Junto ao bilhete estava uma marca verde, símbolo do clã dos camaleões.

Belamir caminhou até o artefato, arrancou o pedaço de pano sujo de sangue e o tomou em seus braços, caindo de joelhos no chão. Pela primeira vez não sentia vontade de fazer uma piada. Seus olhos se inundaram em lágrimas. Uma dor há muito esquecida, voltou a assombrar seu alegre coração.

— Eles levaram Melissa... Aqueles desgraçados, eles me deram dois meses, mas ainda sim levaram a minha irmãzinha.

Lágrimas percorreram seu rosto e caíram sobre o chão frio, daquela noite fria. Melissa e Belamir nunca tiveram nada além de si mesmos e, para eles, aquilo era o bastante.

— Desde pequena, Melissa sempre foi doente. Quando nosso pai nos abandonou, eu tinha apenas doze anos e mesmo assim eu me virei para que nunca lhe faltasse um sorriso.

Na casa, na rua, e no coração de Jack nenhum som se ouvia, apenas as palavras de lamento de seu amigo lhe roubavam a atenção.

— Eu trabalhei duro, todos os dias, para comprar os medicamentos que ela precisava... – Continuou Belamir. – Mas um dia ela piorou e nada parecia fazer efeito, por mais que eu tentasse os remédios eram em vão. – As lágrimas percorreram seu rosto com mais intensidade. – Os dias foram passando, e próximo ao seu aniversário de nove anos eu soube de um tratamento experimental no palácio.

Belamir olhou para o pedaço de vestido que tinha entre as mãos, em seguida o usou para limpar o rosto.

* * *

— Irmãzinha, adivinha só, eu vou curar você! – Disse Belamir com um largo sorriso ao cruzar a porta, deixando sua irmã encamada.

— Eu sei que vai irmãozinho... – Sussurrou melissa se esforçando para sorrir.

Depois de uma longa corrida até o palácio, finalmente ele estava no local onde buscaria seu maior sonho. Após uma cansativa espera em uma interminável fila, finalmente ele pode conhecer Charles Mellor, um velho arrogante, mas o melhor medicista da região, versado em alquimia, medicina e magia. Uma figura ilustre, muitas vezes requisitado pela própria realeza.

— Como assim quinhentas moedas de ouro?! Isso é uma fortuna! – Berrou Belamir enquanto socava a mesa.

Dois soldados ameaçaram se aproximar, mas foram detidos por um gesto de mão de Charles.

— Tudo nessa vida tem seu preço meu rapaz. Eu sacrifiquei metade da minha existência buscando acumular conhecimento para me tornar o medicista que sou hoje. – Respondeu, revelando seu braço até então coberto por uma túnica.

Uma pequena insígnia era costurada em sua pele para cada especialidade que adquiria. No braço de Charlie não havia mais pele visível.

— Eu estarei na cidade até o final da semana, se conseguir o dinheiro, venha me ver com a sua irmã enferma.

* * *

— O tratamento custava uma fortuna, nem se eu me vendesse como escravo poderia pagar, mas eu não podia deixar minha irmã morrer. – Belamir apertou o pano entre as mãos. – Então eu decidi que faria o que fosse preciso para juntar aquele dinheiro em uma semana.

Jack ouvia cada palavra com atenção. Um leve sereno começou a banhar a cidade, parecia que os Deuses sentiam a dor de seu amigo.

— Nas minhas rondas, eu costumo ouvir muitas histórias. Em uma delas eu soube que o clã de ladrões, conhecidos como Camaleões, estava acampado próximo à cidade. Com certeza eles tinham o ouro que eu precisava.

— Então você os roubou? – Perguntou Jack.

— Eu precisava, caramba! Eu sabia que seria morto caso fosse apanhado, ainda assim, me pareceu melhor do que viver esperando Melissa definhar. – Continuou Belamir. – Naquela noite eu planejei tudo, e mesmo com todos os meus esforços eu fui capturado e arrastado até o centro do acampamento.

A chuva começou a engrossar lá fora soprando um ar gelado, que entrava pelas janelas quebradas.

— Um dos bandidos levantou sua espada com a intenção de arrancar minha vida, mas foi detido por Victório Camaleão, líder do bando, um homem negro, forte e de estatura fora do comum. Ele ficou positivamente surpreso com a minha, segundo ele, “imbecilidade”. Tanto que parou para ouvir a minha história. Após escutar meu relato, a contragosto de todos, ele me entregou a quantia que eu precisava e disse em voz grave: A próxima vez que eu vier à cidade seja amanhã ou daqui a cem anos, eu vou querer o meu dinheiro de volta e é melhor você está com ele em mãos.

