A irmã
2 Calmaria pós-tempestade
Notas iniciais
Era tarde da noite, os ventos uivavam em meio à tempestade. Dois navios estavam às proximidades de uma ilha. Era palpável a tensão entre eles. Dos dois lados, canhões foram disparados. Gritos ecoaram pelo céu, que parecia querer atrapalhar aquilo que presenciava. Alguns minutos se passaram, um dos navios ardia em chamas. Ouviram-se clamores em comemoração vindos do navio vencedor. Na popa, um homem olhava o horizonte, relaxando a respiração pós-batalha.
– Então é isso? Esperava por mais resistência... – Suspira o homem.
Pelo canto do olho, ele vê um vulto ir em direção a ilha. Seus homens viram também e já começavam a se afobar.
– Eu cuido disso. – Ele estava certo, foi muito pouca resistência, algo estava mesmo errado, melhor cuidar de tudo ele mesmo. Ainda mais se fosse como seus superiores o informaram... Seus homens não teriam chances contra isso. Era muito perigoso.
O homem atirou-se ao mar, dirigindo-se, nadando, à praia. Na mesma direção que o vulto havia tomado. Atingindo a areia, não demorou a encontrar o rastro de sua presa, seguindo-a, às pressas. Não podia deixar que escapasse. Isso lhe traria muitas dores de cabeça depois.
Adentrou a mata que rodeava a praia. Mata fechada. Ele odiava aquilo. Preferia a serenidade e o espaço aberto proporcionados pelo vasto oceano. Mesmo durante uma tempestade, o mar o acalmava. Entretanto, não poderia recuar no momento.
Seguiu pela floresta, em silêncio. Seus sentidos estavam apurados, em busca de qualquer barulho que denunciasse sua presa. O que ele não sabia era: a presa já o havia encontrado.
Um raio ilumina o horizonte, revelando uma mulher. Esta o encarava com olhos repletos de indignação. Era uma, parecia frágil, mas ele sabia que não podia pensar assim. Um deslize seu era tudo o que ela precisaria para acabar com ele. Então, ele escutou uma voz no fundo de sua mente.
“Por que você fez isso? Não podia deixar-nos em paz?”
Uma voz melodiosa, cheia de emoção: tristeza, raiva, indignação e alguma coisa que ele não conseguia identificar o que era. Concentrou-se na própria respiração. Tinham-no avisado sobre o poder de manipulação mental dessas criaturas: “São seres traiçoeiros. Não fraqueje, não se distraia. Pise em falso e estará morto em um piscar de olhos.”
Ele levantou os olhos, encarando a moça a frente. Estava preparado para enfrenta-la. Porém, ela estava chorando. Ele podia ver as lágrimas escorrendo pelo rosto alheio.
“Em tão pouco tempo?” Pensou. “Incrível, mas não posso me dar por vencido.”
E começou a batalha entre eles. De cada golpe desferido pelo homem, a moça desviava. Parecia saber aonde eram direcionados. Entretanto, ela não fazia um movimento contra ele. E continuava chorando.
“O que nós fizemos? Por que nos matar?”
Em dado momento, o homem deu um golpe em falso na direção de uns arbustos. Como todas as outras vezes, a moça desviaria facilmente. Entretanto, ela se colocou a frente dos arbustos, tomando o golpe em cheio no abdômen.
– Hum... Parece que achei algo interessante. – Murmurou, para si mesmo. Tão baixo que a moça, que estava se recuperando do golpe do outro lado da clareira, não escutou.
Ele resolveu testar a teoria uma vez mais, começou a atacar a moça, levando-a em direção aos arbustos. Novamente, fez com que sua mão seguisse em direção aos arbustos. E ela se colocou na frente do golpe, como da primeira vez.
“Tem algo ali.” Pensou o homem. “E eu vou descobrir o que é.”
O rosto da moça passou de sério a desesperado. Como se soubesse o que ele ia fazer. E ela sabia. E não podia deixa-lo fazer o que pretendia.
De repente, o homem sentiu ser jogado para trás, acabando caído no meio da floresta. Ele tentou se levantar, mas foi jogado novamente para trás. A moça vinha caminhando lentamente em sua direção.
“O que está acontecendo?” Ele se perguntava. “Ela nem está me tocando.”
Ele foi jogado novamente, desta vez, em direção a uma árvore, que é partida no local da colisão. Ele se apoiou nos cotovelos e a encarou. Ela continuava vindo lentamente.
“Ou estaria? Teria ela algum poder especial?” Era o que ele gostaria de descobrir. “O que teria naqueles arbustos para deixa-la assim?”
