A lei de um coração
1 Bom dia, eu sou Eros
O tempo é difícil de contar, quando esperamos que ele passe depressa, acaba que um minuto se torna uma hora, mas quando não notamos que ele está ali, passando, ocupados demais para perceber sua existência, uma hora é apenas um minuto.
O amor também é assim, mágico, incrível, inesquecível e em minha opinião, impossível. É estranho acreditar na enorme mentira que você vai encontrar uma pessoa que complete a sua vida, uma pessoa que seja perfeita para você e que a sua existência sem ela é um fato impensável, o que é estranho para um cupido. Eu devia acreditar no romance entre duas pessoas, porém, eu também deveria ser um bebê que usa fraldas, mas não sou.
De tempos em tempos, o cupido muda. Da última vez era um garoto que eu dera por meu conhecido a minha vida toda e quando ele me contou que era o cupido e que eu seria o próximo achei que ele estava fazendo alguma pegadinha com o meu nome: Eros. Demorou um tempo para que eu acreditasse em suas palavras e nas do oráculo, no entanto, eu não tive outra escolha se não cuidar da vida amorosa das pessoas. Eu nunca acreditei no amor, ainda não acredito, mas o meu “emprego” é mais complexo que isso. Tenho que colocar as pessoas certas no caminho certo, entretanto, eu não acredito em pessoas certas, por isso acontecem muitos erros, e grande parte das pessoas gosta de colocar a culpa em mim, ou pior, no destino ao em vez de acreditar que ainda não encontraram uma pessoa com quem vale a pena dividir a vida.
Um dos meus melhores dias começou enevoado e gélido, estávamos no inverno e eu havia sido chamado pelo oráculo. Isso não acontece com frequência, para falar a verdade, além do dia em que eu ouvi que ia ser o próximo cupido, eu nunca mais o tinha visto. Estava ao mesmo tempo com medo e curioso, nada poderia ser pior que ser cupido. Fui confiante até onde ele se encontrava e eu pude ouvir com as palavras mais harmoniosas que já foram pronunciadas
–O próximo cupido já nasceu. –não sabia que eles tinham esse acesso, achava que era uma decisão que era tomada com o decorrer dos anos, mas isso era o que menos importava, eu ia deixar de ser cupido, não ia ter que tomar conta de nenhuma vida que não fosse a minha. –Você logo irá conhecê-lo, vai acompanha-lo na jornada, sem intervir é claro.
–Eu vou ser babá? Isso vai piorando cada vez mais. –agora eu ia ter que ensinar uma criança a ser um bom cupido, eu não era um bom cupido, não queria fazer ninguém se apaixonar e não queria o amor ao meu redor.
–Eros, você vai acompanha-lo de longe pelos primeiros quinze anos e até o aniversário de dezesseis ele já tem que estar ciente e pronto para ser cupido. Vai ser difícil convencê-lo sobre o amor, o garoto não vai acreditar nessas coisas e vai ter bons motivos para isso. Eu vejo você nele e se conseguimos fazer com que você viesse a ser cupido, coseguiremos que ele seja também.
–Não que eu tivesse muito escolha. Tudo bem. Cansei de tentar discutir com você e também cansei de obedecer suas ordens, mas anda logo e conte o que eu vou ter que fazer, antes que eu saia por aquela porta. –eu tento impor autoridade, mas a curiosidade sempre vence no final. Eu estou sentado em uma poltrona macia e confortável, quero continuar sentado ali, relaxando e bebendo café, no entanto, sei que o assunto que vamos tratar não é nem um pouco relaxante.
Nem pareceram que quinze anos se passaram. Ter que cuidar de um sentimento que está em todos os lugares faz com que você perca a noção do tempo, eu não tenho uma vida e não ter vida é a pior coisa que pode acontecer. Não poder ir para uma faculdade, não trabalhar, ser cupido é um castigo que eu não desejaria nem para o meu pior inimigo, mesmo com o pesar de ter que fazer com que outro garoto de futuros dezesseis anos perca sua vida, fico feliz em pensar que eu vou ganhar a minha de volta. Lembro-me perfeitamente de quando eu perguntei a Nathan, o antigo cupido, se alguma pessoa poderia ser feliz sendo cupido.
–Meu caro, não sei se consigo responder sua pergunta. Ver casais se amando e sendo felizes pode ser gratificante, ver como o amor mesmo sendo tão difícil, possa vir a ser fácil, é esplêndido, mas não acho que um cupido possa ser feliz. Cupidos não são pessoas normais, eles não têm tempo para fazer coisas que outras pessoas fazem. Eu não acreditava no amor, assim como você não acredita, e para falar a verdade, ainda não acredito. –ele olhava para mim, eu para ele, ainda era uma criança de dezesseis anos, assustada e com raiva da vida por tudo o que tinha acontecido antes e por tudo o que estava acontecendo agora.
–Nathan, acho que eu não quero ser isso não. Não acredito no amor, não quero ser rodeado por esse estúpido sentimento. –ainda nos encarávamos, não estava entendendo nada. Segurava um saco de biscoitos e uma carta. Uma carta que eu já tinha lido e relido inúmeras vezes e que sempre fazia lembrar-me de tudo o que um dia aconteceu. Não tinha ninguém que se preocupava comigo, ninguém que me impunha um horário de voltar para casa, ninguém que brigasse para eu fazer o dever de casa, e para muitas pessoas isso podia ser um sonho realizado, mas para mim, era um buraco no meu peito que não poderia mais ser preenchido. Ninguém ligaria por eu me tornar um cupido, então por um breve momento, eu pensei que não seria tão ruim ter algo para me ocupar.
Eu sempre acompanhei o garoto de lisos cabelos pretos e olhos azuis que pegaria o meu cargo. Ele era um garoto um tanto quanto estranho que gostava de cantar e escrever letras de músicas. Com o passar dos anos, parecia que nos conhecíamos bem e ao mesmo tempo ele era um completo estranho com quem eu teria que acompanhar até não fazer mais parte de sua profissão.
Quando chegou o dia em que eu iria entrar em contado, eu soube exatamente no instante em que o sol nasceu que seria aquele dia. Estava quente e o sol brilhava radiante no céu azul. Ele estava passando ao lado de uma loja de CDs e eu precisava ir até lá.
Cheguei em menos de dois minutos e comecei a andar como qualquer pessoa naquela calçada lotada. Precisava de um plano, o garoto estava se aproximando e eu precisava pensar rápido. Ele esbarrou em mim e nossas bolsas caíram no chão. Em um dia normal, teria brigado com a pessoa e a chamado de alguns nomes feios, mas naquele momento, eu vi uma oportunidade. Sem ele perceber, troquei os celulares. Peguei um celular do tempo da minha avó e deixei o meu celular novinho com ele. Aquela troca não ia ficar assim, ia pegar meu celular de volta e arranjar um jeito de conseguir entrar em contato novamente, a surpresa não ia ser agradável, mas eu precisava contar para ele, mais que precisava, eu queria.
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