— E agora eles estão na cidade e querem o dinheiro deles de volta. – Interrompeu Jack.

As lágrimas haviam cessado e a chuva também, mas o vazio ainda reinava naquela sala escura. O sol já havia se posto há algum tempo e nenhuma vela havia sido acesa, apenas o clarão de alguns lampiões, do lado de fora, iluminava seus corpos por entre o vão da porta aberta.

— Eu vou te ajudar a salvar melissa. – Jack estendeu a mão para seu amigo. – Sei que planeja fazer isso de novo, mas dessa vez você não irá sozinho.

— Não quero parecer ingrato, mas por que você arriscaria a sua vida para salvar a da minha irmã? – Perguntou Belamir, incrédulo.

— Porque até onde eu sei, eu não estaria vivo se não fosse pela ajuda de vocês. – Disse Jack puxando-o para que ficasse de pé. – Além disso, eu tenho outros motivos. Acampamentos de ladrões são sempre ótimos lugares para se extrair informações, e existem muitas coisas que quero descobrir sobre o incidente em Candrávia.

— Tem razão, ainda não falamos nada sobre o assunto, eu esperava por os pratos na mesa no jantar, sabe, em sentido figurado. – Brincou Belamir.

Jack sorriu satisfeito.

— Que bom que já recuperou seu bom humor, é certamente um ótimo sinal.

— Agora que eu sei que você irá comigo estou mais confiante, afinal você derrubou aquele bandido armado, usando apenas um esfregão, é o ou não é? E, como hoje é um caso à parte, eu quero lhe mostrar umas coisinhas que tenho guardado há algum tempo.

Belamir guiou-os até uma pequena despensa nos fundos da cozinha. À medida que adentravam pela casa, iam desviando dos pedaços de móveis espalhados pelo chão. Eles entraram no cômodo vazio e acenderam uma pequena lâmpada a óleo.

— Os bandidos estavam mesmo empenhados em acabar com tudo, antes de partirem. – Comentou Jack. – Parecia até que estavam procurando alguma coisa.

— Pode se dizer que sim. – Belamir tirou uma chave prateada de dentro do seu pingente e a usou para abrir uma pequena câmara que estava logo abaixo do assoalho, encoberto por um velho tapete como disfarce.

A luz da lâmpada iluminou o pequeno aposento, revelando diversos objetos: Vasos, tapetes, baús, armaduras, espadas, dentre outros artefatos.

— Eles deveriam suspeitar que eu tivesse parte da quantia devida em algum lugar dessa casa. Mas eu guardo tudo de valor dentro desse quarto secreto. No dia em que fui à Candrávia, eu procurava, além de algum sobrevivente, objetos de valor que eu usaria para pagar minha dívida, foi assim que eu encontrei você.

Jack olhava impressionado, havia um pouco de tudo naquele lugar. A poeira enganava, tornando tudo mais antigo, mas alguns objetos ali pareciam ter bastante valor, faltaria pouco para que ele conseguisse as quinhentas moedas, caso vendesse aquilo tudo.

Belamir começou a fuçar dentro de um caixote, onde se encontrava um emaranhado de espadas.

— Beserk! – Gritou Jack pulando emocionado sobre a caixa, retirando uma espada da pilha. – Eu pensei que a havia perdido para sempre!

— Ah, essa espada. Eu a encontrei a alguns metros do local onde você estava caído, não sabia que era sua. Na verdade eu não vou mais precisar de nada disso, então sinta-se à vontade para se equipar. Quando recuperarmos Melissa não haverá mais volta, nós vamos ter que partir.

— Essa espada é tudo o que preciso, ela é antiga, eu sei, mas eu a tenho desde sempre. A minha mãe me deu para que eu treinasse escondido, ela sempre disse para eu lutar pelos meus sonhos.

Belamir também se preparou, trocou sua espada por uma de lâmina mais afiada, pegou alguns artefatos e colocou no bolso.

— Eu também estou pronto, vamos resgatar Melissa e nada vai nos deter! – Disse Belamir estufando o peito. – Em que direção será que fica o acampamento deles?

Notas finais
Espero que tenham gostado desse novo capítulo, deixem seus comentários, sugestões e críticas que eu vou amar responder. Continuem acompanhando.