Outros passos, outro golpe invisível, mas desta vez ele estava preparado. Deixou que o golpe lhe atingisse com toda a força, sem oferecer resistência. Com isso, foi mandado para bem longe dela. Longe o suficiente. Levantou-se rapidamente e correu. Ela o seguia, mas ele não a deixava chegar perto o suficiente para ser atingido pelo que quer que fosse aquele golpe.
Dando uma volta, ele chegou ao tão protegido arbusto. Olhou para a moça, colocando o braço entre as folhagens. Em questão de segundos, tirou de lá uma criança encharcada pela chuva. Esta, antes quieta, agora chorava, estendendo os bracinhos para a mulher à frente. A mulher caiu de joelhos.
– Por favor, tudo menos isso. Eu me rendo... mas, por favor, eu imploro, não toque na criança. – Olhou a criança em seus braços, era uma menina. Era pequena, deveria ter uns cinco anos. Tinha cabelos brancos e curtos e olhos acinzentados. “Era uma característica dessas criaturas serem assim tão claras, por acaso?”
Virou o rosto para a mulher a frente, dizendo:
– Que garantia eu tenho que você não vai me atacar assim que eu soltar a criança?
– A mesma que eu tenho de que, ao morrer, você cuidará dela: a palavra. Te dou a minha de que não irei fugir ou resistir. E você me dá a sua de que não tocará na menina, para que ela possa sobreviver, mesmo que entre os humanos. – Ela respondeu, sem hesitar, com um olhar que penetrava fundo na alma do homem.
– Não posso deixar nenhuma das criaturas viva. – Respondeu à moça, que ergueu os olhos, suplicante.
"Você daria um jeito." Ouviu a voz dizer, com convicção, em sua mente.
É, ele daria. Ele não gostava de machucar crianças. Havia um lugar onde ele poderia deixa-la. Se descobrissem, porém, ele estaria em apuros. “O que seria feito se soubessem dos poderes da garota? Se soubessem que ela era uma sobrevivente?”
– Não se preocupe. Ela sabe controlar os próprios poderes. – A mulher cortou seus pensamentos. – E, quanto à origem dela, você pode dizer que a encontrou perambulando pela ilha, que os pais dela foram mortos pelos tiros de canhão que atingiram o local, durante a batalha de mais cedo.
“Essa mulher pensa em tudo... No entanto, pode mesmo uma menina nova assim controlar os próprios poderes?”
– Ela não é tão jovem quanto parece. Ela consegue ocultar seus poderes muito bem. “Tão bem que você não percebeu nem a presença dela.” – Ela completou, em pensamento.
Era verdade, foi praticamente a proteção exagerada da moça que denunciou a presença da criança nos arbustos, não seus poderes.
– Pois bem, então. A meu ver, essa menina não tem poderes. Eu não os sinto. Sendo assim, ela pode viver. Só que você deve morrer. Meus homens me viram vir a terra por um motivo. O vulto que escapou do outro navio deve estar morto quando eu voltar ao barco. – Olhou a mulher, dando-lhe a resposta que ela queria. Ela suspirou, aliviada. “Contudo, como eu iria mata-la?”
– Ela não pode ver. Eu te mostro como. – Ela chorava, estava disposta a tudo pela menina, que continuava chorando nos braços do homem. Choro que se intensificava como rumo da conversa. Aparentemente, a menina entendia o que os adultos estavam falando.
– Muito bem. – Falou, fazendo menção de soltar a garota, segurando-se ao pensar que ela poderia fugir.
– Ela não vai. – disse a mulher, aproximando-se e dirigindo as palavras à criança. – Filha, por favor, não fuja. Esse homem vai cuidar de você. Não libere seus poderes, entendeu? De maneira alguma.
Baixou o rosto próximo à criança, sussurrando algo que o homem não pôde ouvir. Deu um beijo na testa da menina, em uma muda despedida. A criança soluçou, abraçando a mãe, entendendo que seria a última vez que a veria.
O homem soltou a menina em meio aos arbustos, dirigindo-se com a mulher para um local afastado, floresta adentro. Voltando alguns momentos mais tarde, sozinho.
Encontrou a menina onde a tinha deixado, abraçada aos próprios joelhos e segurando o choro. Ela parecia definhar ali. Pegou-a no colo, ela não ofereceu resistência. Estava sem energia por causa do choro em excesso.
Ele encarou o horizonte, a chuva havia parado. Soltou um suspiro, seguindo em direção ao navio. Olhou para ela e sentiu-se tomado por uma curiosidade:
– Qual seu nome? – Pensou que ela não responderia. Ela parecia estar fechada no próprio mundo. Passados alguns momentos, ouviu a resposta, em um fio de voz:
– Aiko.
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